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maio 09, 2008
Caniff e os quadrinhos como forma de arte
No livro Shop Talk, Will Eisner entrevista autores de diferentes geracoes sobre seus processos criativos e a maneira como enxergavam a linguagem das historias em quadrinhos. E notavel a reverencia que Eisner dedica a Milton Caniff, uma geracao mais velho e, em diversos sentidos, modelo profissional e artistico. Eisner sempre duelou com a ideia de quadrinhos serem arte e talvez tenha se decepcionado com a resposta de Caniff, segundo o qual quadrinhos nao eram arte nem ele se considerava um artista, "eu sou um entertainer".
Milton Caniff diria ainda que sua tarefa era vender jornais, sublinhando o lado mais pragmatico da forma de expressao em que despontara. Mas e falso acreditar que Caniff nao enxergava valor ou tinha orgulho de seu oficio: foi capa da mais importante revista semanal norte-americana de seu tempo, teve uma de suas paginas citadas em discurso no Congresso, elencou escritores e personalidades entre seus leitores. Mais notorio do que isso, entretanto, foi seu depoimento diante do senador Kefauver, na comissao de inquerito aberta para investigar os danos potenciais das historias em quadrinhos as criancas.
Caniff depos na condicao de vice-presidente da Associacao Nacional de Cartunistas, ora liderada por Walt Kelly. A acusacao principal era a de que as revistas em quadrinhos, particularmente de terror, podiam causar danos intelectuais e psicologicos as criancas. O editor das mais vendidas revistas de terror e principal acusado da comissao nao contribuiu muito ao afirmar que as revistas seguiam um padrao estetico ditado por ele, e que dentro desse padrao uma capa de terror mostrando uma cabeca decepada poderia ser de bom gosto. Kelly e Caniff juraram a verdade e nao se fizeram de rogados em fazer a caveira das revistas em quadrinhos: na escala de respeitabilidade, os chargistas politicos vinham na frente dos cartunistas e autores de tiras de jornal, que por sua vez vinham na frente de desenhistas de revistas em quadrinhos, prontamente espinafradas por Kelly e Caniff como de "baixa qualidade artistica". A comissao acabou por criar um codigo de etica que teve impacto sensivel na industria das revistas em quadrinhos, nos dez anos seguintes.
Quase 60 anos depois daquele depoimento, a escala de respeitabilidade praticamente nao mudou; e muito mais facil encontrar o Chico Caruso ou o Angeli na capa do caderno de cultura do jornal, ou numa revista semanal, do que o Laerte ou o Fernando Gonsalez, e por sua vez e mais facil encontra-los do que o Marcelo Campos ou Fabio Moon e Gabriel Ba. E qualquer escritor vagabundo bate todos esses nomes. Mas foi o esmero e a excelencia das tiras de Caniff que, ao demostrarem as possibilidades de uma forma de expressao marginal, abriram as portas para que, no futuro, houvesse interesse e mercado para conteudos outros, adultos & especificos, para as historias em quadrinhos.
Escrito por Rafael | maio 9, 2008 12:26 AM