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dezembro 24, 2008

Na área

Mais de quarenta horas de viagem, três dias de correria fechando as pontas onde mal deu para se refazer da Tailândia, e nem precisava aterrizar no Galeão: qualquer lugar que soasse como lar, onde eu pudesse reaver minha mala seria muito bem vindo. Mas como se fosse pouco, era mais uma vez a gloriosa cidade de São Sevastião recebendo um filho (pródigo?) de volta. Pelo menos 4 dias para ajustar o fuso.

Nesse intuito, insisto em ir à praia, ainda que meus olhos ardam e o corpo diga que deveria estar dormindo, acabo encontrando um amigo das antigas: eu, indo, de sandálias porém sem assoviar; ele, voltando, de bicileta e fone nos ouvidos. Imediatamente me convida para uma confraternização de final de ano com algumas amigas. Luis Eduardo me conta sobre um relacionamento potencial encerrado prematuramente por causa de uma gíria de funkeiros. Lisandro se queixa de ter sido identificado pela música Maluco Beleza. Pedro Sette pede sugestões de hospedagem para um gringo. Como um risole de camarão no Carangueijo, peço um biscoito Globo (sabor doce) na praia. Me sinto em casa, é bom estar de volta.

Tony Wheeler, o fundador do Lonely Planet, usa o termo parachute artist para caracterizar certo tipo de pessoa capaz de, ao desembarcar num dado local, ser capaz de imediatamente identificar onde fica o burburinho, qual o melhor restaurante, para onde os fluxos de gente seguem. Um talento inestimável para escritores de guias de viagem, gente sem muito tempo para ficar fazendo perguntas por aí. Um talento praticamente impossível de se desenvolver em larga escala, a menos que você faça o que o Lonely Planet ou qualquer outro guia faz: assuma que o seu ponto de vista, com os seus parâmetros e preconceitos é exatamente o do leitor e mande bala no texto.

Quando você não conhece um lugar, é possível testar seu próprio grau na arte do paraquedismo com base numa leitura prévia de um guia, da sua curiosidade, faro e experiência. Quando você conhece, cresceu naquela área ou está voltando, cada detalhe novo salta aos olhos como se estivesse destacado com marcador de texto laranja. Dentro de onde chegou meu raio de ação até o momento, as melhores novidades foram a reforma da colônia de pescadores do Posto 6, incluindo um jardim ao canto do qual uma estátua de Dorival Caymmim carrega seu violão. Na praia de Copacabana, vem fazer companhia a Drummond (sentado num banco, poucas quadras antes), Ibrahim Sued (garboso, em frente ao Copacabana Palace) e Ary Barroso (no Leme). Mas só Dorival vem da mesma safra de Braguinha, logo após o túnel velho, e Pixinguinha, na Travessa do Ouvidor, todas obras de Otto Dumovich, que há trinta anos desenhava gibis de terror para a Vecchi.

Melhor que a reforma da colônia, só o projeto piloto de aluguel de bicicletas imediatamente em frente, pelo que entendi ainda para entrar em funcionamento. Melhor do que isso, só mesmo ter descoberto uma lanchonete de esquina recém-aberta, dessas que deslumbram turistas com açaí na tigela, suco de fruta e queijo com banana, um cardápio com yakisoba. Assim a cidade até faz jus à fama cosmopolita.

Atualização: gostei menos de constatar que a estúpida moda dos óculos escuros gigantes (abelhão), que era o gás da Coca-Cola quando eu cheguei em Perth, finalmente aportou no Rio, com força. Estúpida porque deixa as donas com cara de bobo, quase sempre. Quando saí da Austrália, ensaiava-se uma transição para alguma moda nova. Isso tudo, evidentemente, é papo típico de verão.

Escrito por Rafael | dezembro 24, 2008 07:29 AM

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