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março 17, 2009
Let's you and him fight!
Talvez a grande novidade editorial para os quadrinhos no século XXI tenha sido a onda generalizada de reedições completas de tiras de jornais antigas, retocadas com todo o capricho que a tecnologia digital permite, editadas em versões de capa dura com direito a citação de personalidades e compiladas por colecionadores ao longo de décadas. Nos últimos anos, o mercado editorial viu a promessa de coleções completas de Little Orphan Annie, Terry and the Pirates, Dick Tracy, Gasoline Alley e Krazy Kat, todos clássicos dos anos 20 e 30, além da magnífica coleção de Peanuts (a maior de todas) e da recente compilação em formato gigante de Popeye. É sobre ela que volta minha atenção.
Popeye começou como um personagem coadjuvante na tira Thimble Theatre, criada por Elzie Segar, mas sua força como personagem era tão evidente que ele acabou dominando a tira. Segar escreveu e desenhou somente 10 anos, vindo a falecer em 1939, quando o marinheiro já era símbolo nacional. Thimble Theatre é insanamente engraçada. De uma forma ou de outra, vários cartunistas utilizaram a depressão de 1929 em seus trabalhos: Harold Gray fez discurso político contra o New Deal e a favor da responsabilidade pessoal, Bud Fischer criou dois trapaceiros que viviam de aplicar pequenos golpes -- mas nenhum capturou com tanta precisão o ambiente de vácuo moral como Segar, e nenhum foi tão insanamente engraçado. Todos os personagens têm excelentes maneiras em Thimble Theatre, e ninguém presta. Todas as histórias se resumem a um círculo vicioso onde um tenta passar a perna no outro. E o maior campeão nessa categoria é Dudu, J. Wellington Wimpy, comedor de hamburgeres, juiz ladrão, trapaceiro profissional e frasista antológico.
Tira de 1930 exemplifica magnificamente. Começa com Dudu enchendo o saco para que Popeye, então dono de um restaurante, lhe faça um jantar.
1. Eu te pagarei TERÇA-FEIRA por um jantar HOJE, repete insistentemente Dudu, para irritação de Popeye. Dudu usa também sua outra frase preferida: Vamos comer pato no jantar. Você traz o pato.
2. Popeye perde a paciência e vai até um guarda. Popeye PAGA 25 dólares ao guarda para PRENDER Dudu.
3. Dudu vai em cana e Popeye fica satisfeito. Ou nem tanto. Popeye diz a Olívia Palito que vai até a cadeia, PARA RIR DO DUDU, ao que é repreendido por Olívia.
4. Popeye visita Dudu na cadeia e passa três quadrinhos rindo, enquando Dudu senta em seu catre com ar triste.
5. Dudu apela para os bons sentimentos de Popeye, dizendo que ambos nasceram da MESMA MÃE TERRA, eram irmãos e assim deviam se tratar. Popeye chora.
6. Popeye decide pagar a fiança de Dudu. O juiz estipula em 50 dólares, por conta das acusações de ROUBO A BANCO, ROUBO A TREM, FALSIFICAÇÃO E ESPANCAMENTO DE MULHERES (wife beating)
7. Dudu fica agradecido e repete sua frase: Vamos comer pato no jantar. Você traz o pato.
8. Olívia dá uma bronca em Popeye por ter gasto para livrar o dobro do que tinha prendendo Dudu. Popeye responde com sua frase padrão: I yam what I yam and that's all I yam.
Esse tipo de coisa Jules Feiffer lia quando criança.
Escrito por Rafael | março 17, 2009 09:00 AM