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maio 15, 2008
Como era gostoso o meu Wunderblog
Um belo dia voce esta varejando seus blogues favoritos e descobre que os Wunderblogs acabaram. Finito. Curto e grosso assim. O pior é que vai passar em brancas nuvens.
Nao para mim, Lisandro. Nao poderia.
Conheci os Wunderblogs desde sempre, desde antes deles se reunirem no portal mostarda; desde antes ate deles terem blogues. Ja escreviam bem naquela epoca. Dificil dizer exatamente onde aquele grupo se formou; talvez em algum instante da diaspora dos colunistas iniciais do Digestivo Cultural, ou do encontro deles com leitores e debatedores, ou ainda de uma lista de discussao, cujo moderador era o Polzonoff, que existiu na segunda metade de 2002, mas nao da para tracar no detalhe, ate porque o unico local onde todos se encontraram era mesmo o portal: pessoalmente, muitos acabaram nunca se encontrando e, em determinada epoca, lembro que eu conhecia mais gente ali do que eles mesmo.
Chegaram a me convidar uma epoca. Foi ate meio vergonhoso, porque o convite foi feito ao Bruno e a mim ao mesmo tempo, e o Bruno aceitou de cara enquanto eu devo ter passado a impressao de estar fazendo doce. Nao vi motivos, ha epoca, para me mudar. Ainda nao vejo. Estava bem e, relativamente, recente instalado no Mondo Exotica, entao em pleno crescimento e com um potencial de articulacao que nunca se realizou. A piadinha que eu fiz na epoca, citando Groucho Marx, era mais uma boutade do que uma esnobada, sem sentido de ofensa. Eu simplesmente nao acreditava que precisava fazer parte do portal para ser parte da turma. Estava
certo. Quem tem qualquer duvida, leia o capitulo do Felipe Ortiz no livro, ou veja a entrevista do Dante Gabriel Rosseto para a Folha de SP. Era piada interna, sim, ou nao seria o Dante respondendo. Mas algum reporter do futuro ha de fundir a cuca para entender. Link quebrado e pior do que colecao de jornal incompleta.
Foi bom demais ver tudo aquilo crescer e, sem querer brincar de Ivan Lessa, celembra, cenumlembra?, eu lembrei de um 'cado de coisa. De quando o Alexandre Soares Silva me disse para eu prestar atencao nos blogues do Mozart e do Dante, melhores do que a maioria do que se escrevia na imprensa brasileira da epoca (mais ou menos uns cinco anos depois disso, para quem gosta de citar nomes, Diogo Mainardi citaria o Mozart como exemblo de bom blogue). Do blogue secreto dos Wunderblogs, o primeiro blogue sem links da internet, cujo titulo foi inspirado numa conversa comigo. Lembrei de quando um dos Wunderblogs, oculto o nome por respeito a sua reputacao, um dos mais direitistas-liberais do grupo, depois de uma taca de prosseco, vendo o por de sol atras do morro Dois Irmaos, propos, aos gritos, que se criasse um imposto nacional para preservar a paisagem carioca, e que se criasse um orgao publico de preservacao da paisagem, do qual todos os cariocas seriam funcionarios... de quando o Alex Castro apareceu um dia e ofereceu carona para ir em algum lugar no carro dele, e todo mundo gentilmente recusou, pois ele tinha escrito recentemente a Prisao Heterossexualismo, sabe como e, por via das duvidas. De quando o Lisandro, bebado, comentou alguma coisa com o Alexandre da qual ele se arrependeu no dia seguinte (embora eu duvide que ele se lembre perfeitamente do que tinha dito), e dias depois recebeu um email do Alexandre respondendo o comentario -- Alexandre: nao precisava ter se preocupado! De quando o Mozart, depois de derrubar algumas em Icarai -- ele me explicara que a pronuncia correta do bairro oceanico niteroiense era Caritas e nao Xaritas --, soprou a fumaca de seu cigarro calmamente e perguntou, com voz grave: voce sabe porque a gente esta aqui, nao sabe? O criptismo dos textos do Dante, que deixava ate mensagem de duas linhas incompreensivel ("Uia. Saldozo."). A palavra aqui e saudade.
E se nao teve mais, foi essencialmente porque eu morava no Rio e a maioria deles, em Sao Paulo. O que motivou alguns formidaveis finais de semana, la e ca. Os Wunderblogs foram muito atacados em certa epoca por blogues identificados com posicoes de esquerda, que os pintavam como hidrofobicos & rancorosos; nada mais distante do ambiente cordial que sempre pairava sobre o grupo. Pouca gente sabe que amizades, namoros e ate casamentos ocorreram naquele grupo, ao longo de sua existencia, como e natural que ocorram em qualquer grupo. No peito dos Wunderblogs tambem bate um coracao.
De certa maneira, foi por isso que eu nunca fui formalmente um Wunderblog: porque eu sempre procurava trazer gente interessante para o grupo, misturando as galeras, mais preocupado com manter o papo em alta do que com a coesao. Alias uma ou outra mistura foram realmente inesperadas, gerando o melhor comentario que eu li sobre os Wunderblogs: "emitiram diversas opinioes sobre assuntos que desconheco". Nao que, eventualmente, agregados nao acabassem fazendo parte do grupo; Fabio Danesi Rossi e Radamanto estavam entre os que mais trouxeram gente para la. Dizia-se que existiam ate mesmo lobbies para fazer ou impedir os convites, o fato e que meu historico de ejecao do Digestivo Cultural e Paralelos ja me deixara escaldado, condicao que ainda perdura. Inagaki sabe do que eu estou falando.
Os Wunderblogs nao acabaram porque "um por um foi (fazendo dancinha de desprezo) ooooh, amadurecendo, conseguindo empregos, criando responsabilidades (estou dizendo essas palavras rebolando loucamente), e deixando os blogs morrerem aos pouquinhos, ou em alguns casos abruptamente", como disse o Alexandre. Nada disso impediria-os de continuar escrevendo, a nao ser que eles realmente precisassem comprometer seus trabalhos para escrever, o que nao acredito que fosse o caso. Sem querer, o Bruno acertou ao dizer que "que havia de honesto nos Wunderblogs era não se preocupar se o portal era ou não importante; se exercia maior ou menor influência. Nos bastávamos e isso era estimulante"; quem sabe essa autofagia, que era sua fonte de forca e assunto, tambem tenha sido a causa mortis: inanicao.
E por menos que tivessem se importado com a influencia que exerceram, nao acho exagero sublinhar sua importancia, pela maneira como atraiu as atencoes (geraram como subproduto a primeira coletanea de blogues publicada em livro) e motivou opinioes. Tenho para mim que aquela declaracao do Chico Buarque sobre a
existencia um "direitismo de salao" foi feita pensando exatamente neles. Isso, evidentemente, se Chico Buarque usar computador.
Que e um gancho muito bom para algum inimigo dizer, os Wunderblogs passaram, Chico Buarque ficou.
Escrito por Rafael | maio 15, 2008 05:03 AM
Comentário
Ah, sim, o chico buarquismo de salão. Em campo é outra coisa. Seriamente, pensasse que era inveja dele pelos wundi, ah, teria eu devolvido o cadáver do pai dele. Porque eu muito admirei as filhas dele, tanto verão passado, e ainda hoje. Sem falar na mulher.
Escrito por: dgr | maio 16, 2008 02:24 AM