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outubro 15, 2007
Peanuts e Schulz
Vem aí uma imperdível biografia do Charles Schulz, o criador do Peanuts (odiava ser chamado de "pai do Snoopy"). O autor, David Michaelis, teve acesso a depoimentos da família e sustenta a tese que Schulz era depressivo, refutada por filhos e esposas, que já começaram a espernear. Li um trecho, publicado na Vanity Fair de outubro -- aquela com a Nicole Kidman tirando a roupa na capa. É um trecho inspirado, no qual o autor explica como Schulz segurou as rédeas do que já era um sucesso comercial e de público e conseguiu continuar fazendo uma tira cheia de significado para a geração seguinte. É inconteste que Peanuts é a melhor tira do pós-guerra. Schulz fez um trabalho de enorme potencial de comunicação, com traço limpo, design perfeito -- evoluiu ao longo dos anos em direção ao abstrato; metade das piadas de Snoopy não faria sentido se sua casinha fosse desenhada de outra perspectiva -- diálogos sintéticos e uma capacidade sobre-humana para a ressonância, entronizando várias expressões no dicionário, como cobertor de segurança ou happiness is a warm puppy. Tudo isso coberto por um manto de ternura e fracasso, alegria e frustração em profundidade inesperada para uma sequência de 4 quadrinhos. E fez tudo, lápis, arte-final, letras, roteiro, até o fim, sozinho, até que o derrame o impedisse de continuar. Em 1999 foi lançada uma compilação, Peanuts a Golden Celebration, em nome do cinquentenário da tira, comentada pelo próprio Charles Schulz e cheia de material adicional: cartas de leitores, originais, cartuns antigos, fotos. Impossível escapar da sensação que se está diante de uma obra prima ao fim da leitura, e de que Schulz estava num patamar de compreensão superior ao de seus pares. (Mort Walker, criador do Recruta Zero e amigo de longa data, confessa que não entendeu nada na primeira vez que viu Snoopy encarnando um ás da primeira guerra. Vinte anos depois, ninguém estranharia que Calvin se tornasse o astronauta Spiff) Que a biografia ajude a entender melhor esse gênio.
Atualização: os ecos já começaram a soar, de Bill Watterson a John Updike
Escrito por Rafael | outubro 15, 2007 12:35 AM