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abril 23, 2007
Vou ali e já volto...
...conhecer a mitológica cidade grande australiana. Vamos ver se tem diferença mesmo ou se lá eles também andam descalços no shopping e usam oculão escuro, ahrrright mait?
Escrito por Rafael | 03:55 AM | Comentários (0)
Melhor legenda do ano
Recebi por email:

Nesta bela manha de sexta-feira, na cidadezinha de Phnom Penh no Cambodja, um grupo de Budistas saem no tapa (foto acima)...Eu estou decepcionado com estes Budistas...Eu esperava que com o seus poderes de levitaçã estaríamos assistindo a uma briga com saltos incríveis no ar e acrobacias aréas espetaculares...e não esta briga de tapas de moleque de rua...
Escrito por Rafael | 03:51 AM | Comentários (2)
abril 19, 2007
Uivo, apud Alexandre Soares Silva
Eu vi as melhores mentes da minha geração destruidas por
Cheetos, famintas histéricas nuas,
se arrastando pelas ruas de Moema de madrugada
procurando um lanchinho zangado,
blogueiros com cabeças de anjo ardendo pela velha e celestial
conexão estrelada a cabo na maquinaria da noite,
que todos desleixados e de olhos vazios sentavam
fumando na escuridão sobrenatural de
apartamentos sem água quente flutuando sobre cidades
contemplando My Humps do Black Eyed Peas no YouTube com um misto de desdém
e apreciação irônica pós-moderna e tal,
que desnudavam seus cérebros para o Céu e
viam anjos liberais da escola austríaca cambaleando em
telhados iluminados,
que passavam por universidades com olhos radiantes e uma jingadinha
alucinando Mato Grosso e tragédia no bandejão
entre os estudiosos da guerra de comida,
que foram expulsos de academias por postarem fotos de Bush com bigodinho de Hitler
e escreverem "cadmia" nas janelas do
crânio (e "né genteum"),
que se esconderam em quartos mal-barbeados de cueca, quei-
mando dinheiro em cestas de lixo e ouvindo
o Terror do Orkut através da parede,
que foram presos pela polícia em suas barbas públicas voltando de
Aparecida com um cinto de marijuana e talvez, quiçá, paçoca,
que beberam fogo em hotéis de tinta ou talvez só mojitos mesmo,
cada vez que Jack Bauer dizia "Dammit!" lá ia um mojito,
morte, ou transformaram seus torsos num
Purgatório noite após noite
com sonhos, com drogas, com posts falando mal do Che Guevara
(Che Gueivara), álcool e pingulim e bolas intermináveis que iam
bater lá no chão, vixe,
nem me fale;
ruas de nuvens tremelicantes,
porres de vinho em telhados,
que se acorrentaram ao metrô para a interminável
ida da Sé à Barra Funda sob o efeito de vic vaporub
até que o barulho das rodas e das crianças os derrubassem
tremendo e deixando comentários sarcásticos no post de um
velhinho ateu, o cérebro todo esvaziado de inteligência
e errando na concordância sob a luz horrenda do zoológico,
que afundavam a noite inteira na luz submarina do O'Malley's
ou sentavam na frente da cerveja morna do Lone Star desolado,
que falavam continuamente setenta horas do parque ao bar
à Livraria Cultura ao Cineclube Unibanco à padaria gay,
batalhão perdido de conversadores platônicos saltando
pelas janelas da PUC até a lua,
falando gritando vomitando sussurrando fatos
e memórias e anedotas sobre Milton Friedman,
G.K.Chesterton, superduper,
intelectos inteiros stumblando imagens aleatórias de garotas indies
um pouco magras demais e tatuadas
e tiras de Calvin por sete dias e noites com olhos brilhando,
fazendo piada com o Henry Sobel caído na calçada na saída da Bella Paulista,
que andavam de lá pra cá na rodoviária pensando se deviam comprar
a Playboy com uma mulher troncha na capa por volta da meia-noite,
e entravam no ônibus para o Rio, não tendo partido coração algum,
que acendiam cigarros na parada de Itatiaia Itatiaia Itatiaia sacolejando
no asfalto em direção à noite cheia de idéias para posts,
idéias de idéias para posts, nunca usadas,
que estudavam Plotino Eric Voegelin Radamanto e telep
atia e Cardeal Newman porque o cosmos in-
stintivamente vibrava sob seus pés em Ribeirão Preto,
que só se achavam malucos quando o Guaíba
brilhava em êxtase sobrenatural e, vá lá,
um pouco gay,
que vagabundeavam famintos e tristes por Itanhaém
à procura de Paulo Salles ou sexo ou sopa de cebola,
que desapareceram nos vulcões de Araraquara sem deixar
nada pra trás a não ser a sombra de seus IPs,
e a lava e a cinza de todos os seus posts
reunidos num livro mostarda, num único livro mostarda,
queimado para sempre no incêndio
de Chicago.
Provavelmente eu gostei tanto por conhecer 76.53% das referências usadas, e se você não as entendeu, não é porque está por fora. É porque simplesmente não importam. Mas tem outro motivo para eu ter copiado esse pastiche aqui. Há alguns anos uma amiga me contou ter lido um poema de um dos autores da nova geração que ela tinha gostado muito, disse o nome do poema e só. Fui procurar e fiquei embasbacado, porque era uma pobre cópia imatura do Allen Ginsberg, sem a mesma pungência e desespero. Hoje esse mesmo cara já ficou famoso e até teve o nome envolvido num desses ambiciosos projetos culturais cujo grande resultado em geral é o apartamento novo do produtor. Até deve ter ganho mais dinheiro do que o Alexandre. Mas ainda não é capaz de fazer um pastiche assim, com as referências corretas nos lugares certos. Ainda bem que existe São Paulo no Brasil.
Escrito por Rafael | 11:19 PM | Comentários (5)
De cabeça para baixo
Uns amigos tinham cupom de desconto, então ontem foi noite de se pendurar no The Hangout, o maior centro de escaladas entre quatro paredes da cidade. Fazia mais de 5 anos que eu não escalava, e a última vez foi a pedra da Gávea. Eu sempre torcia o nariz quando via aquele povo trepando em apoios estrategicamente aparafusados em tábuas de madeira, mas é um exercício até pesado: meu ombro esquerdo que o diga. Também curti manobrar aquelas cordinhas, mão na roda na hora de descer e até fazer o contrapeso pro teu companheiro é divertido (escalada é como mergulho, esporte que se pratica a dois). Jantei kebab, tomei banho e fui dormir. Sonhei que estava sendo realizado um triatlom e tinham fechado a orla do Rio para o trecho da corrida. Quem estava na frente, mantendo um bom ritmo era o Millôr Fernandes, velhinho mas mandando brasa, bem na frente dos outros corredores. Tinha muita gente na platéia apoiando, mas alguma coisa me impedia de torcer porque eu sabia que ele tinha trapaceado. Mas não podia revelar porque não sabia bem como. Acordei sem descobrir, e sem lembrar o resto do sonho. Nunca mais como kebab vegetariano depois de escalar.
Escrito por Rafael | 03:27 AM | Comentários (2)
abril 17, 2007
Melhor diálogo
-- O que as australianas comem quando criança para ficarem altas desse jeito?
-- Vegemite.
(É preciso conhecer um mínimo de cultura australiana para entender a graça.)
Escrito por Rafael | 11:53 PM | Comentários (4)
Reeditando tiras
Matéria no NY Times sobre a coleção e reimpressão de tiras de jornal em coletâneas de luxo. O que nunca deixou de ser uma alternativa editorial (a extinta Kitchen Sink Press e a Fantagraphics sempre investiram nesse filão) parece estar se tornando uma onda atualmente, com as republicações em ordem cronológica e edição primorosa das tiras de Dick Tracy, Peanuts (a turma do Charlie Brown), Popeye, The Spirit e Gasoline Alley enquanto já foram alvo de cuidadosas coleções Ferdinando Buscapé, Príncipe Valente, Flash Gordon e Brucutu, entre outros. A novidade é que, além da ordenação cronológica, os álbuns ganharam prefácios e tratamento gráfico superior, com direito a capa dura e rica impressão, enquanto as tiras passaram por um trabalho de restauração após serem digitalizadas, o computador estando para elas como os pincéis e cotonetes para os quadros renascentistas restaurados.
O que mais impressiona, quando se tem um álbum desses nas mãos? O resgate da memória, o cuidado em reapresentar a arte tal como ela originalmente deve ter sido publicada? O interesse e a reverência pelo passado demonstrados pelos designers que bolam a identidade visual das coleções? Nada disso. O que mais devia impressionar é o fato dessas coleções terem sido reunidas por fãs ao longo de décadas, fãs que pelo próprio interesse se propuseram a reunir todo o material e por interesse comercial acreditaram que transformá-lo num produto poderia dar retorno dos consumidores. No Brasil, como isso é feito? Antes de mais nada, uma trabalheira infernal para recuperar os arquivos, já que poucas são as bibliotecas que têm coleções completas de jornal; depois, em geral uma grita dos diabos por parte de filhos & herdeiros em nome da "preservação da memória nacional" e do "interesse comum" para conseguir o incontornável patrocínio estatal, embolsando o devido lucro, afinal a memória é nacional mas o herdeiro sou eu. Resultado? Conte quantas coletâneas de tiras brasileiras existem: mesmo as que se enquadrariam perfeitamente num projeto assim, como As Mil e Uma Noites (de Paulo Caruso) nunca ganham lombada dura, e mesmo reedições de revistas com apelo de vendas, como o Pif-Paf, só saem à base do leite da Petrobras... Para quem diz gostar tanto assim do "passado", parece bem pouco esforço em preservá-lo (melhor trabalho fazem os fanzineiros que xerocam e editam tudo por conta própria).
Escrito por Rafael | 11:47 PM | Comentários (0)
abril 16, 2007
Curtin e a II Guerra
A matéria principal no suplemento de final de semana do West Australian foi escrita pelo seu principal colunista de opinião, Paul Murry, ocupando a capa daquele caderno: John Curtin, primeiro ministro australiano durante a II Guerra mundial, virou personagem de um especial na rede de televisão ABC a ser exibido na próxima semana, perto do feriado dedicado à força expedicionária Austro-neozelandesa. A matéria faz ao mesmo tempo uma crítica á dramatização e analisa a postura de Curtin durante a guerra.
O que há de curioso nela? Curtin foi, resumindo, o homem que jogou a Austrália no colo militar dos EUA. Quando o bicho começou a pegar na Europa e a Inglaterra declarou guerra à Alemanha, 1939, muito a contragosto e de má vontade o então primeiro ministro australiano (não era Curtin), declarou estar a Austrália também em guerra contra a Alemanha: isso implicaria no envio de tropas para o campo de batalha. Em 1942, com a Inglaterra debaixo de fogo cerrado há anos, os EUA recém-mobilizados após Pearl Harbour e Singapura na mão dos japoneses, qualquer australiano que se prezasse se colocaria na posição de próximo alvo do império de sol nascente. Nesse contexto, Curtin não teve dúvidas: foi pedir ajuda aos EUA, que solicitamente, atenderam.
Isso criou um precedente histórico de aliança militar EUA-Austrália porque, dali pra frente, em praticamente todas as intervenções externas em que os EUA se meteram (vou pegar só os mais famosos para fins de exemplo: Coréia, Vietnã e recentemente Afeganistão e Iraque), pode procurar que lá estava um pelotão australiano. Eu acho graça quando esbarro em brasileiros por aqui que dizem gostar da Austrália mas não dos EUA, quando os mesmos motivos de ódio ao segundo se aplicariam perfeitamente ao primeiro: intervenções militares externas, desrespeito ao meio ambiente, patriotismo ridículo... Seja como for, Curtin ficou pra história como salvador da pátria, por ter impedido que o conflito chegasse em seu território.
Paul Murry afirma que a independência de Curtin deveria servir de exemplo para o atual primeiro ministro, John Howard, criticado pelos australianos por entrar demais no jogo dos EUA. O que Murry entende como "independência" é o fato de Curtin não se furtar em tomar decisões conflitantes com as de Churchill, melhores para a Austrália. Provavelmente Murry não se tocou da ironia em que incorre: há 65 anos, independência para os australianos era correr pro colo dos norte-americanos; hoje, é falar grosso com eles... Sejam brasileiros em intercâmbio cultural (g.a.r.g.a.l.h.a.d.a.s), seja o colunista do principal jornal do estado, as opiniões políticas nunca parecem estar livres dos clichês, o mais fácil deles, o anti-americanismo.
Escrito por Rafael | 11:34 PM | Comentários (1)
Hayley Campbell
Hayley Campbell fez 21 anos e ganhou uma nota especial. Antes que perguntem: não é que eu esteja apaixonado por ela (embora curta morenas de olhos verdes), é que nem todo filho de desenhista têm sua vida esquadrinhada à medida que cresce. Ela teve, e eu acompanhei quase tudo, lendo.
Escrito por Rafael | 06:17 AM | Comentários (0)
abril 12, 2007
Pelo telefone sem fio
Que Pelo Telefone era o primeiro samba, ou melhor, considerado o primeiro samba em vista de sua repercussão após impresso e etiquetado como tal -- apesar de outros gêneros já terem sido rotulados antes de samba sem o sê-lo, e de outros sambas terem sido impressos sem o devido rótulo, e até de outros sambas já terem sido impressos e etiquetados como samba antes, porém, ai porém, sem a mesma repercussão. O que eu não sabia e só fui descobrir lendo As Escolas de Samba do Rio de Janeiro é que a letra que ficou mais conhecida
O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta / Para se jogar
não era a original, cuja primeira estrofe, sem metade da picardia, dizia:
O chefe da folia / Pelo telefone / Manda avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar
A história toda é bem contada por Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello em A História do Samba, reproduzida naquela mina de ouro chamada Cifra Antiga.
Escrito por Rafael | 02:58 AM | Comentários (0)
Mais Eddie
Eddie Campbell não se contenta em lançar gibi novo em junho; mantém um blog e tem uma filha ngaaaaata -- que também tem um blog. Na foto abaixo, pode-se vê-la nos jardins de Luxemburgo ao lado de seu padrinho, um cara que também escreve uns troços aí. Chato, hein?
Escrito por Rafael | 12:58 AM | Comentários (0)
abril 10, 2007
Leon Eliachar redux
Não lembro quando o Julio Daio Borges disse que o Lisandro era o melhor escritor de diálogos de sua geração. O que me incomoda nem é a hipérbole verbal, mas o fato do Julio nunca ter tido uma chance de conversar na real com ele, para ver o que é um bom diálogo. Na falta, ficamos com algo assim:
- Ei, péra lá, eu já fui no Maracanã. Três vezes, mas fui.
- É, mesmo? A que jogos você assistiu?
- Bom, jogo mesmo só um.
- E das outras vezes?
- Bom, eu fui ver a chegada do Papai Noel. Mas isso não vem ao caso.
Isso, evidentemente quando ele não está aprendendo alguma coisa com Lair Ribeiro. Ou bolando a camiseta mania da nova estação. Sim, a Atemática está de volta.
Escrito por Rafael | 11:51 PM | Comentários (2)
12km de poeira e árvores
Sábado de aleluia foi dia de trilha ecológica, e mais uma oportunidade de questionar o que se entende hoje por ecologia. O plano da turma era se encontrar no fim da Gunjin Road, perto da represa de Mundaring, que forneceu água na época da mineração, onde começava a trilha do chamado Little Oven Circuit, uma caminhada de 12 quilômetros -- talvez mais apropriada para se fazer de bicicleta -- cuja paisagem nem era tão empolgante assim, bushwalk e jarrah trees (arrisco traduções sem o menor compromisso: cerrado e jacarandás), pelo menos se comparada com os espetaculares cânions e piscinas naturais de outros recantos. O problema era que nenhum carro de passeio conseguiria transpor a esburacada Gunjin Road, então tiveram que me buscar com um Outlander 4x4 lá no começo. Aí é que a porca torce o rabo: quem é mais ecológico: o cara que ficou em casa vendo televisão ou os amantes da natureza que queimaram gasolina em quarenta quilômetros de estrada, asfaltada ou não, para andar doze quilômetros à pé?
Escrito por Rafael | 11:01 PM | Comentários (0)
Para inglês ler
Uma das coisas bacanas que há em morar em outro país é sentir o quanto seu domínio da língua aumenta. Mas é só você se deparar com um trocadilho intraduzível para não esquecer que é preciso rebolar para ser bilíngue. Os tradutores de plantão estão desafiados a oferecerem boas versões portuguesas para as frases a seguir:
1. The bandage was wound around the wound.
2. The farm was used to produce produce.
3. The dump was so full that it had to refuse more refuse.
4. We must polish the Polish furniture.
5. He could lead if he would get the lead out.
6. The soldier decided to desert his dessert in the desert.
7. Since there is no time like the present, he thought it was time to present the present.
8. A bass was painted on the head of the bass drum.
9. When shot at, the dove dove into the bushes.
10. I did not object to the object.
11. The insurance was invalid for the invalid.
12. There was a row among the oarsmen about how to row.
13. They were too close to the door to close it.
14. The buck does funny things when the does are present.
15. A seamstress and a sewer fell down into a sewer line.
16. To help with planting, the farmer taught his sow to sow.
17. The wind was too strong to wind the sail.
18. After a number of injections my jaw got number.
19. Upon seeing the tear in the painting I shed a tear.
20. I had to subject the subject to a series of tests.
21. How can I intimate this to my most intimate friend?
Escrito por Rafael | 03:17 AM | Comentários (0)
abril 09, 2007
Go Johnny go
Ai que droga. Morreu o criador de uma das últimas tiras de longa vida ainda em atividade: Johnny Hart, o autor de BC e O Mago de Id, que eu acompanho semanalmente no Western Australian. Uma das melhores tiras tradicionais. Morreu em cima da prancheta.
Escrito por Rafael | 09:50 AM | Comentários (1)
abril 02, 2007
Perrengue
Essa história do Art Spiegelman que saiu na edição de março da Piauí prova de maneira bem evidente por que os quadrinhos ainda apanham tanto para serem classificados como entretenimento adulto.
O tema é banal: reminiscências do autor em seu processo de se tornar um artista (com o mesmo material, Eddie Campbell fez chover em How to be an Artist). Art Spiegelman tem completo domínio da forma, mas esse é o problema: ele parece tão concentrado em desconstruir e explorar a linguagem que se esquece que tem uma história para contar. Um esteta das HQs há de se deleitar com as referências visuais espalhadas aos quatro cantos, mas o leitor médio, curioso ou interessado, talvez fique somente chateado com a pirotecnia visual a serviço de pouco.
Pensando bem, Ted Rall estava certo quando escreveu sua crítica: a única história longa que Spiegelman fez em 30 anos foi mesmo Maus. Todo o resto pode ser posto na conta de experimentação e desconstrução de linguagem. Mas a quem isso interessa, além do pessoal ligado a mídia-artê? Ele, que vive a fazer palestras sobre a capacidade expressiva do meio, devia pensar na hora de fazer uma história.
Escrito por Rafael | 11:46 PM | Comentários (2)
Tristeza e Raízes
Sábado foi dia de conferir um dos mais festejados eventos do pedaço, o West Coast Blues and Roots Festival. Pelo que eu saquei, concentraram as atrações internacionais em um dia (cujos ingressos esgotaram mais rápido) e as locais no outro. O que iria tocar? Além de blues, como o nome indicava, tudo aquilo que se pode enquadrar sob o rótulo de roots, ou seja, praticamente qualquer coisa cujo ritmo tenha inspiração africana ou rural, country.
Claro que sobraram algumas estrelas internacionais para preencher mais de 6 horas de música ininterrupta em dois palcos distintos, mas você só sabe o que é mesmo morar num lugar fora de mão ao tomar consciência de que está se encaminhando para o show do Sierra Leone Refugees All Stars, ou seja, para a banda de refugiados de Serra Leoa. Enquanto todo mundo corre para comprar os ingressos do Buena Vista Social Club ou do Cuban All Stars, o máximo que chega em Fremantle são os refugiados de Serra Leoa, um grupo de músicos tão desgraçado que nem se formou em Serra Leoa, mas em Guinea, num campo de refugiados, e foi descoberto por um cineasta canadense, como é típico. Pela aparência de alguns músicos, ainda parecem estar se refugiando, enquanto correm o mundo para mostrar sua miséria cultura.O som é uma mistura de ritmos africanos com ênfase no reggae, sobretudo ragga, em letras falando de liberdade e paz, com sói acontecer com essas bandas africanas (já ouvi discursos semelhantes vindos de Zâmbia, Congo e África do Sul). Nada que uma banda de axé mediana não faça com pé nas costas, mas como não existe samba nem axé por aqui, lambo meus beiços com os refugiados.
Eu achei que iria enterrar apenas um morto-vivo quando vi aquele senhor grisalho e barrigudo sentado num banquinho e fazendo das tripas garganta na interpretação de um blues quando adentrei o recinto, sem restar dúvidas: Eric Burdon e sua enésima encarnação dos Animals, apenas um dos quais parecia ser de sua mesma geração. O resto da banda tinha idade não para ser os senhores seus filhos, mas seus netos. Aliás é curioso ver como o rock ficou conservador; há 40 anos eram jovens ingleses branquinhos procurando conhecer e imitar o som de velhos negros blueseiros. Hoje qualquer banda é aimagem do politicamente correto, tem uma moça ruiva ou um negro -- ou ambos, como era o caso. Cheguei perto do fim, mas a tempo de ver a notória versão de House of Rising Sun, cantada em coro por metade da platéia, cuja idade média estava acima dos 50. Ao encerramento, funcionários apareceram com rodos para remover o excesso de lágrimas que cobriam o chão. Mais apoteótico, só se o Agnaldo Timóteo entrasse em seguida para cantar a versão em português. A bem da verdade, achava que Eric Burdon seria o único morto-vivo que eu presenciaria naquela noite, mas ainda consegui ver, horas depois, entrar naquele mesmo palco Lee "scratch" Perry, para quem não sabe o mais importante produtor de reggae jamaicano, o músico que sobreviveu a Peter Tosh e Bob Marley e ainda se apresenta do alto de seus mais de 70 anos. Mas como aquele sotaque jamaicano tava dose e o reggae não embalava, me mandei para ver o maior herói da Western Australia.
Pois assim descrevia o folheto: John Butler nasceu na California mas é o maior herói da WA (competindo em admiração talvez apenas com Megan Gale e, em menor escala, Heath Ledger). Um virtuose da guitarra que foi criado no meio do nada desértico chamado Pinjarra e começou carreira tocando nas ruas de Perth, o que deve ter dado motivo para muita história que se ouve hoje em dia de gente que diz que viu-o no mercado de Fremantle. Butler é ativista ecológico e hippie o suficiente para ter batizado uma filha de Banjo, mas o fato é que nada disso compromete seu grande talento musical ou diminui o impacto de suas apresentações ao vivo, além dele fazer a sua parte com uma fundação homônima e usando embalagens biodegradáveis em seus CDs. Você até pensa nisso enquanto sacode o esqueleto ao som de Zebra.
Espiei ainda os shows de Wolfmother, um mala chamado Xavier Rudd, um bando de malas chamados Gomez e outros que minha memória fez o favor de apagar. Mas a grande surpresa da noite foi mesmo a maravilhosa apresentação de Bela Fleck and the Flecktones, o maior tocador de banjo do mundo, apresentando músicas instrumentais num ritmo que por absoluta incapacidade de definir vou chamar de jazz, num conjunto sui generis composto por guitarra, banjo, saxofone e baixo (o baixista também fazendo as vezes de baterista). O Grammy, que não é dos melhores em classificações, já indicou Bela Fleck and Flecktones para prêmios nas categorias jazz, bluegrass, pop, spoken word, contemporary Christian, gospel, classical e country. O conjunto conta hoje com guitarra, banjo, saxofone e percussão -- feita à base de um sintetizador e reduzida bateria. O som é sublime, algo como eu não ouvia desde o último Jambalayo Jazz Festival. Se Eric Burdon foi quem arrancou mais lágrimas, com um mínimo de intervenções faladas como é de praxe entre os músicos de jazz, foi Bela Fleck quem deixou mais gente babando e saiu debaixo da mais aplausos. Inesquecível.
Escrito por Rafael | 04:08 AM | Comentários (2)
Imperdível
> A melhor coisa que li recentemente chama-se Black Hole, de Charles Burns.
> Na década de 1970 uma praga sexualmente transmissível que
> deforma horrendamente o corpo dos contaminados se espalha entre
> adolescentes. É um retrato chocante da alienação naquela fase da vida, mas
> nos melhores momentos transcende isso de forma sublime: é a melhor história
> sobre aceitação de si mesmo que eu já li.
> Vai sair esse ano no Brasil, pela Conrad, tradução do Daniel Pellizzari.
Escrito por Rafael | 12:15 AM | Comentários (0)