« Voltando ao cinema | Principal | Melhores gibis »

novembro 23, 2007

Howard and Rudd

Amanha os cidadaos australianos terao a chance de cometer um grande erro de escolher um primeiro ministro do partido trabalhista reeleger o atual primeiro-ministro, o segundo mais longevo da historia australiana, John Howard -- alinhado com George Bush, apoiador da guerra no Iraque desde o primeiro momento, nao-signatario do Tratado de Kyoto, membro do partido conservador e, junto com Peter Costello, atual secretario do tesouro e seu indicado sucessor, principal responsavel pela absurda prosperidade da economia do pais, que nao passou por uma depressao que fosse nos ultimos 10 anos. O mesmo nao pode ser dito de EUA, Singapura, Brasil e muitos tigres asiaticos.

A opcao a Howard e Kevin Rudd, lider do partido trabalhista e na frente das pesquisas de opiniao desde o primeiro momento. O que leva a populacao a votar em Rudd? Um enfado geral com Howard que so ocorre em paises onde o voto e compulsorio; a Australia e um dos poucos paises de longa tradicao democratica onde votar nao e opcional. O desgaste da sua imagem devido as sucessivas elevacoes da taxa de juros, a despeito de suas promessas, e o encarecimento do custo de vida que disso decorre; devido a suas posicoes terem tornado a Australia alvo de odio terrorista islamico (como os incidentes em Bali e Cronulla comprovam); devido a sua intransigencia para com ecologistas ou aborigenes (apesar de ter prometido o reconhecimento na Constituicao caso fosse reeleito). Talvez em algum momento Howard tenha perdido a mao, quando diminuiu impostos e retirou beneficios, nao se preocupando em expandir a quantidade de escolas ou hospitais, ou simplesmente optou por completar a mao de obra especializada abrindo facilidades para imigrantes, ao inves de investir mais da escolaridade -- mas quem vai atras de um diploma, quando se pode comprar casas, passar ferias na Tailandia e trocar de carro todo ano trabalhando como soldador, jardineiro, enfermeiro?

Em muitos casos, a eleicao se assemelha as duas ultimas eleicoes ocorridas no Brasil, apesar dos eleitores aqui votarem em Membros do Parlamento, os quais, tal como nos EUA, escolhem o primeiro ministro quando em maioria. A primeira semelhanca se da na copia descarada que o partido de oposicao faz das propostas de governo do partido liberal; chega a ser vergonhoso: mais escolas? Mais escolas tambem; mais hospitais? Mais hospitais, tambem. A segunda semelhanca e a acusacao feita pelo partido de oposicao que a economia anda positiva somente em decorrencia do bom cenario internacional, pouco devendo a atuacao do atual governo. A terceira semelhanca e a maneira como o partido de oposicao explora a indisposicao do eleitorado como motivo de mudanca. A quarta e definitiva semelhanca e a completa indisposicao dos eleitores para com qualquer tipo de politico, nao importa exatamente a faccao, ainda mais por nos forcarem a votar num dia de sol tao bonito, a gente deveria estar na praia etc.

Talvez as diferencas sejam mais interessantes, e a que mais me chamou a atencao foi o pequeno papel desempenhado pelo carisma: assistir a uma eleicao entre Howard e Rudd e como assistir uma eleicao entre Alkmin e Serra, chato de doer. Nao existe nem de perto o wit, a criatividade, a imensa comunicacao com o povao de um Carlos Lacerda, um Janio, um Collor, um Lula. Talvez, no final das contas, a anunciada troca seja apenas mais um exemplo da tipica rotacao entre direita e esquerda que acontece de maneira mais ou menos periodica em paises de primeiro mundo, com a direita em geral capitalizando o crescimento economico e a esquerda capitalizando a melhoria dos indices sociais (embora isso nao seja propriedade de nenhum dos dois) ou seja, ficcao cientifica em termos de Brasil. De qualquer maneira, por mais que Peter Garret esbreveje e Rudd prometa assinar Kyoto, pouca coisa parece mudar vindo um novo governo. Para quem nao sabe, Garret e o carecao do Midnight Oil, hoje Membro do Parlamento e ministro do meio ambiente se Rudd vencer. Ou seja, e como se o Gilberto Gil deles se tornasse nao ministro da cultura, mas do meio ambiente.

Atualizacao: compare o que escrevi acima com o comentario da Miriam Leitao e ganhe uma aula gratis sobre as simplificacoes tendenciosas que assolam a midia brasileira.

Escrito por Rafael | novembro 23, 2007 01:15 AM

Comentário

Rafa, a unica coisa que estragou o seu texto, foi um linque no final para um economista-fantasma...

Escrito por: Ram | novembro 29, 2007 04:54 AM

"... mas quem vai atras de um diploma, quando se pode comprar casas, passar ferias na Tailandia e trocar de carro todo ano trabalhando como soldador, jardineiro, enfermeiro?"

Mas enfermeiros não têm diploma? Além disso, há um monte de outros países prósperos cujas classes baixas, às vezes, fazem inveja à nossa classe média; esses países também estão sofrendo escassez de mão-de-obra qualificada?

Escrito por: Geraldo | outubro 10, 2008 06:58 AM

Deixe seu comentário




Lembre-se de mim ?

(permitidas tags de estilo)