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março 31, 2006

Dealer's Choice: Patrick Marber antes de Closer

Dealer's choice é o nome de uma variação do pôquer em que, a cada rodada, quem dá as cartas decide qual variante de pôquer será jogada naquela rodada. Dealer's Choice também é o título da primeira peça de Patrick Marber, que revelou seu talento para o teatro e a qual assisti essa semana na montagem da PTC. Para quem não associou nome à pessoa, vou fazer aqui o papel que durante muito tempo foi bem feito por Paulo Francis nas suas páginas semanais e apresentar: Patrick Marber ficou bem mais conhecido através de sua segunda peça de teatro, adaptada por ele mesmo para o cinema e dirigida por Mike Nichols: Closer. Agora deu para localizar, né?

Como eu tinha achado o texto de Closer excelente, nenhum exagero alinhá-lo às grandes peças onde a tensão sexual é latente (como Um Bonde Chamado Desejo), decidi conferir e valeu muito à pena. Se o tema de Closer é a política sexual nos relacionamentos entre jovens profissionais e o tom é de um pessimismo inescapável (um crítico escreveu que Marber é um dramaturgo de fazer Racine, o cronista clássico da paixão fatal, parecer um otimista), Dealer's Choice é sobre, mais do que a compulsão, o vício em jogar cartas que une os 5 personagens e tom, apesar das discussões, significativamente mais leve, atenuado sobretudo pelos rotinas cômicas do personagem Mugsy, que beira o pastelão em certos momentos e só não cai nor ridículo porque fica evidente que ele está ali no papel de patético. Que inspira compaixão.

A peça começa exatamente com Mugsy tentando convencer o cozinheiro Sweeney a não fazer forfait na roda de pôquer semanal da turma; Sweeney tinha prometido passear com o filho e acaba cedendo jogar por uma hora, depois de muita insistência, com a recomendação a Frankie que guarde seu dinheiro maior para que ele não se sinta tentado a apostá-lo na mesa. Frankie é garçom no mesmo restaurante em que Sweeney trabalha e tem pretensões a se tornar jogador profissional; Mugsy, perdedor crônico, tem um mirabolante plano de ganhar dinheiro suficiente para abrir seu próprio negócio e parar de trabalhar horas extras pagando o que perdia na mesa para seu patrão, Stephen, cujo filho, Carl, é viciado em jogo e deve dinheiro para meio elenco, e deve muito dinheiro para Ash, um misterioso jogador profissional que, naquele domingo, juntaria-se excepcionalmente à mesa.

O que a peça tem de brilhante é a análise do comportamento dos viciados em jogo -- todos personagens, em algum momento da peça, se acusam mutuamente de serem dependentes, com agressividade ou fraternalmente -- sem cair no esquematismo, sem criar estereótipos e sem fazer teatro de idéias: tudo ocorre em meio à ação. A cena mais impressionante em termos de linguagem está no primeiro ato, quando dois pares de atores começam a discutir separadamente por motivos diferentes, convergindo para diálogos paralelos muito semelhantes até que não seja mais possível discernir um bate-boca que se superpõe ao outro, efeito largamente explorado em Closer. O que impressiona aqui é que, apesar do texto ter sido escrito exatamente daquela forma, a diretora optou por não usar o recurso do corte (que, no teatro, se faz desligando a luz de uma parte do palco e deixando iluminada somente a área onde a ação acontece), deixando a luz aberta o tempo todo e apenas alternando as falas, até que os gritos das discussões se superpõem.

Marber escrevia de cadeira, desde que veio, ele mesmo, a ser viciado em jogo no período anterior ao que escreveu a peça, chegando a perder, em uma noite, dez mil libras. Hoje em dia está casado e tem uma filha pequena, continua morando na Londres de suas peças e, segundo amigos, seu humor pessoal melhorou muito -- o que talvez prejudique sua produção teatral. Em entrevista recente, confessou que, quando começou a escrever para o teatro, imaginava produzir umas 20 peças antes de se aposentar, e agora, aos 40 anos, se diz contente se conseguir chegar a dez.

Escrito por Rafael | 01:53 AM | Comentários (0)

março 30, 2006

Burburinho

Pouco depois de chegar aqui, alguém me disse assim sobre a cidade, "you'll miss the life, you'll miss the hum", referindo-se ao fato de Perth ser uma cidade extremamente espalhada, de baixa densidade demográfica e estilo de vida pouco cosmopolita-urbano. Já imaginava aquilo quando ouvi a frase, mas só bem recentemente fui entendê-la por completo. O dia de Saint Patrick foi celebrado e comemorado em tudo quanto é pub da cidade, fizeram um evento ao ar livre numa praça em Fremantle mas -- e essa é toda a diferença -- não era possível sentir, no ar, a excitação com a proximidade do evento. Lembro que, no Rio ou em SP, quando tem uma coisa tipo Rolling Stones na praia ou carnaval chegando, é como se todas as conversas se galvanizassem numa só direção e todo mundo só pensasse naquilo. Aqui, não. Se não fosse avisado, um morador qualquer poderia passar tranquilamente sem se dar conta do Dia de Saint Patrick. O que é interessante, porque fica muito mais fácil de te isolar de certo ruído urbano que só serve para causar intereferência na vida cotidiana, mas também é ruim, porque se bobear você cai numa rotina e só vai saber o que está acontecendo na cidade bem depois que aconteceu.

Escrito por Rafael | 09:05 PM | Comentários (0)

Aaaahhnnnnn...

Aqui na Austrália a camada de ozônio da atmosfera é escassa. Isso significa que o australiano comum recebe em média muito mais radiação solar ao longo de sua vida, e também a altíssima incidência de câncer de pele: um em cada dois australianos têm. Câncer de pele não é o único problema causado pelo sol; o desgaste da vista pela luminosidade também entra na conta. Para freiar esse desgaste, ainda não inventaram nada melhor do que óculos escuros, e por medida de saúde pública qualquer óculos daqui vem com filtro de radiação ultra-violeta. Usar óculos escuros não resolve completamente o problema porque, dependendo do formato, eles podem deixar luz entrar nos olhos pelas frestas da armação, o que é duplamente danoso, porque as pupilas, auxiliadas pelo filtro artificial, estarão dilatadas, permitindo maior entrada de luz.

Aaaaahhhnnnnn... Então é por isso que essas gurias australianas usam tanto esses óculos besouro que ocultam um terço do rosto... Não é só um negócio féchom, tem que fechar as frestinhas para as pupilas crescerem tenras e saudáveis.

Escrito por Rafael | 02:06 AM | Comentários (1)

O problema de lojas como a Kathmandu

O problema de lojas como a Kathmandu é que elas não vendem produtos, vendem uma idéia -- uma idéia de vida mais ligada à natureza, sem neuroses, viajandona e exploradora -- o que lhe permite cobrar um preço 3 vezes maior do que cada artigo vale. O grande problema específico da Kathmandu é que acabou de começar a promoção de Páscoa, com descontos de até 60%...

Escrito por Rafael | 02:01 AM | Comentários (1)

março 24, 2006

Chegadas e caminhos

A banalização das viagens e do turismo ampliou o número de viajantes, mas teve várias contrapartidas desagradáveis, como a conversão de igrejas e museus em parques de diversão, a dessacralização da experiência no exterior e, sobretudo, a deterioração das chegadas. O tom menor já começa no desembarque.

Não é possível comparar, apenas para ficar em dois exemplos, o que é a chegada, hoje, em Veneza, através da Ferrovia -- e olha que o trem atravessa por cima da água, numa imagem bem impressionante -- ou no Rio de Janeiro, de ônibus, pela Avenida Brasil -- e olha que quem vem pela Ponte Rio-Niterói tem uma visão privilegiada -- com os espetáculos indescritíveis que eram descer do barco, respectivamente, na Praça de São Marcos, há 200 anos ou na Praça Mauá, há 50 anos. Ver os arcos do Palácio dos Doges se aproximando ao longe e desembarcar naquele amplo espaço coberto por pombos deveria ser uma imagem de emocionar até as toras do navio. Descer a ainda afrancesada e muito arborizada Avenida Rio Branco, desaguando na Avenida Beira Mar, e receber o golpe fatal de ver a praia de Copacabana se abrindo depois do Túnel Velho deve ter feito muito imigrante nordestino achar que tinha chegado no paraíso.

Como em tudo, a praticidade aniquilou muito desse tipo de romantismo em nome duma maior eficiência em acomodar largas parcelas de população, e é cada vez mais difícil reproduzir essa sensação de espetáculo que só uma chegada à maneira antiga é capaz de provocar no viajante, depois de semanas, talvez meses no mar. Provavelmente por isso eu tenha ficado tão tocado ao chegar em Fremantle de barco pela primeira vez, apesar de já conhecer bem a cidade.

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Se aniquilou, a praticidade também se encarregou de criar emoções novas, impossíveis antes da era dos automóveis. Em Roma ainda é possível pisar nas pedras de um pequeno trecho de rua no Fórum Romano por onde Nero, Calígula, César e todos os imperadores desfilavam em suas bigas; percorrer a Unter der Linden, em Berlim, é acompanhar um sucessivo desfile de prédios públicos notáveis, talvez ainda mais bonitos quando iluminados de noite. Mas são trechos antigos, feitos para se fruir à pé ou, na melhor das hipóteses, no lombo de um cavalo, ao contrário de São Paulo, que ninguém que não tenha descido a Avenida Paulista de carro tem o direito de dizer que conheceu. Eu já tinha caminhado por inúmeros trechos do centro dessa cidade. Mas nada se comparou a percorrer de carro a artéria financeira de cabo a rado, de East Perth aos cloisters, vendo Adelaide Terrace se transformar em Saint George's Terrace à medida que os arranha-céus, bancos, a sala de concertos e os poucos prédios históricos que sobreviveram passam. Inesquecível.

Escrito por Rafael | 02:07 AM | Comentários (1)

Verão 2006

Os 3 dias seguidos de frio anunciam incofundivelmente que o verão acabou. Pois é, e eu que achava que o verão do ano passado tinha sido impressionante...

Escrito por Rafael | 02:06 AM | Comentários (0)

março 22, 2006

Lição de vida

Homer ensina a se dar bem na vida
Todo dia essa filial da Elizabeth's Secondhand Bookshop troca a frase que vai no quadro-negro.

Escrito por Rafael | 11:10 PM | Comentários (1)

março 21, 2006

Posteridade

Há mais ou menos um ano a TV Globo tentava empurrar pela goela dos espectadores o mais novo símbolo sexual da estação: Tânia Kalil, que também atendia como senhora Jairzinho de Oliveira. Foi capa de revista para burro, destaque no carnaval, papel de destaque em novela de Aguinaldo Silva -- só faltou decolar. Depois de seqüestrarem violentamente a atenção do povo por meses a fio, a moça sumiu. Mas a posteridade sempre se vinga.

Por que eu lembrei dela? Porque outro dia vi uma foto da Eva Longoria e achei parecida.

Escrito por Rafael | 10:01 AM | Comentários (4)

março 20, 2006

Não se pode confiar em mais ninguém

Realmente não se pode confiar mesmo mais em ninguém para absolutamente nada: basta se ausentar um pouquinho para os amigos começarem a casar, as editoras lançarem antologias que sempre prometeram, os músicos estrangeiros começarem a dar shows -- isso não, ao menos Santana sempre andou passeando pelo Brasil. Mas deixa estar, jacaré, que quando eu assistir V de Vingança em primeira mão vou me vingar...

Escrito por Rafael | 11:56 PM | Comentários (0)

Vem aí

The Maj's abriu uma competição de monólogos com premiação (tipo de coisa feita pro Lisandro) e no sábado começa o Fremantle Festival of Photography. Mas, como todo mundo sabe, dizem que no Rio a vida cultural é muito agitada.

Escrito por Rafael | 11:49 PM | Comentários (0)

50 anos de Geração Beatnik

No suplemento de sábado retrasado do West Autralian avisaram: faz 50 anos da notória reunião de escritores para uma leitura de seus textos na Six Gallery, em San Francisco, o evento que marca o nascimento literário da Geração Beat. Foi ali que Lawrence Ferlinghetti fez o famoso convite a Allen Ginsberg, o convite que se converteria numa dor de cabeça pois o livro Howl seria acusado de obscenidade e levado aos tribunais, assim como Naked Lunch, de William Burroughs. Norman Mailer depôs como testemunha de defesa. Um jovem Hunter Thompson esteve presente à essa leitura, bebendo cerveja e rolando as latas vazias pelo chão, Jack Kerouac viraria celebridade vítima de si próprio e a literatura marginal nunca mais seria a mesma.

Em meados da década de 1950, Norman Mailer escrevera um ensaio em que antevia muito do que seria dito na década seguinte, The White Negro, inclusive o desabrochar dos beats, não o literário, o existencial. Em 1959, ele e Truman Capote, que agora está na moda, compareceram ao programa de televisão do Johnny Carson onde foram convidados a debater o valor literário dos beatniks. Naturalmente, Mailer defendeu-os como pôde, mas simplesmente não foi capaz de evitar que Truman ganhasse a discussão com uma frase tão antológica sobre o estilo de Kerouac que apagou da posteridade a réplica de seu oponente: That's not writing, that's typing ("Isso não é escrever, isso é digitar"). Norman Mailer não deve ter se aguentado dentro das calças, mas o fato é que bem pouco tempo depois disso, executou um corajoso exercício que repetiria pelo menos mais uma vez em Canibais e Cristãos: alinhar um a um todos os principais escritores de sua geração, comentando os estilos, defeitos e potencialidades de cada. Esse artigo foi parar no livro Advertisements for Myself. É de lá o excerto que vem sendo usado no material de divulgação do filme, no qual Mailer diz textualmente que Capote é o escritor mais perfeito de sua geração. Mais interessante que Mailer tenha acertado na previsão de que Truman ainda estaria para escrever sua grande obra (ele só não sabia que seria In Cold Blood), e na perfeita crítica às limitações literárias de Kerouac. Anos depois, diria algo semelhante de Burroughs, citando-o como talvez o mais importante escritor dos EUA à época. O legado está aí, para quem quiser conferir.

Recomendo, dentre o que há disponível em português, a edição definitiva de Almoço Nu, na tradução de Daniel Pellizzari.

Escrito por Rafael | 09:33 PM | Comentários (1)

Quase esqueço

Está no ar o terceiro número da Cortante, mais uma vez capitaneada pelo Flávio de Almeida. O tema da vez são sonhos, mas o Flávio arrumou um jeitinho de encaixar meu texto sobre Perth -- e ainda me citar na apresentação. Obrigado!

Escrito por Rafael | 12:18 AM | Comentários (1)

março 19, 2006

Edward O. Wilson

Camarada Elesbão tem a criação de formigas dele; eu cá tenho a minha.

Escrito por Rafael | 10:59 PM | Comentários (0)

Mario Sergio Conti dá as cartas

Ninguém destacou, destaco eu o que ele escreveu a propósito do filme Capote:

[...] duas cenas exemplares, no que diz respeito à admiração. Na primeira, um homem comum, que ouviu Capote ler trechos do livro, o procura para dizer que ficou comovido. O escritor, que contava um caso escabroso [...], o trata mal, goza dele. É assim que, até onde minha experiência alcança, escritores e jornalistas tratam de seus leitores comuns. Na outra cena, Capote pergunta, ansioso, se Tenessee Williams gostou de “A sangue frio”. O que importa é o reconhecimento dos pares.

De vez em quando alguém tem que dizer as coisas como elas são com todas as letras.

Escrito por Rafael | 09:04 AM | Comentários (1)

Multiculturalismo, aqui vou eu

Ao invés de fazer como a imensa maioria dos brasileiros que vêem para Perth e meter a viola no saco, ir à praia, jogar futebol no Kings Park e fazer churrasco, não, resolveu explorar a nova cultura, se integrar aos locais, experimentar outros conhecimentos -- agora, paga. Foi assim que resolvi me meter a assistir o principal evento de celebração da Austrália multicultural organizado pela Kulcha, (uma espécie de Centro Cultural Sérgio Porto do multiculturalismo), a saber: um apanhado de músicos e bailarinos chineses, indianos, africanos, enfim dos quatro cantos do (terceiro) mundo, muito propriadamente chamado World Music Carnival 2006.

Na bilheteria, fui recebido por uma senhora com forte sotaque francês -- eu tinha que ter desconfiado! Onde tem etnias exóticas em extinção tem francês, não tem europeu que curta mais isso do que francês, sobretudo se for do terceiro mundo. Amigo meu pós-graduando na França diz que, no dia em que a pobreza acabar, acaba junto o interesse dos franceses pelo Brasil.

Você sabe que está entrando num evento multicultural na Austrália quando o primeiro som que ouve, antes mesmo de enxergar o palco, é o berro de um didjeridoo, o berimbau australiano. Você tem certeza de que está num evento australiano quando vê um monte de gente sentada na grama -- grama em país anglo-saxão é para se usar, sentar, jogar golfe, críquete, futebol e sobretudo andar descalço -- fazendo piquenique e bebericando vinho, de preferência com o luar estrelado por cima. Ô povinho para gostar de uma farofada, esse.

A programação prometia ritmos de Moçambique, dança indiana, coreografias chinesas, canções do Sudão e, para encerrar, "o mais excitante trio de percussão"... da Austrália! Peraí, não era para ser um evento do terceiro mundo? O que a Austrália está fazendo aqui? Ah, é claro, afinal, somos multiculturais, somos globalizados, mas antes de tudo somos asutralianos... Então que eu cheguei a tempo de pegar o comecinho de um grupo de dançarinas da China, numa coreografia cujo movimento mais impressionante era o jogar de cabelo para a frente e para trás, com fortes golpes de cabeça, ao som do que um brasileiro classificaria apenas como música oriental. Muito me chamou a atenção que tivessem umas duas ou três bailarinas gorduchas ali no meio, porque dançarinas em geral são as que tem o corpo mais bem torneado entre atrizes, atletas, gente cujo corpo é instrumento de trabalho, enfim. Mas não no grupo chinês, ali as gordinhas se misturavam ao resto na maior, numa coreografia que dava mostras de falta de ensaio. Tudo bem, é o primeiro número apenas, vamos em frente.

Eram várias apresentações intercaladas, nem sempre contando uma história linear; das que se propôs a isso, a melhor foi a da dupla Valli Batchelor e Kitsiri, um duo indiano que contou uma história de sedução do Rei Davi, da Bíblia (não me pergunte o que os indianos foram procurar na Bíblia com tanto Mahabaratha para ler), com aquelas sensualíssimas danças das mil e uma noites, foi o momento "tirem as crianças da grama" da apresentação. Eu fiquei um bocado desconfiado porque os números indianos aconteceram ao som de música gravada, e no entanto um dos dançarinos lá pelas tantas pegou um tambor e começou a fingir que estava batucando. Aí não, aí é demais, vamos deixar o amadorismo para quem faz essas coisas. Tipo aquela guria no Rock in Rio 3. Mas depois se redimiram, sobretudo a moça, arrancando aplausos da platéia, que assistia a tudo só quebrando a atenção para beliscar alguma coisa de um dos potinhos plásticos de piquenique.

Depois as chinesas voltaram com mais uma daquelas coreografias na linha Busby Berkeley, fazendo desenhos com os corpos, do gênero que a Unidos da Tijuca andou aprontando no carnaval, só que com a delicadeza de movimentos que um carioca diria que compõe a identidade oriental. Por exemplo, aqueles movimentos com os pulsos como quem está desatarrachando uma lâmpada do bocal, que tem muito nessas coreografias chinesas. Mais palmas.

Seguiu-se à segunda entrada das chinesas o que julguei o melhor show da noite, o grupo de Ngoma, trazendo os ritmos e as danças típicas da região de Moçambique. A crioula que liderava o pequeno grupo entrou com um sorriso muito aberto no palco, foi carismática ao microfone, disse que era hora de trazer a diversão e conquistou o público: mais simpatia em meio minuto do que eu presenciei nos últimos 3 meses, mas vamos em frente. Pelo que entendi, faltava moçambicano para exibir as danças típicas, então engrossaram o côro com umas 4 australianas loiras, duas das quais enormes, selecionadas apropriadamente para o fundo do palco, cada uma trajando uma peça típica moçambicana e com o cabelo preso numa bandana, à maneira africana, o que aumentava um pouco a sensação de estranheza. O primeiro ato foi uma música típica na qual cada dançarina vinha para o centro do palco e exibia um movimento típico de dança, meio como uma apresentação do repertório. Do segundo em diante é que começaram a dançar em grupo. É aí que começa ficar bom.

Começa porque tinha uma mulatinha no palco, estilo Camila Pitanga, que botava para quebrar; vi mais jogo de cintura e rebolado ali do que em 3 meses de Perth. Daqui para diante, toda a vez que eu ouvir a expressão "tem branco no samba", vou me lembrar daquele número. Funcionava assim, a Camila Pitanga no meio do palco fazendo uma sequência de movimentos e o côro repetindo em conjunto, mais ou menos como a Ivete Sangalo puxando uma dancinha numa micareta. Aliás deu para ver de onde esse pessoal tira muitos dos passos de coreografia de micareta na apresentação moçambicana: Mama África. Então tinha um passo que era similar ao can-can, uma pedalada com uma perna de cada vez, se dúvida um movimento vigoroso, mas que ficava solto, leve e até gracioso quando feito pela mulatinha -- porque quando chegava a vez da loirona repetir, ai de quem estivesse na frente daquele pernão chutando o ar.

Eu sei é que a última música, a crioula-líder foi ao microfone e disse que aquela música era a nossa música e quem quisesse, podia vir dançar junto. ENCHEU de gente na boca do palco, desanimados e com a mesma cintura dura das loiras gigantes, mas sacudindo o esqueleto assim mesmo. Detetei inclusive alguns versos em português na música que estava rolando, antes de aproveitar a muvuca para conferir de perto a Camila Pitanga. Que engano! Era mirradinha, menor do que eu, feita impressionante pelo arranjo de trajes coloridos e pela imensa liberdade de movimentos em comparação com as cinturas duras do côro...

À essa altura cumpre a sequência dos eventos observar que volta e meio um australiano levantava e ia embora, carregando as cadeiras dobráveis baixas -- era um evento politicamente correto, todo mundo tinha o direito de ver o palco -- e a tralha de piquenique, afinal nós somos multiculturais, nós somos globalizados, nós somos australianos, nós curtimos dançarinas chinesas e música africana mas o que nós gostamos mesmo é de fazer piquenique... Em cada intervalo o microfone era apoderado por um coroa de cabeça branca para apresentar o que viria em sequência e falar um pouco sobre a Kulcha, um estabelecimento de onde o cigarro foi banido, de onde "você não precisa lavar as roupas depois de chegar em casa". Um estabelecimento cultural cuja grande vanglória é não deixar as roupas do espectador fedendo a fumaça? Eu devia ter desconfiado.

Ainda estava sentindo saudades das moçambicanas, ai como faz falta a influência africana para ajudar esse povo a ter ritmo, a saber batucar, a rebolar -- aliás o suplemento de final de semana do West de sábado é exatamente sobre os refugiados africanos na Austrália --, quando o adentrou o palco Ajak (pronuncia-se áiaque) Kwai e sua banda com canções do sul do Sudão. A bem da verdade, só Ajak era do Sudão, a banda inteira era de australianos: eu já estava desconfiando de ver aquele monte de brancos no palco afinando os instrumentos terem vindo do Sudão.

O repertório se constituiu essencialmente de canções ao mesmo tempo alegres e tristes sudanesas, aquele tipo de melancolia que depois veio a gerar o blues e o samba nas Américas. Senão o melhor, sem dúvida o momento mais interessante foi exatamente quando Ajak cantou um blues, permitindo a comparação dos dois tipos de lamento em forma de música, uma baita lição das formas como o sentimento pode tomar numa canção. Curiosamente, Ajak foi apresentada como cidadã da Tasmânia, segundo ela, muito parecida com o Sudão a menos do frio, para onde emigrou fugindo da guerra civil. A julgar pelas 3 tasmanianas que conheci até hoje, Ajak Kwai deve ter sozinha mais melanina em sua pele do que o resto do bairro inteiro.

Fechou a noite Circle of Rhythm, o tal conjunto de percussão australiano, bem interessante, mas que se focou de mais na pirotecnia da percussão, deixando um pouco de lado o ritmo propriamente dito, o balanço, o suíngue. Inventivo e instigante, mas nem um pouco inovador para quem já conhece Hermeto Paschoal ou Uakti.


* * *

Domingo teve manifestação contra a guerra do Iraque na praça principal da cidade. Como se sabe, desde que pediram ajuda aos EUA na II Guerra contra os japoneses que os australianos são aliados e mandam contingentes para que tipo de guerra os americanos se enfiarem da vez: Coréia, Vietnã, Afeganistão e agora Iraque. Não juntou nem 100 pessoas, menos que o bloco de carnaval do Bip Bip. Dentre os quais, contei exatamente 2 hippies, um sujeito com uma camisa escrito em espanhol Los Heroes de la Revolucion sobre as efígies de Hugo Chaves, Bolivar e Che Guevara; 3 góticos, dentre os quais uma ruivinha linda, 3 mães de negro contra a guerra, um sujeito com uma bandeira da Palestina, 3 mulheres de véu árabe e um pessoal de sindicato. Cheguei tarde, peguei apenas os dois últimos discursos: uma muçulmana -- tem muito por aqui, é comum ver gente de véu e até burca nas ruas -- falou sobre o preconceito que enfrenta por conta dos terroristas e como a Austrália deveria acolher muçulmanos, que sim, estavam protestando em sua comunidade contra os atos terroristas e um rapaz alto, de óculos rayban, pele muito branca cuja franjinha na testa e camisa verde musgo deixavam-lhe com uma incômoda semelhança com um Adolf Hitler mais alto e sem bigodinho, que fez um discurso mais inflamado, aproveitando para descer o malho no governo, tiro e queda nesse tipo de manifestação. Depois puxaram uma fila para dar a volta no quarteirão gritando palavras de ordem e empunhando cartazes -- tinha uma caixa de cartazes prontos para você escolher o seu, incluindo protestos contra Israel, Bush e o corte de verbas da saúde pública australiana: é bom aproveitar a chance para protestar tudo de uma vez. Constatei o que já tinha notado no jogo de rugby: australiano é muito ruim em bolar grito de guerra: what we want? Troops out! When we want? Right now!, a única que decolou foi John Howard, war criminal! John Howard, war criminal!, confirmando a tese de que o que sacode o povo mesmo são os problemas domésticos (Howard é o primeiro ministro há 10 anos, o segundo há mais tempo no cargo). Ai que saudade da riqueza de versos e inventividade de Sarney ladrão, Pinochet do Maranhão ou Eu quero mocotó, eu quero mocotó! Será que ao menos ia rolar polícia? Ou o protesto era tão vagabundo que nem policiamento teve? Ah não, olha o carro da polícia ali, com sorte até rola um gás lacrimogênio. Que nada. O carro estava ali exatamente para abrir passagem para a volta no quarteirão, assistida com os olhos incrédulos da imensa maioria dos espectadores. Parecia até aquela história do Norman Mailer em Degraus do Pentágono, mandando um aviso para a polícia que iam cometer atos de desobediência civil no dia seguinte... Ao chegar na Hay Street, a profusão de consumidores varejando as lojas quase engoliu a passeata, tão minguada que estava. É o que dá escolher um domingo de sol para essas coisas.


* * *

Entre as décadas de 1950 e 1970 a Austrália implementou um programa de imigração oferecendo estímulos a estrangeiros que viessem se estabelecer em seu território com o propósito de completar o crescimento demográfico com o que a taxa de natalidade não dava. Foi um sucesso e de lá para cá o estímulo à imigração continuou, porém em outras bases. É um dos pouquíssimos países no mundo onde se pode sentir, de fato, a diversidade cultural planetária num rápido caminhar por alguns bairros. E no entanto ainda precisa fazer muito para se tornar, efetivamente, multicultural.

Escrito por Rafael | 07:25 AM | Comentários (1)

Momento carioca em Perth

Elevador de luxuoso prédio no centro da cidade, quatro pessoas: eu, um colega francês, um desconhecido e uma loira que chegava a brilhar de tão dourada. Quando o elevador pára, o desconhecido espera apenas até a última molécula do corpo dela sair para soltar uma única palavra:
-- Superb!

Escrito por Rafael | 07:22 AM | Comentários (0)

março 15, 2006

CD do Bip Bip

Desde a primeira vez que eu fui no Bip Bip, ouço um papo de reunir os baluartes frequentadores do bar num CD cuja renda reverteria em benefício dos muitos projetos de caridade do Alfredinho, o maior deles, evidentemente, manter o próprio bar. Pois no final do ano passado, depois de muita hora de estúdio cedida, o disquinho ficou o pronto, meu irmão comprou e mandou para copiar. Sábado passado usei minha rapidíssima banda larga para baixar e fui ouvindo faixa a faixa. Até chegar no clássico Reunião de Condomínio, conhecido apenas por quem passa por lá, junto com outros sucessos do mesmo autor, como Cabeça (perdi a minha cabeça / na linha do trem / decepaaaaada...) ou o samba em latim (Quosque tamdem abutere patentia nostra / gritava a nêga / da porta do botequim / Quosque tamdem abutere patentia nostra / a nêga agora / só dá bronca em latim...). Como gosta de dizer a gauchada boa do Insanus, CHOREI.

Para quem não faz idéia do que estou falando: vá aqui e leia a letra.

Reunião de Condomínio (Paulinho do cavaco)

Pare com isso, Adalgisa, veja onde pisa
não vá me sujar
Segure essa bronca Adalberto, você é esperto
não vá me queimar
Arlete, você não se mete
porque nesse prédio eu já estou enrolado
Nogueira, não faça besteira
e mande rasgar esse abaixo-assinado

Aquele xixi na escada foi uma cervejada
eu não pude evitar
A vomitada no plêi eu confesso que dei
mas eu mando limpar
E a discussão na garagem foi uma bobagem
eu confesso a vocês
Que a porrada no síndico dei pra derrubar
mas foi sem soco inglês.

Doutor Agenor, por favor, o senhor
está equivocado
Artur, pelo amor de deus os seus filhos e os meus
são vizinhos de lado
Ernesto, aqui eu protesto
eu nunca dei em cima de mulher casada
Alzira, não conte mentira,
sossegue e mantenha essa boca fechada.

O vidro da entrada quebrado foi o resultado
de um gol que eu perdi
O fogo no elevador foi um curto-circuito
e eu nem estava aqui
E o samba na madrugada
que acordou o Onofre e irritou o Licínio
Era mais uma homenagem
que eu ia prestar para este condomínio

(repete)

Escrito por Rafael | 03:32 AM | Comentários (3)

março 13, 2006

Excelsior: Stan por si mesmo

Stan Lee: Excelsior!Terminei de ler a autobiografia de Stan Lee: Excelsior!, lançada há poucos anos. O que se descobre de fundamental é que ele só fez sucesso e virou celebridade depois dos 40 anos de uma vida bem banal, um exemplo bastante típico norte-americano, fundamentado muito mais no trabalho duro e perseverança do que na explosão de um talento extraordinário. Quando descobriu a fórmula mágica, Stan Lee já escrevia roteiros em quantidade industrial -- estou falando em mais de 60 revistas por mês -- há mais de 20 e já havia pensado mais de uma vez em abandonar o ofício em nome de alguma atividade, senão mais rentável, pelo menos mais nobre: que o permitisse dizer o que fazia numa roda de conversas numa festinha sem se envergonhar no momento seguinte. Não devia ser fácil a vida do autor de quadrinhos antes de Jules Feiffer. É notório inclusive que, até fazer sucesso, Stan Lee admitia vergonha de ser roteirista, carreira abraçada sobretudo por causa da sua prolificidade (baita estímulo financeiro num mercado que pagava por página) e pela frustração em não ter se tornado um escritor. De verdade, daqueles que escrevem livros.

Chega a ser engraçado vê-lo citando Shakespeare ou Hemingway como influências e autores preferidos, ele que sempre fez o pastiche do pastiche nos diálogos que escreveu, isto vindo de um cara que confessa abertamente que usou os raios gama como justificativa para criar o Hulk porque o nome deles soava bem, e que idealizou a armadura do Homem-de-Ferro como um mecanismo externo de controle dos batimentos cardíacos sem saber se aquilo era possível, afinal, "eu não era um médico". Quando diz que, no final dos anos 50, tentava criar histórias com finais inesperados à maneira de O.Henry é mais ou menos quando oivumos Maurício de Souza comentar que suas grandes influências nos quadrinhos eram Will Eisner e Luiz Gê. Mas o fato é que, ao longo dos atribulados anos 1950, Lee desenvolveu um dos segredos para o sucesso da Marvel, qual seja ter se cercado de geniais artistas, capazes não só de diagramar como desenvolver um roteiro a partir de diretrizes mínimas, de lambuja criando uniformes e coadjuvantes de luxo, enquanto cabia a ele apenas determinar o tom da história e escrever os empolados diálogos -- o método que ficou conhecido como Modo Marvel de Fazer Quadrinhos.

Claro que com o sucesso, muitos dos desenhistas acabaram mordidos pela mosca azul e acabaram se estranhando com reconhecimento exclusivo de Stan: o primeiro foi logo Steve Ditko, criador do Homem-Aranha. Lee não arreda pé que todo o conceito e os personagens foram criação dele, quando muito concedendo a Ditko uma co-autoria na qual deixa claro que o personagem é dele. A tese sustentada é de que, uma vez de posse da idéia, qualquer desenhista seria capaz de executá-la -- uma belíssima mentira. Com Jack Kirby foi diferente, porque Jack permaneceu muito mais tempo na Marvel antes do ressentimento fazê-lo sair, mas quando saiu foi espalhando brasa e fazendo acusações até desmesuradas sobre a falta de capacidade editorial de Lee. Jack era uma usina criativa, capaz de acompanhar o ritmo de Lee nas páginas, e ainda adicionando detalhes e enriquecendo aquela mitologia; sem Ditko, Lee teria criado o Homem-Aranha; sem Kirby, nunca teria feito a Marvel. Fica claro um certo ressentimento do contato com eles, que se viam muito mais como operários do traço do que propriamente criadores, evitando quaisquer tarefas administrativas, tipicamente vistas como menores por que está no fim da linha produtiva, mas que poderiam servir de trampolins profissionais (Jack Kirby teria recusado o posto de diretor de arte na Marvel para continuar apenas desenhando, e abrindo mão de um salário significativamente maior). Por seu lado, Stan Lee mantinha com eles mais ou menos o mesmo relacionamento que Martin Goodman lhe dispensava: reconhecia seu valor, dava-lhes crédito autoral, mas no fundo, via-os como substituíveis ferramentas a serviço de Sua Grande Arte de criar personagens.

Goodman, primo distante e fundador da editora Timely, depois chamada Atlas e, finalmente Marvel Comics é, sem dúvida o grande travo na língua de Stan, por não tê-lo dispensado a atenção que ele considerava merecida, por não tê-lo feito uma proposta milionária, nem ao menos oferecido um aumento quando a Marvel foi vendida para uma companhia maior num contrato que obrigava Stan Lee a permanecer como editor e ainda tê-lo acusado de deslealdade quando assumiu o cargo de publisher numa posterior revenda. A partir da década de 1970, ainda com a sorte de encontrar brilhantes sucessores como Roy Thomas ou Jim Shooter, Lee foi gradualmente abandonando o cargo de editor para se tornar um grande divulgador da companhia, exercendo todo o enorme talento para marqueteiro: seu objetivo era tornar a Marvel tão conhecida quanto Disney. Lee percorre então todas as faculdades e escolas secundárias dos EUA e depois parte mundo a fora dando palestras e exibindo a história de seu império. Apenas nos anos 80 abandona N.Y. e passa a morar em L.A., onde manteve uma extensa carreira de fracassos em adaptações para a televisão e cinema seus personagens -- foi preciso Avi Arad entrar em campo para fazer sair os filmes do Homem-Aranha, X-Men, Demolidor, Quarteto Fantástico, Hulk e devidos desdobramentos: mais em cinco anos do que Stan fez nos 20 anteriores, cujo grande feito seria a única temporada do seriado do Hulk. A questão é que a partir de meados da década de 1970 ele não apitava mais nada em termos criativos dentro da empresa.

Duas curiosidades de Excelsior!, para não esticar demais: primeiro, a identidade do Homem-de-Ferro teria sido calcada no milionário excêntrico Howard Hughes, e também para provar a Martin Goodman que mesmo um industrial rico poderia fazer sucesso entre os leitores hippies. Segundo, embora seja comum associar as histórias da Marvel com a contra-cultura, Stan Lee sempre foi o mais careta e enquadrado o possível em sua vida pessoal: alistou-se patrioticamente para ir à II Guerra (passou a maior parte do tempo escrevendo manuais para as rotinas do exército em quadrinhos, como Eisner, mas isso é outro problema), sempre almejou os valores do sistema capitalista, foi casado uma única vez da mulher de quem nunca se separou, nunca usou drogas e compareceu à primeira palestra de divulgação em uma faculdade de paletó e gravata, em 1970, para uma platéia lotadas de estudantes cabeludos e barbudos em roupas surradas e cheias de miçangas...

Escrito por Rafael | 11:48 PM | Comentários (0)

março 12, 2006

Vendo tv e lendo os jornais

Quando a gente muda de país, até saber das notícias se torna um passatempo engraçado.


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Ver televisão não, dada a quantidade de campanhas educativas que rodam nos anúncios. Apesar da fama de aventureiros, o que as estatísticas dizem é que a maioria dos australianos é composta de couch potatoes, gente que se aboleta no sofá em frente da televisão e dali não sai.

O que não seria problema maior para a saúde, comparando-se com a incidência de câncer de pele a cada duas pessoas, se não fosse comportamente copiado pelas crianças. Por isso, no momento rola uma campanha na qual o sofá onde os petizes estão sentados começa a se sacudir e a brincar com elas, ao ritmo duma música que diz "you gotta move, you better move".


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Há coisa de um mês começou uma série nova de programas do Jamie Oliver, aquele cozinheiro inglês. Dessa vez ele resolveu se meter a descobrir o que faz dos italianos tão grandes conhecedores de gastronomia e como de costume, resolveu fazer sua inspeção in loco. Equipou a antiga kombi -- não é modo de dizer, ele tem uma kombi velha, mesmo -- e se mandou para o sul da bota. Não sei se está rolando na tv a cabo, então vou comentar.

O mais genial é vê-lo tentando se expressar com a meia dúzia de palavras que aprendeu em italiano e os locais absolutamente alheios ao inglês dele, falando como se ele entendesse italiano desde pequeno. Quis ser carinhoso e ficou chamando uma velhinha de nona e quase levou um cutucão, "não sou sua nona seu moleque!". Genial.

O formato dos programas é bastante regular: Jamie descobre alguém se alimentando mal, Jaime faz sua alquimia gastronômica, Jamie ilumina o paladar de alguém e ganha um amigo. Primeiro foi ele tentar se meter a vender peixes grelhados numa rua na Calábria. Quase deram-lhe um passa fora. Ofereceu peixe de graça, mas os italianos não queriam arriscar porque estava super temperado com ervas. Acabaram dando o braço a torcer, depois de um tempo. Depois, foi se meter a trabalhar para um restaurante local. O dono quase arranca-lhe o couro, mas libera para que el faça suas receitas. Jaime dá duro, prepara uma penca de pratos, serve, fica meio indignado: "todos eles acham que a comida de suas mães é melhor!". Hilário. No final, cada pessoa dá uma nota aos pratos que comeu. O dono do restaurante pega a imensa quantidade de notas altas, amassa e joga tudo no lixo, ficando só com as 3 baixas e enfia no desconsolado bolso do Oliver. Abraça-lhe e dá uma recomendação: não trabalhe tanto. Eis a diferença entre latinos e anglo-saxões.

Mais depois, Oliver se mete a ir morar num convento onde os frades tinham fama de se grandes glutões. Descobre um latão de legumes preservados na geladeira e começa a ficar intrigado. A janta é legumes no vapor sem tempero. Começa a se irritar -- alguém teria lhe enganado? Resolve fazer tudo sozinho e convoca dois noviços para uma ação de caridade: distribuir comida de graça numa beira de estrada. Claro que é o mote para conquistar os noviços e lhe abrir as portas para os demais frades. O episódio termina com ele botando uns 10 frades para cozinhar coelhos assados, beber vinho e a cena final é ele dançando no meio dos religiosos ao som de uma música do The Cure.

O último que passou foi o melhor de todos: Jamie vai viver com uma família que mora perto de um bosque de onde tira todo o sustento. A primeira providência que eles fazem é colocar Jamie para matar um bezerro. Ele geme, reclama, resmunga, bufa, mas sangra o bruto. Depois vão caçar um porco do mato e Jamie participa de um torneio da cidade local onde ganha quem espalhar a maior área de massa sem furinhos preparando com a mesma quantidade de ingredientes: 2 quilos de farinha e uns quantos ovos. Jamie perde para uma velhinha de uns 80 anos aparentes.

Poucos programas são mais divertidos de assistir.


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A melhor edição do Western Australian é a de sábado, vendida nas ruas a partir da noite de sexta-feira nos sinais e nos bairros boêmios. Melhor porque vem com a revista, WA Magazine e um suplemento de final de semana, combinando cultura e viagem, além de classificados de empregos e imóveis e um caderno específico sobre coisas para casa. Viagem, empregos, imóveis, casas: bem vindo à Western Australia.

O Magazine é uma emulação das revistas de fofocas que contaminam as bancas, com um nível um pouco melhor que não é defarçado pela programação de tv no final. Arrumam um jeito de sempre colocar alguma atriz de Hollywood loira, de preferência que tenha o suposto "conteúdo", ou ao menos que dê pano suficiente para uma matéria de capa.

Há algumas semanas a capa foi a Scarlett Johansson. Mas dessa vez rasgaram o verbo: a chamada inicial era It's all ahead of her (está tudo à frente dela) -- on Woody Allen, a so-far impressive career and her two constant companions e o título da matéria era Keeping abreast of Scarlett. Dois trocadilhos infames com os seios da atriz ANTES mesmo de começar a matéria, cujo primeiro terço inteiro era todo dedicado aos peitos de Scarlett Johansson. Unashamedly. Depois de uns 6 parágrafos, enfim podem-se ler as primeiras aspas dela: "Yeah, well, you know, they're the stars of the fim, really". Isso vindo de uma atriz que foi considerada injustiçada por não ter sido indicada ao Oscar de melhor coadjuvante. Dito em meio a um "sorriso beatífico", segundo a matéria.

Eu queria saber o que aconteceria se fizessem matéria semelhante no Brasil. Com uma atriz nova, ainda não consolidada, de evidentes dotes físicos. Digamos, uma reportagem no mesmo tom e com o mesmo tipo de trocadilhos sobre, vejamos, Luana Piovani em O Homem que Copiava. Qual seria sua reação.

Certamente, sairia com 6 pedras na mão berrando que já é uma atriz conhecida, que aquilo era um desrespeito com seu talento, que o jornalista era de meia tigela e que não aturaria mais tamanha [sic] falta de profissionalismo...


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Mais Western de sábado. Entrevistão com Kurt Vonegut no suplemento de fim de semana; Kurt anda fazendo sucesso com seu novo livro, que fala mal do governo dos EUA. A matéria ocupa duas páginas do formato tablóide e traz uma bela foto do autor aos 20 anos, mas a melhor coisa é um punhado de frases que alinharam na coluna da direita, a título de legendar a foto clássica do Escritor Soltando Fumaça de Cigarro pela Boca". Diz Kurt: "If you really wnat to hurt your parents and you don't have the nerve to be homossexual, the least you can do is go into the arts" (Se você quer realmente fazer seus pais sentirem dor e não tem peito para virar homossexual, o mínimo que pode tentar é uma carreira nas artes).

E ainda tem Calvin, Modesty Blaise (alô alô Dante) e, desse eu senti saudade, O Mago de Id no suplemento de quadrinhos.


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Outra seção muito boa é a de notícias do Mundo, exatamente porque faz jus ao título: Mundo. Reporta não somente o que se passa na Europa ou EUA, mas muito da Ásia, aliás aqui do lado, e África. Numa dessas, peguei um artigo muito bom sobre protestos na Indonésia. Como se sabe, o governo da Indonésia é muçulmano, a política é vinculada à religião (o que faz os ateus ansiarem pela sexta-feira, quando o almoço tem 2 horas de duração por causa de orações obrigatórias) e anda passando por um recrudescimento que tenta aprovar leis mais severas, como a punição de casais que se beijem em público ou uso de roupas menores por mulheres. Levando-se em conta o lucro que o turismo de praia de lugares como Bali tem, dá para imaginar a poeira que anda sendo levantada. O mais interessante é que nesse rolo todo a Playboy resolveu lançar sua edição indonésia.

Para não ofender os costumes locais nem entrar em atrito com as autoridades políticas, os editores prometeram, atenção agora, que a revista não traria fotos de mulheres peladas, apenas pouca e pudicamente vestidas.

Pelo menos dessa vez os leitores da Playboy terão uma bela desculpa ao dizerem que compraram a revista apenas para ler os artigos, conclui a matéria.


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E outro dia, passando pela biblioteca pública, descobri uma coleção completa de The New York Times Review of Books entre 1920 e 2000. Hmm. Deu vontade de conferir umas diatribes literárias famosas ali.

Escrito por Rafael | 09:59 AM | Comentários (3)

março 10, 2006

Na marina

Nesse final de semana o veleiro brasileiro Brasil 1 deve estar chegando em terceiro lugar, quem sabe segundo, na Marina da Glória, Rio de Janeiro, por conta da regata Volvo Ocean Race. Hora de ir lá dar uma última força para a tripulação antes da etapa até os Estados Unidos.

Escrito por Rafael | 04:58 AM | Comentários (0)

março 09, 2006

Blog de analfabeto

Todo mundo encheu o saco: manda as fotos! Manda as fotos! Eis para comemorar meu aniversário de chegada aqui, no ar o fotolog de Perth.

Algumas considerações, porém: não sou fotógrafo nem por brincadeira, então não cobrem muita qualidade ou composição. A maioria das imagens se concentra nos dois bairros por onde um turista de passagem por aqui gastaria o seu tempo, Northbridge e o centro da cidade, mas nem pensar em resumir a cidade somente a isso; só para começar, ficariam de fora as praias. Aparecem muitos prédios antigos, mas a parte histórica da cidade foi praticamente toda destruída e substituída por construções mais novas: qualquer cartão postal do centro vai trazer um conjunto de arranha-céus despersonalizado, e é exatamente isso o que mais se vai ver circulando pelo centro. As ruas estão vazias por causa da baixa densidade demográfica e porque as fotografias foram feitas em domingos, quando ficam particularmente mais desertas, mas não é que não tenha ninguém aqui. Eu não apareço em nenhuma foto exatamente porque estava sacando-as. O Eduardo que eu cito em algumas legendas é um brasileiro que trabalha comigo. O hospedeiro só liberou 3 álbuns para que eu pudesse separar as imagens, então quem quiser procurar por outros bairros (ou temas), vai ter que fazê-lo através da página dos tags. Feitas essas ressalvas, visitem à vontade.

Escrito por Rafael | 01:02 AM | Comentários (1)

março 06, 2006

Fremantle Beer Fest

Hoje, feriadão de dia do trabalho, é o último dia de dar um pulo na Fremantle Beer Fest, mais uma das inúmeras tentativas de agitar o turismo na região com qualquer pretexto -- por que uma cidade que organiza uma Festa da Sardinha não poderia organizar uma festa da cerveja? Então o negócio é fechar o estádio de futebol local e fazer a sua própria Oktoberfest local. Como somos australianos e não alemães, de preferência em local aberto, com bastante sol, bandas ao vivo, muito merchandising. E até cerveja.

Pintei lá no domingo. Foi mais um dia daqueles de calor insalubre que só acontece nesse país onde parece não haver camada de ozônio. Qualquer meia horinha debaixo do sol aberto frita a tua pele com a intensidade do sol nordestino e a agressividade do sol de serra, só que é muito pior. Uma em cada duas pessoas têm câncer de pele na Austrália; haja filtro solar. Eu já até um filtro japonês FPS 130, para se ter uma idéia. Em suma, a temperatura perfeita para se ir correr atrás de cerveja. Ao menos o estádio era coberto de grama bem tratada; só faltava ser aquela grama seca para soltar poeira que ia ficar o dia perfeito.

Acontece que, talvez a título de estimular o público a provar a maior quantidade de cervejas possível, até porque ali era a festa do que eles chamam "boutique beers", ou seja: principalmente cervejs belgas, alemãs e de pequena extração local. Distribuíram junto com o ingresso uma cartelinha contendo 10 amostras grátis de qualquer cerveja, sem limite: tu podia trocar tudo por amostras de uma cerveja só. Dez amostras de mais ou menos 50ml cada, no final das contas tu beberia um pouco mais de meio litro, ou seja, um pouco mais de um pint, que é a medida do chopp local. Pouco, se olhado assim. Mas bastante, se considerar que a graduação alcoólica média das cervejas de boutique é muito maior do que as padrão australianas e que o calor as fez subir muito mais rápido.

Das que eu não conhecia, provei a belga Satan Gold e Hoegaarden Grand Cru; das conhecidas, Leffe Blonde e Brune, Hofbrau -- aliás quando eu entrei no estádio, comecei a rodar pelas barracas e vi aquela bandeira quadriculada azul e branca da bavária tremulando com as letras H e B correu um arrepio na espinha e deu um tremor nas pernas que nem te digo -- Guinness e Kilkenny, algumas em dose dupla. Te dizer que a primeira Leffe Blonde, depois da fila para comprar ingresso e para pegar a amostra desceu muito bem.

O problema era exatamente esse: as filas em relação às amostras, muito grandes para beber muito pouco. Tinha um pavilhão grande onde se podia comprar a garrafa inteira, mas a fila nesse era ainda maior e os preços não eram diferentes do que se encontra no mercado, então qual o motivo? Notei que apesar disso os australianos pareciam se divertir às pampas, obedecendo as filas e fazendo piadinhas enquanto esperavam. Por acaso, fui com um boné da Brahma que chamou a atenção de um deles; expliquei que era uma cerveja brasileira que, para minha supresa, começou a ser exportada recentemente para cá -- já vi gente bebendo no Subiaco Hotel. Daí ele me perguntou como se pedia uma Brahma em português -- em português, acho que os australianos são os viajantes mais bem informados do mundo, os únicos que sabem que se fala português no Brasil. Bom humor à parte, as filas continuavam meio lentas, exceto na barraca de uma importadora que colocou umas 7 pessoas atendendo, o que ajudou a escoar os pedidos, ao contrário da estupidez do Belgium Beer Café, com apenas duas torneirinhas para atender à multidão.

Dentro desse quadro de sol esturricante, filas e amostras milimétricas, decidi ficar apenas nas que meu ingresso dava direito e caí fora em seguida. Tava muito alegre, a sensação de ter o gostinho de Munique de volta na boca foi excelente, como se diz aí pelas colunas sociais do Brasil: estava cheio de "gente bonita", mas não souberam ajeitar o principal, ou seja, fazer a cerveja chegar em seu público à vontade. Esses australianos são muito peculiares mesmo. Depois de inventarem a praia para quem não gosta de areia, inventaram a Oktoberfest para quem não quer ficar de porre.

Escrito por Rafael | 01:14 AM | Comentários (1)

março 03, 2006

Mandaram avisar aí:

XI - Dia Internacional do Bracarense - O DIB da Crise
Dizia Buñuel: "La tradición és una estatua que anda". Em nome da tradição é que dizemos, apesar dos pesares, mais uma vez: Vem aí o XI DIB.

É, a crise nos abateu. O DIB que não acontecerá na data tradicional de 1º de março.

=^o =^O =^o =^O

A comissão de organização descobriu que nesta quarta-feira de cinzas, o Bracarense encontra-se fechado.

Então...

A Fundação Para o Dia Internacional do Bracarense tem o prazer de convidá-los para o maior evento anual de todos os tempos:

Dia Internacional do Bracarense - décima-primeira edição - 4 de março de 2006.

Esta tradição milenar dessa vez não se repetirá, como em todos os anos, em 1º de março. O evento não acontecerá junto ao aniversário da cidade do Rio de Janeiro.

Mas não nos deixemos esmorecer diante das dificuldades.

Em 4 de março de 2006, excepcionalmente, todos devem se dirigir a Rua José Linhares, numero 85B, quase esquina com a Ataulfo de Paiva, no bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro (Lat:22° 53' - Long:43°17' - antiga capital do saudoso estado da Guanabara), Brasil.

Lá, todos desfrutarão das melhores iguarias e dos néctares servidos neste santuário, em total harmonia, alegria e paz. Esperamos todos vocês! Agradeço a atenção dispensada.

Assessoria de Comunicação
Fundação Para O Dia Internacional Do Bracarense - Março de 2006.

Site oficial do Bracarense - não temos nada a ver com isso, ok? É só para informar.
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Quem for, faça-me o favor de mandar meu abraço aqui dessas bandas ao Jampa, ao Hiro, ao Cláudio e ao .

Escrito por Rafael | 01:19 AM | Comentários (0)

O grande e o maior

His Majesty's Theatre vs skyscraper
Fachada do imponente His Majesty's Theatre (The Maj's, pros íntimos) sobre fundo de arranha-céus ainda mais imponente, na esquina de Hay street e King street.

Escrito por Rafael | 12:10 AM | Comentários (1)

Simonal não dedurou

Publicado por Sérgio Rodrigues noblog: A Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) divulgou nota agora à tarde informando ter concluído, ao fim de um processo instaurado em 2002, que o falecido cantor Wilson Simonal não foi dedo-duro na época da ditadura militar.
Eu já sabia. Há muito tempo.

Escrito por Rafael | 12:08 AM | Comentários (0)

março 01, 2006

Carnaval 2006 em duas imagens

Gabriel Brust e Maurício Valladares sintetizam o carnaval 2006. Primeiro Gabriel:

O pedido de desculpas de Carlinhos Brown a Gilberto Gil é emblemático e resume a miséria da nossa cultura de forma única. É proibido criticar no carnaval, evento símbolo da alma do brasileiro. Alma que se recusa a dizer não, que se recusa ao conflito que, se ocorre por algum acidente, logo em seguida é redimido com um pedido de desculpas. Covarde e vergonhosamente, Brown engoliu a crítica – mais do que legítima – que havia feito minutos antes.

Pela primeira vez, o bizarro compositor baiano conseguiu arrancar meus aplausos, ao bradar contra as abomináveis cordas que fazem do carnaval baiano um apartheid absurdo. O carnaval de rua, a festa do povo, só é permitida para quem tem algumas dezenas de reais para comprar um abadá e passar para o lado de dentro da corda. O povo mesmo, fica do lado de fora.

Mas não durou muito. Pouco depois, em lágrimas, Brown pediu desculpas miseravelmente por ousar criticar a corda e o governo que não faz nada para bani-la. Não se sabe se Gil perdoou tamanha heresia.

Agora, Maurício:

e o carnaval carioca - que passou anos no limbo - reencontrou seu caminho natural de sempre se renovar! em apenas três anos os bloquinhos se transformaram em blocos... e daí em blocões! conclusão: a cada esquina surge um novo aglomerado de "foliões" que vão abduzindo os excessos dos tais blocões. por décadas minha opção sempre foi passar o carnaval aqui no rio... dava pra curtir a festa num relax total, dava pra ir à praia mole mole, dava pra conferir um restaurante até então desconhecido, pegar um cinema sem fila... ou então, simplesmente ficar vagando pela cidade à procura de UM bloquinho de 20 componentes no máximo. saca só, não tô falando de 1973, nem de 1985 ou de 1998... estou relembrando o reinado de momo em 2001! ano passado aqui mesmo no tico saudei a volta do carnaval às ruas da cidade... de onde jamais deveria ter saído! acontece que o rio de janeiro - como a cidade mais linda do mundo - é uma verdadeira serpente sedutora que vai engolindo quem quer que fique encarando seus olhos! e pronto... com a explosão demográfica, com o charme da cidade, com a volta dos turistas... e com a reinvenção do carnaval de rua, a coisa tomou proporções gigantescas. qual outra cidade do planeta pode oferecer tantas possibilidades de diversão numa festa popular? e sendo assim, a multidão saiu do controle... é muita gente! cacilda, de onde aparece tanta gente? tem bloco dando pista errada de quando vai sair só para evitar os indesejados... ou simplesmente fica no mocó, dando uma de morto! peraí, isso é carnaval? esse troço tá virando outra coisa? enfim, os que correram atrás da folia e deram com os cornos na "porta" (seja por lotação esgotada - é mole? - seja por informação errada) acabaram descobrindo sub divisões ainda desconhecidas de carnavalescos razoavelmente organizados. certamente esse anonimato não vai durar até 2007.

Escrito por Rafael | 10:31 PM | Comentários (0)