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maio 27, 2009
Saudades do Zé
Quem tem mais ou menos a minha idade e foi interpelado sobre a morte do Zé Rodrix, deve ter lembrado de Mestre Jonas, numa demonstração blasé na esperança de parecer descolado, que é uma das características de quem tem mais ou menos a minha idade. Blasé porque se a memória contribuísse e houvesse honestidade, o registro do primeiro contato certamente viria do musical Plunct-Plact-Zum:
Marshmallow, chocolate / Caramelo, chantilly / Quantas crianças com cobertura / Doces melhores, eu nunca vi
Ou então, seria esse aqui, de cuja letra eu me lembrei instantaneamente, apesar de mais de 20 anos de distância:
A escova de dente e o xampu / São amigos da gente com razão / A esponja e o pente e o sabão / Deixam a gente contente de montão / É tão bom quando a gente de manhã / Cheira a tutti-frutti e hortelã / Não precisa castigo nem sermão / Essa turma de hoje já nasce sabendo o que é bom
Muito da fama do Zé Rodrix se deu em torno dos primeiros 15 anos de sua carreira como músico, mas a presença dele não diminuiu, depois que migrou para a publicidade, no começo da década de 1980 (a exemplo do que acontecera com vários desenhistas de quadrinhos, 20 anos antes), numa opção por vender as músicas de uma vez, ao invés de buscar algo mais comercial, como os produtores musicais haviam lhe sugerido. São dessa época vários jingles que povoaram as propagandas televisivas, talvez no melhor período da publicidade brasileira, coisas como:
Meu coração bate mais alto Dentro de um chevrolet
Por escolha própria, desagrado ou opção profissional, ou mais precisamente pelos três, Zé Rodrix retirou seu nome da cena artística por quase 20 anos. Nesse meio tempo, iniciou algo raríssimo no panorama literário brasileiro: uma trilogia histórica tendo a trajetória da maçonaria por pano de fundo: Zé Rodrix era um maçon que nem escondia sua condição, nem fazia mistério do que ela implicava. O primeiro livro saiu em 1998 com o título Johaben - o Diário de um Construtor do Templo, e exatos 10 anos o separariam do último volume.
No momento de seu falecimento, Zé Rodrix preparava outra trilogia, essa ambientada no Brasil, dos tempos do império ao século XX. É inestimável a lacuna que se abre com essa interrupção.
Na virada do século XXI, por conta do Clube Caiubi, Zé Rodrix voltou a se interessar e a compor música, coincidindo com a volta do trio com Luis Carlos Sá e Gutemberg Guarabyra. É quando aparecem Boa Noite, Cinderela, Caminho de São Tomé (essas duas, a rigor, solo) e Jesus num moto, que acabou virando um hino informal de algumas associações de motociclistas. Um disco colecionando-as estava a caminho.
Se o retorno do trio em turnê nacional serviu para retornar seu nome aos jornais, ficou mais fácil vê-lo envolvido em assuntos que não dizem respeito ao show business do que o contrário; muito recentemente, foi núcleo de uma polêmica ao afirmar muito claramente que se recusava a receber verba pública para seus trabalhos. A maneira absolutamente limpa como expôs sua opinião contribuiu muito para a ressonância que o episódio teve. Na verdade, apenas mais uma demonstração de seu estilo, o mesmo que exibia em entrevistas ou em listas de discussão da internet, em uma das quais fui seu companheiro por vários anos.
Zé Rodrix era o melhor tipo de exemplar frequentador de uma lista de discussão: extraordinariamente assíduo, provocador incansável, tremendamente erudito, ótimo redator, bem humorado, dono de brilhante retórica e sem o menor compromisso com a coerência ou se levar a sério. Enviava mensagens todo dia, respondia rápido e afiado, gozava e aceitava gozações, irritava até não poder mais quem ele achava que não estava sendo honesto, pondo a perder nesse bolo a consistência. Engraçadíssimo, irrascível, era enlouquecedor tê-lo por companheiro; brigava sempre que podia e quando não podia, dava um jeito de, ao menos, provocar a discórdia. Afinal, precisava alimentar com discussões aquela lista. Só respeitava uma regra: não se levar a sério. Vi mais de um perder a linha por escrito por causa dele; eu mesmo, cheguei bem perto.
Caudaloso e nem um pouco sigiloso, comentava segredos de bastidores e entregava técnicas de trabalho e criação; discutia abertamente comigo o tom e o estilo do primeiro volume da Trilogia do Templo, que eu recém acabara de ler, quando se foi. Generoso, mas não livrava a cara de ninguém: não poupou Gabeira, perdoado por outro leitor por conta do escândalo das passagens aéreas. Ao vivo, era tudo isso e mais som e fúria, dando arranjos de musical da Broadway a piadas rasteiras, mexendo com todo mundo na mesa, comentando o que passava na televisão. Alguém que faz falta, quando se vai.
Na missa de sétimo dia, abriram o microfone para manifestações pessoais e, à parte os inúmeros representantes do Colégio de Aplicação, houve depoimentos de jornalistas, músicos, maçons, companheiros de internet. Em 61 anos, Zé Rodrix viveu mais do que caberia em 3 vidas e é por isso que não parece ter partido antes da hora: sua marca já havia sido deixava em quem o conheceu, seu legado já havia sido passado adiante.
Escrito por Rafael | maio 27, 2009 10:35 AM