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fevereiro 28, 2007

Aqui embaixo

Terminei de ler também Down Under (título para a Inglaterra do livro In a Sunburned Country), uma das primeiras sugestões que o Alexandre enviou pouco depois de chegar aqui. Estava certo, muito divertido. E impressionante como parece que ele leu de tudo -- frase intencionalmente dúbida, vale para o Soares Silva e para o Bill Bryson.

Bryson escreve bem, tem texto leve e com humor, extremamente apropriado para seu gênero, que infesta as livrarias australianas, travel. E pelo que conversei com locais, acertou na mosca na caracterização. Compreende-se a satisfação deles: em boa parte do livro Bryson deita elogios à terra, e todas as suas gozações sobre hábitos locais são irrespondíveis. Por exemplo, quando contrapõe a infinidade de perigos animais & vegetais ao comportamente despreocupado dos habitantes daquela terra. Ou quando caracteriza o primeiro ministro como um sujeito tão chato, tão desinteressante como o de um guri cujo projeto de vida era ser papa-defuntos. Ainda assim algumas ausência do livro me incomodaram -- porque ele não menciona uma linha sobre o restritíssimo controle de alfândega do país, que impede a entrada de um sem número de artigos naturais e põe de quarentena os móveis que você trouxe, se forem de madeira?

Pior ainda, porque ele demora 350 das 400 páginas do livro para tocar no assunto aborígenes? Em qualquer livro turístico por mais laudatório que seja do Brasil, você vai ouvir falar em favela nas primeiras 3 páginas, mas Bryson passeia pelos quatro cantos do imenso território, visita a pedra de Uluru, cruza de leste a oeste de trem antes de falar nos aborígenes. É fato que deixa tudo às claras, mas a impressão é que estava evitando o tema. Talvez o Alexandre ache que o livro não deixaria de ser bom mesmo se ele passasse por cima do que é um dos Grandes Problemas, mas se ele se propôe a investigar a alma de um país sem dourar-lhe a pílula, deveria tê-lo dado mais atenção. A maneira como Bryson trata a imigração também é incômoda; é verdade quem em uma geração o país se abriu e diversificou como nenhum outro. Mas assista um pouco de televisão e tente identificar entre apresentadores, políticos, celebridades e esportistas alguém que não seja anglo-saxão ou venha de linhagem norte-européia. Asiáticos e africanos entram sim, mas ainda estão restritos aos seus nichos.

Em suma, se você não morou ou simplesmente visitou a turismo a Austrália, vai adorar a presença de espírito, a graça, a fluência verbal, a leveza de crônica que o estilo de Bryson tem. Vai até se espantar com a falta de segredos em seus truques; um dos comentários na quatra capa explica com precisão que Bryson visita um par de monumentos ou museus, passeia pela cidade, bisbilhota uma conversa, bebe uma cerveja no bar local -- e seis meses depois, pessoas são hospitalizadas de tanto rir com o seu relato. Lembra um pouco o livro de viagens de Fernando Sabino, mas é melhor. Só que deixa de fora partes essenciais para se entender a figura toda -- se é isso o que você espera de um livro de viagens.

Escrito por Rafael | 10:38 PM | Comentários (2)

fevereiro 27, 2007

Idéia genial que eu ouvi na praia

Assim como no Brasil, a praia aqui não prima exatamente pela qualidade intelectual das conversas -- até porque vagabundo australiano não é de muito conversar. Mas outro dia, bisbilhotando o papo alheio (eavesdropping, tem um nome pra isso em inglês), flagrei um daqueles momentos em que acende uma lâmpada sobre a cabeça do sujeito. A menina se queixava que tirava muitas fotos mas dedicava pouco trabalho em organizá-las, porque tinha que renomear os arquivos, e acabava perdendo as referências de exatamente onde cada foto tinha sido tirada. Aí o cara sacou o seguinte, que junto das fotos, o cartão de memória poderia acumular um mini-arquivo de som, gravado diretamente pela máquina, com uma legenda que o fotógrafo diria na hora. Quando fosse descarregar o cartão, já viria tudo pronto: fotos com legendas sonoras.

Claro que os desdobramentos são infinitos: um programa para ler e organizar esses arquivos de fotos com legendas sonoras, combinando som e imagem. Outro com reconhecimento de voz, para transformar as legendas sonoras em texto etc.

Escrito por Rafael | 04:33 AM | Comentários (3)

Sempre eu hei de ser

Desembarquei de volta vestindo a mesma camisa que houvera sido reconhecida por quatro estrangeiros nas semanas anteriores, a camisa do Flamengo, o sagrado manto rubro-negro. O oficial da fronteira, após o protocolar e autoritário "next!" que fazia avançar a fila, soltou uma exclamação:

-- Flamengo!

Dei-lhe os parabéns por ter reconhecido as cores, fato raro na Austrália, mesmo entre gente que lida com estrangeiros o dia todo, como ele, que imediatamente entendeu ser exceção. Evidentemente que a partir daí já havia se estabelecido entre nós aquele tipo de intimidade que cria amizades de berçário num país como o Brasil. O efeito se conhece: tornar protocolares todas essas invenções humanas que, no final das contas, só são isso mesmo, protocolos. Como as perguntas da imigração e os carimbos em passaporte. Nunca vi abridor de portas mais eficiente.

Imagino o que teria acontecido se fosse a camisa do Vasco. Provavelmente teriam mandado para a fila da quarentena. Se reconhecessem o emblema cruzmaltino, é claro.

Escrito por Rafael | 04:24 AM | Comentários (1)

Relatividades

Se o Brasil foi mesmo descoberto dois meses depois do carnaval, o brasileiro que se enche de orgulho para proclamar dono da maior festa do mundo deveria lembrar que existe um bilhão de chineses que nunca comemoraram carnaval. Pior: esse ano, por coincidência, o ano novo chinês -- ano do porco, logo do porco! -- caiu exatamente junto com o carnaval, dia 19 de fevereiro: ou seja, do outro lado do mundo, um monte de gente pulava e dançava e estourava fogos. Mas por um motivo absolutamente distinto do carnaval.

Outra coincidência que descobri: esse blogue faz aniversário junto com a independência da Indonésia. Lonely Planet também é cultura.

Escrito por Rafael | 04:13 AM | Comentários (1)

fevereiro 01, 2007

Definitivo

Pesquei isso nos arquivos dum diário que nem existe mais:

O spam hoje convida para o Seminário Responsabilidade Social na Propaganda. Leia-se: dois minutos de papo e uma farta distribuição de destilados.
Sugiro outros: Código de Ética na Polícia Militar do Rio de Janeiro. Qualidade Literária e Importância Cultural de Blogs.

Escrito por Rafael | 10:13 PM | Comentários (0)

Temporada aberta

Enfim inauguro em grande estilo a temporada 2007 dos cinemas ao ar livre de Perth: assisti O Labirinto do Fauno no sempre agradável Luna Outdoor e mais uma vez fui surpreendido pelo frio por causa do vento que vem do rio no Burswood ao ver Flags of our Fathers. Dois filmaços tendo a guerra por motivo, mas transcendendo-a no tema: O Labirinto do Fauno traça um contraponto entre real e imaginário, autoridade e independência, enquanto Flags of our Fathers estuda o mecanismo da criação dos mitos & símbolos e o quanto se varre para baixo do tapete nessa carpintaria. Curioso como os temas se aproximam e como isso que o Daniel Galera escreveu sobre o primeiro pode ser aplicado ao segundo:

Mas suspeito que apenas alguns sairão abalados pelo golpe final, uma declaração quase insuportável de que a realidade e a imaginação estão divididas por um abismo instransponível e já não podem ajudar uma à outra nos dias de hoje; de que só resta, à imaginação fantasiosa, a nobre função de fuga dos horrores da vida real; de que uma e outra não podem mais andar de mãos dadas.

Mais curioso ainda que tenha sido a guerra a suscitar essa compreensão nos dois casos.

Escrito por Rafael | 09:59 PM | Comentários (0)