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janeiro 22, 2009

Glória e decadência

Engatando na reta final de Meanwhile, nota-se a terrível ironia da carreira de Milton Caniff: o ponto mais alto de sua carreira corresponde exatamente ao início de seu declínio. Em 1946, Caniff deixaria a agência para a qual fazia Terry e os Piratas pela proposta de criar uma tira nova, ainda de aventura, sobre a qual manteria direitos autorais e poder de veto, Steve Canyon. Nem fora pioneiro nisso; Roy Crane tinha passado pelo mesmo com Capitão César e Buzz Sawyer e Will Eisner garantira os direitos de The Spirit, anos antes. Mas Caniff estava na crista da onda, era o quadrinhista mais popular do país, porta-voz não oficial da Aeronáutica (na qual seu personagem alistara-se) e tinha trânsito franco entre o povo de Hollywood. Por que, então, entraria em declínio?

Dois golpes alterariam de vez a posição dos quadrinhos perante a opinião pública: a chegada da televisão e a campanha moralista contra os gibis de terror e crime empreendida pelo psiquiatra Frederic Wertham. O segundo respingaria em toda a indústria de quadrinhos, não somente nos gibis, provando que, se a defesa adotada perante o comitê de investigação do Senado parecia estratégica ao tentar separar tiras de revistas, na prática todo mundo acabou tendo que se dobrar às decisões dos senadores. O primeiro foi responsável por alterar todo o equilíbrio dinâmico dos meios de comunicação, ao diminuir o número de jornais locais e prover alternativas de entretenimento ao que era oferecido nos jornais. Se repórteres ganharam imediatamente mais uma opção de emprego, tiras de aventura se viram em perigo ao perderem leitores, espaço físico (comprometendo a qualidade da arte e dos diálogos, já que há um limite na redução das letras e desenhos) e prestígio. E Milton Caniff era autor de uma tira de aventura.

Como se isso tudo fosse pouco, Caniff ainda teve que se ver às voltas com um problema até então impensável:a queda de popularidade de uma tira sobre um herói das forças armadas em tempo de guerra do Vietnã, quando a imagem das forças militares foi seriamente comprometida. Isso depois de décadas levantando o estandarte do patriotismo e colhendo os louros respectivos, de citação no Senado a distinções especiais da Aeronáutica. Jornais cancelavam Steve Canyon aos montes, com medo que a presença de uma tira ostensivamente militar espantasse seus leitores. Sem demonstrar decadência de talento nem perda de qualidade, aos 60 anos Caniff teve que se ver com um problema de popularidade inesperado. Deve ter sido duro.

Escrito por Rafael | janeiro 22, 2009 01:20 PM

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