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fevereiro 10, 2008
Armas, Maoris e aco
Dessa vez vim parar longe, mar do Timor.
Enquanto o mar nao sossega, vou aproveitando para aprender um pouco sobre os povos locais -- e o primeiro da fila sao os maoris, indigenas da Nova Zelandia. O grande barato do avanco da ciencia, particularmente genetica, e que uma serie de informacoes ficou disponivel. O chato e ter que jogar no lixo praticamente tudo o que se aprendeu no colegio.
Por exemplo, a ideia muito difundida que os exploradores europeus vieram para desmatar e destruir a fauna e flora locais, com as quais os nativos viviam em harmonia. Balela. Quando os europeus se puseram em contatos com nativos nas Americas, Australia ou ilhas da Polinesia, ja estavam extintas ha muito varias especies de mamiferos grandes que poderiam ser domesticadas, entao nao houve alteracao da fauna nesse sentido. Quanto a flora, na verdade varias civilizacoes nativas ja haviam se encarregado de destruir porcoes consideraveis do territorio antes da chegada deles -- os maoris derrubaram 40% das florestas da Nova Zelandia, sozinhos, sem ninguem mandar.
Progresso? O que consta apenas foi que eles conseguiram dominar antes as artes da agricultura, o que os permitiu producao de alimentos em excesso. Como havia comida para todos, sua civilizacao pode originar e comportar artesaos e artifices; especialistas que tiveram chance de se dedicar a suas areas ja que nao precisavam se preocupar o tempo inteiro com a procura de comida, como as tribos nomades de colhedores e cacadores que nao haviam dominado a agricultura. Alem de permitir o surgimento de especialistas, o crescimento populacional e o assentamento sedentario, o excesso de alimentos permitiu que outras posicoes sociais emergessem: os sacerdotes, os caciques, a policia, a escrita e a burocracia, cuja mais fina invencao foi o exercito. Esta tudo num unico livro, tintim por tintim: Armas, Germes e Aco, de Jared Diamond.
Portanto a ideia que nativos eram mais integrados a natureza e pacificos cai completamente por terra; o que havia, de fato, eram tribos, ainda que notavelmente desenvolvidas tecnologicamente como os astecas, que nao dominavam plenamente a agricultura a ponto de poderem organizar sua burocracia em complexidade. Toda vez que ultrapassavam essa linha, tornavam-se tao conquistadores como os europeus, como atestam as ilhas da Polinesia conquistadas pelos maoris -- e o baita trabalho que eles deram aos ingleses.
Ao contrario dos aborigenes australianos, rapidamente dizimados pelas doencas e pela enorme fraqueza belica, os maoris tinham um exercito organizado que enfrentou e causou severas baixas aos ingleses no comeco do seculo XIX. Foram derrotados pela forca dos canhoe; nao dominavam o aco. Mas e notavel descobri que ainda no seculo XIX havia a preocupacao de assinar um tratado com os caciques, na qual eles cediam a soberania da terra neozelandesa para a rainha Vitoria (historia mal contada, ja que o tratado foi vertido para a lingua maori, na qual o conceito de soberania nao existia) e em troca se tornavam cidadaos do imperio ingles. Nunca ouvi falar de nada nem remotamente parecido envolvendo os indios da America do Norte.
Escrito por Rafael | fevereiro 10, 2008 11:48 AM