« Sinopse (à maneira de FDR) | Principal | Na terra dos mil sorrisos »
fevereiro 15, 2009
O Rio é assim
É legal a dose diária de mulher bonita que a Globo continua proporcionando:Tânia Khalil, Cleo Pires, Juliana Paes, Eliane Giardini, Letícia Sabatella, mas isso não consegue ultrapassar duas trágicas seleções de elenco, Vera Fischer e Débora Bloch. Vera Fischer, a melhor amiga, de onde viriam bons conselhos? Débora Bloch, a melhor escolha para a esposa traída? Sei.
Claro que eu não estaria prestando atenção em nada disso se o personagem interpretado (?) pelo Márcio Garcia não tivesse sido baseado, em parte, num amigo meu. Mas isso é outra história.
Prepare-se para enfrentar muita muvuca e um trânsito que não anda, me avisaram caso eu viesse a ficar no Rio durante o carnaval. 2008 foi o primeiro ano em que o carnaval de rua carioca juntou mais gente do que em Salvador, sintoma da explosão dos blocos de rua. O fenômeno é mais recente do que parece. Há vinte anos, a maior parte dos maiores blocos já existia, mas só não viajava durante o carnaval quem estava preso por algum compromisso. Nesse meio tempo, a estabilidade econômica aumentou o poder de consumo da classe média, a ponto de um feriado abalar uma eleição, como se observou ano passado com Gabeira. Se há tanta muvuca, porque o movimento se inverteu, no sentido de manter ao invés de expulsar os moradores no carnaval? Quem souber essa resposta tem uma chave de ouro nas mãos. Eu apenas arrisco um motivo: hype. Carnaval de rua na zona sul virou algo descolado, nos últimos 5 anos.
Todo mundo quer começar o seu bloco. Compor um samba-enredo. Desenhar uma camiseta. Inventar um novo tipo de desfile: ao redor da pracinha, uma quadra na praia, somente atravessando duas faixas e retornando, até o paroxismo de concentrar mas não sair -- hábito que acabou batizando um bloco. Nesse afã de ser campeão no carioquíssimo esporte de inventar a última moda, não faltam candidatos, nem gente que se contenta em se dizer amigo de quem inventou, ou deu a idéia. Segue, assim, a idéia de renovação do carnaval que traz as pessoas de volta às ruas para um social, vende cerveja, inventa bossas -- e até curte carnaval, nos intervalos. Esse movimento não é novo. O que hoje é a indústria milionária que mexe com a imaginação de turistas no mundo inteiro, a parada do Sambódromo, há 80 anos não passava de uma estratégia para criar notícias e vender mais jornais. O baile do Copacabana Palace, que há 50 anos atraía os maiores astros de Hollywood, hoje em dia não teria a presença do casal Brangelina.
O que há de interessante na explosão dos blocos no Rio de Janeiro é a clássica questão dos repórteres, siga o dinheiro: a quem isso beneficia? Porque, ao contrário dos trios elétricos baianos, negócio extraordinariamente rendoso & organizado nos seus abadás e axés, ainda não dá para perceber patrocínios de peso nem nos blocos de maior aglomeração nem sombra da presença das cordinhas de isolamento. Seria o carnaval carioca algo de fato alheio ao canto da sereia comercial? Duvido. Enquanto isso, vai se recriando o costume de festejar na rua (só lamento que se limite ao carnaval), se atravancando o trânsito, sujando a cidade -- criticar o mictório em que a cidade se transforma é como criticar as pixações em prédios públicos: pedir para ser chamado de fascista e acusado de reprimir as manifestações populares -- e até curtindo o carnaval.
Escrito por Rafael | fevereiro 15, 2009 03:56 PM