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julho 02, 2009

A versão dos afogados

Um viés interessante seria contra a história dos quadrinhos norte-americanos através dos artistas fracassados, cujo contingente é bem numeroso. Jerry Siegel, criador do Super-Homem, que só não morreu esquecido e empobrecido por causa de uma campanha na época do filme com o Christopher Reeves, é um eixo óbvio -- mas poderia ser também Will Eisner, que no topo do seu período experimental fazendo The Spirit teve que ouvir de um de seus ídolos, o cartunista Rube Goldberg, que quadrinhos era vaudeville, puro entretenimento sem pretensão artística. O mais engraçado é que, quase 40 anos depois, Eisner ouviria a mesma opinião de Milton Caniff, aliás um dos poucos que não caberia naquele viés, posto que fez sucesso a vida inteira e chegou até a ser citado no Congresso pela motivação que suas tiras passavam no esforço da II guerra. Jack Kirby, se valeu de sua habilidade em desenhar para sair do gueto e tentou a vida inteira superar a condição do trabalho a metro (como de seu pai, alfaiate) seria outro grande candidato a eixo, porque argumenta-se que ele nunca conseguiu, mesmo tendo sendo fundamental para a criação das revistas de romance e dos super-heróis da Marvel. Diz-se que Stan Lee teria dado apenas uma simples instrução para uma história do Quarteto Fantástico: "faça-os enfrentarem um deus", e Kirby teria criado Galactus e o Surfista Prateado... Mas tem muita gente marcante, com uma história triste por trás. George Herriman, que disfarçou a vida inteira sua ascendência étnica, mesmo que incluísse gírias creole, sotaques sulistas e mitos indígenas nas páginas do Krazy Kat. Wally Wood, provavelmente o desenhista mais talentoso de sua geração, cotado para substituir Hal Foster no Príncipe Valente, pivô das histórias de ficção científica, colocou The Spirit na lua e antecipou o mercado de independentes em 10 anos -- somente para se suicidar quando o talento fraquejou. Jack Cole, inventor do Homem de Borracha, despendindo-se do mundo quando tinha uma tira sendo bem distribuída pelos jornais e a reputação assegurada como cartunista de humor. Harvey Kurtzman, outro que nunca conseguiu capitalizar financeiramente o valor de suas criações revolucionárias, dividindo seu talento entre roteirista e autor, arriscando nunca atingir o zênite. O bartleby de Art Spiegelman que, depois de Maus, nunca mais conseguiu fazer uma história longa com narrativa linear.

Há muitos casos de talentos não explorados, frustrações e injustos esquecimentos, isso num mercado flexível que teve altos e baixos ao longo de décadas.

Escrito por Rafael | julho 2, 2009 11:19 AM

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