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janeiro 30, 2006

Riders and hipsters

Terminei de ler Easy Riders, Raging Bulls por esses dias. Aguardei praticamente desde que o livro foi lançado, há quase dez anos. É ainda melhor do que eu esperava, com o contexto histórico da Hollywood do final dos anos 60 que permitiu a ousadia artística da geração de Scorsese, George Lucas, Spielberg, Bogdanovich, Friedkin. Coppola é uma espécie de fio condutor, que está lá desde antes, dá uma força para essa geração aparecer, torna-se sua primeira estrela com O Poderoso Chefão e quem primeiro enxerga seu fim prematuro, consumida pelo excesso de poder e abuso de drogas. Muitas historinhas de alcova, Dennis Hopper quase é esfaqueado e quase esfaqueia uns 3, a mais engraçada de todas é saber que o nerd Steven Spielberg quando começou a se enturmar com essa galera usava calças boca-de-sino -- com vinco. Sai-se do livro com um certo ressentimento de Spielberg: por ter jogado a pá de cal, mesmo que involuntariamente, ao criar o blockbuster com Tubarão, terminando um trabalho que fora iniciado por O Exorcista e O Poderoso Chefão; por ter se isolado do resto da turma e ficado indecentemente rico; por ter passado praticamente incólume pela orgia de drogas e sexo que, por exemplo, transformou Francis Coppola em outro homem (ele conta que o diretor do primeiro Chefão morreu em algum lugar da Ásia, durante as filmagens de Apocalipse Now); em suma, por causa de seu sucesso sem máculas. Como ficou claro depois do final da trilogia, Lucas entregou os pontos com o estouro de Guerra nas Estrelas e vestiu a capa de Darth Vader, passando para o lado negro. O livro é imperdível.

Em diversos momentos da leitura me lembrei com exatidão daquele magnífico fim de tarde em que me preparava para ir embora de San Francisco, quando escutei alguém falar em Star Wars após atravessar a rua em frente à City Lights. Virei a cabeça e vi Francis Ford Coppola servindo vinho para um amigo, exatamente debaixo do quartel-general da Zoetrope.

Agora ataco o volume que Cardoso teria escrito senão tivesse feito uma monografia de fim de curso apressada: From Hipsters to Gonzo.

Escrito por Rafael | 10:13 PM | Comentários (1)

Aspas para Ram, grifos meus:

Muita gente boa por aí acha que “exposição internacional” é meramente viajar de férias para a França ou para Nova Iorque. Pode até ser um primeiro passo. Mas a verdadeira exposição só acontece quando nos envolvemos com a vida local. Quando você tem a oportunidade de trabalhar na França, ou de fazer um projeto no Peru, ou de colaborar com uma universidade norte-americana.

Isto é exposição internacional. O resto é meramente uma disneylândia mental, feita por prazer - óbvio - e que tem em seu maior mérito promover o relaxamento mental e físico. Algumas vezes até inspira algumas pessoas. Mas é raro. Para se inspirar tem que se sorver. E só se sorve vivendo, trocando idéias, observando as diferenças no pensamento entre o próprio e a cultura local, e aprendendo com o melhor que cada indivíduo de cada país pode lhe oferecer.

Lhes digo, se puderem enviem seus filhos a um intercâmbio ou um curso no exterior, façam um curso no exterior, de qualquer coisa, em qualquer lugar, da Argentina aos States, na França, na Inglaterra, anywhere. É uma experiência sem preço, e que também dismistifica um pouco tudo que vem de fora. Ao mesmo tempo, passamos a dar valor as idéias realmente boas dos lugares aonde fomos. E quem sabe não trazemos uma pitada daquilo para a nossa própria vida no Brasil.

Talvez ele estivesse pensando em mim quando escreveu isso. Minha única ressalva ao texto é que ele deveria ter deixado ainda mais claro como deve ser o envolvimento local. Canso de encontrar brasileiros, jovens em idade universitária que tomam emprestados 6 meses, 8 meses da faculdade ou que abrem um parênteses no mercado de trabalho para vir aqui "estudar inglês". No fim das contas, fazem um curso tranquilo (não vi ninguém se queixar de carga de estudo até agora), saem arranhando um inglês razoável, sem dúvida melhor do que a nulidade que tinham quando chegaram -- para os que já conheciam o idioma minimamente, tratam-se de pouco mais do que umas férias estendidas. Intercâmbio? O que esse povo vai saber sobre a cultura australiana? Quantos museus vistou, quantos livros leu? A influência é mínima, até porque continuam convivendo entre brasileiros, falando português e sentindo saudade do feijão. Os bicos de meio-período lavando pratos ou recolhendo copos não podem ser qualificados como "um trabalho" ou "desenvolver um projeto"; é a mão de obra mais barata e vazia que se pode conceber, feita exclusivamente para manter o sistema funcionando. Saem como entraram, mais a grana de algumas semanas de aluguel. Viaja-se 40 mil quilômetros, muda-se de hemisfério. Mas a cabeça ainda está em Araraquara.

Escrito por Rafael | 09:58 PM | Comentários (0)

janeiro 29, 2006

Australianas

Final de semana cheio de programas típicos da Costa Oeste australiana. No sábado de manhã me mandei para Fremantle na vã ilusão de visitar o veleiro Brasil 1, participante da Volvo Ocean Race ora em curso, e quem sabe engrossar a torcida pela tripulação. O barco tinha quebrado o mastro principal na última perna da regata e decidiram parar num estaleiro daquele porto para desmonte, onde chegaram na tarde de quinta-feira. Como dia 26 de janeiro é um daqueles feriados de fechar o país, desisti e acabei só encontrando tempo no sábado, mas a essa altura o veleiro já estava a caminho de Melbourne, por terra. Acabei aproveitando para visitar os mercados de Fremantle, uma mistura, por incrível que pareça harmonioso, de vendinha de frutas e verduras, especiarias e produtos artesanais (chás, temperos, ervas, mel, bolos), badulaques esotéricos, souvenirs australianos autênticos como chapéus de couro e outros made in China e guloseimas para consumo imediato, como o bratwurst hotdog que tracei enquanto corria os olhos por uma estante de chás digestivos.

No domingo, caí na primeira armadilha para turistas desde que cheguei aqui: SciTech, uma espécie de playgroung de experimentos científicos "para crianças e adultos". Armadilha porque podia ser mais do que apenas o playground; tem uma ala semelhante dentro do Deutsches Museum quase do mesmo tamanho, onde nenhum dos experimentos está quebrado, ao contrário do SciTech, e a impressão que fica é que certos experimentos não são divertidos nem para crianças, sem a supervisão de um adulto, nem para adultos que não tenham um conhecimento ou gosto para a física básica. De qualquer maneira, foi divertido ver as ondas de som se formando no tubo com as bolinhas de isopor.

De noite, encarei o Burswood outdoor cinema, um telão exposto num dos muitos gramados do parque Burswood, à esquerda do cassino e do hotel. Inocentemente, achei que ia encontrar várias cadeirinhas dobráveis, do tipo que eles levam para fazer piquenique. Ledo engano, o povo aqui é profissa nesses lances de vida ao ar livre: estendem na grama um cobertor, por cima vai um edredom daqueles bons de se enroscar, almofadões e pufes para encostar a cabeça e os mais especializados levam até um farnel para forrar o estômago durante o filme. Eu me contentei com um chocolate quente e um saquinho de macadâmias adquirido no mercado. O filme? Rise, um documentário de David LaChapelle sobre um tipo novo de street dance que se desenvolveu nos bairros pobres de Los Angeles, cheio de movimentos desconexos e de cunho sexual. Tipo de coisa que até me chamaria a atenção se eu não tivesse ouvido falar em baile funk há mais de 5 anos e dança da boquinha da garrafa, há mais de dez.

Escrito por Rafael | 11:25 PM | Comentários (0)

janeiro 26, 2006

Ozzie-ozzie-ozziiieee

Ontem foi Australia Day, o 7 de setembro deles, o dia da patriotada, de comemorar tradições australianas como o torneio de tosquear bezerro ou a disputa para ver quem serra tronco gordo mais rápido, como anunciava o centro de entretenimento The Shed. Brasileiros deslumbrados com o orgulho patriótico australiano se confessavam decepcionados por não encontrarem nada semelhante no Brasil; em geral quem faz esses comentários são os mesmos que ficam revoltadinhos quando a Austrália invade outro país, como se fosse possível separar os dois patriotismos. Um chegou a me dizer que aquele ardor -- todo mundo usando roupas com a estampa da bandeira, ou as cores da bandeira ou amarelo e verde, as cores da seleção de cricket e de futebol. Quem não estava usando era estrangeiro -- só existia porque a Austrália era um país jovem, como se houvesse alguma diferença entre os 500 anos de Brasil e os 200 deles para fins históricos... A queima de fogos, sintomaticamente, foi mais espetacular e mais duradoura do que a do ano novo, estendendo-se por intermináveis 25 minutos de patriotic pride, assistidos por espectadores impassíveis e bem comportados, que não fizeram zoeira e voltaram organizadamente para casa. Fiquei num BBQ entre compatriotas expatriados, que esperaram os nativos livrarem a churrasqueira para usá-la, apesar do convite entusiasmado: "it's fucking ozzie, man! Let's share it".

Escrito por Rafael | 08:34 PM | Comentários (2)

janeiro 24, 2006

Ecologia à maneira australiana

Duas coisas que se encontram em qualquer supermercado são uma placa dizendo para se evitar o uso de sacos de plástico e uma prateleira cheia de sacolas de lona ou nylon baratinhas, tipo as de feira.
Eis que o consumidor consciente resolve banir de sua rotina as primeiras de sua rotina, evitando assim o acúmulo de plástico não biodegradável no meio ambiente e fazendo a sua parte para evitar a poluição ao comprar uma das últimas, quando subitamente encontra escrito na etiqueta: Made in China, onde certamente a sacola foi produzida numa fábrica movida a carvão, despejando seus dejetos sem tratamento em algum rio de maneira muito mais agressiva do que as tais sacolinhas de plástico. Em suma, poluição no país dos outros é refresco.

Nessas horas eu fico do lado dos americanos: tem que enquadrar a China no Protocolo de Kyoto, também.

Escrito por Rafael | 09:21 PM | Comentários (1)

Manias de verão

Além das músicas baianas, dos sucos com clorofila e das gírias de estação, mais um item deveria ser catalogado entre as manias de verão cariocas: a polêmica com Diogo Mainardi. Ano passado, foi Jorge Furtado; agora, Alberto Dines.

Se bem que não seja preciso esperar o verão para ver Diogo Mainardi envolvido numa discussão. Nisso, podemos confiar nele.

Escrito por Rafael | 02:38 AM | Comentários (3)

janeiro 23, 2006

Praia

Tenho para mim que tanto brasileiro se despenca para a Austrália por dois motivos: o clima é parecido e aqui tem praia. Motivos mais prgamáticos, como a facilidade de conseguir um visto ou emprego temporário por aqui em relação a EUA e, sobretudo, Europa, também devem contar, mas tenho certeza que o que faz peso mesmo é a praia. Quando eu cheguei, me disseram: se quiser encontrar brasileiros, é só ir à praia. E haja opção, de Cottesloe (cartão postal da cidade, com a Indian Tea House, uma casa de chá na orla!) a Scarborough, passando por Swanbourne (em cujo canto direito ficam os nudistas) ou City Beach, isso sem contar algumas margens do Rio Swan.

Chega-se na praia de trem ou, se você tiver um, mais confortavelmente, de carro: há estacionamentos em abundância nessa cidade com jeito de Estados Unidos. A areia é mais limpa e incomparavelmente menos ocupada do que qualquer praia brasileira, onde o espaço de circulação chega a ficar comprometido. Isso tem uma consequência interessante, que é a dificuldade, senão ausência de comportamento de grupo na praia, porque cada núcleo está suficientemente isolado para que a interação seja quase nula. Em suma, imagino que não existam por aqui esses típicos modismos de praia que acontecem a todo verão no Rio.

É proibido vender ou preparar alimentos ou bebidas na areia (para quem não sabe, no Brasil também é proibido preparar), o que significa que, se você estiver com sede, vai ter que subir até o calçadão, atravessar a rua e comprar um fish and chips, um fried calamari, um seafood platter -- tudo empanado, muito frito e gorduroso -- ou o campeão de popularidade, o copo de batatas fritas, em tamanhos pequeno, médio e grande.

Se for dar um pulo na água, tenha o cuidado de deixar a caixinha ou o copo com a comida fechados, porque as gaivotas -- que caminham entre os banhistas como os pombos, no Brasil -- já se adaptaram e vão atacar as migalhas. A água é mais fria do que no sudeste e muito mais fria do que no nordeste brasileiros, mas nada que impeça de entrar para alguns mergulhos. Porém, se você for aproveitar as ondas e o vento para surf, é recomendável o uso de long john (ou, ao menos, short). O vento, Fremantle Doctor, que convida à prática de windsurf e kitesurf, é um tremendo incômodo para quem só está na areia se bronzeando, e não pode esquecer do filtro solar. Afinal, aqui eles indicam a incidência de ultra-violeta no dia para você se prevenir.

Não se vai de cadeira nem de guarda-sol para a praia: cadeira dobrável é para pic-nic, e ainda não descobriram amplamente o uso do guarda-sol; senta-se em toalhas de banho, algumas até felpudas, ao invés de cangas; não é difícil encontrar uma farofada, só a farofada não se constitui de frango assado com arroz e farofa, mas de algum tipo de salada. É proibido consumo de bebidas alcoólicas em lugares públicos, o que não significa que você não pode tomar a sua cervejinha fora do famigerado saco de papel marrom; pode, tanto quanto pode tomar vinho no gramado do Kings Park, mas há que ser discreto e não fazer algazarra. Recomenda-se que o banho de mar seja feito sempre entre os dois postes vermelho e amarelo entre os quais fica a área monitorada por salva-vidas; há chuveirinhos para tirar o sal e areia dos pés na saída, bem como sacos plásticos para desovar o lixo em cacimbas.

Falta bem pouco para conseguirem a proeza, eu diria absurdo, de fazer da praia uma coisa organizada. Em suma, é a praia perfeita para aquele tipo de amigo que gosta de mar mas acha que areia é ruim porque gruda.

Escrito por Rafael | 10:27 PM | Comentários (1)

Le Bon Sebon

LEM escreveu um pouquinho sobre o Le Bon Sebon, que eu saiba o único sebo do Rio até hoje que tem um blog, tocado pelo grande iconoclasta da sua geração (sic) Lisandro Gaertner. Impagável o filme do molequinho pagando flexões para ganhar o disco do Paulo Cintura. Nas fotos da abertura também dá para ver o matemático Oswald de Souza e o próprio LEM, meio tocado depois umas caipirinhas.

Enquanto isso, vou me virando com a Elizabeth's Secondhand Bookshop.

Escrito por Rafael | 03:15 AM | Comentários (0)

janeiro 19, 2006

Pelo amor de Deus

Alguém ensine os sul-asiáticos a temperar a comida com sal ao invés de pimenta (chili, e os indianos: curry) e os árabes a tomarem banho regularmente e usarem desodorante!

Escrito por Rafael | 10:45 PM | Comentários (2)

janeiro 18, 2006

Goró

As melhores bebidas do Mundo. Quem se arrisca a refinar a lista, citando especificamente quais cervejas belgas, qual tequila mexicana etc.? Atenção para a caipirinha, em franca expansão mundo afora, aqui presente em sua versão cossaco-paraíba.

Escrito por Rafael | 11:40 PM | Comentários (0)

Rio de Janeiro por aí

1) Polzonoff entrevista Luis Eduardo Matta. Fechei questão para esse papo de LPB depois que vi como as livrarias daqui se organizam: de um lado, Literature; do outro, Fiction.

2) Para quem não sabe, Arnaldo Branco voltou com o Mau Humor. E continua o mesmo, para a minha felicidade.

Tem mais alguma coisa relevante acontecendo? Ou tá fazendo calor demais?

Escrito por Rafael | 11:36 PM | Comentários (3)

Melhor lançamento do ano

capacortobalada.jpg

Ediouro + Futura = Pixel, melhor notícia do ano para os quadrinhos. E dizem que vão lançar todos os álbuns do marinheiro maltês por aí.

Escrito por Rafael | 11:31 PM | Comentários (0)

janeiro 17, 2006

E tem mais

No final de semana, peguei Sin City zapeando pelos canais de televisão. Um para cima, estava passando Batman Begins.

Ontem de noite assisti na televisão, ABC, canal aberto, o terceiro e último capítulo de uma série chamada Guns, Germs and Steel, baseada no livro homônimo e apresentada pelo professor Jared Diamond, então pergrinando pela África para explicar como o invasor europeu ocupou e conquistou aquele continente, depois de se estabelecer na Austrália e nas Américas. Depoimentos de especialistas em armas, biólogos, botânicos e médicos eram entremeados por uma narrativa em off de trechos do livro e por Diamond em pessoa, conversando e opinando, em horário nobre. E vocês aí, vendo a hagiografia do JK...

Escrito por Rafael | 04:21 AM | Comentários (1)

Livrarias

Você conhece um povo através de suas livrarias -- sobretudo se não consegue achá-las. Nas principais redes daqui, Dymocks (símile nacional: Sodiler) e Angus & Robertson (símile: Siciliano), é mole encontrar diversos autores de língua inglesa, vários já traduzidos ou em tradução brasileira: Ian McEwan, Irvine Welsh, Tony Parsons, Tom Wolfe, Cormac McCarthy, Bret Easton Ellis, Peter Carey. Hunter S. Thompson tem uma biografia bastante fácil de se encontrar, Hunter, além das coletâneas de cartas. The Plot, a graphic novel póstuma de Will Eisner, estava entre os de não-ficção; até agora só vi uma livraria com seção de graphic novels, nas demais não têm quadrinhos. Em compensação, em todas as livrarias de bairro encontram-se quase todos os álbuns traduzidos de Tintin e Asterix.

Na Angus & Robertson eles dividem as prateleiras de maneira nada sutil: num canto fica o que chamam de Literature, ou seja, todos os autores acima mencionados e mais alguns; no outro, bem maior, fica o que chamam de Fiction, ou seja, aqueles best-sellers meio gordos, de capa chamativa e leitura dinâmica. Paulo Coelho está em Literature, Dan Brown idem. Acho que isso encerra de vez o debate sobre literatura de entretenimento, LPB, mercado ou o que quer que seja.

Tem mais: em todas as livrarias, sejam de grande rede, sejam de esquina, há duas seções que sempre me chamam a atenção, Australiana -- se os gringos podem ter americana, porque não podemos ter uma australiana? -- e True Crime, só histórias policiais e de crimes bárbaros. Herança de quem passou muito tempo ouvindo papo de criminoso preso.

E os caras do Monthy Phyton devem fazer um sucesso danado por aqui: além de terem programado o Santo Graal para um dos cinemas outdoor de verão, acham-se em todo canto a biografia a, o que, 10 mãos?, do grupo, a biografia de Graham Chapman (The Life of Graham), os livros de viagem de Michael Palin na Índia e acompanhando Hemingway (tinha uma série de tv muito boa, In Search of Hemingway), um livro de impressões sobre os EUA de Eric Idle e mais não me lembro o que do John Cleese. Em suma, dieta rica em carboidratos para quem curte os humoristas bretões.

Escrito por Rafael | 03:59 AM | Comentários (0)

Ruy Castro tinha razão

Indagora estava trocando uma idéia com um sujeito da Malásia que disse gostar muito do violão de Guilberto e assumiu ser fã de bossa nova, e da música cubana de Ibrahim Ferrer e Compay Segundo. Depois ele e o compadre de Kuala Lumpur me pediram para ensinar como se pronunciava João. Fiquei de lhe passar uns MP3 que eu trouxe.

A gente brinca com os estereótipos, mas volta e meia eu me pego me congratulando de ter vindo do mesmo país de Ronaldinho (o gaúcho), João Gilberto e Gisele Bundchen, gente que ajuda o resto do mundo a identificar o Brasil. Até agora eu só não vi ninguém me perguntar sobre, atenção com a patriotada, a nossa Gisele -- vai ver é desconhecida nisso que os analistas chamam de "mercado asiático".

Escrito por Rafael | 03:52 AM | Comentários (0)

janeiro 15, 2006

5 prisões que se pode visitar

- Carcere Mamertinum, em Roma, Itália (onde ficaram inúmeros inimigos do império Romano, entre eles Vercingetórix e São Pedro)
- Conciergerie, em Paris, França (onde ficaram Maria Antonieta e Robespierre)
- Round House e a Prisão de Fremantle, em Fremantle, Austrália (casas de detenção de civis e aborígenes, além de condenados, numa cidade com duplo papel de porto e prisão)
- Casa de Detenção, no Recife, Pernambuco, Brasil (onde ficaram cangaceiros do grupo de Lampião; hoje é um mercado)

Escrito por Rafael | 10:06 PM | Comentários (1)

janeiro 13, 2006

Eisner póstumo no SoBReCarGa

No SoBReCarGa dessa semana, resenha de The Plot, a graphic novel póstuma de Will Eisner. Não dou o link direto porque não estou conseguindo acessar a página.

Escrito por Rafael | 01:50 AM | Comentários (0)

Proeza com palitinhos

Hoje eu consegui a proeza de ser elogiado num almoço entre gente da Indonésia, Malásia e Singapura por saber manipular corretamente os palitinhos, a ponto de conseguir comer todo o montinho de arroz.

O que seria proeza bem maior se já não tivesse acontecido várias vezes de estar num restaurante oriental, mandando ver no hashi, enquanto do meu lado -- dos dois lados -- ter um belo exemplar de habitante da costa do Pacífico utilizando tranquilamente garfo e colher...

Escrito por Rafael | 01:45 AM | Comentários (2)

janeiro 11, 2006

Planeta Solitário

Entrevista na Trip com o fundador do Lonely Planet, uma das companhias de turismo de maior sucesso no mundo todo. Para quem não sabe, a Austrália é mestre nesse negócio; além da Lonely Planet tem a Flight Centre em quase cada esquina -- e em toda esquina tem uma agência de viagens.

O entrevistador deve ter comprado o livro de memórias recém-lançado pelo casal, pelo menos todas as fotos foram tiradas de lá. Algumas respostas foram interessantes, inclusive porque ele não se sai tão bem quando posto na berlinda:

Como os viajantes podem contribuir para os países que visitam? Com o dinheiro que gastam e a atividade econômica que alimentam, mas também simplesmente por estarem ali e terem contato com pessoas que você só conhece em viagens.

Como você se sente quando coloca nos seus guias lugares que são considerados “paraísos secretos”, tamanha a beleza natural, sabendo que poderão ser invadidos por um turismo desenfreado que pode simplesmente destruir aquele lugar?
Acho que autores de guias não devem, de forma alguma, manter segredo e contar só para os amigos. Mas se um lugar é de difícil acesso, independentemente de quão interessante, não terá muitos visitantes por lá. Não é porque dizemos que determinada praia é bonita que de repente todo mundo vai visitar. Talvez seja porque fizeram um aeroporto, construíram hotéis na praia... Há muitos lugares em que isso aconteceu, eram tranqüilos e ficaram mais cheios. Às vezes o turismo é apenas um ingrediente dessa transformação, mas deve-se levar em conta outros fatores também.

Quando fiz minha primeira viagem longa, todo mundo gritou: compra o Lonely Planet, nem procura alternativa. Foi um investimento de primeira, ao qual fiquei fiel pelos 6 anos seguintes, e ainda sou. Na última, lembro que o comentário de uma companheira fora que "a cultura do meu guia da Folha foi tragada em um dia pelo Lonely Planet do Rafael" -- e olha que eu estava com uma edição ultrapassada de Praga, que eu só comprara por causa de um golpe de sorte ao tê-lo encontrado dois dias antes da viagem num sebo.

Talvez seja o melhor argumento contra aquele papo do Millôr Fernandes que "turismo é prostituição".

Escrito por Rafael | 09:19 PM | Comentários (1)

Nós, nosotros e conosco mesmo

Artigo do NY Times sobre o estado de Western Australia, um dos recantos mais isolados do mundo. Tem o mérito de fugir de vários lugares bem comuns e uma analogia que considero perfeita com a Califórnia, especificamente San Diego, até no título, afinal imigração chinesa, desertos, corrida do ouro, praias e vinho fazem parte das duas histórias. Impliquei com a indicação de dois museus: tirando um Lucien Freud e um Henry Moore, há bem pouco de interesse na Art Gallery of Western Australia -- a menos que a sua onda sejam pinturas românticas de paisagens e retratos do século XIX. Da mesma forma, a não ser que você curta velejar, arquitetura naval, náutica ou passear dentro de um submarino da II guerra, não vai achar muita graça no Maritime Museum. São passeios interessantes, porém fica um travo de australiana mais forte do que deveria no visitante casual. Para saber o porquê de tanta conversa sobre si mesmo, não custa lembrar da dupla insularidade dos australianos do oeste: isolados por morarem numa ilha, isolados do resto da ilha pelo do deserto.

Escrito por Rafael | 04:36 AM | Comentários (0)

janeiro 09, 2006

História da Arte, capítulo: aborígenes

"Também é significativo lembrar que desde o começo os pintores de Papunya, ajudados pelo professor Geoffrey Bardon, formaram um coletivo chamado Coletivo da Escola de Pintores de Papunya, que são os Artistas de Papunya Tula. Nem sempre houve mar de almirante para a Papunya Tula; tem sido uma longa viagem tanto para os pintores como para o mercado de arte internacional
As primeiras mostras em Alice Springs foram desfiguradas e atacadas porque os locais achavam que tinham revelado muito conhecimento secreto.
Artistas de Papunya Tula combateram isso cobrindo seus trabalhos com pontos, hoje o motivo reconhecível da pintura do deserto central.
Essa comunidade de pintores não apenas tem sobrevivido, como são agora responsáveis pelo modo o qual a arte aborígene australiana contemporânea é vista internacionalmente e assim tem gerado alguns dos mais famosos artistas do século passado."

Coluna Visual Arts de Rick Spencer no jornal Western Australian de 24 de dezembro de 2005. Os grifos e hyperlinks são meus.

Escrito por Rafael | 09:45 PM | Comentários (0)

janeiro 08, 2006

Chaaaaaato...

Quando um árabe de DUBAI puxa conversa na rua e te diz que a cidade é "meio chatinha", você começa a desconfiar seriamente. Quando uma mineira do interior, de uma daquelas cidadezinhas tipo Governador Valadres que exporta gente para todo o mundo, conta que a vida ali é "meio parada, tipo interior mesmo", você começa a ter certeza de há um mal maior. Quando um gerente de hotel confessa que na cidade "não tem muito o que se fazer", você joga a toalha de vez.

* * *

Aliás aquele árabe era uma coisa só. Primeiro perguntou o que eu achava de cada jogador da seleção brasileira, comentando recentes atuações em cada um dos respectivos times europeus. Depois perguntou se o Rivaldo não ia ser convocado para a Copa e se o Zé Roberto ia ter vaga garantida. Disse que ia torcer para o Brasil, mas temia que o Brasil encontrasse o México porque achava que o México podia derrotar o Brasil. Disse que tinha achado as portuguesas as mulheres mais bonitas da Europa no pedaço que ele visitou (Grécia, sul da Itália, Croácia, Chipre) -- quase que eu perguntei se ele gostava de bigodes, mas ele não ia entender mesmo -- e que achava as australianas "muito branquinhas". Despediu-se contando que tinha arrumado uma carona para ir ao Zanzibar, um bar do qual ele gostava muito. Consultei o Guia do Mochileiro das Galáxias e ele dizia o seguinte sobre o Zanzibar: um bar animado, por vezes premiado com algum tipo de low brow entertainment, do tipo concurso da camiseta molhada ou briga de mulheres no gel...

Escrito por Rafael | 10:52 PM | Comentários (1)

janeiro 06, 2006

Burn baby burn

Não pus fé quando a meteorologia prometeu para hoje 37º -- e agora tou aqui no ar condicionado, fugindo dos 40º à sombra que faz nessa cidade quando Freo Doctor não passa por aqui. O que me faz rir de meia dúzia de gaúchos acha que está sentindo calor.

Escrito por Rafael | 01:39 AM | Comentários (1)

janeiro 05, 2006

Mundinho II

Além do mais, batendo papo com o primeiro casal de brasileiros que conheci por aqui, sabendo que eles eram de Piracicaba mencionei o Danilo Amaral -- e descubro que tinham estudado juntos!

Escrito por Rafael | 12:02 AM | Comentários (0)

janeiro 04, 2006

Omoplatas

Vez em quando ainda me pego impressionado com a amplidão omoplática em exemplares (bastante exemplares) do gênero feminino por aqui. É quando me lembro que natação é matéria obrigatória no colégio até o ginásio.

Escrito por Rafael | 11:56 PM | Comentários (0)

janeiro 03, 2006

Desdobrando o assunto

Ainda sobre isso aqui, duas coisinhas.

A primeira: quando eu digo que os australianos levaram à sério esse negócio de reconhecer a cultura aborígene como importante e sua, posso não ter sido suficientemente claro. Vou ilustrar com um exemplo: na entrada de uma ala do Western Australian Museum, uma exposição tenta explicar como se deu o começo do universo. Didaticamente, eles dizem que vão dar duas explicações, lado a lado, do mesmo tamanho. Na parede da direita tem um desenho do Big Bang, rochas galáticas, aminoácidos, aquela história que já se ouviu antes. Do lado esquerdo fica uma reprodução de uma caverna com uma pintura rupestre aborígene, cheia de retas e pontos e círculos, descrevendo a concepção aborígene de início dos tempos. Agora escolhe a sua, pequeno gafanhoto.

A segunda: a interferência dos europeus no ecossistema australiano causou uma série de desequilíbrios ecológicos, quando se teve que apelar para o controle biológico para se reestabelecer o balanço. Por exemplo, foi preciso importar um verme da Argentina para devorar uma praga de cactus que resistia até a DDT. A melhor história de desequilíbrio sem dúvida foi a praga dos coelhos que se espalharam pelo território há mais ou menos 100 anos. Foi preciso isolar os dois lados do continente com uma cerca de arame farpado para que os coelhos não se espalhassem e fossem finalmente controlados. Rabit Proof Fence é o nome de um livro de Peter Carey que usa a metáfora dos coelhos para falar da separação imposta à Stolen Generation. Entretanto, nenhuma dessas interferências do, digamos, invasor, foram responsáveis pela extinção de espécies que se deu na Austrália, ocorrendo unicamente em áreas não habitadas.

O que só comprova que ecologia e ambientalismo são ciências complexas demais para se sair dando pitaco a nível de afirmação definitiva a torto e a direito.

Escrito por Rafael | 08:54 PM | Comentários (1)