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maio 31, 2006

UMA HISTÓRIA PARA SER LEMBRADA

No início dos anos 70 o Brasil era sufocado pela ditadura sob o comando nazistóide do general Médici. Natal também vivia um clima de medo e sobressaltos. Na área intelectual, apesar de tudo, fazia-se alguma coisa. A Prefeitura, por exemplo, promovia o Prêmio Luís da Câmara Cascudo, aberto a obras de poesia, ficção e crítica; a rigor, um erro de avaliação metodológica. Mas, enfim, era assim que as coisas funcionavam.

Naquele ano, entre os vários concorrentes, um livro de poesia e um livro de ensaios; da comissão julgadora, faziam parte três professores universitários, um poeta/pintor e um vereador, indicado pela Prefeitura. Dois dos três professores mandaram o voto por escrito para a reunião que decidiria o resultado final; o terceiro professor, embora bastante conceituado na cidade e um ótimo ficcionista, saiu pela tangente; o vereador revelou, de cara, que não entendia de literatura e acompanharia o voto dos outros dois julgadores na reunião. Os dois professores ausentes tinham optado pelo livro de ensaios, mas não se encontravam presentes para defendê-lo, apesar da sólida justificativa de seus votos. O poeta/pintor passou, então, a defender com ardor o livro de poesia. Ao mesmo tempo, criticava com ênfase o tal ensaio.

O resultado foi divulgado, com a vitória do livro do poeta, claro. Mas algo chamou a atenção de todos: o poeta/pintor que o defendera com tanta veemência simplesmente era um sobrinho do poeta laureado. Indignado, o autor/ensaísta, apesar de viver uma situação política bastante delicada, obrigado que fora a sair às pressas do Rio de Janeiro, procurado pelos órgãos de segurança político-ideológica daquela cidade, publicamente, em jornais, estranhou o resultado do concurso, considerando a presença incomum de uma pessoa na comissão julgadora que iria premiar exatamente um parente. Os jornais deram espaço ao fato e o vereador, em seu programa diário na Rádio Nordeste, chamou a atenção das autoridades militares locais para a presença de um elemento estranho na cidade, de tendência maoísta, possivelmente guerrilheiro, que se encontrava em Natal para fazer agitação política nos meios intelectuais do Estado. Naquele momento, isso significava condená-lo à prisão e mesmo à tortura. E o então jovem autor/ensaísta, que já abandonara o Rio por motivos políticos, precisou fazer o mesmo, mais uma vez: foi obrigado a fugir de Natal, passando uma temporada, relativamente curta, diga-se de passagem (e culturalmente proveitosa, a bem da verdade), numa praia/vila de pescadores ao norte da capital potiguar.

Ah, sim, eis os nomes envolvidos nesta pequena história: os professores que mandaram os votos por escrito -- Edgar Barbosa e Alvamar Furtado, dois dos maiores intelectuais do Rio Grande do Norte; o professor presente na reunião -- Eulício Farias, um dos nossos melhores ficcionistas; o vereador em tela -- Eugênio Neto (assumidamente, "um anticomunista ferrenho"); o poeta vencedor -- Luís Rabelo, por inesperada coincidência tio de Dorian Gray, o poeta/pintor, até hoje bastante conceituado na cidade. E o autor/ensaísta? Este vosso seridoense Moacy Cirne, com o livro A explosão criativa dos quadrinhos (logo em seguida editado pela Editora Vozes, de Petrópolis). Que só agora resolveu contar esta história.

Escrito por Rafael | 10:18 PM | Comentários (1)

Balanço de maio

Mais um mês bastante produtivo e agitado por aqui. Assisti duas montagens teatrais, uma boa (The Caretaker, de Harold Pinter) e uma ruim (Morte Acidental de um Anarquista, de Dario Fo), um espetáculo de dança-coreografia-percussão no estilo Broadway, o Stomp e vi cinco filmes: Tsotsi (ganhador do Oscar 2006 de melhor filme em língua estrangeira), Hidden, The thruth that lies, X-Men 3 e a adaptação do conto infantil Pinocchio recentemente feita pelo Roberto Benigni. Visitei o aquário e o zoológico da cidade, onde comprovei que a fauna submarina local é muito mais interessante do que a terrestre, praticamente toda composta de pequenos e preguiçosos animais como wallabie, wombat, numbat, quokka (que eu já tinha visto em quantidade, à solta em Rottnest Island), koala; até o demônio da Tasmânia não mete mais medo que um cachorro grande. Só mesmo o canguru se salva no quesito empolgação; um da espécie cinza passou aos pulos bem na minha frente no Australian Bushwalk. Com isso, praticamente esgotei as atrações turísticas da cidade, o que me obriga ou a começar a levar uma vida mais cotidiana ou a procurá-las nos arredores... Ainda deu tempo para conhecer um boliche e umas boates locais, legalizar o meu carro, visitar uma feira de produtos sexuais, terminar de ler Mãos de Cavalo e começar Fear and Loathing in America. E entrar definitivamente em clima de Copa do Mundo...

Enquanto vocês brincam de festa junina, a programação para junho e julho em Perth tem o seguinte: dois Shakespeareas no His majesty's Theatre: o balé Midsummer's Night Dream e a peça Mercador de Veneza. No mesmo teatro ainda vai ter uma ópera de Verdi, Nabucco, e uma encenação da peça de Peter Schaffer que deu o Oscar a Murray Abrahams como Salieri, Amadeus, com Tim Minchin no papel título -- uma espécie de Tim Rescala que deu certo, um comediante-músico australiano descabelado que faz muito sucesso por aqui (sua apresentação no último festival de artes teve lotação esgotada). Além disso: Belle & Sebastian no Perth Concert Hall, o filme francês Combien tu m'aimes?, com Monica Bellucci e Gerard Depardieu, o filme novo do Super-homem e o documentário sobre Neil Young.

Escrito por Rafael | 09:55 PM | Comentários (1)

O tempo passa rápido na pós-modernidade

Vinte e cinco anos de eme-te-vê. Dez anos de Adbusters.

Escrito por Rafael | 06:40 AM | Comentários (1)

maio 30, 2006

Vida diária

Vezenquando alguém me pergunta alguma cosa bem banal do cotidiano aqui na Austrália: o que as pessoas almoçam, como as pessoas se vestem, em suma, frases começadas com as pessoas. Como não tinham me perguntado até agora qual música faz sucesso por aqui, resolvi contar nessa nota.
A música que eu mais ouvi desde que cheguei até aqui -- em boates, em pubs, em playback, ou seja, seria aquela música que, no Rio, eu ouviria tocando no rádio dos carros a caminho da praia, no sistema de som do supermercado e nas boates -- chama-se Love Generation, uma dance music das mais chiclete. O DJ francês Bob Sinclair até esteve por aqui no festival Two Tribes, mandando ver ao vivo.
Mais sucesso que isso, mais tocado que isso, sujeito de covers em tudo que é canto, preferido dos karaokês, volta e meia resgatado numa rádio e inevitável levanta pista só identifiquei um, ele mesmo: Michael Jackson, o Wacko Jacko dos tempos imediatamentes posteriores ao Jackson Five, de Don't Stop till You get enough, Billie Jean etc.

Atualização: na primeira noitada dos jogadores brasileiros na Suíca, consta que entre as músicas que Ronaldo Fenômeno tocou como DJ da boate local estavam exatamente Love Generation e uma outra que eu já ouvi demais também por aqui, das Pussycat Dolls, aquela do refrão chatinho: Don't you wish you girlfriend was hot like me / Don't you wish you girlfriend was fun like me etc.

Escrito por Rafael | 10:36 PM | Comentários (1)

Enquanto isso, em Hong Kong

All your base are belong to us.

Escrito por Rafael | 10:35 PM | Comentários (0)

maio 29, 2006

Que mané V de Vingança, que mané X-Men 3

O trailer é de deixar cabelinho de suvaco em pé

Escrito por Rafael | 06:15 AM | Comentários (1)

Medo e delírio em papel de carta

Ainda estou a meio caminho na leitura de Fear and Loathing in America, mas já dá para ter uma idéia bem definida do painel formado pela coleção de cartas de Hunter Thompson.

Talvez o que mais me chame a atenção seja o contraste entre a agressividade e violência presentes no subtítulo do livro (a jornada selvagem de um jornalista fora da lei) e nas palavras normalmente utilizadas para descrever o autor, particularmente no período abarcado (1968-1976), e a inocência, quase candura, que se encontra no miolo ao vê-lo oferecendo seus serviços de redação de discursos para políticos que admirava, como McGovern ou Ted Kennedy, na ilusão de que aquele jornalista obscuro seria de grande valor para espantar o fantasma de Nixon. Mais ou menos como se estivesse querendo dar uma força: aí, valeu camarada. Eu poderia ainda usar a infinidade de cartas enviadas para a mãe como mais uma prova do coração mole de Thompson, mas não é isso. Determinado senador até mesmo agradece, respondendo-o em papel timbrado: outros tempos; o mundo era mais fácil há 35 anos.

Por exemplo, não havia email, o que não impedia em nada de um compulsivo como Hunter escrever laudas e mais laudas para amigos, parentes, agentes, editores, clientes e devedores. Talvez o que se comprime hoje em algumas horas fosse esticado por dias ou semanas, mas a essência da comunicação urgente, da necessidade de dizer alguma coisa naquele exato momento está toda ali. Inclusive a gramática truncada por conta da pressa e os escritos dos quais o autor depois se arrepende por ter escrito num acesso de raiva. Para quem tem menos de 25 anos deve ser interessante saber que isso tudo já existia antes do email.

Alguns mitos caem, outro se fortalecem, como o do jornalista autônomo duro e eternamente em busca de serviço: a partir de 1968 Thompson costuraria um acordo com Jim Silberman para publicar pela Random House seu próximo livro, centrado genericamente no conceito a que ele se refere como "a Morte do Sonho Americano". A correspondência relativa ao processo criativo e editorial nunca concluído, que seria substituído por Fear and Loathing in Las Vegas, com pelo menos uns 2 anos de atraso, é talvez o fio condutor mais interessante a ser seguido. Pressionado por dívidas principalmente da compra do rancho em Aspen, que se converteria em seu quartel-general, assina um contrato que a lhe garantir confortável quantia assim que soltasse o primeiro terço do livro. Só que o conceito inicial parece nunca capaz de materializar-se numa narrativa coesa qualquer que ao menos ameaçasse ficar parecida com um livro, e em vários momentos o desespero faz-lhe apelar para a estrutura que Norman Mailer utilizara em Advertisements for Myself: um empilhamento cronológico de artigos levemente encadeados por um texto atual.

Chega a ser hilário vê-lo repassando o que seriam os custos de produção para seu editor, entre eles a assinatura de umas 20 revistas mensais cujo noticiário era monitorado com lupa em busca de sinais evidentes da morte do Sonho Americano. O conceito inicial sem direção evolui para uma espécie de nome aos bois sequencial, onde Thompson perfilaria algumas dúzias de culpados, rebola no meio do caminho com a inclusão de idéias que vão lhe ocorrendo (mandar uma carta padronizada a dezenas de personalidades, notificando-lhes que o sonho americano havia morrido, estava em busca de pistas e requisitando seu depoimento), se perde entre a ficção e reportagem por conta da necessidade de utilizar artigos que foram sendo produzidos ao longo do caminho, entre eles o relato da eleição na qual concorreu a sheriff A Batalha de Aspen, e finalmente desembarca, mais por falta do que por opção, numa mistura muito particular entre jornalismo e ficção cuja melhor dosagem seria o par de artigos convertido em livro Fear and Loathing in Las Vegas, mas que já vinha sendo testado em reportagens como O Derby de Kentucky é deprimente e depravado.

É particularmente gratificante vê-lo usando a expressão fear and loathing pelo que deve ter sido a primeira vez, assim como descobrindo os caminhos que o levariam à particular dosagem de jornalismo com ficção. Não é a única grata surpresa que o livro revela; também se pode descobrir o que ele achou dos primeiros exemplares da revista Zap!, de Robert Crumb, enviada por um de seus editores. Mas nada supera-o quando é pego tendo que explicar os atrasos na entrega do manuscrito a seu editor numa carta de 7 páginas no começo de 1970... Outros tempos, outros editores.

Em termos de raridade, nada supera a troca de cartas com Oscar Acosta, que seria transformado ficcionalmente no advogado samoano. Acosta andara ganhando várias causas em favor do imigrantes e descendentes de mexicanos em Los Angeles, era uma figura interessante e complexa, com forte senso religioso, consciência social e pesado consumidor de alucinógenos. Como se fosse pouco, andava escrevendo roteiros para cinema e peças de teatro, devidamente arrasadas por Hunter em suas respostas. Mais do que com qualquer outro, quando se põe lado a lado as correspondências de ambos, é uma seríssima conversa de loucos.

É uma de suas características fundamentais: torna-se tão mais engraçado quanto mais sério. Irresistível vê-lo zoar com os fãs dos Hell's Angels que lhe escreviam; avisa a uma dona de casa novaiorquina que se declarara fã dos marginais que um par deles estariam passando pela cidade no final de semana e lhes informara o endereço dela para uma visitinha. Até insultando os fabricantes de uma jaqueta mais vagabunda do que o catálogo mostrava tem sua graça. Thompson é irritadiço, ansioso, aparenta sempre pressa para alguma coisa que estivesse acontecendo - como de fato aconteceu em 1968.

É natural que nem tudo tenha sido acompanhado por ele, sobretudo entocado em seu refúgio e com prazos a cumprir: Woodstock nem é lembrado e Altamont merece breves menções, a marcha ao Pentágono (de Armies of the Night) nem aparece, mas na convenção do partido democrata em Chicago está no coração dos acontecimentos e apanha da polícia, acontecimento tão desconcertante que leva-o a criar o pseudônimo Raoul Duke, depois reutilizado por Garry Trudeu em Doonesbury. De tudo isso, o fato jornalístico mais marcante acaba sendo o que ele mesmo cria em 1970 mais para alimentar sua pesquisa em busca dos motivos da morte do sonho americano do que propriamente por alimentar grandes pretensões políticas. Vá lá, ele deve ter achado divertido bagunçar o coreto eleitoral de Aspen ao fundar o partido Freak Power, defendendo em debates que continuaria mascando mescalina se fosse sheriff, mas nunca no horário de trabalho... O resultado da eleição deixa-o muito animado e confirma uma intuição brilhante que alimentaria os textos dele nos anos seguintes, passando para loucura obsessiva -- ainda bem que o tempo não passava tão rápido e deu para esperar dois anos antes de botar tudo no papel: outros tempos, outro ritmo. O registro recorde de eleitores para votar no Freak Power indicara uma tendência que foi devidamente minada nas urnas com uma providencial aliança entre republicanos e democratas para manter o poder onde sempre esteve, mas nesse meio tempo Thompson sacou a jogada e tentou como pôde expandi-la na eleição de 1972, quando foi correspondente em Washington da revista Rolling Stone.

Ainda nessa linha satorial, é comovente ver sua felicidade ao descobrir um veio jornalístico com a reportagem do Kentucky Derby e a parceria afinada que estabelece com Ralph Steadman (escolhido mais por exceção; as primeiras opções de ilustrador eram Pat Oliphant e Ronald Searle). Melhor do que isso só quando recebe carta branca do orçamento da Scanlan's para percorrer um roteiro com ícones norte-americanos, tais como o Superbowl, e violentá-los um a um, acompanhado de Steadman: seu primeiro impulso é perguntar se o parceiro se imaginava viajando pelos EUA detonando as principais referências do país, enquanto gastava o orçamento em drogas e strippers e ainda sendo pago para isso. DEFINITIVAMENTE outros tempos, outro jornalismo...

Cumpre dar relevo à excelente relação que Thompson matinha com seus pares. Até Joe Estherzas, futuro roteirista em Hollywood aparece como correspondente. Um dos interlocutores mais constantes é Tom Wolfe, relacionado diversas vezes como o único jornalista contemporâneo com quem ele poderia aprender alguma coisa. Wolfe igualmente não poupa elogios a Thompson: entre 1965 e 1970 os dois publicariam O Teste do Refresco do Ácido Elétrico, Hell's Angels, Pump House Gang, Kentucky Derby é decadente e depravado, "Hashbury" é a capital dos hippies e Radical Chic: uma enciclopédia de como se fazer jornalismo literário à base de picareta. Na contra capa, Wolfe afirma que só há dois adjetivos desejados por um escritor: ultrajante e brilhante, e que Thompson faz jus a ambos.

Até quando escrevia cartas, resta observar.

Escrito por Rafael | 03:45 AM | Comentários (0)

maio 28, 2006

Obituário

Como se não bastassem as abotoadas de Dino Sete Cordas e Floyd Patterson, acabo de saber que Alex Toth também subiu. Vai ser lembrado por causa dos desenhos animados que fez nas décadas de 1970 e 1960 (Herculóides, Space Ghost etc), mas o que fica para mim é a lembrança de um traço sucinto e exato que se encaixava à perfeição em qualquer história que pedisse um clima dark, de Torpedo ao terror da EC Comics, passando por Zorro ou Batman. Referência.
Um elo a menos na linha evolutiva Noel Sickles - Milton Cannif - Frank Robbins - Alex Toth - David Mazzuchelli - Steve Rude.

Escrito por Rafael | 10:39 PM | Comentários (0)

maio 27, 2006

Fábula

Era uma vez um fetiche por mulheres esguias em botas de cano longo, que morava num país tropical. Fetichezinho mirrado, subnutrido pela dieta de fome ao qual era imposto pela quase ausência de invernos onde morava.
Um dia esse fetiche pegou um avião e foi parar no paralelo 30 graus abaixo do Equador, onde a mudança das estações era de fato aguardada pelos moradores, que sabiam o quanto aproveitar cada estação exatamente porque não precisavam das fashion weeks para lhes avisar que o outono ou a primavera vinha aí.
O fetiche andava cabisbaixo e brocoxô, até que sem mais nem menos o verão acabou e com os ventos do outono, a temperatura esfriou; os homens se puseram em sobretudos e agasalhos, e as mulheres desfilaram toda sua elegância em echarpes e magníficas botas de couro de salto. O fetiche se animou e cresceu, com aquela dose superabundante de pernas quase destampadas pelas saias curtas, andando para cá e para lá em revestidas naquele couro liso e brilhante. E cresceu e expulsou todos os outros fetiches que moravam junto com ele.

Moral: se você não sabe o porquê, limite-se a obedecer a placa de não alimente os animais.

Escrito por Rafael | 08:59 AM | Comentários (1)

Estilo de vida

O problema de lojas como a Kathmandu ou a Main Peak é quando se levam muito à sério.

-- Mas é para uso diário ou você pretende fazer caminhadas e pedalar no mato com ele?

Não, minha senhora. Eu só entrei aqui procurando um anoraque, um impermeável qualquer que me protegesse do vento e da chuva, que dizem ser frequente no inverno. Eu não sou um atleta de final de semana, como os modelos dos seus catálogos. Eu só gosto da modelagem das roupas e da eficiência desses tecidos que deixam o calor do corpo sair sem deixar a chuva entrar -- como é que chama, mesmo? Breathable. E topo às vezes pagar um pouco mais caro para tirar essa chinfra de vida ao ar livre, principalmente sem tê-la.

-- ... e tem ainda esses zíperes laterais, que podem ser abertos quando se está fazendo exercício para aumentar a ventilação do corpo...

E eu lá tenho cara de quem vai andar de bicicleta com um treco desses? Eu mal ando na rua. Aliás um dos motivos para não se andar de bicicleta é evitar o uso daquelas roupas justinhas e coloridas, sobretudo aquelas bermudas. Tanta tecnologia, e duvido que já tenham inventado um selim que seja confortável...

Escrito por Rafael | 08:46 AM | Comentários (1)

maio 26, 2006

Perdidos

Bost

Escrito por Rafael | 05:37 AM | Comentários (1)

maio 24, 2006

Pequeno contato com a democracia, apud Rafael Azevedo

Uma vez o Julio organizou um especial viagens no Digestivo Cultural, e eu lembro que o que mais me chamou a atenção no texto do Rafael Azevedo, mais do que a fluência caudalosa de seu estilo, de que sempre fui fã, era o pomposo e provocativo título do relato sobre uma viagem até Amsterdam: Pequeno contato com a civilização. Que entidade abstrata era aquela a causar tal choque no viajante?

Depois de alguns meses morando fora do Brasil, começo a entender o que ele queria dizer. Não a causa específica do espanto do meu xará, pois ainda não sei bem o que entender por civilização, mas tenho para mim que a sensação sentida ao me deparar, na prática, com conceitos sobre os quais lia e ouvia muito falar quando no Brasil, foi do mesmo impacto que a dele.

Por exemplo, passei uma boa parte de meus últimos anos lendo coisa pra burro com enfoque feminista, mas só vim a entender o que era o tal do feminismo depois de desembarcar na Austrália. Mulheres cedendo a vez para que eu descesse do ônibus na frente delas, simplesmente porque... eu estava na frente delas. Ausência de divisão por gênero dos banheiros portáteis em shows de rock, e assim por diante. Fica mais fácil entender o que as feministas queriam dizer com igualdade de sexos em situações assim. Mas esse nem era o assunto principal, e mais sério, desse texto.

Nos últimos 20 anos ouviu-se falar demais em DEMOCRACIA no Brasil, em como a assim chamada sociedade civil organizada emergiu e começou a assumir seu papel no país, ao invés de continuar cobrando TUDO do Estado. Dava até para pensar que estávamos chegando a algum lugar, ficar animados com ONGs ou iniciativas públicas, depois de 20 anos de eleição direta para os principais cargos legislativos e executivos, esse exercício tão vulgar como importante do voto.

Em menos de 5 meses de imigração, comecei a receber pelo correio convites das câmaras locais para discussão dos assuntos de interesse da minha região, abertos a todo o público e a serem feitos em grandes fóruns locais. Representantes remetem dados pessoais para facilitar o contato, receberem reivindicações e apresentarem-nas em fórum. Mas não é só de representatividade política que se faz uma democracia.

Todo recibo emitido por qualquer caixa registradora mostra a proporção paga como imposto (GST) no preço final ao consumidor. Quem tiver a pachorra de colecionar e computar cada uma dessas, ao final do ano pode determinar exatamente quanto de sua renda foi para o governo, e estabelecer a proporção em relação ao seu salário. Assim, a grita contra os aumentos de impostos fica mais palpável, com menos cara de gritaria.

Quando o sociólogo Herbert de Souza organizou a campanha contra a fome, foi identificada como o maior movimento de mobilização solidária no Brasil dos últimos 20 anos. Outro dia li um jornalista afirmar que faltam grandes movimentos, com slogans para motivar e conduzir a população. Mas não é o que tenho visto aqui. Também recebo pelo correio pedidos periódicos de contribuição para as mais diversas campanhas de solidariedade: lares de caridade religiosa, campanha contra o câncer de mama, etc. Tudo já vem pronto com um formulário para ser enviado junto com o cheque pelo correio, ou simples autorização de débito mensal no
cartão de crédito (não cheguei a descobrir se isso é dedutível do imposto de renda). Um processo limpo, silencioso, eficiente, capilar. Aliás, nem tão silencioso assim: determinados dias são escolhidos para campanhas específicas onde voluntários se postam nas esquinas de maior movimento com latinhas para coleta de doações. Ou seja, a solidariedade já está entranhada no sistema e se vale da eficiência para arrecadar -- sem slogans, sem propaganda na televisão, sem atores dizendo como é bacana usar camiseta com alvo azul e preto no peito.

Em dois tempos resolvi a transferência do carro do antigo dono para mim, e paguei a licença anual. O documento a ser carregado no veículo é tão engenhoso quando simples, apesar de suscetível de falsificação: um simples adesivo padronizado indicando o ano e o mês até quando é válida. O número TFN, uma espécie de CPF local, importante sobretudo para fins de imposto, foi requerido preenchendo um questionário simples porém extenso via internet e entregue cerca de uma semana depois. A sensação de que a burocracia existe para viabilizar e não para atrapalhar a vida do cidadão é maior aqui, mesmo que os impostos sejam iguais e os formulários a serem preenchidos continuem crípticos, mas há pelo menos uma vantagem incomparável: ao final deles, existe uma declaração quase padronizada dizendo "Reconheço que todas as informações prestadas acima são verdadeiras e assumo o ônus da lei em caso de falsidade" sob a qual assina-se e fim de papo. Sem reconhecimento de firma. Sem cartório. Sem testemunhas. Falou tá falado; mentiu: cana.

Lojas que prometem trocar equipamentos com a nota fiscal, danificados ou não, inclusive devolvendo o dinheiro, honram seus compromisso, deixando o consumidor muito mais livre e tranquilo para escolher. Um amigo meu morando no interior da Noruega contou que na Ikea local, ao invés de testar as dimensões no papel ou num modelo de computador, você leva a mesa para casa, monta, vê como ficou e se não tiver gostado, até 6 meses depois te reembolsam o valor. É a maneira mais eficaz de "fidelizar" e "agregar valor" para o cliente. Mesmo com uma infinidade de produtos baratos & perecíveis importados da China, a sensação final é que seu dinheiro VALE.

Calma que tem mais. Outro dia vi na televisão uma audiência do Primeiro Ministo inglês na câmara dos comuns, tipo de programa periódico sobre o qual o Ram já tinha falado, onde o que ocorre basicamente é uma debte na base de perguntas e respostas, aparentemente sem limite de réplicas -- pela arte da oratória um vai encurralando o outro com suas perguntas até que seja a hora do bote, expondo uma conclusão aos olhos da opinião pública. Um lá e cá magnífico entre as posições adotadas pelo Primeiro Ministro e as críticas da oposição, de maneira clara, sucinta, combativa e sobretudo divertida, dado que o debate é assistido pelos outros membros, que se manifestam com ooohs e aaaahs e risos e gargalhadas, esquentando o clima. Em todo o tempo, não se perde o foco, qual seja o de dar explicações, satisfatórias ou não em função dos pontos de vista, sobre os atos do governo. Democracia participativa a toda prova, tiroteio constante, sobre todas as áreas de ação, e haja preparo: o que a gente conhece de debate eleitoral é piada.

Fico pensando quando eu teria condições de ver um paralelo daqueles no Brasil. Impossível. E não falo de Severino Cavalcanti, exceção evidente, mas pegue qualquer um dos antigos presidentes da Câmara ou do Senado: Inocêncio, Sarney, ACM e pense neles discutindo num nível objetivo com o respectivo presidente presidente: FHC, Itamar, Lula. O eleitor ia sair mais confuso do que entrou... Desconfio mesmo da capacidade em se ater aos temas e fatos daqueles políticos historicamente respeitados pela imprensa por sua capacidade e seriedade, aliás aqueles mesmos que foram os personagens principais escândalo do mensalão. Sobrou algum?

Escrito por Rafael | 12:27 AM | Comentários (4)

maio 22, 2006

Conga irlandesa

Os blogs continuam carroças, a maioria puxada por alimárias quadrúpedes.
...
Serviço, comentário e opinião, informação, indicações, diário e jornalismo podem vir em qualquer meio e formato. Bom mesmo, o que vale a pena, é dançar a conga irlandesa.

Quando eu encerrar um blog, quero que a despedida seja mais ou menos assim.

Escrito por Rafael | 11:28 PM | Comentários (1)

Milhões em ação

O Brasil tem 190 milhões de técnicos de futebol e de especialistas em segurança pública
~Guilherme Fiúza.

Escrito por Rafael | 11:27 PM | Comentários (1)

Todos contra

Olhando de fora, o clima é de todos contra o Brasil nessa copa do mundo.

Ronaldo Fenômeno, que surpreendentemente manteve o bom nível nas declarações para a imprensa nos primeiros 5 anos de sua carreira e depois começou a soltar abobrinhas -- o que aumenta sua semelhança com Pelé, ironicamente -- na santa inocência de sua espontaneidade foi responder a um repórter que só conhecia um jogador da seleção australiana, "um que jogava no Ossassuna". Nem joga mais. Pronto: o insulto de Ronaldo aos socceroos (australês para boleiros: socceroos, assim como kangaroos, sacaram?), capa de revista esportiva. Não que a população tenha ficado muito abalada; revista especializada se encontra até de paraquedismo e, a despeito das campanhas de mobilização, está todo mundo contente demais por voltar a uma copa depois de mais de 30 anos para pensar realisticamente. Um programa de televisão coletou musiquinhas ao redor do país para eleger o hino de incentivo à seleção e nos pubs os pobres diabos andam a dizer, otimisticamente, que vão derrotar o Brasil, o que só dá dimensão do quanto estão perdidos em termos de futebol -- nem os noruegueses ousavam afirmar isso em 1998.

Nas outras revistas esportivas, as manchetes são variações do tema Porque o Brasil vai ser campeão e, em letras miúdas, e como a Austrália pode derrotá-lo. Beckham e seus comparsas prometem o mesmo na capa da 4-4-2 britânica. Franceses descartam maiores chances de seu time nacional e reconhecem que existe um sentimento anti-germânico na Europa (o que atrapalharia impediria a formação de uma corrente para frente européia pró-Alemanha). Escoceses têm 2 times: Escócia e quem quer que jogue contra a Inglaterra (recusam-se a reconhecer o poderio inglês). Todos reconhecem o favoritismo de um time que ganhou tudo o que disputou entre 2002 e 2005 e esperam ver um bom espetáculo, torcendo para que os grandes astros tenham grande desempenho e lamentando ausências célebres e contusões de última hora.

É, entrei em clima de copa do mundo exatamente após sentir um calorzinho bom na barriga com a partida dos jogadores para a Suíça. Mas nada há de se igualar a 1994, ao Romário dizendo como se fosse a coisa mais normal do mundo, após terminado o sequestro de seu pai, que o povo estava muito insatisfeito e que o Brasil iria ganhar a copa para todo mundo ficar feliz. Três meses depois, levantava a taça.

Escrito por Rafael | 06:12 AM | Comentários (3)

maio 18, 2006

Exótica

Não via uma perversão boa assim desde, quando?, Mullholand Drive.

Com o padrão Egoyam de qualidade: identidades trocadas, sonho se misturando com realidade, traumas psicológicos e um ou dois tabus. Recomendo. DGR, vê não perde!

Escrito por Rafael | 02:52 AM | Comentários (1)

Porque listinhas sempre fazem sucesso

No que australianos são parecidos com ingleses:
- No hábito de tomar chá de tarde, pingado com leite
- No gosto de fazer programas ao ar livre, na grama, sobretudo piquenique
- No respeito restrito a horários de trabalho
- Na frequência a pubs e no hábito de beber cerveja aos pints
- Na tradição de dar asilo a estrangeiros e constituir um país multicultural
- Na incapacidade em incorporar ao dia a dia hábitos dessas outras culturas que fazem do país algo multicultural
- Na tradição liberal democrática e capitalista, em termos político-econômicos
- Em jogar e acompanhar os campeonatos de rugby, futebol e críquete
- Na falta do hábito que mereça o nome de almoço e na culinária desagradável (a melhor culinária australiana é imitação da italiana, asiática e mediterrânea)
- Na dificuldade em se relacionar fisicamente (abraços, tapinhas, toques, carinhos etc)
- Em, por mais que neguem de pés juntos, pedirem a benção e apoiarem os estadunidenses em todas as políticas externas deles.

No que australianos são parecidos com estadunidenses:
- Na superior capacidade de ser jeca ao se vestir (só perdem nesse quesito para americanos e alemães)
- No hábito de comer junk food pesadamente, inclusive as crianças
- No gosto pelo cinemão mais simplório de Hollywood -- não me refiro a Caçadores da Arca Perdida ou King Kong; é Herbie, Disney, por aí
- No gosto por carrões, a completo despeito de seu consumo de combustível
- No orgulho patriótico (Proudly Australian e Proudly Australian owned funcionam quase como atestados de qualidade de certos produtos)
- No mau-gosto em exageros arquitetônicos de arranha-céus
- Na organização de cidades orientadas para viver com carro
- Na construção de uma sociedade de serviços onde a conveniência é norma e funcionar é o objetivo
- Na atração irracional por loiras peitudas e acerebradas
- Na crença em uma corrida para o oeste, simbolo de terra a ser desbravada, de aventureiros e vida mais livre, longe das cidades lotadas e antigas do leste.
- Em terem fundado um país com base na idéia de uma sociedade sem classes.

Escrito por Rafael | 12:04 AM | Comentários (0)

maio 17, 2006

Incal

Está no ar minha coluna dessa semana no SoBReCarGa, resenhando o primeiro volume do Incal, enfim lançado no Brasil pela Devir com colorido novo.

Também lá podem-se conferir os indicados ao prêmio HQ Mix 2006 -- eu já votei, espero que dê Arnaldo Branco, cujo álbum As Aventuras do Capitão Presença sai pela Conrad ainda esse ano, na cabeça, em melhor cartunista.

Escrito por Rafael | 05:52 AM | Comentários (1)

maio 15, 2006

Cartaz na Sexpo 2006

o arbusto australiano encontra a paisagem brasileira

Sem comentários. Ou melhor, um só: uma das referências culturais que identificam "Brasil" por aqui é o brazilian wax. Maldita Sex and the City!

Escrito por Rafael | 11:43 PM | Comentários (0)

Aquário

Na ausência de uma mãe próxima, aproveitei o último domingo para visitar o AQWA, Aquarium of Western Australia. Excelente programa para quem gosta de peixe. Dividiram o local em áreas distintias, segundo trechos arbitrários da costa oeste da Austrália e suas respectivas espécies típicas, e expuseram em vitrines apropriadas: luz azulada para pegar o reflexo das águas-vivas (jelly fish), luz indireta para ver a bioluminescência do zooplâncton, luz azul para refletir nos corais. Certamente o ponto alto da visita é o grande aquário armado sobre um túnel transparente e povoado com tartarugas, tubarões e arraias que passam dos 4 metros de comprimento/envergadura, considerando a redução dos tamanhos em vista do índice de refração do acrílico. Mas tem também um tanque aberto onde as crianças podem encostar em peixes e estrelas do mar, dois crocodilos adolescentes, inertes como qualquer réptil e uma infinidade de corais, esponjas e anêmonas dos mais variados formatos e cores, além das inevitáveis focas. Vale cada centavo da entrada, mais cara do que a média desse tipo de programa.

Escrito por Rafael | 11:29 PM | Comentários (0)

Ao aborígene elegante

vitrine da creative native

Isso aí em cima é a vitrine da loja Creative Native, especializada em souvenirs e utensílios decorativos -- como pode ser decorativo se tem uma utilidade? -- de corte estético aborígene australiano. Tudo ali foi bolado ou pintado por um aborígene legítimo, como atestam orgulhosamente as etiquetas e os certificados de cada produto. Depois de décadas de Stolen Generation, é assim que a Austrália passou a tratar seus habitantes mais antigos: isolando em reserva e elevando seus rabisquinhos à categoria fashion.

Escrito por Rafael | 05:45 AM | Comentários (0)

Malditos traidores sujos

Vocês ficam por aí torcendo pelo time da oposição no campeonato das CPIs na TV Senado, ouvindo o disco novo de Sandy e Júnior e fazendo hora até a copa chegar -- quando fazer hora passará a ser compulsório -- e ninguém para me avisar que, desde agosto de 2005 o Mario AV voltou a blogar!!! Agora em textos mais longos & elaborados, porém com a mesma mistura de zen e computadores, urbanismo e tipografia, talvez com uma pitada a mais de informatês. Mas isso apenas para meu gosto e minha percepção. Só esse texto aqui já vale a pena cavucar os arquivos. Tem também o decálogo do blogueiro:

10. Não me conteste. 9. Não seja prepotente. Não faça cobranças. 8. Mulheres escrevem ótimos blogs. 7. Todo emprego é honrado. 6. Venha em paz. Senão, link para fora é serventia da casa. 5. Não bata boca na calçada do vizinho. 4. Relembrar é viver. Copiar é elogiar. 3. Ganhar link não obriga a linkar. 2. Não me leve a sério demais. 1. Comente.

Não acho que um dos itens acima deveria estar na lista, parece que entrou apenas por uma questão política, mas nem por isso deixo de publicá-la na íntegra. Ainda nessa mesma linha, tenha modos.

O título dessa nota foi influência literária de Hunter S. Thompson, cuja coletânea de cartas Fear and Loathing in America encontro-me lendo no momento.

Escrito por Rafael | 05:34 AM | Comentários (1)

Juro que eu ouvi essa no final de semana

-- Meu nome é Nilo, mas me chamam por aqui de Egito. Por causa do rio.

Escrito por Rafael | 05:32 AM | Comentários (0)

maio 11, 2006

O Caseiro

The Caretaker, de Harold Pinter, é o tipo de peça que eu gosto: eminentemente falada, muito duelo verbal, ambiente fechado ou restrito, poucos personagens, algumas repetições em cima do mesmo tema. Datada de 1960, foi um dos trabalhos que revelou o talento de Pinter, ganhador do prêmio Nobel de literatura recentemente. Como muitos textos clássicos, The Caretaker parte de uma premissa muito simples: rapaz leva um vagabundo para morar em sua casa. O tempo todo o clima é de angústia, sufoco, claustrofobia, até insanidade; a base de tudo é a incapacidade dos 3 personagens de se comunicar: não há diálogos, ninguém ouve, de fato, o que o outro fala e não raro cada um se contradiz, até numa mesma cena, aparentemente com o propósito único de não deixar a discussão sossegar. Encontrei referências pela internet comparando The Caretaker a Esperando Godot pela falta de perspectiva e orientação dos personagens. A montagem que assisti foi a do curso de artes cênicas da Curtin University, numa sala histórica da cidade, o Rechabites Hall, com ar meio entre o decadente e o alternativo. Correta, bem interpretada, sem invencionices, muito boa.

Nessa semana ainda estarão em cartaz Tsotsi, ganhador do Oscar 2006 de melhor filme estrangeiro; Caché, de Michael Haneke, vencedor de Cannes 2005; o novo documentário do Jonathan Demme sobre um espetáculo de Neil Young e o novo filme do Atom Egoyam, além de Missão Impossível III. E amanhã, para que curte, tem show do Ben Harper no Supreme Court Gardens. Haha, e eu que achava que minha vida cultural no Rio de Janeiro era rica...

Escrito por Rafael | 11:11 PM | Comentários (0)

Homens do amanhã

Esse livro que a Conrad está lançando, Homens do Amanhã, foi um dos que mais me chamou a atenção logo que cheguei em Perth: estava em todas as boas livrarias e tinha recomendação do Alan Moore. Entre os problemas da versão brasileira, a capa ficou muito aquém da original -- não utiliza sequer um elemento de quadrinhos de super-heróis! -- e o editor gasta 2 páginas e meia se justificando por não ter traduzido geek: tivesse empregado metade desse tempo pensando, creio que chegaria num símile ao menos razoável em português. Mas como ele mesmo diz no final, melhor é ajudar as campanhas de marketing das grandes corporações de uma vez. E o precinho continua fazendo hipertenso tremer... Ou seja, vou de edição original, mesmo.

Ah, mas o que me deixou feliz foi encontrar mais um relato do maior embate esportivo do século XX. Foreman vs Ali? Flamengo vs Cobreloa? Lakers vs Celtics? Não: Fischer vs Spassky.

Escrito por Rafael | 09:30 PM | Comentários (0)

maio 10, 2006

Adoro esses trens

Mas afinal, o que tem no copo vermelho?

Atualização: dentro do copo vermelho tinha uma campanha publicitária disfarçada de projeto artístico colaborativo na internet, como explicou Mario AV. Eu gostaria de empregar o advérbio muito antes do adjetivo disfarçada para diminuir minha vergonha em ter caído nessa jogada, mas tem tanto blogueiro por aí assumindo o jabá sem a menor desfaçatez, de graça até bebida ruim... Ética pessoal é definitivamente um pleonasmo, a despeito da pressão de leis e meios sociais.

Escrito por Rafael | 11:21 PM | Comentários (0)

maio 09, 2006

Assim não dá saudades

Hoje, na hora do almoço, resolvi me mexer para acertar os papéis da transferência do carro e pagar o licenciamento anual. Menos de um mês depois de tê-lo comprado, o DETRAN daqui, que atende pelo pomposo nome de Departamento de Planejamento e Infra-estrutura (e acumula outras funções que não só as do DETRAN), envio-me duas correspondências -- a primeira cobrando que a transferência fosse feita, e para isso requisitando que fosse instalado um alarme e que eu fornecesse alguns dados pessoais num formulário e a segunda, avisando que eu deveria pagar a licença até maio, mês de seu vencimento.

Alarme instalado no último sábado, restava-me encaminhar a um dos postos de atendimento para fazer os pagamentos. Aguardei uns 20 minutos minha senha ser chamada, apresentei a declaração de que tinha instalado o alarme -- um papel tão prosaico quanto simples, indicando apenas qual o tipo usado e a oficina responsável pelo serviço --, entreguei o formulário com meus dados, fui informado do valor final da taxa de transferência mais licença anual e paguei tudo na hora pelo débito automático, em menos de 2 minutos.

Junto com o recibo, um simples boleto impresso, o funcionário entregou-me o único documento que preciso levar no carro: um adesivo indicando um ano e um número: respectivamente o ano e o mês até quando a licença está quitada. Sem papéis moeda com marca d'água, sem cartórios, sem reconhecimento de firmas (tudo que eu preenchi até agora termina com uma frase padrão do tipo: reconheço que as informações aqui fornecidas são verdadeiras e assumo responsabilidade por qualquer falsidade), sem burocracia inútil; só não dá para escapar da facada que qualquer governo te dará assim que tiver a oportunidade. Em que pese uma relativa falta de segurança (não deve ser difícil falsificar um adesivo para colar no pára-brisas) e o baixo nível de fiscalização -- não há nenhuma espécie de vistoria técnica do veículo como condicionante da renovação da licença -- e mesmo levando-se em conta que um estado tão dependente de carros deveria ter um sistema regulador eficiente, fiquei positivamente muito surpreso com o atendimento e satisfeito com o resultado. É chato falar, mas assim eu fico com menos saudades.

Escrito por Rafael | 11:10 AM | Comentários (0)

Recolham as crianças

São verdadeiros os boatos de que vistei a Sexpo 2006. Não dou um pio.

Aliás dou sim. Senti vontade de subir no palco e enfiar um murro no apresentador quando, após encerrar um número, ele sugeriu que os visitantes comprassem, não, me recuso a usar o termo feminista-politicamente correto, brinquedo é autorama, ursinho de pelúcia e Lego, um vibrador (e se me irritarem ainda chamo de consolo) para dar de presente no dia das mães...

Me limito a adiantar a nova mania que irá chegar nas academias durante o inverno ou talvez tomar conta do verão 2006/2007 como novo exercício feminino para perder as gordurinhas e modelar as curvas: pole dancing. Aqui já tem academia ensinando e atriz de Hollywood avalizando por trás.

Escrito por Rafael | 11:04 AM | Comentários (0)

Morte nem tão acidental de uma peça

Acabei esquecendo de registar que fui ver a montagem da Black Swan Company para Morte Acidental de um Anarquista, um dos textos fundamentais de Dario Fo, há poucos anos contemplado com o prêmio Nobel de literatura. Esqueci provavelmente por conta da relativ decepção com a peça, talvez porque o humor meio surrealista de Fo soasse tão setentoso quanto os ridiculamente perfeitos figurinos, talvez porque, simplesmente, para generalizar bem, anglo-saxões não conseguem sintonizar o estilo de humor italiano e vice-versa, fazendo-o mais histriônico do que deveria. Foi bom para conhecer o Playhouse Theatre, um dos principais palcos daqui, mas espero que a próxima escolha seja mais feliz. Por conta dessas coisas é que até agora ainda não me mexi para conhecer o His Majesty's Theatre.

Escrito por Rafael | 10:55 AM | Comentários (0)

maio 08, 2006

5 coisas que eu adoro e 5 coisas que eu detesto na WA

1. O resto do mundo sai de casa, alemão passeia e australiano viaja: não há comparação possível entre o que existe aqui em termos de lojas de equipamentos para acampar, pescar, e vida ao ar livre e a seção de Viagem nas livrarias com o de qualquer outro país. Basta lembrar que alguns das mais bem sucedidos empreendimentos acerca de viajar são australianos: Lonely Planet, Intrepid, Flight Centre.

2. Rottnest Island: o melhor de Paquetá, Ilha Grande e Arraial do Cabo -- numa só ilha.

3. Variedade de comida asiática: incontáveis restaurantes vietnamitas, chineses, japoneses, tailandeses, indianos, indonésios, malaios, coreanos, o escambau. Pratos substanciais a preços módicos. Só não reclame da pimenta, depois.

4. A grama é para ser pisada. Enorme quantidade de parques públicos com árvores racionalmente dispostas para prover sombra e vastas planuras verdes para serem usadas em piqueniques, futebol, críquete, futebol australiano, frisbee, guri atrás de cachorro, exposições, feiras, festivais e o que mais der na telha. Preservados por uma baixa densidade demográfica que curte e preserva o bem público.

5. Um cartaz que colocam na porta dos cinemas: Por Favor, desligue o celular ao entrar na sala. Clientes conversando durante a sessão ou com celular ligado podem vir a ser convidados a se retirar. Isso não existe só nas salas do grupo Luna, nas do cinemão da Hoyt's também. Cinema, de maneira geral, é um ótimo programa: vazios (ocupação média entre 30% e 50%, mas é comum até nos finais de semana estar na sala com menos de uma dúzia), bem programados, sobretudo os ao ar livre: Camelot, Moonligth, Burswood, Luna Outdoor. É cada vez mais um prazer ir ao cinema aqui, ao contrário do Brasil.

1. Tem somente uma loja de quadrinhos na cidade e como se isso fosse pouco 90% dos títulos são de gibis de super-heróis. Resta confiar no bom fornecimento de mangás e fuçar as prateleiras de graphic novels das livrarias de rede.

2. Australiano é jeca para vestir. Jeca, esculhambado, largado, paraíba, caipira; não tem a menor idéia de como se vestir. Cidade de praia explica apenas em parte a esculhambação; some-se a isso a falta de jeito dos anglo-saxões, para quem a combinação de jeans e chinelo -- na praia! -- é razoável, a completa falta de criatividade quando a formalidade corporativa pede -- o que não é branco ou preto é azul (sempre nos dois idênticos tons, claro ou escuro), creme, cinza ou preto com riscas brancas, tipo terno de gângster --, a cacofonia visual das grifes de praia tipo Billabong e Rip Curl, a incorporação dos estilos gangsta hip hop e street skate no dia a dia, uma irritante padronização de modelos (todas as mini-saias são do mesmo tamanho, todas as bermudas são cargo até o joelho...) e o resultado é agressão estética 100% garantida.

3. Quiseram, à moda dos EUA, construir um país sem classes sociais -- e conseguiram. Com isso, abriram mão tanto dos bons modos, que é coisa de nobre, quanto da vitalidade típica de quem vende o almoço para comprar o jantar: coisa de pobre. Não sabem bater palmas de pé ao fim de um espetáculo consagrado. Não sabem improvisar paródias nos cantos de guerra na arquibancada de um jogo de rugby. É o paraíso da classe média. Quando fundaram a Austrália, pediram para a sofisticação esperar um pouquinho do lado de fora antes de ficar pronto, e até hoje ela está na sala de espera. Eu me pergunto se os romanos não fizeram um serviço porco ao invadir a Inglaterra; tivessem ido adiante e passado o rodo, teríamos hoje descentes igualmente idiossincráticos e excêntricos, mas a língua seria mais parecida e as maneiras, talvez um pouquinho melhores.

4. Dificuldade cultural crônica para, pela ordem: rebolar, batucar e cozinhar. Culpa da parca presença africana?

5. As comidinhas típicas de praia daqui: batata frita (com vinagre ou sal), peixe empanado, lula em anéis empanada -- tudo bem frito e gorduroso, exatamente como não deveria ser.

Escrito por Rafael | 05:08 AM | Comentários (6)

Abril despedaçado

Abril se encerrou com grande alegria, pois foi o mês em que conferi os terceiros livros de Luis Eduardo Matta, Daniel Pellizzari e Daniel Galera, respectivamente 120 Horas, Dedo Negro com Unha e Mãos de Cavalo. Alegria pela chance de ver seus talentos desabrochando, evoluindo dentro de cada universo ficcional específico, alçando vôos maiores -- e ficando mais tempo no ar: até agora nenhum deles se mostrou o Ícaro da, perdão pelo termo, nova literatura.

L.E. Matta manteve tudo que tinha de bom em Ira Implacável -- a narrativa de suspense, a pesquisa elaborada, os personagens instigantes -- elevando em algumas grandezas o nível de suspense, as reviravoltas da trama e as informações que servem de pano de fundo para a ação, numa complexa teia que combina desfiles de moda, corrida nuclear e geopolítica do Oriente Médio com momentos de leveza tipicamente brasileiros num texto mais enxuto, com menos meneios, um autêntico virador de páginas -- tal como Daniel Galera, que compartilha também as descrições detalhadas. Recentemente Galera colocou um ponto final numa discussão que parece segui-lo como uma nuvenzinha cinza, sobre o quanto de sua escrita é fundamentada em experiência pessoal. Nesse terceiro livro, há excelentes descrições de um parto, uma escalada artificial numa parede de academia e uma briga de rua, ou seja: ou Galera teve uma vida bem emocionante antes dos 26 anos ou, o que é bem mais provável, ele detém a habilidade do grande escritor, capaz de iludir e recriar a realidade sob sua pena. Quanto a Pellizzari, me limitarei a lembrar que, enquanto escrevia seu primeiro romance, ele veio se queixar de uma nota que coloquei aqui comentando uma história em que Alan Moore usa como mote a experiência de colocar torradas com manteiga no dorso de gatos e jogar para o alto: se os gatos sempre caem de pé, pela lei de Murphy as torradas sempre caem com o lado da manteiga para baixo e o sistema entraria em loop. Pellizzari queixara-se porque tivera uma idéia semelhante para o livro e teria que desistir de usá-la: em que pese o fato de ser fã de Moore e familiar aos seus temas, é de se perguntar quantos escritores brasileiros já tiveram uma idéia semelhante às de Alan Moore. Mas não se enganem: os sacis albinos que suam sal grosso e os homens com cabelo no lugar de dentes são apenas o aspecto mais grotesco de sua literatura, a mais ousada e por isso mesmo a mais arriscada dos três. Mas mesmo que ele escrevesse sobre taxionomia de lesmas eu me sentiria tentado a ler, por conta da sinuosidade do fraseado e da riqueza vocabular sem pares; só me lembro de ter sentido efeito semelhante ao que sua literatura me provoca lendo City, de Alessandro Barico.

Que eu tenha lido os 3 livros em abril foi uma mera coincidência, posto que foram lançados em épocas distintas. Que eles tenham alcançado os níveis de excelência em que estão é mérito de cada um e motivo de regozijo para mim, que os conheço pessoalmente.

Escrito por Rafael | 05:05 AM | Comentários (0)

maio 04, 2006

É amanhã!

Dia do gibi de grátis

Escrito por Rafael | 11:23 PM | Comentários (1)

maio 03, 2006

Presente nos 10 anos de UOL

Exu, de Tom B
Arte de Tom B comemorativa para os 10 anos do UOL. Talvez não seja o melhor do aniversário, mas definitivamente foi o que mais me chamou a atenção porque eu sinto muita falta dos desenhos e dos grafismos do Tom B. Se alguém souber de algum portfolio virtual, fotolog ou seja lá o que for com os trabalhos do Tom B, por favor avise. Aliás, se alguém tiver o obséquio de ir comprando e guardando essas revistas Bravo! com os artigos do Fabio Danesi, do Polzonoff sobre Mãos de Cavalo e do Alexandre Soares Silva sobre Rubem Fonseca prometo um legítimo bumerangue com pintura aborígene feito na China.

Escrito por Rafael | 10:52 PM | Comentários (0)

Responsabilidade social

Hoje em dia, com a internet e a competição globalizada, não existe mais tempo para se ponderar sobre o valor da responsabilidade pessoal. Ou você se torna pessoalmente responsável por sua vida, seu emprego e suas decisões, ou sua vida estará em permanente controle de terceiros, a mercê das idas e vindas de mercados, governos, preço de petróleo, el niño, galpões chineses, etc. Você é pessoalmente responsável por sua educação, por sua saúde e pelo seu emprego e salário. É também pessoalmente responsável por cada uma de suas decisões, não importando as condições sob as quais elas foram feitas. Assim como é pessoalmente responsável por seus atos e pela ética que escolheu para sua vida. O ser humano é justamente considerado racional por ser capaz de resistir, até certo ponto, a influência do meio externo se utilizando do poder da razão. No Brasil de classe média, como não estamos na penúria da fome ou de doenças graves, estamos bem dentro desse certo ponto... (...) Responsabilidade pessoal não é um fardo que cada um deve carregar. É sim, um dos deveres mais iluminados da vida de uma pessoa que exerce seus direitos e deveres adquiridos pela faculdade de raciocinar e refletir. Se num primeiro momento pode lhe parecer difícil, temerário e perigoso, uma vez que você experimenta esta liberdade, não há mais volta... Nunca mais você irá sequer imaginar a vida monótona e incolor sem ela.

Essa é a melhor parte, mas a coluna toda merece ser lida -- e não é porque tem citação minha.

Escrito por Rafael | 10:49 PM | Comentários (0)

Aspas para ele

Milo Manara nunca esteve tão acessível para os leitores brasileiros.

O que continua pouco acessível para a maioria dos leitores brasileiros são mulheres como as de Manara.
(graaaaaaande Tavela!)

Escrito por Rafael | 10:46 PM | Comentários (0)

Balanço de abril

Compareci a três eventos: uma feira medieval, um salão do automóvel e uma celebração de aniversário do Buda. Assisti 4 bons filmes no cinema (Inside Man, V for Vendetta, Camping at the Farm e Match Point), o último dos quais, em repeteco. Comi muito churrasco e bebi muita cerveja em agradáveis reuniões entre estrangeiros e brasileiros, valorizadas pelo restinho de calor do verão que sobrou nas primeiras semanas de outono. Conheci 4 ótimas atrações da cidade: o cinema Camelot, completando assim o circuito dos cinemas a céu aberto; o Perth Concert Hall, o Cassino de Burswood e a magnífica Rottnest Island. Perdi o filme que eu queria ver no festival do cinema francês, em compensação almocei um legítimo Dim Sum e acompanhei de perto uma sessão de bungee jump. Voltei às leituras em português: Notícias do Planalto, 120 Horas, Dedo Negro com Unha, Pula, pula, macacada, que amanhã não tem mais nada e aos quadrinhos: O Incal Negro, O Incal Luz, So Beautiful and So Dangerous, Hard Boiled e uma coletânea recente de tiras do Zé do Boné que achei por aqui. Em suma, perdi o casamento de um bom amigo, mas nem por isso foi tranquilo.

Escrito por Rafael | 05:18 AM | Comentários (0)

Última vez que eu repito

Mãos de cavalo, Daniel Galera
Lançamento de Mãos de Cavalo, terceiro livro de Daniel Galera.

Onde: São Paulo, Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena
Quando: Quarta-feira, 3 de maio de 2006, às 19h

Escrito por Rafael | 03:01 AM | Comentários (0)

maio 01, 2006

Blade Runner goes berzerk

Está no ar no SoBReCarGa minha coluna nova, lendo com apenas 15 anos de atraso Hard Boiled, que deve ser a mais violenta história em quadrinhos já feita.

Escrito por Rafael | 11:40 PM | Comentários (1)