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abril 29, 2005

All your base are belong to us

Chico mandou bem, e Dante melhor ainda, mas erraram num ponto crucial: não foi a "diversidade" ou a facilidade para "achar sua turma" que causaram a queda de qualidade dos blogs, que extão cada vez mais parecidos com "o Brasilzão de meu Deus". Foi a descoberta dos blogs "por gente que menos do que precisar e gostar de escrever e mais por não suportar uma solidão intelectual que realmente arrefece qualquer esforço de aculturamento", que tomou conta do pedaço.

Foram eles que deram mais consistência e coesão para a brincadeira de nerds. Que fizeram a mídia ver que, ooooh, existe conteúdo e qualidade literária nos blogs. Culpa dos malditos Wunderblogs, que abriram a portêra grande, fizeram ao Mundo Sério ver que internet era até que nem tão esotérica assim.

Antes -- essa sim, a "primeira leva", Chico -- não tinha nada disso. Ou eram nerds fazendo a linkania, propagando memes e estabelecendo diálogos reais, onde o assunto se debatia de blog para blog (e não a histeria dialética da caixa de comentários), transfigurando no caminho, crescendo ou minguando espontaneamente em processos quase biológicos, ou eram diários de gente com sérios problemas de adaptação social ou identidade, esquizofrênicos, usando pseudônimos para revelar segredos sórdidos (e não para ocultar, oooh!, opiniões radicais) e não essa farra auto-confessional para com vistas à celebridade. Os primeiros compreendiam e aceitavam os segundos, e vice-versa. Distopia.

Depois explicaram tudo, colocaram na tv e o barulho aumentou. Apareceu um monte de gente estranha que "ampliou o debate", que "diversificou os pontos de vista" (como se só houvesse totalitários antes...), subutilizando a internet como megafone, prateleira, bumbo, a ainda achando que tava fazendo muito. Que fez a internet regredir da caordicidade e da hiperdialética para o racionalismo pós-moderno. Que a devolveu do futuro para o presente.

Então? Hora de retomar o esoterismo. Voltar a fazer hipertexto, e não texto. Propagar memes e espalhar links. Hakim Bey. E uma garrafa de rum!

Escrito por Rafael | 09:27 AM | Comentários (3)

...e depois não fazer nada (Ismael Silva)

ismael silva

Escrito por Rafael | 09:24 AM | Comentários (0)

dialogando

Galera, se soar chato é tua única preocupação, relaxa, que isso é problema mais dos seus leitores do que seu. Não saber distinguir o que é sério do que é ironia, sim, é preocupante: quando ninguém mais sabe mais o que é o que. Millôr Fernandes disse, de maneira bem séria, que ainda será preciso inventar um ponto de ironia, a sinalizar frases dúbias, para que o leitor não tenha dúvidas de que se trata de uma ironia, sem perceber que mesmo toda a seriedade não impedia uma leitura irônica da frase (considerando que os leitores nunca chegariam num nível de interpretação tão baixo). Veríssimo tem uma tira da Família Brasil que ilustra perfeitamente tua desolação: o pai sugere ao filho Caco e suas Fonias para batizar a banda de rock dele, ao que é aceito prontamente. De noite, na cama, comenta com a mãe: "outra coisa que não funciona mais é a ironia" ("o Rafael é o único cara que eu conheço que cita história em quadrinhos", Jean Boechat). Minha sugestão? Dispor a informação da maneira mais clara e bem estruturada possível, para minimizar a margem de interpretação. Técnicas jornalísticas podem ajudar nisso.


* * *

Eu: E você, gostou da minha foto com a Natalia? A gente não faz um lindo casal?
Anna: Lindo, lindo. Deviam pensar seriamente em formar família, seria uma prole encantadora!

Mereci.

Escrito por Rafael | 08:37 AM | Comentários (2)

abril 28, 2005

ladrão rouba ladrão

Tem um aspecto interessante nas novas propagandas que o guaraná Kuat está fazendo nas estações de metrô do Rio. Ao invés dos outdoors convencionais, colaram silhuetas de figuras em proporção humana nos espaços vagos da parede. Para quem só corre os olhos, a ilusão de ótica faz parecer que tem alguém ali.

O grande lance é o seguinte: trata-se de uma grande corporação usando uma forma de expressão marginal -- a arte urbana, street art -- para anunciar seus produtos. Adesivar paredes com figuras humanas é uma das típicas expressões de artistas que escolheram ruas, paredes públicas, sucata, ou chão para decorarem com grafites, stencil, esculturas, cartazes, como expõe largamente o Wooster Collective.

Tem inclusive uma ironia aqui. Como se pode ver nos arquivos do Wooster, um dos tipos mais interessantes de street art consiste em fazer interferências gráficas em outdoors, de forma a subverter a mensagem original do anunciante, mormente grandes corporações. É o que se chama de culture jamming e tem sido muito mostrado no Adbusters. Em suma, um tipo de arte com forte coeficiente ativista de sabotagem das grandes corporações. Agora é a vingança da Coca-Cola: depois dos artistas de rua invadirem as propagandas, é a vez de uma grande corporação se apropriar da forma de arte marginal deles -- para fazer propaganda.

Escrito por Rafael | 11:16 AM | Comentários (0)

abril 27, 2005

ócio gaulês

Na França atual, algumas pessoas resolveram parar de trabalhar para viver melhor, com mais tempo para si. Essa opção radical e subversiva, feita por pessoas de ambos os sexos e diversas faixas etárias, implica necessariamente outra: o abandono voluntário da sociedade de consumo. Eles sabem que, ao “parar de perder a vida para ganhá-la”, abrem mão do supérfluo e passam a viver com o estritamente necessário.

NoMínimo, quando acerta, vem para matar.

Escrito por Rafael | 01:24 PM | Comentários (1)

jornalismo (quase) literário, brasileiro?

À medida que se avança na leitura de Cem quilos de ouro, um estranho padrão vai se formando. Você nota a maneira incomum como o sequestrador da reportagem-título julga seu cativo, uma "pessoa sensível, preocupada com o Brasil" e registra algumas falas, "Eu sei que esse sequestro é um acoisa detestável [...] Entrei nessa por puro desespero", além de de perceber uma certa "precupação social" no discurso ("o senhor já entrou em escola pública?") e ética, que recusa uma proposta de suborno. Seria o velho espírito do bom marginal rousseauniano, personagem conhecido do fabulário brasileiro, reencarnando nas reportagens de Fernando Morais?

Em seguida tem O sonho da Transamazônica acabou, quase uma anti-propaganda do governo militar linha a linha, desconstruindo todo o esforço ufanista de Brasil grande, e o Primeiro rascunho de A Ilha. Quando A Ilha foi lançado no Brasil, em meados da década de 70, a repressão tinha atingido seu auge e terminava de esmagar a guerrilha do Araguaia. Cuba prosperava, cevada pela mesada soviética e impressionava essa gente bronzeada; Morais está sinceramente impressionado quando relata que era permitido a noivos em casamento fugir do racionamento, ganhando um passeio de limousine até a Igreja, ou sobre as filas que cidadãos encaravam para ter acesso a quartos em motéis, tanto quando anota que "não existe o moralismo exagerado com que frequentemente se procura caracterizar os regimes socialistas". Hoje, essas afirmações só despertam compaixão, assim como a eficiente medicina pública assume ares de burocrática no relato.

O próximo texto é novamente sobre Cuba, O homem de Fidel na C.I.A., uma história de contra-espionagem de tirar o fôlego, onde se descobre o quanto Fidel Castro era esperto ao infiltrar agentes duplos nos grupos rebeldes, mesmo que para isso fosse necessário esconder a dupla identidade até da esposa (à maneira de Zé Dirceu) e filhos do espião, que passam a conviver com a fama do traidor. Quando se começa a ler A guerrilha na Nicarágua, uma das primeiras reportagens brasileiras sobre os embates entre Ortega e Somoza, o olho já está atento para captar entre as declaraçõs do líder guerrilheiro, "o que recebemos de Cuba é solidariedade política, e só", eximindo Castro de fomentar rebeldes com armas ou logística. Até em República fantasma, curioso relato sobre as vicissitudes de formação da RASD, República Árabe Saarauí Democrática, pesca-se uma declaração de um político local, também perto do fim (coincidência?), afirmando que "há um preconceito segundo o qual todo o movimento de libertação é vermelho". Até o final do livro, o leitor ainda vai ler sobre o ativismo de Frei Betto (numa entrevista que parou na Playboy, Confissões do frade) e saber que o implacável juiz que mandou prender Pinochet "atuava indistintamente em guerrilheiros, ditadores, torturadores de guerrilheiros, traficantes de cocaína, presidentes corruptos, onde quer que estivessem."

Ou seja, mais de dois terços do livro são infestados por proselitismo marxista nas entrelinhas, mais ou menos disfarçado. Eu não tenho nada contra proselitismo de esquerda, contanto que ele ouse dizer o próprio nome. Mas não gosto quando é feito subrepticiamente, sobretudo em grandes veículos de comunicação, como aqueles para os quais Fernando Morais originalmente escreu suas reportagens. Soa a propaganda escondida. É dever de todo consumidor de informação desconfiar de cada linha que lê na mídia, mas quando se publica um livro com o que pressupõe-se que seja o melhor de um dos mais notáveis repórteres brasileiros e ninguém menciona nem sombra desse visível padrão em qualquer resenha, alguma coisa está errada -- nem que seja a pressa das redações.

Fernando Morais faz lembrar, nestas reportagens, aquele atrevido comentário de Tom Wolfe de que, em sua época, a melhor literatura estava sendo feita por jornalistas (e não por escritores); é de se perguntar se sabe prazos apertados e pautas restritas não fariam bem ao beletrismo de certos monstros sagrados brasileiros. Seu texto é fluido, elegante, informativo, leve e, sobretudo, bem estruturado (como o de Gay Talese); quando se atém aos dados e fatos e a costurá-los sem deixar fio aparente, abandonando proselitismo e julgamentos morais (como Talese), é imbatível -- como provam os perfis de Collor (O Napoleão do Planalto e O solitário da Dinda) antes e depois da queda, ou a transcrição do papo de Encontro marcado com Chatô. Pena que Morais teve que amargar uma longa decepção política para chegar lá. Aposto que não cometeu esse tipo de erro em seu novo livro, Na toca dos leões.


* * *

Alguma coisa irrita profundamente enquanto se lê Queda Livre, de Otávio Frias Filho. É o acrófobo que vai pular de pára-quedas, é o sedentário que vai fazer o caminho de Compostela, é cético que vai experimentar a visão do Santo Daime, é o ex-adolescente de tendências mórbidas que vai ser voluntário do CVV, é o tímido que vai participar de uma peça de teatro como ator. Com apenas três ensaios. Dirigido pelo Zé Celso.

Á época do lançamento do livro, foi comum encontrar nos blogs o comentário de que Queda Livre era a experiência gonzo de Frias, por causa do método participativo que adotou para colher os dados. Exagero: primeiro, e principalmente, porque, ao contrário de Hunter Thompson, que corria riscos pessoais, de integridade mesmo (foi espancado por Hell's Angels, para ficar só no mais severo), Otávio mantém sempre um distanciamento crítico de seus objetos, "não se misturando". Mais: Frias não chega nem no nível de um George Plimpton, esportista medíocre que chegou a trocar socos num ringue de boxe e jogou golfe num torneio, fazendo amizade com outros atletas; fica sem ter o que fazer dentro do submarino Tapajós, recusa o misticismo sincrético da seita do Daime, arrebenta os pés de bolhas, andando na Andaluzia. É de se perguntar, afinal, o que aquele sujeito arrumado e culto está fazendo em cada roubada daquelas -- jornalismo de imersão, afinal, não é coisa para amadores. Segundo, porque o estilo dele mal e mal se aproxima do gonzo. Há um capricho de redação e construção do texto que passa longe do caos informativo de Thompson; não são propriamente ensaios, como quer o autor, tampouco reportagens; alguma coisa estranha e desafiadora a meio caminho. Eu gostei muito de ler, sobretudo os capítulos O Terceiro Sinal, Casal Procura, Viagem ao Mapiá e No caminho das Estrelas. Mas não sei se gostaria tanto se estivesse submetido ao cabresto do manual de redação da Folha de São Paulo -- o mesmo que impede que grandes bolações assim sejam publicadas lá.


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Mais jornalismo de reportagem brasileiro? Fausto Wolff em O dia em que comeram o ministro. Claudio Tognolli, vasto arquivo na página dele. Joel Silveira. Para ficar só nos repórteres. Mais jornalismo literário? Aqui.

Escrito por Rafael | 01:09 PM | Comentários (3)

abril 26, 2005

grama baixa

Para quem não notou, Na Cara do Gol desde ontem de grama nova, endereço novo, CSS e web standards (seja lá o que isso for), cortesia da webmistress mais formidável da blogosfera. Agora é só empurrar pra dentro.

Atualização: uma grande abraço ao Almirante Nelson por ter sido o primeiro a linkar o endereço novo!

Escrito por Rafael | 11:06 AM | Comentários (1)

exposições também

henfil do alto da caatinga
Impressionante como o Henfil ficou datado: impossível sair da exposição retrospectiva de toda sua carreira inaugurada há uma semana no CCBB, com direito a matéria no Jornal Nacional e tudo (doutor Roberto é generoso com seus contratados, até além túmulo). Em termos de mostra, uma única sala se mostrou acanhada para receber as centenas de originais guardados pelo filho Ivan. A solução escolhida foi espalhar álbuns e mais álbuns sobre mesas comunitárias para o público folhear; se isso aproxima sobremaneira dos originais, acaba atrapalhando o acesso, porque só pode ser folheado por um de cada vez -- e muvuca é comum no pico. Também achei má escolha dividir a exposição em espaços iguais para Fradim, Graúna, Ubaldo, Orelhão e Outros Personagens; os dois primeiros mereciam maior destaque, exatamente por serem os que melhor sobreviveram ao tempo.

fradimHenfil produzia para o dia seguinte, estava em cima do lance. É sintomática a história da criação do Ubaldo o Paranóico, com Tárik de Souza, num final de semana em Arraial do Cabo -- na semana seguinte, souberam da morte de Wladimir Herzog. Captaram o sentimento no ato. Hoje, Ubaldo é impensável; medo paranóico, só se for de bala perdida ou qualquer outro desses fantasmas da segurança pública -- mas o poder paralelo é suficientemente explícito para gerar paranóia; o que ele gera é medo. Mesmo a Graúna, bode Orelana e capitão Zeferino fazem parte de um contexto muito específico no qual o êxodo para as cidades começava a esvaziar o campo, que se convertia em paradigma do que fosse a carestia. Hoje em dia, com o inchaço dos centros urbanos, a melhor imagem para falar de carestia e más condições de vida seria a favela. Personagens como o Cabôco Mamadô, que administrava o cemitério dos mortos-vivos, e o Tamanduá, que chupava o cérebro dos zumbis enterrados lá, gente conivente com o regime militar -- ou, na visão de Henfil, de qualquer um que se recusasse a criticá-lo sistematicamente, o quase o levou a enterrar Carlos Drummond de Andrade -- são inconcebíveis em tempos de bandas de roque patrocinadas por fábricas de refrigerantes, revistas de celebridades que divulgam casamentos de políticos e empresários corruptos e propaganda eleitoral feitas descaradamente por atores de telenovelas. Piorou o mundo, mas os cartunistas não melhoraram. Faltaria lápide para tanta gente. O que ficou mesmo foi o humor violento, catártico e espontâneo dos fradezinhos Baixim e Cumprido, que capturam facetas inalteráveis do comportamento.


* * *

Aproveitando a proximidade, dei um pulo na mostra do I Festival Internacional de Humor em DST e AIDS, com escalas nas livrarias que Moacy Cirne vive citando, Al Farabi e Folha Seca, nas ruas do Ouvidor e do Rosário. Ótima oportunidade para conferir como o humor fica comprometido toda vez que tenta defender uma causa, por mais nobre que seja. Humor é crítica, é desconstrução; vestir camisinhas em letras i, foguetes, revólveres e tudo que é tipo de símbolo fálico pode ajudar a prevenção mas não é exatamente engraçado. De qualquer jeito, é uma chance de ver cartuns da América Central, Europa Oriental e China em profusão. O melhor cartum mostrava uma fila de dominós derrubados que parava a poucas peças do final: uma delas estava "vestida" com um preservativo. Tradução perfeita da idéia de propagação interrompida.

Escrito por Rafael | 10:49 AM | Comentários (0)

revistas nas bancas

Para quem esperava mudanças, a Bravo! deste mês (Kennedy na capa, ainda nas bancas) enfim traz as esperadas mudanças decorrentes da ida para a editora Abril. A maior parte dos textos curtos foi banido ou enxugado e os ensaios, antes abrindo a revista, agora fecham e se concentram num único assunto. Como o tema era histórias em quadrinhos, o Freddy avisou e eu conferi.

Felipe Hirsch (algum parentesco com o Eugênio?) rememora histórias de Will Eisner e fala sobre a transposição para o teatro de Dropsie Avenue. Sérgio Augusto arrisca indicar um sucessor para Eisner: Art Spiegelman; indicação nem tão arriscada assim quando a gente lembra que são dois judeus, com forte influência cultural européia (o lema da Raw, editada por Spiegelman, era "alta cultura para as baixas inteligências"), um pézinho na alta arte e o desejo de explorar os limites expressivos do meio dos quadrinhos (a diferença é que Spiegelman nunca teve um personagem de sucesso como o Spirit de Eisner, apesar de ter ganho um Pulitzer, o que Eisner nunca conseguiu -- por Maus, devidamente dissecado no ensaio).

O curioso aqui é a lista dos outros candidatos a sucessor: Frank Miller (a mais óbvia, aquém da coroa, entretanto), Howard Chaykin, Lorenzo Mattotti, Enki Bilal, Gehrard Seyfried, François Schuiten, Benoît Peters (qualquer europeu é sofisticado demais para seguir a linha de Eisner), David Sim (será possível que Sérgio Augusto realmente leu Cerebus e escreveu Dave Sim errado?).

O melhor fica para o final, com Gonçalo Júnior cutucando a onça ao recordar a famosa lei de reserva de mercado, que garantiria proporção de 2/3 do espaço para quadrinhos nacionais, defendida por Brizola e nunca promulgada e afirmando que ela era uma forma de "justificar a incapacidade [nacional] de competir com a produção americana": "o Brasil peca no descaso que sempre deu ao processo de produção [de quadrinhos] como um todo". A ferida onde ele coloca o dedo é a falta de boas histórias, o históricos descaso com roteiros apesar de ter havido espaço para profissionalização e competição entre 1950 e 1970, quando italianos e argentinos (Nico Rosso, Colonnese, Zalla) estabeleceram padrão superior; praticamente o único que soube se colocar foi Maurício de Souza.

A Bravo! traz também com um suplemento literário e formato tablóide-jornal, o glacê dos periódicos intelectuais, com resenhas críticas de Hugo Estensoro sobre a tradução do árabe das 1001 noites, Sérgio Augusto sobre Susan Sontag, Daniel Piza sobre o centenário de Einstein, Moacyr Scliar sobre um dicionário de provérbios, o novo livro de Jared Diamond (Collapse), e um ensaio de Salman Rushdie. Nada mal para a primeira edição. Mas eu preferia menos livros e mais música, quadrinhos, artes plásticas...


* * *

Evidente evolução em relação à estréia, o número 2 da revista F. trouxe gargalhadas inesperadas. Arnaldo parece ter encontrado o jeito de Joe Pimp, com excelentes piadas dentro de sua temática, em particular aquela do "Speak Up, biaaatch!". Allan Sieber trouxe de volta as favoritas Bactérias Evangélicas, além da ótima Amargo Despertar. Leonardo sai-se bem com uma história longa, Projeto Paraíso. Percebe-se claramente como a revista foi redimensionada, deixando-se o preto e branco para a entrevista (duas páginas teriam bastado para Mr. Catra) e redirecionando-se as coloridas para EntRevistas em Quadrinhos, agora em 2 páginas e a 4 mãos; é talvez o humor mais interessante da publicação, dessa vez com Diogo Mainardi, Titãs, Bob Esponja e Romário, entre outros. Fabio Zimbres ficou com apenas uma página, mas colorida; as quatro de Schiavon parecem excessivas, mas ele se justifica no pôster. Também muito engraçado o roteiro da fotonovela, com uma capivara chamada Cora, e uma nova página, de convidados, ocupada por contos do 2Uísque. O cartum "institucional" de Sieber é um press release laconicamente perfeito: Revista de humor engraçada? É sério.

Houve um problema de impressão na tiragem inicial que está atrasando a distribuição; segundo o Allan, quem comprou esses primeiros exemplares vai ter direito a um recall.


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Ah, mas o que estou escrevendo... A melhor coisa nas bancas, sem dúvida, é a edição de Gênios da Ciência com Richard Feynman, o homem que ganhou o Nobel de Física e tocou frigideira num bloco de carnaval carioca.

Escrito por Rafael | 09:52 AM | Comentários (4)

abril 25, 2005

23 de abril

Pixinguinha, na foto inesquecível de Walter Firmo

Escrito por Rafael | 01:56 PM | Comentários (0)

abril 20, 2005

quem vem

Deu no jornal: Ronald Russel Wallace de Chevalier, o popular Roniquito, um dos mais folclóricos personagens da história do Rio nas décadas de 60 e 70, vai ganhar biografia. Escrito por sua irmã, a jornalista Scarlet Moon, o livro contará a trajetória do criador da palavra “aspone”. Roniquito foi economista, assessor de Mário Henrique Simonsen, alto funcionário da Globo e boêmio. Seu humor oscilava do sublime ao monstruoso, a ponto de o melhor título para o livro até agora ser “Doctor Roni e Mr. Quito”. Morreu em frente ao bar Antonio’s, no Leblon, seu escritório etílico, atropelado por um fusca. (quem vai gostar de saber é o Alexandre. Ah não, ele implica é com o Hugo Bidet).

E um passarinho me contou que vem ao Rio de Janeiro para lançar na Bienal do Livro, pela Rocco, Eu Sou Charlotte Simmons, o dândi das máquinas de escrever Tom Wolfe (alguém confirma?).

Escrito por Rafael | 12:24 PM | Comentários (0)

navegabilidade

Depois que o Netscape apareceu, ninguém mais lembrou que a internet também podia ser escarafunchada em modo texto (na verdade desde antes, com o Mosaic) e hoje, em tempos de banda larga e acesso ultra-rápido, pouca gente pensa em racionalizar conteúdo de mensagens, tamanho (e quantidade) de imagens em uma página. A partir de certo ponto, o nome do jogo passou a ser navegabilidade, a facilidade de deslocamento -- e de encontrar informação -- do leitor no labirinto virtual. É quando surge a estranha figura do arquiteto de informação, expressão que já me rendeu muitas gargalhadas. Talvez deve ter pensado nisso quem bolou esse joguinho, mistura de investigação de pistas com problemas de navegabilidade.

Escrito por Rafael | 12:19 PM | Comentários (0)

1000 portas

Está na rede mais um projeto literário de bloguistas: A Casa das Mil Portas, idealizado por Nemo Nox e encabeçado por uma penca de gente, entre os quais esse que aqui digita (parece que vai ser aberto a novas colaborações, mas por enquanto, não). É assim: você entra na casa e lê, aleatoriamente, um dos mini-contos de até 50 caracteres, como esses aqui: E (sempre) repetia: é só dessa vez, eu juro. (Crib Tanaka), - Só um pouquinho. - Não, só depois de casar. (Daniel Q.), O plano era perfeito porque tinha uma falha. (Affonso Guerrero), Sou teu inferno astral, disse levantando a saia. (Fernando Serboncini). Os meus? Vão ter que ir lá dar reload até encontrar; só digo que são três.

O legal é que os contos reunidos são contos mesmo, por mais apertado que o formato seja, e não aforismas, versos de música pop, ditados, trocadilhos, haikais, como a maioria do que foi reunido na coletânea Os Menores Contos Brasileiros do Século pelo Marcelino Freire.

Ainda na seara da microliteratura, tem especial 300 Toques no Paralelos. Orra meu, para quem escreve com 50, trezentos é uma lauda...

Escrito por Rafael | 12:13 PM | Comentários (0)

como não?

Depois de mostrar como não ser editado, Lisandro explica como não comprar livros.
Eu adoréi o último item, "peça para embrulharem para presente"...

Escrito por Rafael | 12:07 PM | Comentários (0)

alemão

A Bernardo o que é de Bernardo: Se vocês já achavam que estava ruim com o Polonês no trono, ah, então vocês vão adorar o Alemão. (janeiro de 2005). Ah, a clarividência dos blogs!

Rubinho Barrichello já sabe: o alemão vem aí para acabar com essa farra de coroinha mulher, missa rezada sem ser em latim e hóstia sabor limão, que história é essa agora.

Escrito por Rafael | 12:05 PM | Comentários (0)

abril 15, 2005

Eu e Natalia

eu sou o do lado direito

Eu e Natalia Nara, ex-Big Brother Brasil, capa simultânea das edições deste VIP e Playboy deste mês, ora nas bancas. Foto tirada no dia 18 de março passado, em noite imbuída pelo espírito de Tony de Marco, no Hard Rock Café do Rio de Janeiro, onde comemorava-se o aniversário de nobre amigo meu (não, ela não era uma convidada).

Escrito por Rafael | 03:57 PM | Comentários (0)

avisinhos

1. Alexandre Cruz Almeida manda avisar que agora é Alexandre Castro. O que há num nome? Responde o Noronha:

Fui batizado com um dos nomes mais comuns em minha geração, se bem o(s) sobrenome(s) sejam complicados. Mas sou testemunha do sofrimento de meninos amaldiçoados com nomes como Roniel, Waldomir, Sanderlei, Emmanoel. Se o Brasil fosse civilizado quinêimq os Estados Unidos, esses meninos oprimidos na infância se vingariam à maneira apocalíptica, fazendo chacina na escola ou subindo a um campanário e fuzilando uns 35 Jacks, Bobs, Maries e Susans. Mas não: os Ranulfos e Inocêncios brasileiros sempre dão um jeito de ir parar no governo e extrair vingança muito mais cruel e duradoura.

2. No SoBReCarGa, minha resenha de Elektra Assassina (de Frank Miller e Bill Sienkiewicz), que li pela primeira vez há mais de dez anos, não dei muita atenção e reli, agora que foi relançado.

Escrito por Rafael | 11:58 AM | Comentários (0)

abril 13, 2005

ar frio

ar frio, whrigtson
Uma da smais horripilantes adaptações para quadrinhos da Kripta, o conto Ar Frio de H.P.Lovecraft foi desenhado por Berni Whrigtson no auge do jogo de sombras -- antes, tinha criado o Monstro do Pântano, com Lein Wein e depois ilustraria Frankstein de Mary Shelley e faria Freak Show para a Heavy Metal, mas bom mesmo era aquele preto e branco assustador dos tempos de Eerie.

Escrito por Rafael | 05:10 PM | Comentários (0)

abril 12, 2005

7 coisas que aprendi

7 coisas que aprendi vendo Herói e O Clã das Adagas Voadoras:
1. Todos os chineses voam.
2. Chineses fazem amor vestidos.
3. Chineses sempre se vestem em cores que combinem com o ambiente, levando em conta as mudanças das estações.
4. (Se bem que eu fiquei com a impressão de que padronagens e cortes também servem para identificar quem é quem -- ao menos aos olhos ocidentais).
5. Chineses não têm nomes próprios; emprestam os da natureza, como faziam os índios norte-americanos (Nuvem Ligeira, Touro Sentado, Neve etc.).
6. Todas as armas atingem o alvo em cheio, a menos que os arremessadores não o queiram.
7. Apesar de praticarem artes marciais eximiamente, em cada espadachim chinês se esconde um artista nato: um músico, um dançarino; no mínimo, um calígrafo.

Atualização: Nemo também viu os dois filmes e teve uma impressão bem semelhante à minha.

Escrito por Rafael | 11:08 AM | Comentários (0)

misoginia

[Arrisco, com isso, a comprar briga com todas as leitoras que porventura passem aqui, mas vai mesmo assim] O número 186 do gibi Cerebus chegou como uma bomba nas lojas especializadas. Nenhum personagem morria, não tinha nenhuma virada de roteiro, nenhum artista novo estreiava. É que Dave Sim, editor-roteirista-desenhista-arte-finalista-letrista-respondedor-de-cartas da revista resolvera colocar em palavras -- só em palavras -- um punhado de idéias que andara desenvolvendo de forma meio dissimulada (sob título Tangents), culminando naquele número com uma visão absolutamente radical sobre o que fosse o universo feminino em forma de ensaio. Choveram cartas na redação, onde o termo mais leve (e mais freqüente) se referindo a Sim era misógino. Jeff Smith, criador de Bone, que houvera sido apresentado no Cerebus Preview, rompeu com Dave. Diana Schutz, leitora teste há anos, pediu o boné tempos depois. Gary Groth e os fidagais figadais (obrigado, Ruy) inimigos do The Comic Journal confirmaram: Sim tinha pirado de vez. Gerhard, que fazia os fundos, continuou tão mudo quanto antes. Radical, intransigente, refugiado em seu bunker canadense, Dave Sim ficou ainda mais só. Sempre foi implícito, para este que digita, que qualquer link apontados na cara do gol não tinha seu conteúdo necessariamente endossado por mim e sempre acreditou-se que isso era suficientemente intuitivo para poupar o trabalho de uma declaração por escrito. Mas como patrulhamento é mato hoje, fica aqui para todas as disposições que as idéias de Dave Sim no ensaio Tangents não correspondem necessariamente às deste autor. Nem por isso deixo de indicar aqui.

women love cerebus

Escrito por Rafael | 11:05 AM | Comentários (0)

abril 11, 2005

questão de ordem

Tendo em vista a existência de uma corrente, forte ao que parece, no Vaticano, em prol de um papa latino-americano, questão de ordem que ninguém levantou: e se o próximo papa for argentino?

Escrito por Rafael | 02:13 PM | Comentários (0)

batidão neurótico

Silvio Essinger explica um dos segredos insondáveis da cidade de São Sebastião nos dois parágrafos iniciais dum livro que promete.

Existe o Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro e o Rio de Janeiro. Três cidades que ocupam o mesmo espaço geográfico, mas raramente o mesmo espaço simbólico. O primeiro Rio é aquele que ainda anseia por Ipanemas perdidas, de um tempo em que os amores eram recatados e silenciosos, o povo sorridente e polido, a água do mar cristalina e tépida e a música suave e gingada. Uma cidade do tempo em que o subúrbio era cordial e fazia festas que a Zona Sul, num acesso de boa vontade, vez ou outra aparecia para curtir, mas sem se envolver muito — pelo menos até que acreditasse entender exatamente o que
estava acontecendo. O segundo Rio é a terra de ninguém, trombeteada nos noticiários de TV, em que cada esquina é um Vietnã ou Iraque e não há lugar seguro para correr. Uma cidade de favelas que cercam os redutos de cidadania, favelas dominadas por traficantes e demais bandidos que cada vez mais freqüentemente transbordam para o asfalto a sua violência. É um Rio em guerra aberta e quente. Uma guerra que, na opinião de muitos, deveria ficar restrita aos limites da favela — local onde esses mesmos muitos, exceto por razões de extrema necessidade, jamais pisariam em toda a vida.

Mas há ainda um terceiro Rio de Janeiro. Aquele de quem anda de ônibus, compra nas bancas os jornais populares, zanza pelo camelódromo, permite-se um churrasquinho de gato com cerveja na esquina e sabe que existem muitos matizes entre o preto e o branco, a favela e o asfalto, a lei e o crime. Uma cidade que se reinventa a cada dia no ritmo vertiginoso da revolução tecnológica e que não recusa aquilo que o século 21 lhe oferece. Cidade de pessoas que, seja qual for a cor e a classe social, andam para lá e para cá com celulares, rádios minúsculos, CDs piratas ou não e DVDs idem. Gente que assiste à TV por assinatura e que se nega a ceder à nostalgia e à prisão voluntária em formas antiquadas, mas comprovadamente brasileiras — e, por isso, teoricamente mais legítimas — de expressão. É uma cidade que pode ir do samba de roda à techno music, da umbanda ao padre pop, do grito para a casa da vizinha à internet num microinstante. É o Rio de Janeiro que, musicalmente, não cabe mais no compasso da bossa nova — por mais que alguns tenham tentado aditivar eletronicamente o seu balanço — e nem no chamado samba de raiz, cultuado por setores jovens da classe média, mas definitivamente trocado pela grande massa pelo flexível pagode romântico, que assume sem preconceitos as formas úteis de toda a música popular, seja ela o rock, o sertanejo ou o pop negro americano.

batidão

Escrito por Rafael | 11:12 AM | Comentários (0)

mais salão no sobrecarga

Desde sexta-feira passada, a segunda parte do meu artigo sobre o XVI Salão Carioca de Humor está no SoBReCarGa. Um obrigado especial ao Roberto Figueredo por ter encontrado a caricatura primeiro lugar e o link para os premiados.

Escrito por Rafael | 11:05 AM | Comentários (0)

esse mau hábito

[Outra coisa é que eu não perco esse mau hábito de trazer pra cá uma crônica do Ivan Lessa de vez em quando. Dessa vez, aprende-se Como Apreciar um Quadro. Em tempo: eu sou dos que consegue ficar 4 horas apreciando um quadro ou escultura, mas peça-me para escutar uma sinfonia ou ópera...]

Basta dar um feriado que cismam de me levar a um museu ou galeria de arte. Este ano, quiseram me empurrar para a exposição de Caravaggio, na National Gallery, ou a de Turner, Whistler e Monet, na Tate Britain.

Pela enésima vez, expliquei que na minha sopa genética faltara um ingrediente vital: aquele que leva o indivíduo à apreciação do pictórico. Bati perna por museu afora, por este mundo de Deus e de seus Da Vincis, achei tudo muito bonito, mas não via a hora de poder sair dali e fumar um cigarrinho.

Deixei de fumar, deixei de parar diante de quadro célebre. Nada senti diante da Odalisca de Matisse. Ou Guernica, de Picasso. Não me gabo. Nada alardeio. Apenas admito minha insensibilidade. Aprendi a conviver comigo mesmo e mentir o mínimo possível para poder atravessar o dia.

Na verdade, até há alguns anos (e que isso fique entre nós), eu não podia me ver diante de obra pictórica de renome – a Mona Lisa, digamos – que só sentia uma coisa: vontade de tomar distância, vir correndo e dar uma cabeçada na dita cuja. Que fique claro: não era minha intenção ganhar espaço na imprensa mundial. Era algo inexplicável que vinha lá do fundo de minha alma. Assim como não deixar de tacar mais uma colherada na lata de leite condensado.

Fico sabendo agora que um dos mais profundos filósofos britânicos da história da arte, Richard Wollheim, escreveu, certa vez, que a única maneira que conseguia apreciar um quadro, uma pintura, era ficar paradão diante dele durante um mínimo de quatro horas, que só assim poderia usufruir dos prazeres de uma obra.

Ora, não é bem assim que, feriado ou não, se vai a exposição de arte, aqui na Grã-Bretanha, ou no mundo. Todos têm que passar, olhar para o bruto pendurado na parede, e seguir logo em frente, que atrás vem gente.

Mais terrível, para mim, é o percurso feito com guia falando alto, gesticulando e explicando tudo o que nasceu para ser inexplicado. Diabólicos mesmo são aqueles aparelhinhos com a visita pré-gravada em fita que as pessoas ouvem como se fosse CD de rock.

Toda arte custa uma fortuna e o único lucro é financeiro, para quem é marchand ou acabou de achar um Monet no sótão.

Todos nós – eu, principalmente – merecemos uma boa cabeçada nos peitos, que é para deixarmos de ser bestas. Arte é para quem pode, ou acha que pode.

Escrito por Rafael | 11:01 AM | Comentários (0)

abril 08, 2005

micro-exposição: jaguar, Millôr, Borjalo

As retrospectivas de 80 anos de vida de Millôr Fernandes (com direito a relançamento fac-similar da revista O Pif-Paf), de 70 anos de vida do Jaguar e a mostra póstuma do Borjalo constantes do XVI Salão Carioca de Humor foram super tocantes para quem acompanha ou, no mínimo, aprecia o chamado humorismo gráfico. Nem falo do Lan porque já perdi a conta de exposições que fizeram dele, e dificilmente alguma superará aquela do MNBA em meados dos anos 1990. Por isso, mini-homenagem aos 3 nessa nota.

::: Jaguar:

ciclope vesgo

dinheiro é psicológico

::: Millôr (uma charge e um texto):

eu não encano

Enfim esta seção [o Pif Paf] responde a algumas das terríveis perguntas que vêm sendo feitas a milhares de anos sem que ninguém jamais se atrevesse a respondê-las!

P - Você sabe com quem está falando?
R - Com um imbecil que tem mania de ser importante.

P - Você pensa que eu sou um dêsses idiotas que andam por aí?
R - Não. Eu penso que você é a criatura mais idiota que eu já vi na minha vida.

P - Quantas vêzes eu já lhe disse que não quero você no meio dessa molecagem?
R - Se não me falha a memória, 12337.

P - Mas, que diabo, o barulho dessa construção não vai para nunca mais?
R - Vai sim. Vai parar às quatro horas, como aliás todos os dias, quando os operários forem embora. E vai parar daqui a um ano ou dois, quando o edifício estiver construído.

P - Você está querendo levar uma boa surra quando seu pai chegar?
R - Não senhora. Estou tentando apenas fazer as coisas que me dão prazer mas que naturalmente entram em conflito com os interêsses da senhora.

P - Desde quando mulher manda nesta casa?
R - Embora você só o perceba agora, desde que nos casamos.

P - Quem foi que lhe ensinou essa palavra?
R - O senhor mesmo, no domingo, quando bateu com o martelo no dedo.

P - Quando é que você viu um menino de sua idade tratar asssim as pessoas mais velhas?
R - Sempre.

P - Onde é que você andou até agora?
R - Eu não andei. Estava sentado no bar, enchendo a cara.

P - Mas, por que essas coisas só acontece comigo?
R - Porque você é muito mais estúpido do que o resto da humanidade. Ou tem mais azar.

P - Você acha mesmo isso ou está dizendo só pra me agradar?
R - Estou dizendo só pra lhe agradar.

P - Você alguma vez já me viu ficar irritado assim?
R - Êste ano só 240 vêzes. Mas é que estamos em agôsto.

::: Borjalo:

repouso
o caçador de borboletas
delicadeza

(Mais cartuns do Borjalo aqui)

Escrito por Rafael | 10:28 AM | Comentários (0)

acabou o racionamento

Daniel Galera trouxe de volta o Rancho Carne. Ipiaiou.

Escrito por Rafael | 10:04 AM | Comentários (0)

acabou o racionamento

Daniel Galera trouxe de volta o Rancho Carne. Ipiaiou.

Escrito por Rafael | 10:04 AM | Comentários (0)

notas sobre o Primeiro episódio do Mano a Mano

Primeiro episódio do Mano a Mano ontem, na Rede TV. Acho que a maior barreira que o programa vai ter que ultrapassar para alcançar sucesso vai ser mesmo a do formato: acostumar o público televisivo ao humor de sitcom. Mesmo humorísticos recentes como Os Normais ou Os Aspones, que beberam naquela fonte, fugiam ao formato padrão aqui e ali. Mano a Mano, não: o roteiro casa direitinho com o que passa na tevê a cabo. Quando falo em barreira, é por causa do volume de piadas por minuto ser muito maior do que em qualquer programa tradicional (A Praça é Nossa, Zorra Total), o que teoricamente implicaria numa capacidade de assimilação mais rápida. Em nível de qualidade, as piadas estão em posição igual a de qualquer programa inovador (Casseta & Planeta Urgente, Pânico), numa comparação um bocado forçada, já que são formatos diferentes. Mesmo assim, é difícil ver achados como "estou escondido aqui nesse buraco, que nem o Saddam", "já vi quarto de empregada em casa de patrão, mas quarto de patrão em casa de empregado é a primeira vez!" ou "é melhor não ir para debaixo da ponte, o senhor está devendo para o empreiteiro" entre as opções atuais; no mínimo, Mano a Mano abre espaço para um novo ritmo de fazer e de contar humor, apropriado para a tela pequena. Nesse sentido, destaque para a cena da bala perdida, perfeita. Isso em relação ao formato do roteiro. Quanto a direção e atuações, fica a impressão de que ainda há acertos para a harmonia do elenco; o tom das atuações é irregular. Leandro Firmino parece já ter encontrado o seu, mas Kenya Costa atua como se estivesse em uma novela e mesmo que exista espaço para tiradas verbais mais escrachadas, os momentos de pastelão de Silvio Guindane ficam desencontrados. Os produtores devem ter entendido que humor não tem fronteiras, o que liberou para piadas contra rico, pobre,
bicha, mulher -- tudo leva a crer que conseguirão fazer piada contra negro, que é a cor de metade do elenco. Embora o conceito básico (rico arruinado que vai morar entre pobres) não seja inovador -- já foi explorado inclusive em novela da Globo -- alguns pontos são interessantes: ação passada numa favela (na Globo, seria subúrbio, "núcleo pobre"), o mordomo ter se mudado junto (boa "escada"). Vejamos o que os próximos episódios nos prometem.

Escrito por Rafael | 10:02 AM | Comentários (0)

abril 05, 2005

Cão come Cão, de Edward Bunker: I fought the law and the law won

Uma vez eu escrevi um artigo sobre o fumar, que terminava com a observação de que eu, pessoalmente, não fumava. Não era bem um artigo; era mais uma colagem, uma costura de citações e informações acerca de fumar que eu obtivera em relatórios para acionistas da Souza Cruz e juntara com crônicas de Rubem Braga e Millôr Fernandes. Todo mundo gostou. Quase ninguém acreditou que eu não fumava, depois de ler.

Aquele artigo me ensinou uma coisa fundamental, não sobre fumar, mas sobre a escrever, que é o seguinte: existe uma diferença intransponível entre quem sabe escrever e quem não sabe, e essa diferença pode ser resumida desse modo: quem sabe escrever tem o poder de enganar quem não sabe. Um poder que não é absoluto, mas é tão amplo e tão vasto que quem não sabe, não tem a menor idéia do quanto pode ser enganado. Pior: em geral, gosta de ser enganado. Pede mais. Porque não tem idéia do tamanho do logro, e sequer lhe passa pela cabeça que pode estar sendo logrado. Eu não fumava, nunca fumei, mas fiz, meio sem querer, todo mundo acreditar na minha intimidade com filtros e fumaça.

Lembrei dessa história quando li a introdução de William Styron para o livro Cão come Cão, de Edward Bunker. Styron começa afirmando que não haveria área da experiência humana onde a imaginação não conseguisse, literalmente, chegar. Para defender sua tese, cita a África de Saul Bellow em Henderson the Rain King, a guerra de Stephen Crane em The Red Badge of Courage -- nenhum deles houvera viajado até o continente negro ou sido combatente, entretanto. Todos enganadores, sofisticados enganadores de leitores, com seus enredos intrincados e descrições tortuosas, elevando os efeitos que eu conseguira no meu artigo sobre cigarros à categoria de arte. William Styron se pergunta, então, se haveria algum lugar inatingível pela imaginação literária, e conclui que sim: esse lugar seria o submundo do crime norte-americano (a edição original é de 1996). Tudo isso para preparar o leitor para o raro relato de um legítimo representante do submundo, Edward Bunker. Ao menos esse, não era um enganador.
cão come cão
Fiquei imaginando o efeito cômico que essa introdução de Styron provocaria se aplicada a um romance policial nacional, haja vista a quantidade de escritores que situa suas narrativas, ainda que parcialmente, na sarjeta, no submundo. Seriam todos, ao menos de passagem, marginais? Ou seria tudo um imenso teatro para provocar o leitor? O questionamento é tão crucial que foi uma das bases de outro artigo meu, Quixotes de Bukowski: para escrever como Bukowski, não seria necessário levar uma vida como a que ele levou? Ou sua essência poderia ser captada (que seja parcialmente) através da literatura -- como eu fizera, aliás, com o ato de fumar -- prescindindo da experiência em si? A resposta brasileira a essa pergunta, é que sim, mimetizar a vivência marginal era suficiente para encantar os leitores -- pelo menos era o que eles respondiam nas vendas e na popularidade do gênero. Os leitores parecem demonstrar uma predisposição para serem enganados, contanto que bem enganados; era o que essa análise rápida, somada ao caso dos cigarros me fazia concluir.

A quantidade de títulos nacionais envolvendo histórias de submundo é enorme e, no entanto, quantos seriam os escritores brasileiros com passagem relevante pela marginália, mesmo que num passado distante? Rubem Fonseca. José Louzeiro. Antônio Fraga (muito mais marginal do que escritor). Quantos mais? Quantos poderiam ser alinhados a Edward Bunker na linha dos não enganadores?

Alguma coisa não fechava naquele raciocínio. O sucesso da literatura mundo-cão por aqui se daria mais por afinidade do público com aquela temática do que por conhecimento de causa dos escritores. A questão é que não basta ludibriar o público, fazendo-o crer na suposta intimidade do autor com os assuntos sobre os quais discorria ("tenho vontade de escrever um romance erótico só para todo mundo pensar que eu sou vivido", apud Alexandre Soares), como também não basta conhecer por saber próprio o assunto sobre o qual se falava. É preciso algo mais, algo que Styron, malandramente, menciona só depois na introdução, sem frisar sua importância para a boa escrita: técnica literária. Ed Bunker não apenas conviveu com gangsters, meliantes e traficantes. Não adquiriu somente aquele tipo de conhecimento específico do submundo que lhe serve agora como credibilidade, do tipo abrir um corte no dedo para misturar sangue na amostra de urina do hospital, de modo a forjar um problema de saúde muito mais sério, e prolongar a estada no hospital, ou mesmo o conhecimento mais genérico de como são seus mecanismos internos -- Gay Talese já mostrara, em Honor thy Father, ao contrário da percepção média, que não acontecia muita coisa no dia-a-dia da máfia italiana, onde se passava a maior parte do tempo ociosamente lendo jornais e fumando cigarros. Na década em que passou na prisão, Edward Bunker aprendeu isso e ainda devorou clássicos e mais clássicos que lhe balizaram a qualidade de seus escritos. Ele gastou suas horas ociosas aprisionado lendo e escrevendo furiosamente.

Cão come Cão é um grande romance não apenas porque ele esteve perto de gente e situações como as que descreve, mas porque sabe como descrevê-las. Ele tinha a rara combinação entre técnica literária e vivência, sem a qual o texto passa aquela suave e intragável sensação de impropriedade, de que o escritor, por mais palavrões que use, no duro, no duro, não sabe do que está falando. Não tem a menor idéia. Está tão horrorizado quanto seu leitor com aquele festim diabólico que acabou de descrever; talvez um pouco mais, pela vanglória de ter conseguido pôr aquilo no papel.

Naquele momento, lembrei-me subitamente de que, embora eu não fumasse, sempre tive contato com parentes e amigos fumantes inveterados; se fumar não fazia parte da minha experiência pessoal, certamente fazia do meu universo sensorial próximo -- eu conhecera desde cedo hábitos e manias de fumantes, e aquilo transpareceu em meu artigo. Fora o que me permitira demonstrar a propriedade, naquele assunto específico, que tantos escritores não conseguem, sobre a vida marginal. A propriedade, que é uma das maiores -- quase caio na tentação fácil de escrever "a maior" -- qualidades de seu texto. A técnica é a outra.

A técnica de Bunker faz crer que, se ele não escrevesse sobre marginais, ainda assim escreveria grandes livros. O que há de genial no estilo de Bunker é a maneira como ele descreve cenas de ação, sobretudo aquelas cenas curtas onde a ação parece estar vindo de todos os cantos, e você fica correndo os olhos pela tela, ops, pela página para (tentar!) acompanhar, porque as consequências se misturam com os atos. A lembrança de cinema, Tarantino, é inevitável -- há um referência a Pulp Fiction em Cão come Cão, Bunker atuou em Reservoir Dogs -- mas Bunker é anterior, e independe de uma câmera. Note como ele joga com os diversos planos, evoluindo de maneira improvável com uso exemplar de verbos no pretérito perfeito para denotar ações de curta duração já encerradas:

Ele deu uma olhada em torno do quarto. Ficava no segundo andar e podia-se ver o lance de escadas que dava para a rua. As coisas estavam numa bagunça dos diabos. Jornais, meias, roupas e lençóis se espalhavam por todo o aposento. Tinha jogado os lençóis para longe quando o cigarro caiu de sua mão e o colchão começou a fumegar. Estava vendo o Trailblazers arrebentar o Lakers quando sentiu o cheiro da fumaça. A água dos peixinhos dourados não conseguiu apagar o fogo. Teve de cortar o colchão e arrancar o algodão fumengante. O buraco agora estava coberto com uma toalha, mas o cheiro ainda impregnava o quarto. O que diria Sheila quando chegasse em casa?

No cinema, consegue-se esse efeito com cortes rápidos, ou chicoteando a câmera, em ziguezague. Nos quadrinhos, dividindo-se a página em quadros verticais finos, o que acentua a sensação de passagem de tempos curtos. Em literatura, é muito mais difícil reproduzir esse efeito apenas com palavras. Bunker não faz só isso; abre espaço para comentar as características das armas de fogo; pára a ação, seguindo uma bala enquanto ela atravessa os tecidos do corpo, indo se alojar em algum osso -- parece um daqueles efeitos especiais de Matrix, mas é literatura; mostra o que está se passando na cabeça de cada envolvido no tiroteio; dá voz aos diálogos. Tudo isso sem fazer cinema escrito; você não tem dúvidas de que está lendo um livro e não um roteiro.

Mais uma ou duas coisas. Bunker tem bagagem cultural, tem leitura, e não se incomoda em usá-la numa referência que encorpe o texto. Sem afetação: não se envergonha de ser um ex-marginal culto, exatamente o erro que Bukowski cometia. No capítulo em que apresenta o passado de Troy, cita a Bíblia, Complexo de Édipo, Rudyard Kipling, Dostoievski, Kafka, Francis Bacon e Darwin. De vez em quando, encaixa uma frase inesperadamente erudita num parágrafo corrido (o título de seu primeiro romance, No Beast So Fierce, é retirado de uma citação de Shakespeare). E faz isso sem se deslumbrar com a própria erudição, erro de quase todos os (pseudo-)marginais convertidos a literatos brasileiros, e ao mesmo tempo sem ficar chorando pitangas da vida estúpida que levou. Quantos marginais de salão seriam capazes de uma análise estética sem condescendência como essa:

Freqüentemente se perguntava por que aqueles que viviam fora da lei costumavam adotar um estilo que os assinalava. Mesmo agora, jovens marginais vestiam calças muito largas e camisetas folgadas, bonés voltados para trás e deixavam os cordões dos tênis desamarrados. Os filhos da burguesia imitavam esse estilo, mas suas origens vinham da escola correcional, onde as roupas eram fornecidas sempre acima do número, e para a polícia levantavam a mesma suspeita hostil que roupas espalhafatosas e penteados rabo-de-pato despertavam duas gerações antes.

Delinqüente, para ele, é caso de polícia e fim de papo, mesmo que ele se negue a fazer um comentário positivo que seja sobre o sistema correcional. Bunker sabe que o caminho do crime é sem volta, então corre de levar a bandeira de herói que foge do sistema; se o sistema é corrupto e injusto ao criar seus próprios vermes, e ao perpetuá-los em carceragens desapropriadas e polícias destreinadas, não são menos injustos os que conseguem sobreviver à sua margem, driblar seus estatutos, fugir de suas leis -- méritos nessa corrida da sobrevivência à parte.

É essa atitude independente que faz seu texto diferente, porque crítico, sem lados. Bunker sabe que a vida é circunstância, que transgredir a lei pode ser o que resta quando o sistema falha, e mais: que a ética não desaparece do lado de dentro dos muros da penitenciária; se converte num tipo muito específico, ainda que facilmente reconhecível, a ética do crime, como qualquer um que já viu um filme sobre a máfia, sabe. Bunker sabe que viver sempre à margem das leis é mais falta de opção do que opção, e por isso não deve ser vista como heroísmo. Mas talvez ele só tenha chegado a todas essas conclusões porque não morou no Brasil...

No fim, é uma sociedade muito esquisita essa que valoriza e cultua o conhecimento de quem desobedeceu suas fundações e escapou para contar a história, até dependendo de gente assim para, como é que se diz, evoluir. Gente como Edward Bunker.

Escrito por Rafael | 11:56 AM | Comentários (0)

abril 04, 2005

sin city: do papel para a tela, sem storyboard

O lugar-comum "semelhança assombrosa" adquire novos significados a partir da estréia do filme Sin City, baseado no substrato homônimo em história em quadrinhos. O conceito de "fidelidade" na transposição de meios também terá que ser revisto, mesmo considerando-se que Frank Miller sempre dialogou com o cinema em seus gibis. Uma coisa é você identificar que aquele plano em que o Homem-Aranha cala a boca do J.Jameson com um jato de teia é igual a um quadrinho desenhado pelo John Romita na década de 60. Outra coisa é isso aqui (as imagens foram agrupadas por história em que se basearam: Big Fat Kill, That Yellow Bastard, Dame Wore Red etc).

sin city na tela e no papel

Escrito por Rafael | 01:37 PM | Comentários (0)

abril 01, 2005

abram alas para o outono

E antes que me esqueça: o outono não esperou nem um pouquinho para chegar, abrindo a última terça-feira com o céu naquele tom azul-sem-nuvens que não existe em nenhuma piscina de Hockney, em nenhuma tela de Degas e em nenhuma fotografia de LaChapelle. O calor não é mais de fritar miolos e os dias são os mais agradáveis do ano. Aleluia.

Escrito por Rafael | 03:11 PM | Comentários (0)

pre-datados VII

cheques pre_datados

Escrito por Rafael | 09:55 AM | Comentários (0)

XVI salão no sobrecarga

No SoBReCarGa dessa semana, as principais homenagens do XVI Salão Carioca de Humor: exposições de Lan, Millôr e Borjalo. Semana que vem falarei do grande homenageado, Jaguar, e dos vencedores em cada categoria.

Ainda mais: as páginas de uma improvável homenagem a Bill Watterson na revista do Homem-Aranha!

Escrito por Rafael | 09:54 AM | Comentários (0)

flávio

Demorei tanto a escrever sobre o Flávio que o ALLLexandre acabou indo antes.

Flávio de Almeida, ou simplesmente Flávio, até uns 15 anos atrás era uma assinatura razoavelmente conhecida por mim; eu sabia que ele fazia cartuns para a revista Mad, mas também sabia que ele tinha ganho um Salão de Piracicaba com uma história em quadrinhos. Alguma coisa me dizia que ele era mais do que um rabiscador de humor. Acho que a primeira vez que eu vi o Flávio foi na Bienal de Quadrinhos em 1991, mas ali não vale porque o stand da Mad era a maior aglomeração de gente esquisita que eu tinha visto.

No ano seguinte, minha intuição se provou correta, quando o Flávio bancou uma publicação independente: Dasdô. Muita gente andou fazendo isso naquela primeira metade de década, foi um período rico e o ele resolveu colecionar suas tiras da Dasdô num gibi, mas a surpresa estava num personagem que misturava nostalgia, violência e claro-escuro, Realeza. Era o chamado quadrinho adulto. Acho que foi naquele lançamento que eu soube que o Flávio lia Cerebus.

Anos depois eu fazia um fanzine, tinha ficado completamente sobressaltado quando li Cerebus (sensação que não se atenuou de todo, mais de dez anos depois), e resolvi escrever para ele, pedindo um texto, já que parecíamos ser os únicos moradores da cidade que sabiam quem era Dave Sim. Correio mesmo, snail mail, funcionava que era uma maravilha para esse negócio de fanzine. Semanas depois, chegou o depoimento dele, revelando como o deslumbre de sua descoberta fora muito semelhante ao meu.

Dali para diante a gente ficou mais próximo, e de vez em quando se esbarrava numa exposição, num lançamento, numa mesa dividida com o Marcelo Martinez ou o Ota. Ele insistiu duas vezes com outros gibis, Realeza e outro cujo nome não lembro nem à força. As dedicatórias sempre vinham personalizadas. Gente que se conhecia de nome.

Com o definhamento da Mad, achei que nunca mais teria contato que não fosse esporádico com o Flávio, até que descobri que ele tinha um blog, logo no Gardenal. E que, ainda por cima, estava apontando pra cá. Não sei, mas sempre que eu penso no Flávio eu lembro daquela história que ele é o Forrest Whitaker branco: um cara grande pra burro, meio assustador, mas se você olhar de perto, vai ver que é um tranqüilo sangue bom.

Escrito por Rafael | 09:48 AM | Comentários (0)