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maio 21, 2009
Mamãe passou açúcar em mim
Finalmente o documentário sobre o Simonal chegou às telas de fato: já faz dez anos que o assunto aparecia na imprensa com alguma regularidade.
Desde antes, na verdade, se incluirmos a crônica do Mario Prata, o livro do Nelson Motta ou a reportagem do NO. Me dei conta em algum momento entre 1995-1999, o suficiente para redigir uma notinha para uma revista virtual da qual era colunista, então lida por alguns formadores de opinião, pelo menos um dos quais acusou o golpe: Millôr Fernandes, cuja réplica corroborava a versão vigente. Corroborava porque, ao entrevistar o principal envolvido, o documentário adiciona detalhes que aumentam a complexidade da história.
O documentário tem imagens preciosas, como uma inacreditavelmente jovem e loira Marília Pêra (essa foi a melhor informação que a velhinha que passou o filme inteiro cantando e falando sozinha do meu lado passou) atuando ao lado de Wilson Simonal, e um igualmente jovem Pelé, cantando Meu limão, meu limoeiro numa concentração, com aquela voz e aquele sotaque que consagraram Edson Arantes, diante dos olhares atônitos de Gérson, Tostão e outros baluartes da seleção de 70.
O depoimento do Jaguar, que nunca pretendeu estar onde não estava, vem num tom menor do que na época do enterro do cantor, quando soltou aspas na linha "do fiz e não me arrependo". Dessa vez, defendeu-se na linha do maniqueísmo (defesa que Ziraldo sempre utilizou) e pediu para que não houvessem ressentimentos, afinal, morrer de cirrose ele mesmo poderia ter morrido. Melhor é não ter que discutir com esse tipo de lógica(?).
Apesar de Chico Anysio ser o fio condutor do filme, é de Pelé, cujo histórico de declarações públicas não é dos melhores, quem dá talvez o melhor depoimento, contando um causo da época, acertando na mosca ("todo cantor quer ser jogador de futebol e todo jogador de futebol quer ser cantor") e dizendo o que ninguém mais diz: quando Simonal foi perseguido, ninguém no meio artístico se levantou para defendê-lo. Apesar da veemência das declarações de Nelson Motta, Cravo Albin, Artur da Távola e Miéle, fica a pergunta: onde eles estavam?
Essa pergunta, que o filme não responde, é o assunto que permeia todas as entrelinhas do documentário: Simonal não foi vítima da ditadura ou de um momento histórico; foi o ponto fraco de toda uma estrutura que ao mesmo tempo em que precisa de renovações periódicas, resiste a qualquer tipo de mudança. Afinal, seja por estar fora dos padrões estéticos da época, seja por incomodar as forças políticas, a lei é nunca prejudir os negócios.
Escrito por Rafael | maio 21, 2009 01:47 PM