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maio 13, 2009
Acabou o papel, limpa com jornal
Volta e meia alguém reaparece com o papo que o jornalismo, mormente sua versão impressa, acabou. Embora tal afirmação seja tentador à luz dos talentos desbravadores de 40-30 anos atrás, é inegável que ainda há gigantes caminhando sobre essa terra. Um deles é William Langewiesche (nem me pergunte como se pronuncia isso).
Comecei a prestar atenção nele quando notei que, invariavelmente, seus artigos eram meus preferidos nas edições da Vanity Fair -- tanto em termos de redação como no assunto que abordavam. Uma vez me disseram que eu tinha o melhor job title do mundo. Vejam só como o trabalho de William foi descrito:
According to his editors in New York, Langewiesche's job is to find and report stories that illustrate ways in which the world is changing.
Por formação, o senhor L. pegou uma graduação em antropologia por Stanford; por carreira, foi piloto de aviões comerciais durante a década em que lutava para publicar.
My goal was never to become a pilot. My goal was to, well, become exactly what I am now, interestingly enough. [...] I would take a job [as a pilot] for a while, and then I'd quit and travel. I was looking for things to write about. I was trying to expose myself to the world. A lot of what I was doing was getting older, but I didn't see it that way at the time.
Um dia, a ficha caiu e contrataram-no para ser correspondente da Atlantic Monthly, onde a qualidade e a regularidade de seus textos sobressaiu; ficou lá vários anos, antes de se transferir, há três, para a Vanity Fair. Escreveu sobre o diabo a quatro: a nova onda de piratas da Somália que assola o Mar Mediterrâneo, como o Terceiro Comando deu um nó na cidade de São Paulo, o milagroso pouso de uma aeronave no Rio Hudson, um acidente aéreo na Amazônia, a demolição do que sobrou do World Trade Center, chacinas ocorridas na Guerra do Iraque, um livro sobre os primeiros cem anos da aviação e como a percepção do mundo foi alterada por isso, outro sobre pirataria, terrorismo e comércio ilegal sobre as águas, entre outros. Como consegue?
"You have this precious, incredibly privileged thing," he said, "which is the reader's attention for a little while. And you can make the slightest misstep and the reader will put you down. People will say that the reader lives in a busy world. But that's not the reason why. The reason is that the writer blows it, and loses the reader's trust."
É bom demais, dá vontade de só ficar colocando as aspas aqui:
Writing is thinking. Writing is a form of thought. It's difficult for me to believe that real thought is possible without writing. I really begin to think most profoundly about a subject that I'm writing about when I write about it. The problem of expression forces the thought to clarify itself, and that's where the real work is done.There is no special club. It doesn't matter who your friends are. It doesn't matter where you went to school. It only matters what you're capable of providing now. Write well. Period.
Só mais umazinha:
Maybe I'd be a much better writer, had I taken the courses. But I suspect that the effect of too much schooling or too much reading of the how-to manuals is to channel people into standard ways of approaching problems.
Hoje, William Langewiesche é correspondente internacional e vive de se meter em frias para coletar material que, meses depois, quando publicado em quatro cores, rende-lhe indicações anuais aos maiores prêmios de reportagem. Continua suas colaborações constantes com a Vanity Fair, na exata sequência do que fazia para Atlantic e, de quando em quando, solta um livro. Essa tem sido a rotina dos últimos 15 anos.
Isso tudo, evidentemente, porque o new journalism não deu frutos, porque o jornalismo morreu e as publicações em papel (livros incluídos) estão condenadas à extinção. Imagina se não estivessem.
Escrito por Rafael | maio 13, 2009 12:18 PM