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novembro 06, 2009

O cálice sagrado

Imagino que a celebração dos 40 anos do grupo Mony Python tenha produzido matérias nos principais órgãos de imprensa brasileiros. Não vi nada além de uma notinha no Globo. Acho meio difícil ser assertivo sobre a influência do humor deles no Brasil, tendo em vista que chegaram aqui principalmente através do cinema; o programa televisivo que entrosou & batizou o grupo nunca foi exibido em canal aberto. Henfil e o grupo da Casseta Popular reconheceram a importância de ambos; Henfil viu o programa quando morava em Nova Iorque e tentou colocar algo parecido no filme que dirigiu, um fracasso de certa forma injusto, porque menos de 3 anos depois a TV Pirata faria sucesso na mesma linha de humor, redigida pelo pessoal da Casseta Popular. Mas a nota era sobre o Monty Python, então vamos voltar pro assunto.

Qualquer nota que saísse na imprensa, entretanto, imediatamente denunciaria que não há bibliografia sobre o Monty Python no Brasil; seria aquele arrazoado de impressões pessoais misturadas a informações catadas numa Wikipedia da vida. Por conta da efeméride, andei lendo The Pythons by The Pythons, uma biografia em forma de história oral, publicada há 6 anos, na esteira do sucesso de Spamalot! na Broadway. Nem se sonha em traduzir um troço desses, onde há informações fundamentais para compreender os conflitos internos que geraram o melhor e foram responsáveis pela dissolução do grupo: o pessoal que se formou em Cambridge versus o pessoal de Oxford, os choques entre os grupos de redação dos diferentes programas de humor que antecederam Monty Python's Flying Circus, as personalidades agregadoras (Michael Palin), as desagregadoras (Graham Chapman, John Cleese) e os do bloco do eu sozinho (Eric Idle, Terry Gilliam); sem isso não se compreende completamente como o grupo se formou.

E também dois nomes fundamentais para que o grupo encontrasse o sucesso. A mais evidente, Spike Milligan, que está para o humor inglês assim como Millôr Fernandes está para o brasileiro: é o centro nervoso a partir do qual saíram os tremores sísmicos que abalaram as três gerações seguintes. Reclamam inflência de Spike a turma anterior ao Python, de Peter Cook e Dudley Moore, todos os Pythons ingleses, os Beatles e até a geração de Stephen Fry e o doutor House, Hugh Laurie. A menos evidente é Harvey Kurtzman, criador da Mad e de Help!, revista de humor onde Terry Gilliam lapidou seu estilo e o modo de fazer piadas -- e onde conheceu John Cleese, ator aspirante contratado como modelo em uma das fotonovelas humorísticas da revista. Se já deve ser difícil encontrar algum artigo decente sobre o Monty Python, um que mencionasse Kurtzman e Milligan, é praticamente impossível. O grande crime de ambos foi estar a frente de seu tempo -- coisa de uma década, mas o suficiente para que nunca tenham se tornado ricos ou populares como os Pythons, ou os Cassetas. Mas a HIstória lhes faz justiça.

Escrito por Rafael | novembro 6, 2009 09:29 AM

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