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outubro 31, 2006

Outback australiano: um relato cubista, continuação

Esse é precisamente um dos dilemas que assombra Exmouth, no coração do Ningaloo Reef e da indústria pesqueira -- é o quartel general da pesca de camarões gigantes das milionárias empresas Kailis, que dominam o comércio na região (tanto quanto a extração de pérolas em Broome). Também foi em Exmouth que conhecemos duas francesas que estavam percorrendo a Austrália inteira ao longo de um ano numa van; encontrar francês e alemão foi mato nessa viagem, teve aquele casal que nos deu carona em Karijini na trilha onde o nosso carro não passava e um outro mochileiro que contou sobre o mergulho com arraias de 5m de envergadura.

As duas francesas tinham vindo do norte, de Broome (que não estava no nosso roteiro), Port Hedland, Karratha e Karijini, num esquema de dureza incrível, do tipo dormir em áreas de repouso em beira de estrada para economizar diária de camping e trabalhar na colheita de frutas durante a estação, como Kerouac em On the Road. Tinham comprado o fogareiro poucas semanas antes e o carro tinha sido um presente, doação, entenda-se como quiser, de outros viajantes que conheceram na primeira parada da viagem. Tomavam banho uma vez por semana; segundo o francês que viajava comigo, na França tinha muito daquele tipo de pessoa que gosta de ficar sujo, talvez como os quatro de Marselha em quem esbarramos no Spider Walk do Karijini National Park: os 3 homens estavam jogando cartas enquanto esperavam a única moça.

Meu camarada francês ficava indignado -- primeiro, francesas que sequer tinham comprado um carro para viajar, depois, franceses que ociosamente jogavam cartas na ausência feminina. Era isso que a França tinha a oferecer ao mundo?, perguntava-se ele. Europeus, e sua irredutível mania de querer civilizar o mundo. Enquanto isso, os africanos aportaram no Brasil contra sua vontade, como escravos, e deixaram uma influência na cultura da colônia tão importante quanto a européia...

De acordo com qualquer folheto turístico, a Coral Coast abrange toda o litoral de Coral Bay ao norte de Exmouth, englobando todo a área de preservação do recife de Ningaloo, dividida em áreas de preservação (onde até o banho de mar é proibido), conservação, pesca e turismo, ao longo de vários quilômetros. Na prática, é uma meia dúzia de praias boas para mergulho -- embora nem sempre para se bronzear -- seja de cilindro, seja em apnéia, muito embora todas as setas acabem apontado mesmo para Lakeside e Turquoise Bay, as mais, digamos assim, cênicas. Em Turquoise Bay fica o mergulho mais divertido, orientado de forma unânime em todos os guias: estacione o carro, entre na praia, caminhe 300m no sentido sul, entre na água, nade 40m mar adentro e deixe a correnteza te levar. Se você conseguir controlar o pânico em se ver incessantemente rebocado pela água por mais que bata as nadadeiras, e for esperto o suficiente para escapulir da correnteza no banco de areia que separa a praia da baía, vai ter a chance de apreciar formações de corais das mais diversas e interessantes sem nem ter o trabalho de nadar até elas -- a contrapartida é a impossibilidade em seguir um peixe mais colorido que te atraia. Gostou? É só caminhar de volta pela areia até o ponto de partida e fazer tudo de novo: o carrossel fica por conta da natureza.

Para as crianças e os apavorados com a correnteza, existe a opção de mergulhar na baía propriamente dita, igualmente povoada por corais soberbos a menos de 20m de natação. Em Lakeside, procurando um pouco, pode-se topar com tubarões ou arraias, mesmo em apnéia, mas dependendo da época do ano, pode-se fazer um mergulho de cilindro nadando ao lado de tubarões baleia, cachalotes ou leões marinhos. Um alemão me contou que, ajoelhado no fundo do mar a 15m de profundidade, viu arraias manteiga (Manta rays) de 3m de envergadura voarem por cima dele, o mesmo tipo de arraia que aniquilara meses antes Steve Irwin, o caçador de crocodilos.

Quando menciono que deve-se estacionar o carro na entrada da praia, é porque o único modo de se chegar em todos esses lugares é através de veículo próprio, tanto melhor se um 4x4. São praticamente todas praias ainda selvagens, sem água potável por perto. De fato, muito do que se vende como aventura na costa noroeste australiana justifica esse nome: sem planejamento, preparo e uma dose de disposição inversamente proporcional à necessidade de conforto não se aproveita nada. Mais do que turismo, o nome aqui ainda é exploração: o dispersão acentua a impressão de conquista, de colonização. E de quebra, determina muito do caráter do habitante local: insular, desbravador, rural. Há mais em comum entre o espírito do surfista e do fazendeiro da Austrália Ocidental do que trai a primeira vista. Na primeira vez em que se cruza com um nativo trajando bermudas e camisetas coloridas de surfwear, calçando botinas Mack e usando um chapéu de couro de canguru numa das trilhas de Karijini, parece a mais ridícula indumentária do mundo. Depois de meia hora no mato, a vestimenta começa a fazer sentido. Embora continue ridícula em termos estéticos. Mas a disposição em explorar áreas desocupadas, a simplicidade indumentária e a praticidade estética, o amor pela natureza, são exatamente os mesmos.

Carnavon é a última cidade grande, obviamente, em termos locais, antes de Exmouth. É um dos celeiros do país, produzindo bananas, mangas, limões, maçãs para consumo local. Falando assim, até parece um paraíso tropical encravado na costa ocidental e não a cidade de onde o quilograma de bananas é exportado a 13 dólares australianos, um acinte para qualquer sul-americano vindo de uma república das bananas. E nem ao menos são amarelas e bem nutridas; em geral, verde-acinzentadas e mirradas. Como única opção local, Carnavon atrai trabalhadores sazonais na colheita dessas frutas, gente como as francesas do banho semanal que encontramos em Exmouth; de resto, poucas atrações turísticas pedem uma parada (Geraldton ao menos tem sua catedral), a principal delas sendo o píer construído no século XIX para o escoamente via trem da produção, hoje inutilizado e abandonado. Por fim, Carnavon guarda a vergonha de ter sido palco de algumas das mais sinistras chacinas de aborígenes locais.

Apesar da boa estrutura e das facilidades, Carnavon, Geraldton e sobretudo Exmouth parecem arraiais se comparados com as cidades portuárias de Karratha, Dampier e Port Hedland. Não que haja grandes diferenças em termos de arquitetura ou mesmo de população, mas a pujante atividade econômica em cidades que escoam a produção de ferro aliada à atividade dos portos, que funcionam como trampolim para os projetos de exploração de gás e petróleo submarinos na costa noroeste da Austrália conferem um ar completamente diferente àquelas cidades. Nada do jeito relaxado, quase de férias eternas, que se vê em Exmouth, ou da brisa convidativa para a vida ao ar livre que sopra em Carnavon: as temperaturas batem facilmente os 40 graus já no começo da primavera, faz calor o dia inteiro, os arbustos da paisagem dão lugar a montanhas cobertas de minério de ferro, em cenários de um vermelho empoeirado que entristecem um bocado a vista. Cidades funcionais, de trabalhadores, blue collar; cidades que produzem incessantemente mas que dormem cedo, porque o turno começa ainda mais cedo; cidades de oportunidades onde motoristas de caminhão podem fazer seu pé de meia. Cidades regidas pela ética da classe trabalhadora, onde por mais que se procure, não se encontra sinal de proletariado -- tal como Tom Wolfe sacou em Hooking Up: nos finais de semana, os mineiros e portuários saem para mergulhar ou pescar no arquipélago de Dampier.

Ninguém vai a Karratha ou Dampier fazer turismo convenvional, por mais que os folhetos turísticos tentem vender uma trilha com inscrições aborígenes nas rochas ou uma bela praia; as vistas não são bonitas, ainda que haja algo de atraente nas imensas pilhas de sal ou nos guindastes gigantescos operando no porto noite adentro. Um monumento ao empreendendorismo, talvez. Nem por isso, deixam de ter suas história; tal como aquele cachorro que aparece no livro de Ruy Castro sobre Ipanema, aqui também existiu um cão que pegava trens e ônibus sem ajuda, que se transformou em personagem e chegou a ganhar uma estátua de bronze na entrada de Dampier, convertendo-se em símbolo local, na falta de melhor, diriam as más línguas. Passear por essas cidades é entender o que faz o estado da Western Australia tão rico, é vislumbrar o que a capital, tida como sofisticada -- realmente, quem cresce em Porth Hedland quando chega a Perth acredita que desembarcou em Los Angeles --, era há não mais que 20 anos, é enxergar que esse país foi e continua sendo construído por trabalhadores, gente simples e sem distinção de classe e se orgulha disso; e ainda uma ou duas lições caras aos ouvidos brasileiros.

Quase todos os projetos públicos naquela área são patrocinados por alguma multinacional, em geral as empresas gigantes BHP ou Woodside. Não existe uma Petrobras, muito menos uma Vale do Rio Doce australiana para operar os portos, movimentar o imenso trem que alimenta o terminal de Port Hedland incessantemente com minério de ferro (no espaço de tempo em que se aguarda a passagem dos vagões, daria para ter feito a barba com meu barbeador elétrico), perfurar as minas. Não há australianos clamando que o ferro é deles ou que a Austrália não deveria entregar suas riquezas ao capital estrangeiro; eles querem é que o buraco das minas seja mais fundo. É apenas de se imaginar o estrago feito no imaginário milenar dos aborígenes ao verem desaparecer cadeias de montanhas existentes aos mesmos 30 mil anos em que eles habitaram a região ao serem escavadas. Não há ONGs berrando pelos direitos dos aborígenes na região; reservam-se áreas para que eles vivam, mas de preferência, bem longe das minas de ferro e ouro. Encontram-se aborígenes a mancheia nessas cidades, meio integrados à sociedade, vivendo em casas baixas com quintal nos fundos, tal como é o sonho de qualquer australiano. Suas crianças lembram um pouco os menores abandonados das cidades grandes brasileiras, pelo descuido do penteado e por andarem sempre descalços, mas estão todas bem alimentadas e vestidas, normalmente com camisas de jogadores da NBA ou na moda de rua dos cantores de hip hop. Recebem estipêndio do Estado; é a única interferência na economia (imagino que o prefeito de Port Hedland discuta com o gerente do pólo industrial da Woodside antes de tomar qualquer decisão: uma canetada e o último põe um terço da população na rua. Aliás o gerente deve ser o próprio prefeito). Ninguém vai a Port Hedland fazer turismo, e se vai, não sai de lá impunemente, sem alguns fatos esfregados na cara.

Ao sul de Port Hedland há uma curiosidade: Cossack, antigo e importante porto no século XIX, posteriormente abandonado, hoje uma diminuta cidade fantasma cujos principais prédios públicos, onde a cal branca das paredes está invariavelmente suja pela ubíqua poeira vermelha das montanhas de ferro -- não, nem os arredores de Minas Gerais são assim, minha memória pode trair, mas nada era tão opressivo como no noroeste da Austrália -- ainda podem ser visitados. Há a antiga sede dos correios, há o prédio da prefeitura, convertido em museu; há sinais de boa conservação. Mas a desolação da paisagem, a aridez extrema do clima, a poeira inevitável e alguns aborígenes perambulando perdidos contribuem para pintar um dos quadros mais inóspitos e agressivos que me recordo. Se você ainda tinha uma dúvida até esse momento, ela se desfez: você está no velho oeste. No velho oeste, sem tirar nem pôr. As boutiques internacionais na King Street, a grama frondosa do Kings Park, o ar condicionado das lojas de departamento na Hay Street, as cocotas desfilando com seus óculos escuros cobrindo um terço do rosto em Perth -- tudo é exceção, tudo é minoria nesse continente de cidades empoeiradas, austeras ao ponto da tristeza, estóicas. Western Austrália é o velho oeste, é San Francisco em 1895, é Vila Rica no Século XVIII, sem os Colt 45. O resto é igual. Não há indústrias, não há grandes plantações, não há silos, não há moinhos e consequentemente não há cidades erguidas ao redor; apenas minas e assentamentos próximos descrevem a geografia do interior, do Outback, do inferno avermelhado que não cansa de cuspir ouro e ferro para a riqueza do país.

Não é de espantar que a descida rumo ao sul seja bem vinda no que toca à mudança de temperatura, e às promessas que o Parque Natural de Karijini promete. Mas que não se idealize aqui em conforto; como em todo o resto do estado, e suspeito, do país, prevalece a auto-determinação dos turistas sobre o conforto dos hotéis; em que pese que os caravan parks ajudam a dar vazão ao excesso populacional em cidades onde a construção civil não cresce em ritmo tão acelerado, o estilo de vida montado em motorhomes e barracas de camping se espalha dos surfistas de Point Quobba aos bichos-grilos de Karijini. É a apoteose do te vira, malandro, de quem viaja por conta própria, dos europeus que abrem mão do conforto, do turismo de resultados, praticamente sem estrutura nenhuma, promovido apenas à base do que a própria natureza oferece e pouco mais. Viajar na Austrália é sinônimo de natureza; não venha para cá atrás de museus ou arquitetura ou ruínas -- até porque qualquer coisa com mais de 40 anos de idade já é considerada histórica. E natureza é sinônimo de liberdade, de entrar com o jipe pelo meio do bushwalk, de dirigir para chegar em praias selvagens, de ser responsável pela própria comida (e também pela água e lixo, em Karijini), de não ter guias ou roteiros pré-definidos, enfim: o exato oposto do turismo convencional hotel-água quante-cama limpa-café da manhã-passeio guiado. Não me espanta que tenhamos encontrado tão poucos australianos jovens viajando pelo interior do país: quem iria, podendo gastar o mesmo e ficar uma semana com todas as regalias que a moeda forte permite em Bali, a meras 4 horas de avião?

(Não, não terminou ainda... falta o Parque Nacional de Karijini e a longa viagem de volta até Perth... tem mais)

Escrito por Rafael | 05:00 AM | Comentários (0)

outubro 26, 2006

Intervalo

Intervalo rápido na narrativa da viagem apenas para ajustar os ponteiros. É que andei esbarrando numas coisas por aí nesse meio tempo, como a história sobre o único diálogo entre Joel Silveira e Nelson Rodrigues:

Eu nunca disse que não gostava de Nélson Rodrigues. Apenas convivi pouco com ele. Fomos colegas de redação. Gosto da peça “Vestido de noiva”, mas a verdade é não nos entrosávamos. Uma vez,eu estava escrevendo alguma coisa - escrevo depressa na máquina, porque no fundo sou mesmo é um bom datilógrafo. De repente, Nélson Rodrigues caminha em minha direção, fica parado diante de mim com um cigarro pendendo na boca e exclama: “Patético !”. Em seguida, foi embora, em silêncio. Quando acabei de escrever, fui até a mesa de Nélson – que batia à máquina com dois dedos – e fiz a mesma coisa. Fiquei em silêncio vendo-o escrever. Depois, disse, simplesmente: “Dramático ! ”. Fui embora. Nosso único diálogo resumiu-se a estas duas exclamações – “patético” e “dramático”.

Ou como Jimmy Corrigan, the Smartest Kid on Earth, que eu me prometia ler há muito tempo e nunca tinha encontrado. A quantidade e o tom dos elogios que se encontra relacionada a Chris Ware chega a ser indecente, sobretudo para quem nunca ouviu falar nele. Chegava inclusive para mim. Até que esbarrei numa de suas primeiras histórias, I guess, feita para a Raw, e comecei a entender o porquê. Nada é o que parece; o clichê "ter expandido os limites da linguagem" soa eufemístico.

Mas nada superou a melhor lição política que eu já tive, cortesia do bibliófilo José Mindlin em palestra em Curitiba, registrada pelo Tiago:

Só tive uma participação partidária interessante no ano de 1936, na Faculdade de Direito. Um dia, cheguei no pátio da faculdade e vi uma moça cercada de rapazes cabalando para entrar em um dos partidos acadêmicos. "Entre para o Partido Libertador." "Entre para o Partido Liberal." Foram desfiando nomes de partidos acadêmicos. E eu olhei para aquela moça, que eu estava vendo pela primeira vez, e disse: "Tudo isso é bobagem. Se você quer um bom partido, está aqui". Ela me tomou a sério. E tivemos uma vida muito feliz, quase 70 anos de convívio que infelizmente terminaram esse ano, com o falecimento dela.

Escrito por Rafael | 12:31 AM | Comentários (2)

outubro 20, 2006

Outback australiano: um relato cubista

A variedade de experiências contrasta com o vazio do cenário quando se viaja de carro pelo noroeste australiano; percorrer as longas distâncias é experiência indispensável para compreender o país e o povo que habita esse pedaço desbitado e selvagem de terra, o próprio velho oeste. Europeus com quem conversei no caminho se mostravam deslumbrados com a ausência de fronteiras visíveis ou perceptíveis, com a possibilidade de dirigir centenas de quilômetros de estrada sem uma fazenda, um cata-vento, uma reserva natural, um pasto que fosse nas beiradas -- não obstante o risco de atropelar um canguru, uma cabra, um lagarto, uma das muitas emas suicidas que parecem esperar o veículo para atravessar as pistas. Animais na pista são vistos como símbolos de liberdade, nunca de perigo para o motorista, ou para os próprios animais. Ou como possível fonte de alimentação ou sustento, provável interpretação brasileira. Mas me adianto.

A partida foi numa sexta-feira de manhã de Perth, capital do estado de Western Australia, o maior da Austrália e dentro do qual uns 3 ou 4 países da Europa caberiam, estado ao qual ficaram circunscritos os mais de 5000 quilômetros de jornada ao litoral e interior australianos, cumpridos a bordo do que chamaríamos no Brasil de um rabecão, um daqueles carros com traseira estendida e bagageiro amplo que parecem ter sido criados para esse tipo de viagem: apesar da proporção de veículos com tração 4x4 para convencionais ser de 10 para 1, a boa conservação das estradas permite que a viagem seja toda feita com um daqueles. Dali para o norte, cruzando o Trópico de Capricórnio, para onde a temperatura é mais quente e as famílias emigram durante o inverno, fugindo do frio qual as baleias ao lado de quem é possível mergulhar em Exmouth.

Não é preciso sair um raio maior do que 100km de distância de Perth para descobrir que aquelas placas as mais variadas avisando sobre animais na pista não são apenas lembranças Made in China de uma loja de souvenirs: são instrumentos de sinalização para valer. Arrisque-se a permanecer dirigindo depois do pôr-do-sol e, numa área ainda relativamente selvagem como Point Quobba, terá cuidado redobrado com famílias de coelhos, lagartos, emas e cangurus saindo, ou fugindo, da caça. As centenas de carcaças de cangurus que se vêem durante o dia ao largo das estradas, devidamente arrastadas para ali provavelmente por algum ranger madrugador, e toda a sorte de predadores de carniça que se segue (quadrúpedes como feral foxes, ou aves de rapina como ospreys), atestam uma das principais causas de acidentes automobilísticos do país, devidamente convertida a atração turística.

No zoológico de Perth tenta-se mimetizar a experiência de uma caminhada no outback na área batizada de Australian bushwalk, onde se esbarra em cangurus cinza e mallefowls, mas nada explica a sensação que se apossa do corpo ao sentir a temperatura subir, a umidade cair e a vegetação minguar, abandonando o verde e as árvores em nome do amarelo-palha e dos arbustos. Em alguns trechos o vento é tão constante e forte que verga pequenos troncos, trazendo a copa ao rés do chão. A monotonia da paisagem é quebrada apenas muito raramente de sorte que qualquer variação visual é uma novidade bem-vinda: uma cadeia de montanhas ao fundo, uma ponte sobre um riacho seco, gigantescos ninhos de cupins, uma família de vacas pastando. E, honestamente, quando aparece uma placa avisando que aquele trecho da estrada é sujeito a inundações-relâmpago ou que você está prestes a passar por cima de uma grade sobre o canal de escoamento da estrada, você torce é para que a monotonia volte o quanto antes. Lembrei-me do modo como Ariano Suassuna incorpora e converte em personagem a fauna e a flora do cerrado em seus trabalhos, transformando porcas em símbolos de riqueza e onças em estandartes de heráldica; no fundo, não é muito diferente da propaganda que os escritórios de turismo australiano tentam fazer, elevando aquele inóspito ecossistema a atração turística -- no lugar de onças, mandacarus, raposas, cabras, gaviões e veados, tem-se cangurus, ospreys, feral foxes e ratos do deserto transitando entre as ubíquas spinifex, minúsculos arbustos de folhas pontiagudas que povoam o terreno. Lá como cá, a convivência é agressiva, espécies se estinguem e nem a cerca eletrificada que isola o François Péron National Park garante a sobrevivência de roedores miúdos ao isolá-los de seus predadores.

A partir de Geraldton, dirige-se cem, cento e cinquenta quilômetros para chegar num mísero posto de gasolina com restaurante incorporado, mas até mesmo aqui o espírito de responsabilidade pessoal e auto-suficiência anglo-saxão se impõe: apesar de motoristas cansados serem presenteados com um copo de café grátis, cobra-se mais caro por refeições consumidas no próprio local do que pelas embaladas para viagem; a impressão é de que as mesas e cadeiras na sala ao lado são meramente decorativas -- até porque não se encontra ninguém sentado nelas, mesmo. São roadhouses que prometem o verdadeiro sabor da Austrália mas têm todas o mesmo cardápio de hamburgeres, além das mesmas meat pies e muffins industrializados, o que talvez diga o suficiente para um bom entendedor sobre a culinária australiana. Só trouxa ainda acredita que a rede de restaurantes Outback vende a pratos típicos. Nem as camisetas, bonés ou stubby-holders que fazem as vezes de souvenirs fazem questão de esconder a falta de originalidade denunciada também pela procedência oriental: do interior australiano, mas made in China. Perto disso, o artesanato de madeira das lojinhas das estâncias hidrominerais no sul de Minas são esculturas de Antonio Canova. E a cada 100 quilômetros o preço da gasolina sobe uns 10 centavos.

Ignorando-se a catedral de Geraldton é possível dormir em Denham no mesmo dia da partida, uma cidade de praia com um quê de Arraial do Cabo, mas a estranhíssima assepsidade inerente aos anglo-saxões, que inventaram a praia para quem não gosta de se sujar de areia. É provável que não exista no mundo igual cidade de praia ensolarada e organizada como aquela, onde a faixa de areia seja limitada por um vasto gramado, mais uma das manias anglo-saxões. Nunca é demais notar que viajei em companhia de um francês, o que facultou muito minha habilidade em identificar essas características. Denham sobrevive essencialmente como pouso para quem visita Monkey Mia, o resort e centro de pesquisas que se desenvolveu completamente em cima do fenômeno dos golfinhos que regularmente visitam a praia três vezes por dia, na parte da manhã -- e o primeiro dos logradouros com nome esquisito numa vastíssima coleção cujos primeiros prêmios em originalidade vão para Endless Loop e os nomes aborígenes. Monkey é um termo que remonta aos tempos anteriores à correção política da extração de pérolas usando asiáticos como mão de obra barata & especializada: os monkeys; mia é corruptela de termo aborígene significando toca.

Monkey Mia disputa com os estromatólitos de Hamelin Pool para ver quem melhor explora uma criatura marinha na região; Monkey Mia parte na frente por conta da extrema amistosidade dos golfinhos, que chegam a roçar seus narizes nas pernas de alguns turistas, mas só Hamelin Pool tem biólogos atestanto que aqueles pedregulhos em forma de côco são as mais primitivas formas de vida encontradas na terra, anteriores até mesmo aos dinossauros. Os estromatólitos de Hamelin Pool contam apenas 3000 anos de vida e podem dar belas imagens de fundo para telas de computador, mas no final seres imóveis de milhares de anos ainda são mais sem graça do que golfinhos semi-amestrados, ou seja, trocando em miúdos, até a primeira grande atração da Costa dos Corais, são uns oitocentos quilômetros saindo da capital para ver meia dúzia de golfinhos amistosos e uma praia cheia de pedras que parecem cocôs. Alguém vai pagar caro por isso.

Continuando a subida pelo litoral, a próxima atração são os blownholes de Point Quobba: formações rochosas (vulcânicas?) na beira da praia severamente castigadas pelo, atenção ao termo, swell. Em alguns locais, abriram furos por onde a água do quebra-mar é espirrada cada vez que uma onda estoura, os populares blownholes. A região não é famosa apenas por isso; há praias de surf e bons locais de pesca, numa das áreas ainda relativamente selvagens, dado que a estrada não é asfaltada e pouco acessível a carros comuns; o mais provável é que você encontre surfistas, pescadores ou rancheiros ao invés de turistas por lá. Aliás a placa que adorna a junção da estrada em frente aos blownholes é um excelente exemplo da rudeza anglo-saxã versão surfista: King Waves Kill, logo à frente de um marco identificando onde o último pescador morreu depois de se meter a malandro e chegar perto demais do mar. Sutil como uma tsunami.

Quem chega a Coral Bay depois de mais de mil quilômetros de estrada num dia de sol acha que descobriu o paraíso, com aquela espetacular água azul turquesa banhando areias brancas, temperatura perfeita e corais visíveis nadando-se menos de 50m do raso, mas se der-se ao trabalho de levantar a cabeça da toalha -- esse povo vai à praia de toalha, horror, horror -- e olhar ao redor vai notar que é apenas, somente, unicamente UMA praia no que consiste a cidade cuja população oficial é de 120. O resto não é muito diferente: um caravan park, um restaurante de frutos do mar, uma pousada: já vi esse filme, onde mesmo, em Denham? Para quem se fia nesses nomes inventados por operadores turísticos, Coral Bay é a primeira grande parada da chamada Costa dos Corais (Coral Coast), litoral noroeste australiano que concentra tanto desses seres que vivem em colônia, dizem, quanto a Grande Barreira de Corais, que fica no outro lado do continente, porém infinitamente menos explorado -- tão menos explorado que chegam a vender o período de cópula como atração turística, cópula dos corais, bem entendido: entre março e junho liberam suas sementes no mar, conferindo-lhe uma coloração toda particular. É o espetacular recife de Ningaloo, Ningaloo Reef, alvo de um imenso resort que não sai do papel há anos. Eu me pergunto se seria o ideal construir resorts próximos de praias coalhadas de corais; se forem corais macios, serão irremediavelmente destruídos por pisadas, pondo fim a espécies centenárias; se forem duros, tornarão a praia inviável para banhistas comuns, sendo aproveitada plenamente apenas por mergulhadores.

Esse é precisamente um dos dilemas que assombra Exmouth, no coração do Ningaloo Reef e da indústria pesqueira -- é o quartel general da pesca de camarões gigantes das milionárias empresas Kailis, que dominam o comércio na região (tanto quanto a extração de pérolas em Broome).

(continua... a viagem durou 10 dias e relato mal passou do primeiro final de semana...)

Escrito por Rafael | 04:14 AM | Comentários (2)

outubro 17, 2006

10 anos de Sinopse

Daniel Piza faz 20 listas do que viu, leu e ouviu de bom nos últimos 10 anos, baseado nos próprios balanços de 1996 até agora.

Curioso que eu acompanhei pouquíssimo do indicado por ele nesse período: Armas, Germes e Aço e Colapso, de Jared Diamond (comprei, ainda não li); A Era dos Festivais, de Zuza Homem de Mello; Fargo, dos irmãos Coen; Razão e Sensibilidade, de Ang Lee; Tudo sobre Minha Mãe, de Almodóvar; Mulholland Drive, de David Lynch; O Pianista, de Roman Polanski; As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand; Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood; Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michael Gondry e Charlie Kaufmann; Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho; Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; O Invasor, de Beto Brant; Carandiru, de Hector Babenco; Paulinho da Viola, de Izabel Jaguaribe; Jazz, de Ken Burns; Shrek; Monstros S.A.; Procurando Nemo; Os Incríveis; Viagem de Chihiro; Rei Lear, de Shakespeare, com Paulo Autran; Comédia da Vida Privada e O Auto da Compadecida, de Guel Arraes; a série de TV Sex and the City e o álbum de quadrinhos À Sombra das Torres Ausentes, de Art Spiegelman. Eu não teria condições de fazer uma lista de livros, discos ou quadrinhos; de cinema seria bastante próxima à dele.

Escrito por Rafael | 04:13 AM | Comentários (0)

outubro 16, 2006

Volta ao mundo em 72 horas

Na sexta-feira completei um time de futebol de salão que joga com um escrete diferente a cada semana, dessa vez a presença de um francês (de origem asiática), um alemão (grosso como só eles conseguem ser, "eu me irritei quando começamos a levar gol e decidi que tinha que fazer uma falta em alguém"), um inglês e dois brasileiros não impediu a goleada de 7 a 2 para um time de chineses, que se não eram chineses pareciam chineses, alguns dos quais vindos de Macau -- daí o português fluente que um deles falava, até com leve sotaque paulistano, além das camisas cor de vinho com os nomes de Deco e Figo.

Depois foi esticar no VIC, um dos muitos bares bacaninhas de Subiaco, bairro onde se encontra exatamente aquilo que os jornais brasileiros chamam de gente bonita, nomeado segundo a região da caverna onde São Benedito se escondeu. Parênteses: um grupo de monges beneditinos espanhóis fundou uma cidade na Austrália há mais de cem anos, New Norcia, a servir-lhes de monastério e escola de noviços. Norcia é a cidade natal de São Benedito e mais uma das muitas ocorrências de nomes italianos em Perth.

No Subiaco Hotel, que na verdade é um bar, desvencilhei-me do franco-asiático apenas para ir a banheiro e reencontrá-lo de papo com duas quenianas, que ficaram pelo caminho na direção do Sapphyre Bar (mesmo caminho onde esbarramos com duas canadenses, uma loira e uma morena, o que explica o tamanho das mini-saias que estavam usando naquele vento frio de 12 graus), esse não um bar, mas uma boate, escolhida para encerrar os trabalhos da semana.

No sábado cumpri a prometida incursão noturna com um colega de Kuala Lumpur. Na primeira parada, encontrei um irlandês com quem tinha trabalhado no Brasil há 3 anos e que vim a reencontrar muitas voltas do mundo depois. Comentei com ele que tinha assistido o último Ken Loach, The Wind that Shakes the Barlow e ele respondeu que crescera ouvindo sua avó contar aquelas histórias; depois nos apresentou um inglês com quem, por sua vez, tinha trabalhado em Aberdeen (Escócia). Dali fomos para um lugar onde só tocava a chamada música negra, rythm and blues e hip hop, entretanto curiosamente frequentado em quase totalidade por asiáticos: da China, Coréia, Japão, Singapura, Malásia, Indonésia, Tailândia. E assim terminou mais uma noite em mais um típico final de semana na australiana cidade de Perth.

Escrito por Rafael | 05:38 AM | Comentários (0)

outubro 12, 2006

Protesto. Chantagem.

Não publico mais nada até que alguém me mande o texto do Ivan Lessa sobre a volta ao Rio de Janeiro que saiu no primeiro número da revista Piauí. É sério.

Atualização: uma boa alma já se prontificou a enviar, é findo o jejum.

Escrito por Rafael | 11:23 PM | Comentários (3)

Virou farra

Che bacca
Tem toda uma coleção. Dica do incomparável Tavela.

Escrito por Rafael | 10:31 PM | Comentários (1)

outubro 11, 2006

Eddie Campbell está de volta

"The point of using real life is that it throws up odd and unpredictable shapes. Fiction tends toward the geometrical, to beginnings, middles and ends. Looking to the real suggests more organic shapes. But one must develop an eye for the shape which can be meaningful, and to combine small units within a complex frame work, like a big honeycomb. But I also wanted to mix up the fictional and the real. And since I've been offstage for a couple of ears since Order of Beasts came out, I wanted to arrive back here with something quite astonishing, like a big three ring circus of a comic" -- Eddie Campbell

Não é segredo para ninguém que eu sou fã de Eddie Campbell desde 1995, quando comecei a ler e colecionar Bacchus: uma revista em quadrinhos resgatando personagens da mitologia grega. Cheguei a enaltecer a série pouco antes de seu encerramento, em 2001, num artigo, mas minha grande felicidade deu-se pelos idos de 1997, quando ele publicou meus emails na seção de cartas e mandou uma edição autografada, da Austrália para o Brasil.

De lá para cá, Eddie Campbell ainda tocou uma publicação nova, Egomania, em formato grande, que mal cheguei a ver, editou as compilações das histórias de Bacchus, terminou de desenhar From Hell e publicou num catatau enorme que, por sua vez, foi adaptado para o cinema; abandonou a mitologia grega e transformou suas memórias sobre a década de 1980 numa graphic novel, How to be an Artist, aliás assunto de outro artigo meu, fez alguns trabalhinhos para a DC e, finalmente, desapareceu.

Até maio de 2006. Quando saiu The Fate of the Artist por uma pequena editora, na Inglaterra e nos EUA. Como em seu último trabalho, o tema volta a ser o papel do artista na sociedade, desta vez abordado de maneira bem mais ousada: sem primeira pessoa, a partir de depoimentos da família, anedotas do lar e paródias do cotidiano, numa mistura de estilos (aquarela, nanquim, lápis) e de linguagens (texto, tira, fotonovela, página de quadrinhos) de deixar tonto. Isso porque eu nem terminei de ler ainda.

Eddie Campbell

Eddie Campbell não se contentou somente em produzir a história; desenhou uma entrevista onde responde questões essenciais à nova obra, deu entrevistas e manteve um blog acompanhando o lançamento. E como se não bastasse, tem uma filha nnnngata. (copirraite pro Galera)

Qualquer dia pego um avião e vou lá encher o saco do cara em Brisbane.

Escrito por Rafael | 01:02 AM | Comentários (0)

outubro 09, 2006

Estatísticas da viagem pela Austrália

Animais vistos na beira da estrada: cangurus, emas, ecdinas, iguanas, vacas, cabras, mallefowl (uma ema pequena), osprey (tipo de gavião), coelhos, ovelhas, cavalos.

Animais que arriscaram a vida tentando atravessar na frente do carro: emas (muitas!), cangurus, coelhos, cabras, vacas, coelhos, iguanas.

Animais atropelados: iguana (1)

Cor na vegetação, do sul para o norte: verde (grama e vinhedos), marrom (arbustos), palha, vermelho (na região mineradora, graças ao ferro).

Temperatura média durante o dia, do sul para o norte: 21 graus em Perth, 28 em Geraldton, 30 em Carnarvon, 35 em Karratha, 40 em Port Hedland.

Proporção de veículos 4x4 para convencionais, na estrada: 7 para 1.

Horas de sol por dia: 13, de seis da manhã até sete da noite.

Escrito por Rafael | 10:54 PM | Comentários (0)

Grandes viagens de carro

(Inspirado num post do Nemo Nox)

1999: Rio de Janeiro-Ilhéus-Valença, onde o carro ficou estacionado, por não ser possível levá-lo até Morro de São Paulo, a bordo de um Fiat Uno Mile (!)
2003: Berkeley-San Diego, com direito a esticada para Los Angeles, a bordo de um Honda Civic Toyota Corolla.
2005: Bruxelas-Colônia-Heidelberg-Rothemburg-Freiburg-Constance-Fussen-Munique, a bordo de um Meriva diesel (até Colônia) e daí em diante, num Mercedes C330.
2006: Perth-Geraldton-Denham-Coral Bay-Exmouth-Karratha-Port Hedland-Karijini National Park-Newman-Dallwalinu-Peth, a bordo de um Hyundai Lantra, percorrendo mais de 5000 quilômetros (!!!) em 10 dias de viagem.

Comentários gerais:
1) Em todas as viagens, a ocupação do carro variou entre 2 e 4 pessoas e dirigi muito pouco em quase todas (absolutamente nada em 1999 e 2006), apesar de sempre ter feito as vezes de co-piloto, ao menos até decifrar como funcionava o GPS em alemão do Mercedes.

2) A trilha sonora foi estranhamente inadequada em quase todos os trajetos. Na Califórnia, ouvi pagode e samba de roda; no interior da Alemanha, lambada e na costa oeste da Austrália, o hino da legião estrangeira e rap em francês. Salvo-me ao menos por ter dirigido ao som de Kraftwerk numa Autobahn.

3) Houve um único acidente, na altura da região dos lagos, um engavetamento onde o Uno era o segundo da fila, que obrigou a uma parada imprevista para lanternagem em Campos dos Goytacazes sem, entretanto, atrasar sensivelmente o cronograma da chegada. Apesar dos mais de cinco mil quilômetros rodados na Austrália, não foi preciso trocar nenhum pneu.

4) Maiores esticadas: San Diego-Berkeley e Karijini-Dallwalinu, cada uma com mais ou menos 1300 quilômetros rodados em um único dia.

5) Pior estrada: BR-101 no trecho perto de Ilhéus (no sul da Bahia é decente). Melhor estrada: Berkeley-San Diego pela rodovia 1. Melhor carro: Mercedes, com aquecedor de banco, não digo que só faltava falar porque falava mesmo, pelo GPS, apelidado carinhosamente de Frieda; mas o Honda também era muito bom. Pior carro: Uno Mile, até hoje me pergunto como chegou a Ilhéus carregando quatro passageiros dentro.

Escrito por Rafael | 05:51 AM | Comentários (4)