« Hakuna matata | Principal | I like the boom boom pow »

agosto 28, 2009

Rubem Braga e a volta

Tem duas histórias do Rubem Braga em que eu penso o tempo todo.

* * *

Na primeira delas, ainda do tempo em que viajar era raro e viajar pro exterior, uma aventura, Vinicius de Morais pergunta a Rubem Braga o que havia de novidade no Brasil, chegando de uma temporada fora. Posso imaginar Rubem Braga rosnando a resposta que deu:
-- Cigarro Hollywood sem filtro.

* * *

Depois de três anos morando fora, e antes de voltar, cansava de me pegar imaginando como eu responderia a mesma pergunta, do ponto de vista de quem, ao menos tecnicamente, ficou tanto tempo longe -- Vinicus não tinha acesso a internet, canal a cabo nem VoIP.

Demorei alguns meses para chegar numa conclusão, mas foi irreversível. O que havia de mais novo no Brasil, ou ao menos naquele punhado de quarteirões em bairros próximos que eu entendo por Brasil, era a inversão de trânsito da Voluntários da Pátria no final da tarde. Depois da estabilidade econômica do Plano Real, a inversão foi a mudança mais drástica que eu percebi no Brasil, porque acabou com uma das verdades estabelecidas que me acompanhou por décadas: a Voluntários vai engarrafar na hora do rush.

Pois assim como o Plano Real exterminou a idéia de um país acostumado a vida com hiperinflação, a inversão de trânsito acabou com os engarrafamentos da Voluntários da Pátria. Da praia de Botafogo pra Cobal em 10 minutos? Em 15 minutos, as seis e meia da tarde? Yes, we can. Tão irreal quanto a idéia de uma revista manter o mesmo preço todo mês nas bancas, e ainda assim, acontece. Todo santo dia.

* * *

Na outra história do Rubem Braga, eu pensava muito logo que me assentei fora do Brasil. Trabalhando como repórter na cobertura da II guerra, diz-se que um dia, deitado num quarto de hotel, Rubem Braga deu uma baforada e concluiu:
-- O Brasil é um país muito atrasado mesmo. Enquanto na Itália é de tarde, lá no Brasil ainda é de manhã.

* * *

A cidade onde eu morava na Austrália ficava ONZE fusos horários à frente do Brasil, ou ao menos daquele punhado de quarteirões etc. Imaginem como o Brasil não me parecia atrasado...

Escrito por Rafael | agosto 28, 2009 02:18 PM

Comentário

Deixe seu comentário




Lembre-se de mim ?

(permitidas tags de estilo)