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outubro 19, 2007
Cinco Refeições memoráveis
1. Restaurante da Mira, Recife/PE -- lá se vão mais de dez anos e ainda está difícil superar aquela experiência pantagruélica. Meu companheiro de mesa voltou lá, esse ano, e ao que parece, nada mudou. O cardápio oral continua reunindo a fina flor da culinária de sustança nordestina: ossobuco, galinha cabidela, sarapatel, rabada. Os trabalhos foram abertos com caldinho de sururu sorvido em xícaras de café e acompanhado por doses pediátricas de uma cachaça local. Fazia calor, calor de verão pernambucano, e lembro com clareza da maneira quase trivial como ele propôs: eu acho que a gente deveria começar com o sarapatel e depois passar para a galinha cabidela, no que foi imediatamente aceito. Fora acompanhamentos, farinha e arroz com feijão, respectivamente. De alguma maneira, sobrou espaço para a sobremesa, doce de caju. A sede decorrente da cachaça, do calor e do doce me fez beber 4 copos d'água em sequência ao levantar da mesa.
2. No signboard Seafood, Singapura -- eu já sabia há longa data da reputação gastronômica da cidade, mas tinha experimentado pouco do tempero local, mas na última passada por lá calhou de ir acompanhado de um malaio que morara um ano e falava as 3 línguas locais. Outro departamento. Ele nos levou num daqueles bairros sinistros e mal iluminados onde nem tendo cara de ocidental dá para ter medo de andar, onde sentamos num típico restaurante de frutos do mar, onde peixes e crustáceos passeam nos aquários, atestando o frescor. Ao invés de cada um escolher um prato, acabamos mandando avançar e compartilhamos o seguinte: siri ao molho de pimenta, siri com curry, camarão ao molho de pimenta preta e lagosta ao molho de manteiga, além de arroz primavera para acompanhar. De todos os pratos, apenas o último é preparado do mesmo jeito no Brasil. Siris vieram cozidos no vapor, mas em tamanho bem maior do que eu me lembro de ter visto em qualquer praia e bem mais picantes do que a nossa suave combinação de suco de limão e sal, sem contudo destruir o sabor da carne. Mesmo assim o francês que completava a mesa e parecia ser o mais empolgado reclamou do ardor. Besteira; a lagosta estava no ponto, os camarões vieram perfeitos e eu fiquei muito tentado a repetir os siris no futuro. Chegou perto, mas não desbancou o primeiro lugar.
3. Chapéu de couro, Bonsucesso, Rio/RJ -- esse restaurante de comida nordestina fora descoberto algum tempo atrás por um amigo, que prontificou-se a organizar um almoço de final de ano por lá. Nem para o mais arisco nativo da zona sul é complicado chegar. Os pratos recebem nomes próprios, como Maria Bonita, Lampião ou Luiz Gonzaga e têm as dimensões colossais de quem passou fome na infância. Mas me adianto. Era uma mesa grande e, que eu me lembre, a maioria aderiu à tripa frita e queijo de coalho assado como antepastos, evidentemente acompanhados por cachaça. Em vista do vasto contingente de estômagos, pudemos compartilhar novamente os pratos. O mais fácil de descrever foi um escondidinho de carne seca com abóbora. É mais fácil listar o que não tinha do que o que tinha no tal Maria Bonita, porque eu me lembro de ter encontrado porções de arroz, feijão de corda, carne seca, carne de sol, farofa, um legume esverdeado e um talho que queijo coalho na mesma travessa. Fechei a tampa com um sorvete de graviola.
4. Schneiderweiss Brauhaus, Munique, Alemanha -- De fato não foi minha primeira refeição alemã, visto que eu tinha jantado na véspera, mas para todos os efeitos foi a primeira típica, a mais marcante porque a que abriu as porteiras e me fez perder o medo de comer qualquer das inúmeras iguarias á base de carne de porco. Por dica do meu companheiro de mesa, escolhemos essa cervejaria, escapando de outras igualmente boas porém mais cheias ou badaladas, como Paulaner ou a campeã, Hofbrauhaus. Escolha matadora. Estava cheio e pelejamos para arrumar lugar. Bati o olho numa garçonete chinesa uniformizada com os trajes da Bavária e nem titubeei: vamos chamar aquela ali que entende inglês. Não deu outra. Em alguns segundos estávamos completamente mesmerizados pelas descrições num cardápio em inglês. Duas coisas eram claras nesse ponto; iríamos comer algo com porco, iríamos beber o chopp de trigo. A vastidão dos pratos sendo servidos ao nosso redor atiçavam o apetite e quando chegou a primeira tulipa de meio litro, vimos que a coisa ali não era para brincadeira. Foi o começo do fim, foi a certeza que estávamos na temperatura adequada para aquela comida gordurosa, que nada iri nos deter. Não sobrou ossinho para contar a história.
5. (Não lembro o nome do restaurante), Siena, Itália -- comparada com as outras, essa foi até educada em termos de quantidade. Tinha chegado um pouco tarde na cidade e com bem pouco disposição para visitar outros pontos além do prédio da prefeitura, da magnífica praça central edo inacabado Duomo; resolvi aproveitar a ida para um almoço mais lento e caprichado que a média daquela viagem. Dica do Lonely Planet, esclhi a dedo, não podia ser roubada. Foi na mosca: guisado de carne de caça, à moda del re. Veio suculento, num prato fundo de cujo molho não sobrou uma gota, enxutas no pão, bem da maneira italiana, e acompanhadas de um vinho tinto. A escolha da sobremesa não poderia ser melhor: bolo de chocolate com calda de pêra. Toda vez que eu lembro daquele bolo, peço desculpas à minha mãe, minhas avós e tias para reconhecer que, apesar de todas as tentativas delas, foi o melhor bolo de chocolate que eu já comi na vida.
Escrito por Rafael | outubro 19, 2007 03:22 AM
Comentário
Rafa,
Um dia destes vou ter o prazer de cozinhar pra vc...Pra tentar entrar nesta lista ;o)
beijos, Ana.
Escrito por: Ana | outubro 19, 2007 02:12 PM
Lendo seu post fiquei imaginando que, além de ser "bom de garfo", você sabe apreciar comida nordestina.
Duas ressalvas, porém: carne seca é o mesmo que carne de sol aqui na terrinha semi-árida; e comida paraibana é que é comida típica, quando tiver nas suas excursões turístico-gastronômicas venha aventurar-se numas delícias à base de milho, carne de sol, macaxeira, jerimum (abóbora), tapiocas recheadas, bolos etc. Ah, e tudo muito bem acompanhado de cachaças de engenhos locais.
Não, eu não estou ganhando para fazer publicidade da PB. hehe Abraço.
Escrito por: Rafaela | outubro 19, 2007 03:41 PM
Poxa, pela descrição os pratos pareciam estar ótimos! e como minha comida preferida é a bem feita, deu água na boca.:-)
Escrito por: Carla Cristina | outubro 21, 2007 10:58 AM