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fevereiro 28, 2006
E a tristeza vai acabar!
Joaquim acertou mais uma vez: almoço de pobre é café. Essa crônica sobre as marchinhas de carnaval me fez balançar.
É carnaval, quem não chora não mama, e o meu periquitinho verde, urubu malandro que é, chegou muito à sorrelfa e perguntou na orelha da jardineira: o que que há com a sua baratinha que não quer funcionar? É carnaval, é Orlando Silva, é Jorge Veiga lembrando com justiça que foi ele, o bigorrilho, quem me ensinou a tirar o cavaco do pau. Vou aproveitar.
O pundonor foi ali ver se eu estava na esquina, foi ver o que o Luzia perdeu na horta, e liberou geral, lança-perfume no olho do verbo, para que se diga o seguinte. Dois pontos. Há várias maneiras de se contar a história de um povo. Os egípcios escreveram nas pirâmides, os gregos narraram nas esculturas, os ingleses nas receitas de batata. Eu quero aqui sugerir que alguém conte um dia a história da civilização carioca no século passado através do que está escrito nas marchinhas de carnaval. Se a radiopatrulha chegasse aqui agora, eu repetiria com a empáfia daqueles que sabem que cachaça não é água, não. Está tudo nelas. Nas marchinhas. Ouve só. É nessa onda que eu vou, é nesse mundo de zinco que é Mangueira, é nessa falsa baiana nariguda que sapateia sobre o meu destino. Tenho motivos acadêmicos para colocar a lata d’água na cabeça e dizer. Os compositores de marchinhas foram os Pero Vaz de Caminha de sua época.
Ela é fã da Emilinha, não sai do César de Alencar — por quê?
Vão acabar com a Praça Quinze, não vai haver mais escola de samba, não vai — quem foi que disse?
O bonde de São Januário leva mais um grande otário, sou eu que vou trabalhar — como assim?
As marchinhas de carnaval contavam este ano os principais acontecimentos do ano anterior. Em 1957 derrubaram a Galeria, meu amor, fizeram o Edifício Avenida Central, e isso foi contado no carnaval de 1958. Morreu o aviador-líder dos cafajestes, e no ano seguinte lá estava Dalva de Oliveira cantando o zum zum zum zum, estava faltando um. É só destrinchar para as novas gerações os fatos embutidos nas letras e as aulas de História — bota o retrato do velho outra vez — vão ficar cheias.
As marchinhas eram pequenas reportagens bem-humoradas e é com elas, pra seu governo, que eu vou sambar até cair no chão. Garrafa cheia eu não quero ver sobrar. Garota, você é uma gostosura. E por aí em diante.
Há quem prefira os grandes registros históricos, os discursos das altas patentes, os contratos de armistícios, o Diário Oficial da Prefeitura, o texto da pedra fundamental. Eu prefiro as miudezas, os pequenos classificados dos jornais, os panfletos das ciganas no meio da rua, as gírias dos adolescentes, os gritos de guerra das torcidas, os grafites nos muros, os jingles das Casas da Banha, os bordões dos comediantes e, acima de tudo, o discurso de deputado baiano que quando fala pouco é para falar do coco. Se a turma agüenta, ele fala da pimenta.
Marchinhas não mentem. Sintetizavam o melhor da temporada passada, o pó-de-mico que tinha causado mais impacto na emoção do povo, e davam o toque. Sabiam tudo. Sem saçaricar essa vida é um nó. Não se deve amar sem ser amado. Que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar.
As marchinhas de carnaval eram a versão ritmada das crônicas de jornal, que não passam também de confetes, pedacinhos coloridos do que vai de sentimento na alma das ruas. Percebem, sem que se precise sacar dos chatíssimos números do IBGE, sem que se precise chamar o Palocci, que sapato de pobre é tamanco. Almoço de pobre é café. Nenhum jornal fez editorial mais contundente sobre a esculhambação do serviço público do que Blecaute em “Maria Candelária”. Era aquela funcionária letra “O” que à uma hora ia ao dentista, às duas ia ao café, às quatro assinava o ponto e dava no pé. Grande vigarista ela é!!! A miséria econômica nacional foi dissecada por Ary Barroso em “Falta um zero no meu ordenado”. Ei, você aí. Dá um dinheiro aqui.
A história de um povo não se faz só com os gritos à margem do Ipiranga, nem com um JK solitário discursando os parágrafos cheios de borboletas que Augusto Frederico Schmidt tinha escrito para ele. A turma do funil, o gato na tuba, o zé marmita, o pirata da perna de pau, o china pau, o pierrô apaixonado — essa gente do dia-a-dia também escreve atos institucionais que interferem no destino da nação.
Quando as moças começaram a querer ir mais longe, prum piquenique na Barra da Tijuca, um swing no Joá, a Emilinha, amiga da Chiquita Bacana, existencialista com toda razão, foi no ponto. Não citou Simone de Beauvoir. Disse apenas. Vai, Chiquita. Mas com jeito vai, senão um dia a casa cai. Eu não escreveria a saga da mulher brasileira sem misturar a Mulata Bossa Nova e a Chiquita Bacana no mesmo enredo que a Irmã Dulce, Ana Néri, Lina Bo Bardi, Maria Esther Bueno, Leila Diniz, Bené, a princesa Isabel, Clarice Lispector e Maria da Conceição Tavares. Todas danadas.
Sou suspeito, confesso. As marchinhas de carnaval foram meus primeiros clássicos e minhas primeiras namoradas. Com o umbiguinho de fora feito a laranja da Bahia, a garota Saint-Tropez até hoje me guia na busca de uma similar. Tinha aquela outra, que quando passa todo mundo grita — e eu mais ainda — estou aí nessa marmita. Hélio Silva, Werneck Sodré e Thomas Skidmore. Esses pesquisadores profissionais preferem o pó dos grandes documentos. Eu prefiro o pó-de-mico, o bafo da onça. Eu olho essas majestades sábias e na verdade vos digo. A coroa do rei é de lata.
O preconceito racial está na nega do cabelo duro e no pente Flamengo que a penteia. O machismo move o sujeito que queria uma mulher que soubesse lavar, cozinhar e o acordasse cedo na hora de trabalhar.
Se a canoa não virar, eu chego lá, mas por enquanto não me leve a mal. Dá um tempo. Hoje é carnaval. Vou de marchinha. Como quem não quer nada, elas retrataram tudo. E é com elas que eu vou, não quero broto, sambar até cair no chão. O bonde de São Januário leva mais um grande otário, sou eu que vou pesquisar.
Essas mulheres, essa morena grau dez, eva querida, lourinha dos olhos claros de cristal, pastorinha, colombina-onde-está-você — nenhuma delas existe mais. As marchinhas menos ainda. É da vida, é da fila que anda, e não sou eu que vou lamentar. O passarinho do relógio tá maluco. Eu, não. Vou é gargalhar. Rir do palhaço. Rasgar a minha fantasia e cantar minha marselhesa: quem gosta de cerveja bate o pé, reclama, eu quero Brahma. O resto é general da banda e dele já ouço, subindo a escada, o grito final. Xiiii. Tem nego bebo aí.
Escrito por Rafael | 04:13 AM | Comentários (1)
Balanço de fevereiro
Assisti 4 filmes, dois muito bons (Capote e Match Point) e dois muito chatos (Brokeback Mountain e Walk the Line), um deles num cinema outdoor, os outros 3 em salas convencionais. Fui a um Festival de Filmes sobre Surfe, um jogo de rugby, um espetáculo de teatro misturando encenação, acrobacias, contorcionismo, música e dança e um mega-show de música com 4 palcos mandando brasa ao longo de 12 horas, encerradas com apresentação de James Brown. Assisti uma peça de Shakespeare encenada num parque. Instalei telefone e acesso a internet em casa. Li um livro do Norman Mailer que esperava na fila há quase 3 anos e outro muito bom, contando, entre outras coisas, a situação em que Mailer escreveu certas reportagens. Fiz social num antro de moderninhos e compareci a um aniversário de 2 anos de uma menina. Perdi a final do Australian Swimwear Model of the Year. Mas foi por um bom motivo.
E tem gente que me pergunta se estou sentindo falta do carnaval. E ainda vem por aí Fremantle Beer Fest, Festival do Filme Francês, toda a programação da Sinfônica, musicais no The Maj's...
Escrito por Rafael | 01:56 AM | Comentários (0)
fevereiro 22, 2006
7.7 Milhões já deixaram o PC Chinês

Escrito por Rafael | 11:06 PM | Comentários (0)
Não dá certo...
Norman Mailer formou chapa com Jimmy Breslin pela prefeitura de Nova Iorque, em prol da secessão da cidade, que se tornaria o quinuqgésimo primeiro estado da federação norte-americana.
Iggy Pop Jello Biafra concorreu ao governo da Califórnia prometendo fazer do nariz de palhaço uniforme para todos os funcionários públicos, caso fosse eleito.
Hunter Thompson raspou o cabelo quando concorreu a cargo público, só para poder chamar seu adversário de "meu inimigo cabeludo", bela ofensa em tempos hippies. Quase foi eleito.
Thimoty Leary chegou a gravar jingle com John Lennon para sua campanha pelo governo da Califórnia, mas teve que abandonar a disputa para fugir da polícia. Depois Lennon transformou o jingle na música que é hoje Come Together.
Etc.
Escrito por Rafael | 10:54 PM | Comentários (2)
Uns links
Resenha do livro de Marc Weingarten sobre new journalism na new York; não sei se é o mesmo que eu li por aqui. Pelo menos, conta a mesma história.
Saiu o livro do Mattotti sobre o carnaval, Carnaval - cores e movimentos, pela série da editora Casa 21 que já deu Rio de Janeiro por Jano, Salvador por Marcelo Quintanilha, Beagá por Miguelanxo Prado, Curitiba por César Lobo e Belém por J.C. Denis. São Paulo contina fora dos planos (eu não resisto a fazer esse comentário...)
Ana Alice Colonetti resenha Rabbit Proof Fence, filme baseado no livro do Peter Carey. A tal cerca à prova de coelhos existe mesmo e foi colocada para tentar conter uma praga que se espalhou no começo do século XX, e serve de metáfora para uma das feridas abertas mais dolorosas da Austrália, a separação forçada entre pais e filhos aborígenes.
Escrito por Rafael | 10:43 PM | Comentários (0)
Duas letrinhas
Quando eu comecei a conversar com o pessoal da Malásia, sempre perguntava de qual cidade eles eram. Um só respondeu: Kuala Lumpur. Todos os outros diziam apenas, Keeowl. Que raio de cidade é essa, fui procurar no mapa e nada de encontrar a tal de Keeowl. Provavelmente um dia ia pedir para alguém me explicar como se escreve. Keeowl pra cá, Keeowl pra lá, hoje por acaso pintou a chance e eu pedi, dá para soletrar? Keeowl. Soletrar, Keeowl? Até que caiu a ficha: KEE-ELL, ká ele, Kuala Lumpur!!! Estavam falando o tempo inteiro do mesmo lugar, da mesma cidade na Malásia. Kuala Lumpur.
No mesmo momento lembrei de pelo menos mais uma cidade tão conhecida pelas iniciais quanto pelo nome completo: Los Angeles, L.A. No Brasil tem um belo exemplo, Beagá, Belo Horizonte. Quem souber de outro por favor não escreva, que minha vergonha só vai aumentar...
Escrito por Rafael | 01:26 AM | Comentários (4)
fevereiro 21, 2006
Mailer on self-expression
Self-expression has become one of the icons of our times, almost as revered by the Republic as the Community Chest, but it is ignored too easily that self-expression usually ends as therapy. What is detestable about a bad style is that the author is cleaning his own nervous system at the expense of mucking our own in the psychic sediments of his taste. All too often in these columns, the language was to become arch and pious, self-righteous and pompous, overmabitious and imprecise ... So my readers suffered through more than one week, while the column served as therapy for me: I was eliminating some of the sludge of the past.
Trecho de Advertisements for Myself, onde Norman Mailer comenta o conjunto de suas primeiras colunas para o Village Voice, antevendo o problema genérico que impede os blogs de manterem um nível literário consistente: a falta de assunto descamba para auto-expressão e, consequentemente, terapia ao ar livre. É por causa desse tipo de sacada que eu continuo a lê-lo (e também pela escolha vocabular de termos como detestable ou masticate, ao invés de chew), que explica um problema atual com quase 50 anos de antecedência -- tem uma outra, num artigo entitulado Como cometer assassinato nos meios de comunicação de massa, também excelente. Nada mal para um livro que tinha toda cara de ter nascido do casamento de um monte de sobras de gaveta com o necessidade de lombada que o ensaio The White Negro pedia.
Escrito por Rafael | 11:52 PM | Comentários (0)
fevereiro 20, 2006
Bem vindos a Hong Kong

Escrito por Rafael | 11:21 PM | Comentários (1)
Pura Dinamite
Good Vibrations Festival é um dos vários festivais que aconteceram desde que cheguei aqui, tal como o Big Day Out e o Summadayze, tudo na mesma linha: mais de um palco com revezamento das atrações, muita música eletrônica e dois ou três nomes de peso para puxar a atenção, apesar do grosso ser de artistas locais, como o grupo F'dell, do qual eu já tinha ouvido falar bastante bem e conferi, é bom mesmo.
No caso do Good Vibrations, o local escolhido foi o Belvoir Amphitheatre, um espaço ao ar livre coberto por grama onde construíram o palco principal, um domo geodésico similar ao que erguem para os shows na praia ou no Ibirapuera, duas cabanas menores para o povo da música eletrônica (uma delas, patrocinada pela Bacardi) além do anfiteatro propriamente dito. Com shows programados de 11 da manhã até 11 da noite, tinha combustível para muito ânimo ali.
Cheguei por volta de 3 da tarde, um sol de mais de 30 graus fritando a moleira, e eu estupidamente de camiseta preta, na dúvida do que escolher que servisse tanto contra o calor abrasivo do dia e para o frio que chega assim que o sol se põe, numa variação térmica de mais de 10 graus. Usei uma daquelas calças em que se pode remover um pedaço das pernas, que se mostrou perfeita para a situação, mas tanto o calor insuportável quanto a poeria que subia dos gramados me fizeram lembrar dos comentários dos primeiros imigrantes ingleses que li em vários museus. Além dos tecidos sintéticos, eles ainda traziam na bagagem a moral vitoriana em longos vestidos de mangas e várias camadas que se mostraram absolutamente desapropriados para o ambiente australiano. Eu tinha apenas que resolver meu problema de hidratação, em grande parte solucionado por uma barraquinha que distribuía copinhos com Lipton Iced Tea Green, mas não deixei de pensar quantas pessoas baixariam enfermaria naquelas mesmas condições, no Brasil.
Assisti mais shows do que os que vou mencionar aqui, quase todos razoavelmente esquecíveis, por isso vou me concentrar em 3 nomes não porque tenham sido os melhores, mas por serem os mais conhecidos de quem tem um interesse apenas marginal para música eletrônica.
O primeiro deles foi Shaun Ryder, aquele gordinho mesmo do Happy Mondays, que tinha sido escalado para uma apresentação de uma hora. Meu interesse advinha exclusivamente do filme 24 hour party people, onde Shaun tem um dos papéis principais, uma figuraça total. Foi um dos maiores estelionatos musicais aos quais presenciei. eu devo estar mal informado sobre esses shows de música eletrônica, porque esperava ao menos que ele fizesse algumas das firulas de DJ ao vivo, mas não -- o trabalho dele se resumiu a escolher a sequência de entrada das músicas, e nem isso pode-se atribuir a ele, porque foi um tal de Kev quem trocou as bolachas. Shaun se limitou a ficar dançando bem desajeitadamente com microfone na mão, onde muito de vez em quando balbuciava algo incompreensível, e nem a seleção foi assim um primor de originalidade, indo de Beatles (Back in USSR) a Prodigy (Smack my bitch up, esses eu vi ao vivo em 1998) passando por The Doors (L.A. Woman). Foi muito eficiente na nobre tarefa de arrancar cavaco do salão.
Por volta de duas horas depois de encerrado seu ato, encerrando um interminável e irritante ciclo de hip hop, assumiu as carrapetas no palco roots o DJ Marky, de quem eu já ouvira muito falar, mas nunca assistira ao vivo. Marky fez tudo o que eu esperava de um DJ: mixou (atenção aos maiores de 40 anos: lê-se micsou, não michou) seu drum and bass ao vivo, sacudindo a poeira e botando o anfiteatro inteiro para sacudir o esqueleto, sem um minuto de trégua. A Marky coube fechar aquele palco, com uma exibição de duas horas, a qual abandonei no meio para assistir ao show que encerraria o palco principal, o motivo, enfim, pelo qual resolvi ir ao Good Vibrations. The hardest working man in show business, the general of funk, the godfather of soul, mr. Dynamite em pessoa: James Brown.
Ainda há o que se falar de James Brown? Que ele podia reclamar paternidade, ou melhor, ser avô de todos aqueles gêneros musicais presentes ali naquele dia? Que ele ainda se apresenta com banda de metais envenenados, cabrochas na segunda voz, topete e terno de 3 peças de cetim vermelho, aos 72 anos de idade? Que ele faz aqueles movimentos com os pés, aquela dançinha de andar de lado com um pé só e aquela de correr sem sair do lugar? Que sacode a cabeleira e solta os gemidos "uhn" e "yeah" entre os versos? Eu li em algum lugar que a banda estica tanto os solos de saxofone que a impressão é de assistir a apenas 6 músicas em uma hora e meia, mas todo mundo sabe que tudo é aquecimento para ver James Brown levar Living in America, I feel good e, claro, Sex Machine. Sim, eu o vi fazer his mean thing. Ao vivo, aos 72 anos de idade.
Um final apoteótico que fica como metáfora para a superação humana num festival dominado por música eletrônica e DJs, que faziam pouco mais do que trocar os pratos.
Escrito por Rafael | 10:14 PM | Comentários (0)
Ah feel good
(Hora de matar um monte de gente que passa por aqui de inveja).
Vendo esse monte de gente feliz por causa do show dos Rolling Stones na praia de Copacabana, 1.5 milhão de pessoas (a população da cidade onde moro...) e tal, pensei comigo mesmo: feliz sou eu, que enquanto os não-VIPS se acotovelavam para ver os ingleses movidos a 17 latinhas Red Bull, assistia aos rodopios e geminos no palco do Mr. Dynamite, do Padrinho do Soul, do maior trabalhador do show business: James Brown. Do alto dos seus 72 anos.
Escrito por Rafael | 04:12 AM | Comentários (2)
fevereiro 17, 2006
Assim eu fico com saudades
Não precisava ser simpático, não precisava bancar o amigo. Mas ele faz parte daquela estirpe maravilhosa de pessoas, especialmente encontráveis no Rio, que são simpáticas porque sim, amáveis porque não sabem outra forma de se relacionar, felizes porque não conhecem outra forma de viver. Sentem-se privilegiadas, senão por outra razão, porque simplesmente vivem na cidade mais bela do mundo. Ganham mais sol no rosto que os outros. E bastam-se com isso sem muita ambição.
Hermano falava do Guinga, mas podia ser de muita gente que eu abandonei, e que parece nunca se extinguir (apesar da gente ficar cabreiro toda vez que morre um belo exemplar, como Otelo Caçador, no desconforto de que não venha ninguém a sucedê-lo; "no dia que o Jamelão morrer, eu me mato", Cláudio Reston), a despeito da sistemática destruição pela qual a cidade do Rio de Janeiro passou nos últimos 30 anos.
Escrito por Rafael | 05:00 AM | Comentários (1)
Conclusão estarrecedora
O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, leu o Cavaleiro das Trevas. (a partir de um comentário do Marcelo Trasel)
Escrito por Rafael | 04:57 AM | Comentários (0)
fevereiro 16, 2006
Eu não disse
Eu não disse que a Varanda da Beck era o pilotis do MaM australiano? Pois ontem resolvi dar uma incerta lá, e o que o dejota local está tocando exatamente quando eu chego? Tati Quebra-Barraco. Isso mesmo, Tati Quebra-Barraco. Não adianta, muderno deslumbradinho é igual em qualquer canto do mundo.
Austrália é muito perto. Tem que tentar Burma, Cazaquistão, por aí.
Escrito por Rafael | 09:48 PM | Comentários (0)
fevereiro 14, 2006
Geração São Bento
Deu no jornal de ontem: Treze ex-alunos do São Bento, todos com idades entre 25 e 40 anos, reuniram em livro seus causos da época da escola, como o dia em que um deles pôs afrodisíaco nas garrafas de café da sala dos professores e dos inspetores. O título do livro é “Pula, pula, macacada, que amanhã não tem mais nada”. O lançamento é quinta-feira no Le Bon Sebon, no Leblon, num coquetel regado como nos bons tempos do refeitório da escola: pão com doce de leite e sanduíche de queijo com apresuntado. O livro é assinado coletivamente por “As pessoas do milharal”.
É só eu ir morar fora que essas coisas são publicadas... E o pior é que eu conheço alguns dos autores.

Escrito por Rafael | 11:11 PM | Comentários (2)
fevereiro 13, 2006
Se você for convidado para conhecer a Pica...

...pode ir tranquilo que fica no centro da cidade e não tem saliência.
Escrito por Rafael | 09:53 PM | Comentários (4)
Cartoon Wars
Eduardo Filipe coleciona cartuns sobre a guerra das charges que ora se trava. Ele venceu o Salão Carioca de Humor há 3 anos com um trocadilho visual em cima do logotipo novo do Bradesco.
Escrito por Rafael | 09:43 PM | Comentários (0)
fevereiro 12, 2006
Australianas III
Final de semana cheio.
Noite de sexta-feira foi dedicada à estréia do time local, Western Force, no campeonato de rugby australiano. Encararam os Brumbies, campeões algumas temporadas atrás. Diversas semelhanças e diferenças com, digamos, um Fla-Flu no Maracanã, a saber, guardando evidentemente as devidas proporções. As semelhanças:
:: O trânsito nas imediações do estádio também engarrafa, os torcedores que deixam para chegar em cima da hora atrasam, usa-se celular para localizar o outro, o pessoal vai paçocado nos meios de transporte públicos e fica fazendo piada sobre isso, todo mundo marca de se ver "em frente da estátua do Bellini", tem os que chegam antes e aproveitam para fazer uma boquinha e a torcida vem uniformizada com as cores do time.
:: xingam-se os jogadores do time adversário, o juiz, quando apita contra seu lado e os jogadores do seu time, quando eles parecem não estar se esforçando o suficiente.
:: tem gente que vai ao estádio e se diverte mais com a torcida do que com o jogo, que está acontecendo lá no campo.
:: alguns jogadores fazem catimba e tentam influenciar o juiz.
:: o ritmo do jogo em campo tem algumas semelhanças, são dois tempos praticamente do mesmo tamanho e os times trocam de lado no intervalo.
:: a torcida vai uniformizada e puxa gritos de guerra de quando em quando, embora sua principal função seja mesmo fazer barulho.
:: depois do jogo, muita gente estica para tomar uma num bar próximo.
:: os nomes dos patrocinadores aparecem em tamanho grande nas camisas dos times, e chegam mesmo a fazer parte dos próprios nomes.
:: no intervalo do jogo, todo mundo corre para o banheiro, comprar comida e bebida.
:: todo o estádio é coberto por cadeirinhas aparafusadas no concreto; são melhores do que as "privadas" do Maracanã, porque têm enconsto, mas igualmente apertadas.
:: Tem gandula para devolver as bolas que saem pela lateral.
Agora vamos às diferenças:
:: Apesar do time da casa perder, levando um sacode (25 a 10, em termos de futebol, mais ou menos 3 a 1), ninguém saiu vandalizando os imóveis ou carros estacionados nas imediações do estádio.
:: São péssimos em puxar musiquinhas de incentivo ao time, fica-se só na sem-gracice marcial de um "Go, Force, go" ou, pior ainda, "Force, Force, Force". Nada das geniais paródias a marchas de carnaval que rolam em qualquer estádio brasileiro.
:: Precisa que alguém grite para fazerem barulho, "make some noise", senão a gritaria não decola. Hábito esse encontrado também em várias bandas de rock e que tem sido lamentavelmente copiado por vários ditos artistas brasileiros, como Dudu Nobre e Marcelo D2 em seus shows, "vâmo fazê barulho!".
:: Ao invés de tambores e cornetinhas, usam umas bisnagas infláveis compradas em par para fazer barulho, batendo umas contra as outras, um barulho assustador. Como não entram instrumentos musicais no estádio, não tem Charanga rubro-negra.
:: A mesma dificuldade em fazer barulho a torcida tem ao iniciar uma ola. Provavelmente porque tentam fazê-lo de forma organizada, ao invés de espontânea, contando com o contágio do comportamento: alguém puxa uma contagem regressiva e espera que todo mundo o siga. Claro que só funciona quando o jogo está paralisado por algum motivo, mas aí a ola embala e dá bem umas 3 ou 4 voltas no estádio. Fazer ola passa a ser mais importante do que assistir ao jogo.
:: Não tem vendedores ambulantes de comida ou bebida nas arquibancadas. Quer comer, tem que sair do lugar e ir até os corredores externos procurar uma vendinha, onde os grandes hits são a ciaxa de batatas fritas, o hot dog e uma empadinha com carne, meat pie, à base de muita Coca-Cola. Você pega o que quer e paga no caixa, em frente, enfrentando uma fila que se forma espontaneamente.
:: As cadeiras são numeradas, e o número de ingressos vendidos é igual ao de cadeiras, evitando super-lotação. Isso significa que, se tua turma chegar em cima da hora, não vai pegar fila para entrar nem ter problema para encontrar lugar porque cada um senta onde o ingresso indica, e os seus estarão livres, esperando. Essa foi a mais supreendente de todas para mim, mais até do que a da comida...
:: Rugby, em grande parte, é um esporte para ser visto pela televisão, com diversas câmeras mostrando detalhes que se perdem na distância e na muvuca, ao contrário de futebol. Boa parte do tempo de jogo se passa olhando para os placares luminosos e o juiz usa o video-tape para irar dúvida quando rola uma jogada duvidosa.
:: Os jogadores não fazem nenhuma dancinha de vitória quando conseguem um "treshold".
:: A quantidade de torcedores uniformizados no estádio é imensamente maior. Em compensação, é irrisória a quantidade de bandeiras e nula a de bandeirões e daqueles mantos que a torcida inteira estica, encobrindo todo um pedaço da arquibancada.
:: Tem muito mais mulher frequentando os jogos na arquibancada.
Sábado fui curtir uma praia, porque é difícil perder certos hábitos, e de noite dei uma esticada na Beck's Verandah, que é o similar perfeito do pilotis do MAM em época de Free Jazz. Já os cinemas do grupo Luna são a tradução australiana escarrada do grupo Estação. A adaptação fica mais fácil assim.
Lá pelas tantas abriram uma roda de street dance na varanda. Eu, que nunca tinha visto uma daquelas ao vivo, gostei. O toque de exotismo foi ainda maior porque só tinha branco na roda, e nenhum trajava o visual gangsta. Falta crioulo a essa terra.
E domingo fui assistir minha primeira atração do Perth International Arts Festival. Eu já tinha vasculhado de cima para baixo o programa e estava de olho numa atração que, de acordo com o que diziam, misturava circo moderno -- acrobacias, contorcionismo, dança -- com teatro, mímica, humor: exatamente o tipo de receita que me empurrava todo ano para o espetáculo novo da Intrépida Trupe. Já estava disposto a arriscar quando li no jornal de sábado uma entrevista com o diretor da companhia que me deixou ainda mais animado, e o resultado não foi nem um pouco decepcionante.
La Veillée des Abysses tem tudo que você pode encontrar num show da Intrépida Trupe, e mais uns belos e inesperados momentos em que o humor se transforma em poesia, não fosse o diretor, James Thierreé, neto de Charles Chaplin. Em pelos menos 3 cenas fiquei com a séria impressão de estar vendo o próprio Carlitos, só que dessa vez sem a ajuda do tubo catódico, ali na frente, no palco: a cena da cadeira, em que ele não consegue sentar com as pernas cruzadas porque o corpo sempre escorrega; a cena em que sua mão direita se rebela contra o corpo e parece querer puxá-lo para fora do palco e a cena em que não consegue ler o jornal, que parece grudar em suas mãos -- e pés. Magnífico. O elenco de La Compagnie du Hanneton era composto de uma contorcionista francesa, um ator sueco, uma contra de ópera catalã e um capoeirista brasileiro, para quem abriram espaço nas cenas para executar aqueles saltos típicos, sem contudo transformá-los no centro da peça. Tem uma mesa redonda que se transforma num carretel gigante, utilizado pelos atores para evoluir no palco, um pêndulo gigante empregado como um balanço e uma estrutura de metal a partir da qual James é suspenso ao dar rasantes sobre a platéia que poderiam perfeitamente estar num espetáculo da Intrépida, e mais um sofá que traga os atores, um portal de ferro retorcido que se converte em trepadeira para o contorcionismo dos atores, e duas impressionantes tempestades.
O público ria escancaradamente das rotinas cômicas como se estivesse num show dos Trapalhões e aplaudia cada de cena como se os atores fossem as focas amestradas do AQWA. Talvez em função de ter muito adolescente e criança na platéia; associaram circo a criança. No final, cobriu a trupe de aplausos, mas não soube presentá-la com a consgração suprema que qualquer artista de palco almeja, standing ovation, bater palmas de pé. Ai que saudade do meu Brasil, onde qualquer platéia do interior do Cariri sabe que tem que bater palmas de pé se gostou muito do que viu. Mas também, o que eu iria esperar daquele bando de gente tosca que vai de camisa havaiana e bermuda para o teatro e não sabe nem fazer ola?
Escrito por Rafael | 11:46 PM | Comentários (1)
fevereiro 10, 2006
Globalização

Escrito por Rafael | 02:45 AM | Comentários (1)
Aspas para D.G.R.
Primeiro o Islão morde a orelha da Europa, logo mais passará a mão na bunda da América.
Escrito por Rafael | 02:42 AM | Comentários (1)
Calma Betty, calma
Muitas loas a Betty Friedan nos anúncios fúnebres. Nunca li nada dela. Exceto uma única entrevista, que acabou com minha vontade de ler qualquer coisa de Betty Friedan. O ano era 1972, e ela caiu na besteira de visitar o Brasil, onde morava sua amiga Rose Marie Muraro e na insanidade ainda maior de dar uma entrevista ao Pasquim. Por algum motivo obscuro, eu coloquei na minha mudança o livro de entrevistas do Pasquim, então cito após relê-la. Quem abre os trabalhos é Paulo Francis, perguntando elegantemente se ela tinha vindo para terminar com a "submissão secular da mulher brasileira". A seriedade dura mais ou menos umas 4 perguntas, quando Flávio Rangel quer saber a opinião dela sobre "as posições da mulher brasileira". Betty Friedan saca a molecagem e diz que não vai responder porque aquilo era piada e queria que o movimento feminista fosse levado à sério. Millôr Fernandes corta, dizendo que não permitir que se faça piada com um assunto era uma atitude muito pouco democrática dela. Na sequência, ele falaria que ali todos eram humoristas, gente para quem o humor era uma coisa muito séria. Betty Friedan continua defendendo suas teses, sem ser interrompida -- o livro foi diagramado em duas colunas por página, e uma de suas respostas chega a ocupar as duas colunas de determinada página. Depois de muito trólóló, Millôr diz que leu o livro dela e que ficou com a séria impressão de que ela não chega a lugar nenhum no final; Friedan replica que o "movimento de libertação é contínuo" e não terminou. Lá pelas tantas alguém mete os hippies e o lance de queimar sutiãs no meio da conversa, e Betty Friedan primeiro afirma que o tempo dos hippies já tinha passado e depois que não houve queima nenhuma, aquilo foi armado pela imprensa. Foi não foi, foi não foi, perde as estribeiras e começa a chutar os entrevistadores por debaixo da mesa, "fuck you! fuck you!".
Muita gente até hoje acha que ela deu um show ao não deixar nenhuma pergunta no ar e defender o movimento. Minha impressão clara é a de alguém, ainda que intelectualmente extremamente articulada, que não sabe o que quer -- mas quer continuar esperneando, que não sabe reagir ao humor e que nega alguns fatos. Quando fala nela até hoje, Jaguar se lembra mais que ela foi beber com ele no Antonio's depois e aguentou legal o vira-vira do que da entrevista propriamente dita. Sinceramente, se isso é o melhor que o movimento feminista conseguiu gerar...
Escrito por Rafael | 02:20 AM | Comentários (0)
fevereiro 08, 2006
From Hipsters to Gonzo
Terminei de ler From Hipsters to Gonzo. Não tem detalhes tão picantes quanto Easy Riders, Raging Bulls, mas mesmo assim traz umas curiosidades bem interessantes, por exemplo: Ralph Steadman foi escolhido para ilustrar os artigos de Hunter Thompson porque era o único sem compromisso na época; a primeira escolha teria sido ninguém menos do que Road Dahl. Tom Wolfe não estava encontrando o meio de por no papel as aventuras de Ken Kesey e os Merry Pranksters, e só conseguiu depois de tomar LSD -- isso após passar meses entre os pranksters sem encostar nas pílulas e, segundo Ken Babs, sem sair do terno de 3 peças: "nós nunca o vimos nem em mangas de camisa". Norman Mailer estava muito reticente em aceitar o convite para a marcha ao congresso que descreveu em Armies of the Night.
O livro recria detalhes de cada grande reportagem que forjou o estilo conhecido como New Journalism e catapultou para a fama seu autor, ainda que não acompanhe no detalhe a carreira que se seguiu, quando houve uma. Estão lá Hunter Thompson no meio dos hells angels e em Las Vegas, John Sacks no Vietnã, Tom Wolfe nas festas de Bernstein, Gay Talese perambulando por Manhattan, além de gente igualmente importante, porém menos falada, como Joan Didion (Slouching Towards Bethlem) ou Jimy Breslin. Quase todo mundo tem um capítulo próprio, Tom Wolfe atravessa quase todo o livro e ainda há reconstituição do contexto que formou a Esquire e a New York, suplemento literário do Tribune que posteriormente se converteu em revista de variedades, os dois maiores veículos para o new journalism. Nesse sentido, é louvável que se resgate a importância de editores como Harold Hayes e Clay Felker, que deram muito suporte aos repórteres, além de Jan Wenner. A se lamentar, apenas, o curto espaço dedicado a Gay Talese, que só aparece no final do capítulo sobre a Esquire e a ausência de George Plympton, que não era exatamente desse estilo. Em compensação, há uma brilhante análise das raízes do jornalismo investigativo com cunho literário, passando por John Hersey, George Orwell, Truman Capote e Jack London, e da causa mortis que enterraram aquele estilo: falta de rigor na apuração dos fatos, queda para o sensacionalismo, enfim, o mal uso das liberdades de redação.
Dá uma vontade danada de ler ou, no meu caso, reler um monte de artigos citados no livro. Felizmente minha mudança já chegou e, com ela, Advertisements for Myself e Unto the Sons. Mas o que estou na pilha mesmo de ver são os bastidores de uma obra-prima.
Escrito por Rafael | 09:32 PM | Comentários (0)
fevereiro 06, 2006
Para quem queria saber

Para quem andou perguntando: é muito gostoso, macio e suculento, mas tem que pedir o filé; se for de loin, como esse aí do cartaz, vai ser um pouco mais duro de mastigar. Em geral vem preparado com molho de vinho e acompanhado de purê de batata doce. Regado a Tripel Karmeliet no pub belga, foi uma a refeição mais saborosa que eu fiz desde que cheguei.
Escrito por Rafael | 05:11 AM | Comentários (0)
Australianas II
Sexta-feira foi dia de acertar contas comigo mesmo e fazer um programa que eu tentava há anos sem conseguir: assistir a uma peça de Shakespeare encenada num parque público. Não que não tenhamos grandes parques públicos no Brasil; Ibirapuera, Farroupilha ou o Aterro do Flamengo se prestariam perfeitamente a isso, mas a última peça de Shakespeare que ouvi falar em terem encenado foi a versão do Zé Celso para Sonho de uma Noite de Verão no Parque Lage, e não era bem isso o que eu tinha em mente quando pensava em, bem, em Shakespeare on the park, o park, no caso, sendo Kings Park.
Então lá fui eu, cadeira dobrável debaixo do braço, me juntar às centenas de pessoas que se amontoavam num declive do parque em cujo vale foi montado o palco, para desfrutar dessa experiência única que é assistir uma peça do maior dramaturgo de todos os tempos encenada em meio a árvores, grasnar de corvos e cacatuas, grilos e com o pôr-do-sol à beira do rio Swan ao fundo, entre gente que aproveitava para filar um piquenique ou bebericar um vinho mas que assumiu silêncio sepulcral à primeira fala, em suma, tudo o que eu esperava. Valeu a insistência; depois de anos ou porque eu estava fazendo outra coisa na cidade, ou porque a temporada já tinha acabado, ou porque eu raramente viajo no verão (quando é a temporada desses eventos ao ar livre), risquei mais essa da minha lista de coisas para se fazer. E olha que era Twelfth Night, nem é das minhas preferidas.
No dia seguinte peguei uma sessão do Jack McCoy Surf Film Festival. Dessa vez, acertei nas duas tacadas em coisas que australianos prestigiam, porque tanto o parque quando os mais de 1000 lugares do histórico Regal Theatre em Subiaco estavam cheios. Como sempre gostei de documentários sobre surfe onde tem surfista, tem um monte de coisas de que eu gosto, decidi aparecer por lá. A platéia soltava oooooooohhhs consternados toda vez que um surfista de onda gigante levava uma vaca e era tragado na espuma, no curta que mostrou os concorrentes ao prêmio de mil dólares por pé para quem surfasse a maior onda do ano. Antes foi exibido o vencedor do concurso de amadores, levando o público às gargalhadas com a falta de articulação do ator-produtor-diretor, não fosse essa característica notória dos surfistas. Um moleque do meu lado puxou papo antes do filme principal, estrelado por Joel Parko e dois "grommets", estreiantes, um documentário com roteiro na linha dos filmes pornôs: um fio de história em muita ação. Do meu lado puxou papo um moleque de Mavericks, uma dessas praias conhecidas por suas ondas grandes; tinha o sotaque arrastado de quem mora perto do mar. Entre os filmes, o próprio Jack McCoy foi lá em cima falar algumas palavras e distribuir prêmios.
Escrito por Rafael | 03:48 AM | Comentários (2)
Opium Dei
No começo eram uns nomes palindrômicos, tipo Oto come MocotÓ ou Dog GoD, depois vieram outros mas o Lisandro sempre acabava matando o blog depois de algum tempo. Me prometi não dar mais o endereço se ele inaugurasse outro, mas ele vem com um texto desses e não dá para não repassar:
Orientação Vocacional
- Eu quero ser jornalista cultural.
- Eu prefiro ter um emprego público.
- Ah, eu vou é viver da minha arte.
- Beleza, pessoal, mas vamos ouvir as outras pessoas. Alguém aqui, ao contrário dos que já falaram, quer ser algo mais que um vagabundo?
Escrito por Rafael | 03:43 AM | Comentários (2)
fevereiro 02, 2006
Até pro King Kong sobrou
O reflexo mais incômodo do 11 de setembro foi o congelamento dos discursos. Tudo que se diz ou se quer dizer hoje parece girar em torno de uns dois ou três temas principais, e seus desdobramentos. Terrorismo, a questão árabe, intervenções do governo dentro e fora de seu país, guerra. É chato, porque qualquer livro de qualquer escritor com uma obra de respeito vai necessariamente versar sobre a relação dos EUA com o poder, restrição de liberdades individuais à luz de um proveito coletivo maior, mesmo que esse proveito seja a guerra; "o ambiente sufocante em que se vive" etc. Não me queixaria se essa cristalização se limitasse às obras literárias minimamente pretensiosas, mas o mesmo acontece da música pop ao cinema hollywoodiano, produtos de perecibilidade calculada típicos da indústria do entretenimento. Você vai ver um filme e não está mais seguindo uma história, mas assistindo a um comentário "ao autoritarismo reinante na América de hoje", a "uma crítica à política de Bush". Praticamente todos os filmes concorrentes ao Oscar são sujeitos a uma segunda leitura de subtexto político, de crítica, de protesto. Você não vai mais ao cinema saber como Truman Capote construiu sua obra-prima literária, vai assistir a "uma voz pela humanização das relações humanas", não vai mais assistir uma história sobre relações humanas em Brokeback Mountain, vai "dar ouvidos à voz das minorias oprimidas", não vai mais entender as relações entre mídia e estado, vai ver "uma crítica à interferência do governo nos meios de comunicação". Até o Spielberg, o "conservador" que até outro dia só queria saber de dramas de família, da importância do lar, só fala nisso recentemente: Minority Report seria uma crítica à condenação do crime antes dele ocorrer, vide "guerra preemptória"; Guerra de Mundos seria um estudo da reação aos ataques de estrangeiros; Munique, claro, é sobre o terrorismo propriamente dito e as tentativas totalitárias de contê-lo -- parece que na tela não estão aparecendo alienígenas, mutantes, ficção científica, agentes secretos, gente de carne e osso, mas uma tese de mestrado está sendo defendida. Até pro King Kong sobrou. Tudo bem que seja lugar comum a idéia do artista como espelho de seu tempo, que ele ajuda a entender e explicar. Mas já está na hora dos verdadeiros artistas realizarem seu potencial e transcenderem as barreiras do tempo, e voltarem a falar dos assuntos eternos e caros aos seres humanos, isso é mais importante do que qualquer comentário político.
Escrito por Rafael | 10:30 PM | Comentários (6)
Cada vez menos deles
Tava demorando, mas aconteceu: aquela notícia triste da terrinha que te deixa mais triste por estar longe. Eu sabia do adiantado da idade do Otelo Caçador, mas gente assim nunca se espera que morra. Fora retrospectivas do Salão Carioca de Humor, nunca acompanhei o traço do Otelo nos jornais; no entanto, sempre ouvi as maiores maravilhas de seu talento para a gozação, essa arte quase perdida do carioca: o diploma do sofredor, o placar moral -- que nunca dava derrota para o Flamengo. Até do Zico eu já vi referências sobre o Otelo. A única vez que o vi foi durante uma cerimônia de premiação dum Salão Carioca, quando ele entregou um troféu-homenagem ao Lan, cujas garatujas agora viraram escultura. A título de apresentação, contou Otelo que conhecera Lan no começo dos 1950 em Montevidéu, mais de 50 anos atrás, onde ficaram muito amigos. Ele teria feito uma previsão ao italiano feito uruguaio: "olha, você ainda vai se mudar para o Rio de Janeiro, vai virar carioca. E vai ser Flamengo!". Para alguém que se dizia Flamengo saudável, Otelo era um bocado fanático.
Aproveitando a deixa: enquanto eu estiver por aqui, façam o favor: nenhum amigo meu se case, muito menos dê uma daquelas festas de arromba. Flamengo, não caia para a segunda divisão e tampouco contrate nenhum craque de verdade. Todos os decanos, reservas morais do espírito carioca, não vão ficar morrendo. Luana Piovani, não me apareça pelada na Playboy. Meus amigos escritores, não lancem nenhum livro genial (filme não adianta pedir, porque o Beto Brand já soltou o dele).
Escrito por Rafael | 05:11 AM | Comentários (2)