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julho 18, 2008
1968, 1958
Ano terminado em 8 e espeto, porque tem toda uma industria para comemorar a efemeride de 1968, cuja caracteristica principal e essa mesma, fazer crer que 1968 foi o maior dos acontecimentos historico; escrever a propria lenda. No Brasil, em 2008 ainda comemoram-se efemerides de Guimaraes Rosa, da imigracao japonesa, da familia Real Portuguesa e da Bossa Nova. Ou seja, tema nao falta para blogueiro sem assunto. Claro que eu nao vou comentar todos, ate porque nunca li Guimaraes Rosa (ate agora, A Pedra do Reino me bastou em termos de regionalismo). Mas vou comentar sobre a Bossa Nova -- e, cuica, falara sobre 1968.
A impressao, do ponto de vista de dentro Brasil, e que a Bossa Nova e a grande representacao cultural brasileira no exterior, a mais forte. Talvez por conta de Frank Sinatra ter gravado com Tom Jobim, talvez por causa do disco do Stan Getz com Joao Gilberto, talvez por causa da carreira internacional do Sergio Mendes, quem sabe porque Mas Que Nada tocava infinitas vezes na Copa do Mundo da Alemanha, 2006. No duro, tudo cao. Se voce para uma pessoa aleatoria pertencente culturalmente ao mundo ocidental e pergunta para ela qual a primeira coisa que lhe vem a cabeca em termos de Brasil, a resposta vai ser Copacabana, vai ser samba (mesmo que nao tenha a menor ideia do que e samba, confundindo com maxixe ou merengue. Mas isso nao importa, vai chamar de samba). Isso acontece porque foi a imagem escolhida e difundida pelo cinema de Hollywood na epoca da II guerra, e ate hoje e a imagem mais forte do Brasil projetada no exterior. Carmem Miranda e maior do que Tom Jobim. Frank Sinatra nao e pareo para Hollywood. Pouca gente efetivamente sabe o que e bossa nova (desconfio sinceramente que tem mais gente sabendo que o Brasil produz drum and bass do que bossa nova); algumas identificam The Girl from Ipanema, varias conhecem Mas Que Nada: Copacabana e mais famosa do que Ipanema, Sergio Mendes, maior do que Joao Gilberto.
Entao porque tanto aue com a Bossa Nova? Simples. Porque as pessoas que querem te convencer que 1968 foi um marco historico sem par sao as mesmas que querem te convencer que a Bossa Nova foi o grande marco musical do seculo XX -- e os argumentos sao exatamente os mencionados acima: ter sido gravada por Sinatra no auge do sucesso, ter influenciado o jazz de Stan Getz etc. Assim como insistir na ideia de que o maio de 1968 foi um marco transformador ajuda a permanencia de seu mito, insistir na superioridade estetica da Bossa Nova e uma forma de desqualificar outras expressoes ate mais populares do que ela. Mas isso nao passa de um pequeno jogo de poder, onde se reedita a Historia da forma mais comoda.
Se voce tem duvida, faca o experimento: pare uma pessoa qualquer numa cidade qualquer dos EUA, ou mesmo no interior da Europa, ou vamos diversificar, um malaio em Kuala Lumpur e pergunte para ele. Vai dar Ronaldinho e Carmem Miranda na cabeca. Mas como os perpetuadores de mito te fazem acreditar, essas pessoas, mesmo sendo maioria, nao conta -- so conta quem mora em NY e gosta das mesmas coisas que eles...
Escrito por Rafael | julho 18, 2008 05:59 AM