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agosto 23, 2009

Sobre o Humor

Outro dia, em almoço com Lisandro, observamos que um dos problemas do humor atual é ter perdido, em grande parte, a capacidade de crítica: ninguém mais se incomoda com certo tipo de piada, ninguém mais dá recibo para ironia. Insultos não são mais reconhecidos como insultos, porém como descrições precisas de aceitáveis características da personalidade. Essa culpa nem se pode atribuir ao politicamente correto; é a evolução descontrolada do hábito do status quo de assimilar a contra-cultura.

Na década de 50, Harvey Kurtzman estava à frente de seu tempo ao fazer paródias do jornalismo, da publicidade e da televisão, ao mesmo tempo em que Hugh Heffner (por bastante tempo seu patrão) ficava rico fazendo exatamente o contrário, propagandeando as novidades que o jornalismo, a publicidade e a televisão traziam para o comportamento masculino. Kurtzman nem foi tão radical a ponto de morrer de overdose como Lenny Bruce, nem tão adequado a ponto de fazer dinheiro como Heffner, mas sua disposição em sempre enxergar o que havia de torto e criticável teimava em empurrá-lo para fora do panteão pop. Porém, sua obra teve impacto profundo e durador (de Crumb a Monty Phyton, passando por Asterix) na tarefa de incorporar uma visão crítica ao então inatacável.

Nas décadas de 60 e 70 a moda era atacar, fosse como fosse, os pilares da chamada civlização ocidental: a família, as organizações, as instituições, o sistema produtivo, o mercado. Ia-se ao teatro num sábado de noite para refrescar a cuca assistindo a violência verbal de Edward Albee em Quem Tem Medo de Virgínia Wolff, praticamente duas horas seguidas de troca de insultos entre marido e esposa, diante de convidados. A cada geração, absorvia-se as críticas da geração anterior, até o ponto em que o próprio humorista faz humor sobre si mesmo e o pessoal do Pânico é acusado dos mesmos espasmos de estrelismo das vítimas da sandália da humildade. Onde fica a fina linha vermelha da separação?

Você diz que Crepúsculo é um filme para emos virgens, e o público concorda, assentindo que é isso mesmo. Você diz que o Jabor só faz sucesso porque fala para um enorme contingente da classe média frustrada, que gostaria de ser mais ousada mas está enjaulada na própria abulia, e a classe média concorda, nem um pouco insultada. O que era para ser crítica merecedora de reflexão virou mera definição de mais um nicho de mercado.

O humor ter perdido a capacidade de chocar é o ponto onde chegamos. Qual a graça que resta?

Escrito por Rafael | agosto 23, 2009 07:02 PM

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