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março 30, 2007
Na seca
A propósito: Sheila = mulher, em australianês.
Escrito por Rafael | 03:22 AM | Comentários (0)
março 27, 2007
O que é paio?
Correu de boca em boca no último mês: um restaurante brasileiro abrira as portas na cidade. Na verdade, apenas uma barraca no mercadinho de Subiaco, uma das tantas entre lojas de kebab (sanduíche grego, aliás turco) e comida chinesa. Diziam que o bobó e a feijoada eram encantadores.
Fui lá domingo passado. Era tudo verdade. Fila de paulistas estranhamente tranquilos apesar do ritmo de atendimento das baianas: -- naquela velocidade, tinham que ser baianas -- no tempo em que elas serviam um prato, os turcos do lado preparavam seis kebabs e os chineses serviam dez macarrões. Agora pergunte qual barraca tinha mais público.
Vai ser mais fácil aquelas duas baianas sozinhas reduzirem o ritmo da Western Australia inteira do que se apressarem por causa da concorrência...
Escrito por Rafael | 06:09 AM | Comentários (3)
março 26, 2007
Acerca de ecologia
Agora é aquecimento global. Você sabe que o assunto está na moda quando ele vira mote de piadas de mesa de bar. Al Gore abre seu PowerPoint e todo mundo começa a repensar seu estilo de vida. Todo mundo indo de bicileta pro trabalho, todo mundo comendo menos carne vermelha, todo mundo morando em casas inteligentes, que lidam com calor, frio e luminosidade de sorte a reduzirem o consumo de energia. Só assim rola de reduzir a emissão de carbono e a elevação da temperatura da terra.
Mas será que é só isso mesmo? Fácil, ou melhor, complicado assim? Não é de se estranhar quando pinta uma solução decisiva para a humanidade? A questão aqui não é assumir uma posição individualista, na qual primeiro agarra-se irracionalmente aos direitos pessoais para, em seguida, buscar justificativas a cada um deles. É se perguntar se não tem algo além da superfície da discussão.
Por exemplo: Al Gore viaja o mundo fazendo palestras para combater o excesso de emissões de carbono. Sabe-se que os aviões são uma das principais fontes de emissão. Não seria mais ecológico ele ficar em casa, distribuindo o conteúdo dessas aulas, digamos, pela internet? Alguém já fez as contas, na ponta do lápis, para ver se o gasto com viagens de Al Gore já foi compensado pela economia de carbono das pessoas que ele educou?
Sim, a dificuldade em estabelecer esses números é o primeiro impecilho na busca das soluções e, em última análise, da verdade. Daqui a pouco alguém descobre que, a exemplo da campanha do Bono, gastou-se mais com propaganda do que o que se arrecadou em doações...
O que me incomoda, pessoalmente, é que certos tipo de mudança de atitude já estão assumindo papel de panacéia, de correção no caminho de um mundo mais limpo. Cita-se a prática de esportes como exemplo de integração saudável com a natureza, sobretudo em ambiente urbano. Mas o que eu vejo na minha cidade, vá lá que seja quase totalmente orientada para carros, é o seguinte: o pessoal taca vela e prancha no quatro por quatro, dirige meia hora até o cais na beira do rio quando, aí sim, vai velejar suas ondinhas. Depois de umas horas no mar, recolhe a tralha toda, e mais gasolina queimada para voltar pra casa. Compute-se o gasto de combustível do processo, leve-se em conta se a vela e a prancha foram fabricados em processos poluentes, e a impressão que fica é a de que o nerd que foi ao cinema da esquina tava curtindo uma atividade mais ecológica.
Ser ecologicamente correto é caro. Os processos limpos ou recicláveis aindam apanham para competir de igual para igual com os despreocupados com resíduos. Isso sem contar outros fatores, como mão-de-obra, que interferem no custo final. Você compraria hortifrutis orgânicos se soubesse que são plantados por semi-escravos? O que é mais importante, preservar a terra ou os seres humanos que nela trabalham?
Parte do motivo dessa discussão nunca aflorar completamente deve-se á invenção do chamado estilo de vida, aquilo que se supõe que você não a partir do modo como você vive, mas a partir do que você consome. Mais um exemplo: acampar ainda recebe o estigma de atividade de amante da natureza, mas quando se entra numa loja de suprimentos moderna, com sua enorme variedade de barracas, sacos de dormir sintéticos, toldos, isolantes, cadeiras dobráveis, fogareiros, lanternas, é de se perguntar se algum conforto foi perdido no meio do processo. Não vou entrar no mérito aqui de que mais de metade daquela tralha veio da China, onde nem os métodos de fabricação nem as relações de trabalho são das mais exemplares. Entretanto, continua imaculada a imagem de uma vida mais natural, selvagem, integrada com a natureza. Quem acampa continua com a imagem de ser mais integrado com a natureza.
Não seria melhor parar de comprar esses bagulhos da China, contribuindo assim para a redução das más práticas industriais? A questão toda é que o sistema produtivo não pode parar, e pior do que isso, aparentemente não pode reduzir o ritmo, então a idéia de democratizar o acesso passa a ser difundida como solução universal. Normalmente, quando alguém defende a tese de que a qualidade de vida evoluiu, é na base de termos que mostram como o acesso a vacinas, bens de consumo domésticos e informação aumentou, mas raramente alguém lembra de apontar as consequências dessa democratização, a pior delas a inviabilização da vida humana em cidades grandes.
Até mesmo uma coisa tida quase universalmente como boa, a reciclagem de vidro, entra na roda. Outro dia comentei que, apesar de separarem papel, não havia separação de vidro no lixo do meu prédio. Um amigo escreveu explicando que nem todas as cidades tem sua unidade de processamento de vidro, e se a distância for grande, gasta-se mais com o transporte do que o mero descarte. Contou ainda que universidades na Califórnia estavam fazendo um projeto para calcular o custo energético e ambiental das políticas ambientais como reciclagem, colocar catalizador em veíulos, etc. haja vista que existia a suspeita de que muitas destas políticas onerariam mais o meio ambiente do que se absolutamente nada fosse feito. Por que esse cálculo nunca tinha sido feito antes? Porque as decisões ambientais foram todas tomadas por impulso ativistas...
A idéia aqui não é travar qualquer chance de ação ecológica, mas lembrar que se deve calcular muito bem os custos de cada decisão. Fundamental apenas é manter em mente que o primeiro passo do triângulo da reciclagem é REDUZIR, ou seja, racionalizar o uso e consumo de recursos naturais -- e isso se faz eficientemente com pequenas mudanças no dia a dia. Escolhi morar à distância do escritório percorrível à pé não para gastar menos gasolina, mas para escapar de qualquer chance de engarrafamentos. Outro dia chegou a conta de energia dos meses do verão e notei que não foi mais cara do que a média, apesar do uso do ar condicionado quando preciso, porque aprendi a deixar a casa mais fresca jogando com janelas e cortinas... Reusar sacos plásticos em supermercado, optar por porções maiores (cujas embalagens geram menos lixo) quando o produto não é perecível, deixar acumular roupas (ou utensílios de cozinha) para lavagem na máquina a plena carga, tudo isso economiza energia e recursos naturais sem incorrer numa mudança significativa do famigerado estilo de vida, sem perda de conforto. Não é preciso acreditar em tudo que o ativismo propaga, mas é preciso fazer a sua parte.
Escrito por Rafael | 06:17 AM | Comentários (4)
Por aqui
Se o Perth Feast não decepcionou, também não empolgou com sua extravagância em variedades de azeite de oliva extra-virgem. O extremo calor e o esgotamento precoce dos pães de New Norcia, uma cidade fundada por monges beneditinos espanhóis há 250km daqui, contribuíram para tirar a graça da feira. De lá rumamos para Mandurah, uma hora de carro ao sul, onde era dia do Crab Festival. Época de carangueijos nas margens do rio, gente de galochas e puçá indo catar os seus -- nada que impressione quem tenha prestado atenção aos manguezais do capibaribe e Beberibe, no Recife. O que impressiona é ter contato com aquele rico ecossistema às margens de uma cidade ainda pequena, ainda comportando toda essa riqueza animal em seu meio. Faz sonhar em como era o Rio da década de 1960, quando se encontravam lagostas entre as pedras do Arpoador. Na sexta-feira fui ver Henry V no New Fortune Theatre, segunda a descrição o único teatro elizabetano no hemisfério sul. Um pouco forçado chamar aquilo de teatro: trata-se de uma boa adaptação arquietônica das arcadas internas da faculdade, com boa acústica, onde mais uma vez fui surpreendido pelo frio vento noturno que vem do rio Swan e entendi porque a recomendação traga algo quente para a noite é tão comum entre climas temperados. Ao menos não incomoda os pavões do campus da UWA, não obstante o vôo que levantaram para trocar de lugar, ficaram quietos e prestaram bastante atenção ao Shakespeare.
Semana que vem tem West Coast Blues and Roots Festival e os ingressos de domingo terem acabado tão rápido é só uma amostra da dificuldade do público local ter contato com atrações internacionais como Bo Didley ou Ben Harper, que esteve aqui ano passado. Vou prestigiar o similar local, John Butler Trio e Wolfmother, no sábado, com direito a testemunhar a sobrevida de mais uma dessas lendas do rock que você acha que morreu, mas que na verdade vem dar show em Perth depois de morrer: Eric Burdon and The Animals. Além disso ainda tem Feira Medieval, Festival do Cinema Francês, os últimos dias da temporada dos cinemas ao ar livre...
Escrito por Rafael | 12:41 AM | Comentários (1)
março 22, 2007
Diogo Mainardi versus Hanna Barbera
(um texto quase atípico do colunista: Cachorros de Gravata)
Cada um escolhe seu próprio inimigo. O meu morreu no mês passado, aos 95 anos. Era Joseph Barbera, um dos fundadores dos estúdios Hanna-Barbera. No começo de janeiro, morreu também um de seus principais colaboradores, Iwao Takamoto, criador do Scooby-Doo. Estou com sorte. Livrei-me de dois inimigos em menos de um mês.
Atribuo grande parte do meu fracasso pessoal aos desenhos animados de Hanna-Barbera. O fato de ter assistido a todos os episódios dos Herculóides, da Tartaruga Touché e dos Flintstones comprometeu meu futuro. O dano causado por horas e horas de Space Ghost, de Wally Gator e de Jonny Quest foi definitivo. Muitas de minhas falhas intelectuais e de personalidade podem ser imputadas a eles. De nada adiantou ler Montaigne mais tarde. No deserto mental provocado por Frankenstein Júnior, pelos Irmãos Rocha e pela Formiga Atômica, Montaigne simplesmente não frutifica.
Até a década de 1960, um episódio de Tom e Jerry ou de Pernalonga era feito com algo entre 25.000 e 40.000 desenhos. Joseph Barbera e seu sócio bolaram um jeito de produzir suas séries com menos de 2.000, abatendo seus custos. A técnica recebeu o nome de "animação limitada". Os personagens permaneciam estáticos. A única parte de seu corpo que se movia era a cabeça, que pulava compulsivamente da direita para a esquerda, ora com a boca fechada, ora com a boca aberta. Para facilitar o corte, todas as figuras tinham o pescoço encoberto por um colarinho ou por uma gravata. Nos desenhos da Hanna-Barbera, sempre há um cachorro de gravata, um super-herói de gravata, um dinossauro de gravata.
As paisagens sofreram o mesmo tratamento reducionista. Os personagens dos desenhos de Hanna-Barbera habitam um mundo claustrofobicamente circular. De dois em dois segundos eles passam pela mesma pedra, pelo mesmo veículo espacial, pelo mesmo homenzinho careca e bigodudo de terno azul. A angústia de pertencer a um universo que se repete continuamente só é superada pelo fato de que ninguém se dá conta disso. Maguila, Simbad Júnior e os Brasinhas do Espaço parecem desprovidos de memória. As tramas também se repetem de uma série para a outra. Muda apenas o mote de cada personagem, a sua frase característica, como "Saída pela esquerda", "Shazam!" ou "Oh, querida Clementina", recitada por um mau dublador.
Joseph Barbera e Iwao Takamoto empobreceram minha vida. Assim como empobreceram a vida de todos os meus contemporâneos. Há fases em que a humanidade melhora e há fases em que ela piora. Nada representa com tanta clareza o barateamento intelectual do nosso tempo quanto os desenhos animados de Hanna-Barbera. Cada quadro economizado por eles significou para nós uma idéia a menos, um pensamento a menos, uma sinapse a menos. Os pioneiros de Hanna-Barbera acabam de morrer, mas nossa época está irremediavelmente perdida. O único consolo é que esquecemos a miséria em que vivemos de dois em dois segundos.
Escrito por Rafael | 10:27 PM | Comentários (2)
A.J. Liebling dos pobres
Um ceguinho na porta de uma igreja do Nordeste faz melhor jornalismo investigativo que a maior parte de nossa imprensa. -- Zé Rodrix
Escrito por Rafael | 08:40 PM | Comentários (0)
março 21, 2007
O bom velhinho
Ziraldo completa 75 anos e é o homenageado do Salão Carioca de Humor.

A matéria da Veja-RJ não foge da manjada temática está-velho-mas-produtivo, que só mostra o quanto nos tornamos obsessivos com produtividade. Melhor seria fazer um balanço rápido da carreira, mostrando o quanto influenciou o imaginário visual de gerações, destacando o ponto de inflexão que seu estilo passou no final da década de 1960, modernizado de forma salvadora. Melhor ainda seria adicionar um tempero picante questionando um pouco toda essa produtividade, lembrando que a imensa maioria do que sai assinado por ele, hoje é feito na real pelos seus estúdios, e seria de se perguntar o quanto ainda há de autoral nas idéias, ou ainda especular sobre suas idéias exóticas, como as soluções para o problema da educação no Brasil ou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras. Melhor mesmo seria se a reportagem não se propusesse a somente lustrar mais um mito e expusesse, mesmo que de passagem, posições políticas muito duvidosas, só para citar três: seu apoio a José Dirceu na época do processo que o retirou da Câmara, sua declaração de voto para Lula em 2006 porque "o outro partido era entreguista" e sobretudo seu papel em fazer a caveira de Wilson Simonal nos tempos do Pasquim, do que não se arrependeu até hoje.

Mas isso seria impossível: Ziraldo hoje é daqueles intocáveis, uma das pessoas maravilhosas, que nunca erram e nunca tem que responder por suas posições pessoais por conta de uma trajetória de vida, respeitem meus cabelos brancos. Sua capacidade gráfica em inovar e reinventar é tão grande quanto seu reacionarismo político, em eternamente perpetrar os dogmas e defender os mitos.


Escrito por Rafael | 04:36 AM | Comentários (3)
março 18, 2007
Aqui jaz SoBReCarGa
Chato saber do encerramento do SoBReCarGa. De certa maneira, sou culpado por ter parado de colaborar por lá a partir do final do ano passado. De certa maneira, a culpa é do próprio modelo da página, que tentou sobreviver apenas disso, de colaborações espontâneas. E esperando que todo mundo continuaria escrevendo, com regularidade e qualidade. Não iria, a partir de um tempo fica óbvio que os redatores vão procurar outras possibilidades.
Também não pode ser atribuído ao meu pé-frio o fechamento do portal, já que o Digestivo Cultural e o Paralelos existem até hoje. Mas tenho pouco a ver com eles, e o que valeu para o SoBReCarGa também vale para eles.
Escrito por Rafael | 10:48 PM | Comentários (2)
Alice é que era mulher
Não gostei do primeiro número e continuo não gostando da revista Piauí, que leio pela internet. Acho que a melhor parte é exatamente a que recebe menos espaço, as pequenas reportagens da seção Esquina. Mas tem alguns méritos, como abrir espaço para quadrinhos em meio a uma publicação pretensamente séria (Angeli, Laerte, Gotlib e uma capa do Art Spiegelman; agora podiam procurar nomes menos óbvios) e um concurso literário que convida os leitores a bolarem um conto onde uma frase sem sentido fique bem encaixada. Para começar, a frase escolhida foi "Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano". Talvez eu só tenha feito essa nota porque simplesmente adorei o primeiro resultado, a ponto de copiar o conto todo pra cá. Claudio Parreira, é contigo:
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Os presentes de Alice
Alice. Mulherão essa Alice. E vivia querendo coisas:
- Compra um apartamento pra mim, bem?
Eu comprava. Porque ela, sorrindo, isso não tinha preço.
Alice era dada a excentricidades. Poucas, mas ainda assim:
- Compra a lua pra mim, bem?
Eu comprava. E colocava um punhado de estrelas no papel de presente. Vez ou outra ela emburrava. Não de ficar burra, que ela nunca foi assim, mas emburrar de entristecer, vocês me entendem. Eu fazia caretas, alugava elefantes, tudo pra ela melhorar. Mas ela só melhorava daquele jeito:
- Compra o charme da Gisele Bündchen pra mim?
Eu comprava. Um exagero, concordo, Alice era charmosa o suficiente, mas fazer o quê?
* * *
Alice também era uma mulher de muito bom gosto. Sabia apreciar as coisas boas da vida, as belas coisas:
- Compra um Picasso, um Van Gogh e um Warhol pra mim, bem?
Eclética, como vocês puderam perceber. E eu, é claro, comprava.
* * *
Um dia Alice foi ao cinema e viu uma sereia no filme. Voltou da sessão radiante. E pediu:
- Eu quero uma sereia, bem!
Parti no dia seguinte numa expedição em busca da tal sereia. Fui encontrá-la 30 dias depois no mar gelado da Finlândia.
Quando entreguei o presente a Alice, ela desatou a chorar. Eu perguntei:
- Não é a sereia que você quer?
- É a sereia que eu queria - ela disse. - Mas agora não quero mais.
- O que é que você quer agora?
Alice enxugou as lágrimas e um sorriso brotou no seu rostinho lindo:
- Agora eu quero uma caravela, bem! Uma caravelinha!
Uma caravelinha. Como as caravelas deixaram de ser fabricadas há muito tempo, mandei fazer. Ficou uma beleza. Mas Alice só desembrulhou o presente. Havia um brilho estranho em seus olhos.
- E agora, o que é que você quer? - eu perguntei. - Pede.
- Eu não quero nada, bem. Não quero nada.
* * *
Mas a quietude durou pouco. Logo Alice estava pedindo de novo. E eu, pronto a atender. Quer dizer, mais ou menos.
- Bem, diz que me ama!
Esquisitice. Bem típico de uma mulher como ela. Não que o seu pedido fosse caro demais, longe disso. Não iria me custar um tostão. Mas eu senti que precisava manter a integridade:
- Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!
- Mitômano?
- É.
Ela me olhou com aquele olhar inteligente que só ela tem. E pediu:
- Me compra um dicionário, bem?
***
Depois disso Alice passou quatro anos deprimida, largadona, engordando no sofá francês do século XIX. Sem pedir nada.
Até que, numa bela manhã de carnaval, ela se levantou, emagreceu e pediu:
- Bem, eu quero amor!
Eu caminhei em direção a ela, dei-lhe um demorado beijo na testa e saí para a rua. Não voltei nunca mais. Seria muito doloroso explicar que tem coisas que o dinheiro não compra.
Escrito por Rafael | 10:35 PM | Comentários (0)
Assim não vai
Bernardão manda avisar a contabilidade final da campanha de Bono Vox para doações aos países de terceiro mundo: 100 milhões investidos em marketing, 18 milhões arrecadados.
Escrito por Rafael | 10:23 PM | Comentários (1)
março 15, 2007
Vinho, azeite e mel
Uêba! Domingo tem Feast Perth, uma feirinha muito da ajeitada no parque de Victoria Gardens onde pode-se provar e comprar produtos naturais de todo o estado. Ano passado eu fui cheio de empolgação, apesar de já sacar que pelo menos metade das barraquinhas seria de produtores de vinho, e acabei meio decepcionado ao ver que, do restante, 90% eram produtores de azeitona ou azeite extra-virgem -- haja salada para dar conta! -- isso fora um mel ocasional ou uma sidra, minha única compra ano passado. Dessa vez devo sair com a sacolinha mais cheia.
Escrito por Rafael | 11:47 PM | Comentários (0)
Viajar não é preciso, viver é preciso
Terminei de ler Once While Travelling, o relato em primeira pessoa da história da Lonely Planet, escrito pelo casal fundador da companhia, Tony e Maureen Wheeler. O livro saiu ano passado e na mesma época a revista Trip publicou uma entrevista com eles, ilustrada com fotos tiradas de lá.

Meu primeiro Lonely Planey comprei em 2000, de lá em diante fui agressivamente fiel à marca, mesmo quando viajava com outras pessoas que traziam outros guias. Já conhecia a série de televisão e as recomendações foram enfáticas. Eu estava me sentindo o próprio Marco Polo quando meti o livrinho debaixo do braço. Menos de 20 páginas da memória de Wheeler mostram o que é viajar, ou ao menos o que eles entendem por viajar.
A história é curiosa e reproduzida na última página, em todos os guias da editora: o casal (ele, inglês, ela, irlandesa) partiu de Londres em viagem para a Austrália, ao longo de um ano durante o qual coletou informações básicas sobre todo o trajeto. Ao se estabelecerem em Melbourne, notaram ser alvos constantes de perguntas sobre a viagem. Decidiram transformar aquele conhecimento num guia básico, Across Asia on Cheap, impresso com uma capa amarela e um logotipo que sobrevive há 30 anos. Hoje em dia, se você entra numa livraria na Austrália e vai até a seção de viagem, vai notar que todos os guias Lonely Planet tem a capa azul, exceto um, amarela: Southeast Asia on a Shoestring. Exatamente a versão atualizada e muito revisada do primeiro livro.

Curiosamente, Once While Travelling não é um livro centrado em viagens, apesar de ser encontrado junto com os outros, nas livrarias. É a história de um sucesso empresarial de uma empresa muito especial. Poderia estar junto com os livros que recontam como surgiram as companhia do Vale do Silício ou de mega-empresas que surgiram nos últimos 30 anos sem fazer vergonha. E ainda assim, há muito chão a se percorrer na leitura. Você fica cansado só de ler por onde Tony e Maureen passaram.
E vou dizer uma coisa, ô disposição para um perrengue. Quem vê a luminosa foto que ilustra a capa, um sorridente e esbelto casal numa praia de Exmouth, não imagina que eles tinham acabado de desembarcar de um iate onde passaram alguns meses trabalhando como tripulação com as conhecidas limitações de comida, bebida e banho que só quem ficou muito tempo no mar sabe (para não falar dos enjôos). E dá-lhe trem caindo aos pedaços no interior da Índia, hotel com pulgas na Malásia, linha aérea cai-cai em Burma, trilha nas montanhas de Kathmandu.
Aliás, e o livro é bom nisso, essa imagem politicamente correta & multicultural é a primeira coisa que cai por terra com a leitura; a empresa pode até vender essa idéia, mas Tony não se furta dar nomes aos bois, da burocracia das alfândegas na Índia (sobra também para a Austrália, onde ele era rigorosamente revistado nos aeroportos a cada volta até a década de 1980) à insegurança na América Latina, segundo ele, onde você deve ir se quiser a garantia de ser enganado, enrolado ou assaltado. Nunca é demais lembrar: Tony Wheeler é britânico e anglo-saxão.
Essa franqueza tem seus méritos; não se furta a responder nenhuma das perguntas que lhe poderiam ter sido feitas ao longo de 30 anos, desde qual é o lugar para onde ele mais gosta de viajar (Nepal e outback australiano, mas a melhor viagem é sempre a última), passando pela tortuosa relação da empresa com o estado de Burma, sua posição sobre as compras pela internet e o fim dos livros (adora marcar passagens e hotéis, mas ainda curte livrarias e nunca compraria roupas por um site; passará a fornecer conteúdo para computadores de mão e GPS se os guias acabarem) até quem são os turistas mais odiados mundo afora. Podem ficar tranquilos, não são os brasileiros. É a turma que, pelas insistentes reclamações em embaixadas, superou a arrogância dos ingleses, a xenofobia dos norte-americanos e a truculência dos ubíquos alemães: israelenses. Brasileiros foram citados em uma única linha nessa disputa. Tony comenta ter ouvido que os italianos seriam terríveis porque abandonam os guias, se perdem e chegam atrasados nos ônibus -- brasileiros seriam ainda pior. Só não é a única citação ao Brasil no livro porque capítulos antes o autor conta que, enlouquecido com a burocracia indiana, resolvera inventar todos os dados de um formulário de hotel e mencionara que seu visto tinha sido emitido no Rio de Janeiro. Aparentemente os Wheeler nunca passaram pelo Brasil; as primeiras edições sobre a América Latina datam de 20 anos atrás. Brasileiros não são exatamente notórios por viajar, não tem cultura de mochileiro, queixam-se de saudades e perdem nesse quesito até para pares na América Latina como chilenos ou argentinos. Uma voltinha pelas agências de turismo em Perth mostra inúmeras promoções para Buenos Aires, mas quase nenhuma para o Rio de Janeiro. Mas nada disso está no livro, é só digressão minha.
O sucesso empresarial se deu em função dos 90% de trabalho duro, mas contou com excelentes jogadas de precisão beneficiadas pela sorte: o primeiro guia sobre o sudeste asiático saiu imediatamente antes do interesse pelas praias tailandesas e indonésias ser despertado, no comecinho da década de 1970; o primeiro sobre a Austrália saiu em meados da década de 1980, quando Mel Gibson e o Crocodilo Dundee popularizaram o país via Hollywood; o primeiro sobre Europa Oriental saiu no final da mesma década, prontinho para pegar o fim da cortina de ferro. Mas não é só isso: Lonely Planet faz partes de empresas como a Nike ou Apple, que conseguiram ligar suas marcas à idéia de um estilo de vida que as discernisse; que emplacaram globalmente por terem sabido como se valer de especificidades globais (mesmo quando essas especificidades são na verdade a exploração de mão-de-obra barata no terceiro mundo. Acusação que Tony refuta, aliás); sobretudo, empresas que souberam explorar os anseios duma geração que não se satisfazia -- cujo hino cantava isso mesmo -- a geração dos baby boomers.
Nessa esteira muita poeira subiu e foi varrida para debaixo do tapete: Tony revela ir dormir com a consciência tranquila por saber que as edições asiáticas não eram feitas explorando seres humanos, ao afirmar que o responsável pela produção dos livros tinha vistoriado as gráficas, mas eu mesmo já cansei de ver documentários na tv australiana mostrando como as visitas desse tipo de fiscal são controladas pelos capatazes -- como eram as visitas turísticas nos antigos países comunistas... Do meio para o final, o assunto deixa de ser as viagens do casal para se transformar no crescimento da companhia, e ao invés de ler sobre paisagens e situações curiosas, lê-se sobre bastidores do mercado editorial; ao invés do perrengue de comidas exóticas, passa a ser o perrengue de estabelecer um negócio -- muito embora até 20 anos atrás os dois se combinassem em diversas situações, já que Tony se hospedava em casas de família ao invés de hotéis quando ia para a feira de Frankfurt. Mas nota-se uma mudança de foco ao ler em um simples parágrafo que ele, na volta, parou por 3 semanas em Singapura, Malásia e Burma para atualizar um guia. Além disso, acompanha-se a evolução da família Lonely Planet, aqui no sentido exato e figurado da palavra: nascimento e criação dos filhos, expansão dos escritórios e negócios.
E para quem sonha em se tornar travel writer, escritor de guias, e como eles gostam de dizer, abandonar a corrida de ratos, tem um capítulo inteiro apropriadamente intitulado Tudo sobre guias que explica direitinho o que é preciso. Então, segundo um dos maiores especialistas em viagem do mundo, lá vai o caminho das pedras. Qualquer nível de estudo serve, mas pessoas com habilidades linguísticas são particularmente apreciadas, além da óbvia necessidade de saber se expressar por escrito. A preferência é por pessoas que já tenham viajado bastante por conta própria e saibam se virar sozinhas. Mas a rotina não é tranquila: um mesmo escritor pode estar no mercado central nas primeiras luzes do dia para conferir o burburinho; molhando os pés numa das praias imediatamente antes de partir para a seguinte a ser conferida, ao meio-dia; sobre um mirante particular no fim da tarde, vendo se o pôr-do-sol dali era espetacular mesmo como tinham dito -- e nas últimas horas da noite, numa boate, que está recebendo sua avaliação. Tirando o fato de que um bom travel writer tem que ser capaz de sacar qual é o melhor restaurante da cidade e a boate mais badalada num átimo. E nada de voltar para o hotel de cara cheia, pois antes de dormir é hora de organizar todas as impressões, folhetos e mapas colecionados ao longo do dia que, no final das contas, irão constar do guia. Repita isso por um punhado de semanas e, se no final você não tiver um caso de estafa, envie seu escritor para outro país, tranque-o num quarto de hotel por alguns dias e voilá, ali estará seu guia. Enfim, ao saber dessa rotina no ônibus do engarrafamento, no final do dia, você até fica com pena dos escritores de guias.
Provavelmente muito por causa da tenacidade de Tony Wheeler, gostei muito do livro, que expôs de maneira tremendamente franca mumunhas históricas. Não esperava um conto de fadas e toda vez que o livro se pretende a explicar algo mais complicado, se enrola e acaba expondo as fraquezas, o que acaba sendo um mérito. Continuarei cliente da editora, mais por conta dos bons serviços prestados do que pelo seu histórico, sem o qual poderia continuar. E nem posso reivindicar assim ser parte do chamado estilo de vida Lonely Planet. Mas é uma empresa que continua rendendo bons frutos, da Blue List a Thorn Three.
Escrito por Rafael | 02:29 AM | Comentários (2)
março 13, 2007
Piada boa é piada ruim
Essa eu ouvi no rádio:
-- How many fans of Bob Dylan are needed to change a light bulb?
-- Well... I don't know. What is the answer?
-- The answer, my friend, is blowing in the wind...
Escrito por Rafael | 05:21 AM | Comentários (0)
O outro JB
Com reformas internas e uma nova safra de livros auto-congratulatórios, ele está esquentando os tamborins para a festa do bicentenário no ano que vem. E merece. É a única herança do príncipe D. João onde ainda sopra, entre as folhas do arboreto, a brisa civilizatória que trouxe para cá a corte portuguesa em 1808.
Sá Correa fala sobre o aniversário do Jardim Botânico, um dos últimos recantos razoavelmente preservados da cidade do Rio de Janeiro. Talvez porque apesar de público fosse pago, talvez por causa da legislação draconiana (proibir piquenique? Tem piquenique em rigorosamente todos os parques de Perth e a cidade não vira uma latrina; mas não é dever do Jardim Botânico educar os frequentadores), talvez por mero filistinismo de moradores que não vêem mais graça em passear entre árvores.
Escrito por Rafael | 05:13 AM | Comentários (1)
março 11, 2007
Dez livros que faziam a cabeça dos nerds
Há uns 15 anos tinha um lugar em Niterói chamado Além da Imaginação, onde eu ia de vez em quando aos sábados para conversar, filar a biblioteca de quadrinhos e jogar. Tinha nerd pra chuchu por lá, e dá para fazer de memória uma lista dos 10 livros de ficção científica & fantasia mais populares entre eles, sem ordem de preferência:
1. O Mochileiro das Galáxias
2. Crônicas de Nárnia
3. Duna
4. O Senhor dos Anéis
5. A Fundação (ou qualquer outro com robôs do Isaac Asimov)
6. 2001 (ou qualquer outro do Arthur Clarke)
7. Elric
8. O Chamado de Chtulhu (ou qualquer coisa que se encontrasse em português do Lovecraft)
9. Crônicas marcianas (ou qualquer outro do Ray Bradbury)
10. Neuromancer
Naqueles dias eu só tinha lido o Chamado de Chtulhu, e de lá para cá não avancei muito: li algum Asimov, desisti no meio do Neuromancer e só gostei mesmo da trilogia em quatro partes do Mochileiro. Continuo uma negação para os títulos de fantasia dos universos de Tolkien, Lewis e Moorcock.
Escrito por Rafael | 11:47 PM | Comentários (3)
Lado mau da Lucia
Outro dia eu li que a Lucia Malla é a pessoa que parece estar o mais próximo da santidade que eu consigo conceber (pelo menos no que tange à sua persona publica). Pode ser. Mas eu sei direitinho um negócio capaz de tirar ela do sério e, como se diz nas chamadas de filmes da sessão da tarde, fazer as maiores loucuras. Promoção de páscoa da Kathamndu! Começa nessa quinta.
Escrito por Rafael | 11:43 PM | Comentários (1)
março 09, 2007
Laerte em longa metragem
Está no ar a hq que Laerte fez para a revista Piauí, Esfinge. Ei, eu só li agora, eu moro longe.
Escrito por Rafael | 04:20 AM | Comentários (2)
março 08, 2007
Dia bom
Dia bom para mim é quando eu descubro que dois blogues os quais eu costumava visitar diariamente voltaram a ser alimentados por seus autores. Não conto quais são de jeito nenhum, para preservá-los, que ambos têm asco aos rinocerontes que se multiplicam nesse mundo e são perigosos o suficiente para serem lidos no trabalho. Mas cito trechos. Primeiro:
A pior coisa que você pode fazer quando está começando alguma empreitada, quando está no processo de criar algo, é imbuí-la de algum propósito elevadíssimo… Isso significa que provavelmente você fará algo chato, ou não terá a liberdade para incorporar elementos novos e inesperados. Perde-se a espontantaniedade, para ganhar o quê? Propósito?Eu sinto hoje que na vida não há propósito além do auto-conhecimento. Então para que criar ilusões? É muito mais leve, e mais simples, fazer o que se gosta, sem necessidade de justificativas mirabolantes. Somos heróis do nosso próprio dia a dia, e para isso não é necessário nenhum propósito revolucionário. Basta um pouco de sinceridade consigo mesmo.
Segundo:
Vivo em um tempo em que as pessoas inteligentes acham que podem ou devem dizer às outras como viver.Dizer o que é melhor para o outro é um pressuposto, um preconceito deste tempo. De onde vem isso? Por que as pessoas aceitam isso?
A hipótese da porta 1 diz que as pessoas se acostumaram a jornais, revistas e talking heads da TV nos dizendo o que é certo e o que é errado.
Os maiores portais da rede brasileira sempre trazer alguma chamada como: entenda, conheça, aprenda, saiba, descubra.
Essa hipótese, no fundo, irá dizer que a sociedade ou o nosso tempo ou qualquer relação acima da individual e da familiar embaçou os limites de nossa visão.
As pessoas já não se enxergariam mais com clareza. Elas se confundiriam com as outras, tomariam as mãos e o tórax das outras pessoas como parte delas mesmas.
E por isso a opinião do outro causa angústia. Por isso uma menina da classe média de Salvador sofre toda vez que um palestino explode ou chora pela morte dos pandas, mas é incapaz de ver o que é feito com ela, contra ela. (A compaixão cedeu à confusão.)
Essa hipótese leva a outros postulados, um mais inacreditável que o outro. (E sempre terá um guru ou minigurus usando dela para suas agendas.)
O que me interessa é apenas isto: sabemos todos que as revistas e os jornais são criados por lemingues. (Esses animais de teta a cada ano escrevem pior, mas a decadência do ensino e decorrente decadência do aprendizado é outro tema.)
No entanto, vão até os blogs escrevendo como se fossem propagandistas do que é certo e errado.
Sabemos ou pelo menos a maioria desconfia que a ciência, as artes e a propaganda são formas de formas de estilizar, ou seja, de simplificar, o pensamento, as questões filosóficas. (Por filosófico quero dizer sempre vital.)
No entanto, ainda se dá atenção à opinião de um físico quântico sobre a vida e sobre a vida prática, ainda se leva a sério “um filme que fala de”, quando esse “fala de” não é um personagem ou uma história, mas um tema, uma questão social.
Escrito por Rafael | 10:56 PM | Comentários (0)
Vagalume redux
Eu também, Polzonoff. Eu também.
Escrito por Rafael | 01:37 AM | Comentários (1)
março 07, 2007
Perth 40 graus
Quarenta graus à sombra pelo terceiro dia consecutivo e a companhia de transportes avisa que haverá atraso nos horários dos trens de passageiros devido ao excesso de aquecimento.
Eu fico pensando em Faça a Coisa Certa, ou no primeiro capítulo do Cavaleiro das Trevas. Mas nenhuma onda de violência explode. Porque devem estar acostumados a esse inferno. Ou, mais provavelmente, porque ontem foi feriado. Nessas horas, a Austrália fica profundamente parecida com o Brasil.
Escrito por Rafael | 03:32 AM | Comentários (0)
março 06, 2007
O país é uma m... mas o povo é genial
Algum dia você ainda vai ouvir essa pergunta. Prepare-se para responder.
-- Why Brazilians are so cool?
Tamos bem na fita. Ao menos, na fita australiana das australianas.
Escrito por Rafael | 03:19 AM | Comentários (2)
Apoteose
Ao contrário do ano passado, quando até espetáculo da trupe do neto do Chaplin eu consegui assistir, uma viagem me fez perder quase todo o filé mignon do Perth International Arts Festival. Quase. A tempo da festa de encerramento na Becks Verandah (o Free Jazz Village daqui) eu cheguei. Compensou as ausências com vantagem.
E o verão ainda nem acabou, hoho.
Escrito por Rafael | 03:12 AM | Comentários (0)
março 01, 2007
Munro, de Jules Feiffer
Jules Feiffer foi daqueles cartunistas de quem gostei desde o primeiro traço; não me lembro de nada que tenha lido dele que considerasse menos do que ótimo. Perde-se no tempo quando li, emprestado, uma edição de bolso encardida e amarelada contendo histórias longas; depois descobri que a Fantagraphics dedicou-lhe uma coleção. Só muito tempo depois é que vim a saber que Munro fora transformada em desenho animado, aliás vencedor do Oscar em 1960. É claro que uma busca rápida no YouTube deixou essa preciosidade a um clique de distância, mas antes, algumas curiosidades.
Munro foi desenhada em meados da década de 1950, exatamente na mesma época em que o Recruta Zero abandonou a vida civil e entrou para o exército -- para quem não sabe, Zero começou como comédia de costumes escolares, e só depois evoluiu para sátira militar. Tal como Feiffer, ta motivação para a tira fora a péssima experiência de Mort Walker na caserna; a diferença era que, enquanto Walker valia-se de tipos humorísticos para ridicularizar o quartel de forma sistemática, Feiffer concentrou-se na hierarquia, na burocracia e na desumanização do serviço militar em sua história, usando a ótica infantil para revelar seu absurdo.
A animação foi feita na República Tcheca por um norte-americano chamado Gene Deitch e toma emrpestado não só do traço, mas a tipografia e as onomatopéias típicas de Jules Feiffer, ora convertidas em efeitos sonoros.
Unbutton me, mister é a cena de maior ternura que li numa história em quadrinhos.
Recentemente a Fantagraphics reuniu essa e várias outras histórias longas de Feiffer num álbum, cujo título vem de uma das mais famosas, Passionella, que já foi transformada em curta-metragem no Brasil pela Carla Camurati. Desconfio que tomou contato com a história na época em que namorava o cartunista Angeli. Não procurei por ela no YouTube.

Escrito por Rafael | 09:35 PM | Comentários (0)
Paulo Francis vai pro céu
Dez anos sem Paulo Francis: me convidaram para escrever, mas declinei. Não faria sentido. Quem tinha que se ocupar disso, seus auto-proclamados seguidores e herdeiros, que o fizessem. Como fizeram, de fato. Aqui e ali, pôde-se encontrar uma história dos bons tempos do jornalismo, um levantamento completo da obra ou um simples apanhado de lembranças de convívio diário -- onde, de quebra, descobre-se a origem de uma frase famosa, atribuída igualmente a Francis e Jaguar, e agora reivindicada por Ivan Lessa. Assim nascem os mitos.
Reli o que tinha escrito espontaneamente no aniversário de 5 anos de morte e surpreendi-me agradavelmente. Concordo com a maioria do que escrevi, talvez porque à época do texto eu já tivesse lido todos os seus livros importantes. Porque o Diário da Corte nunca me atraiu. Achava o texto truncado, excessivo, chato. Meu primo lia. E não tenho nem a desculpa de que era muito jovem ou não gostava de ler jornal, porque na mesma época comprava semanalmente O Dia para ler o Millôr e não perdia as páginas do Ivan Lessa no curtíssimo período em que foi articulista do JotaBê. Só encontrei trégua anos depois, quando li coletâneas de artigos das décadas de 1960 e 1970, e nada disso tinha a ver com sua mudança de opinião política: eram artigos mais longos, fluentes, trabalhados.
Ainda lembro com clareza do dia em que descobri que o Paulo Francis, aquele comentarista internacional chato, escrevera no Pasquim: surpresa genuína. Fui até contar pra alguém. Porque aquela era (e muito dificilmente será mudada) a imagem que eu tinha de Paulo Francis: um velhote com óculos de fundo de garrafa, mandando notícias de Nova Iorque. Um ator que parecia se divertir muito mais do que qualquer espectador com aquele personagem. Qualquer tentativa de levar à sério qualquer texto escrito escrito por aquele bufão me parece excessiva. A postura empertigada e a entonação entre o arrogante e o enrolado eram os melhores comentários sobre o que quer que ele estivesse falando, por menor que fosse. Não espanta o mesmo espaço tenha sido ocupado sem a mesma ressonância por Chico Anísio, Jô Soares e Arnaldo Jabor.
(Aliás Chico Anísio durante certo tempo fazia caricaturas inspiradas em dois repórters internacionais, Túlio Bocanegra e Paulo Brasilis. O primeiro durou bastante como personagem, mas o segundo é quem protagoniza a melhor piada interna do cinema brasileiro de todos os tempos. Naquele filme que o Henfil fez, cujo humor é todo Monthy Python, lá pelas tantas a cena pára com todos prestando atenção à tv, que chama: e agora, de Nova Iorque, nosso comentarista internacional Paulo Francis. E quem aparece no vídeo é o Paulo Brasilis de Chico Anísio. A piada melhora na medida em que se descobre Fausto Wolff entre os atores.)
A conclusão não é para causar estupor, nem provocar inimigos fáceis; é a mera expressão de sentimento: sinto mais falta do Chico Science (matéria de 8 páginas no Jornal do Comércio pernambucano).

E já que estamos no assunto: quem se lembra que também faz 10 anos da morte de Darcy Ribeiro?
Escrito por Rafael | 01:21 AM | Comentários (0)