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maio 31, 2007

A obra-prima mais subestimada dos quadrinhos?

Tomei contato esses dias com Gasoline Alley, talvez a obra-prima mais subestimada dos quadrinhos. Começou como tira diária num jornal de Chicago em cima da recém-despertada mania pelos automóveis, por conta da própria família do autor: "Meu irmão tinha um carro que ficava no beco, junto com um sujeito chamado Bill Gannon e outros caras. Eu ia na casa dele nos domingos e a gente ia para o beco, encontrava outras pessoas e falávamos sobre carros" -- donde o nome da tira -- mas, a pedido do editor, foi feita uma mudança para, vejam só, atrair leitoras: assim funciona o mundo dos quadrinhos, com a imaginação e a criatividade artística sempre em busca do público. Sem possibilidade de arrumar uma parceira para o solteirão convicto Walt Wallet, Frank King simplesmente depositou um bebê órfão em sua porta no dia dos namorados de 1921. Numa virada surpreendente, Walt assume a criação do guri, batizado de Skeezix (gíria para um bezerro órfão), transformando a história de forma radical.

Primeiro, ao acrescentar semitons emocionais a personagens que pareciam estereotipados; segundo, ao introduzir a evolução cronológica: pode não ter sido a única, mas certamente foi a primeira tira onde os personagens envelheciam -- assim, Skeezix começa bebê de colo, aprende a andar e falar, ler, vai para a guerra e volta. É nesses primeiros vinte anos que se encontra o cerne da obra-prima, com episódios dominicais onde, muitas vezes, não acontece nada: Walt e Skeezix passeiam ociosamente apreciando a paisagem rural americana e tecendo comentários banais e poéticos (tal como Peanuts e Calvin fariam, anos depois). Eventualmente as piadas seriam sacrificadas em nome de um clima nostálgico, bucólico ou simplesmente sereno: é incomparável o jeito caloroso, reconfortante e agradável que a história passa. Frank King criou talvez a melhor definição do que se entende por americana, a lembrança de um tempo meio idílico, não muito distante, quando as coisas eram melhores e tudo ia bem.

O mais interessante é que, com o tempo, King não esmoreceu e continuou a desenvolver os personagens coadjuvantes, expandindo a árvore genealógica e transferindo aos poucos tarefas para ajudantes. A tira foi premiada pela National Cartoonist Society em 1957, 1973, 1980, 1981, 1982 and 1985, 1988. E continua a ser publicada até hoje, nas mãos de um assistente de um assistente. A republicação sistemática dos primeiros 20 anos já está em curso.

Escrito por Rafael | 01:22 AM | Comentários (2)

maio 29, 2007

Espécie

Esta coisa de transferência de renda sempre foi estranha para mim, que ganhava tão pouco de mesada que recebia em espécie (Ram).

Escrito por Rafael | 11:42 PM | Comentários (0)

Melbourne, Sidney (faixas bônus)

Encontrei algumas notas de viagem rascunhadas e tendo em vista a boa recepção das impressões sobre a viagem, decidi estendê-lo. Se lembrar de alguma coisa a mais, provavelmente vai entrar como nota individual.

Melbourne não é uma cidade feia; em vários cantos destila até um certo charme europeu. Mas tem o que deve ser a praça central mais feia do mundo: Federation square. As hordas que ali se aboletam para um descanso rápido, uma espiada no jogo do telão, para uma olhadela no rio Yarra (feio, também: de aspecto barrento, estreito) aparentemente não se incomodam com a agressão visual dos prédios da secretaria de turismo ou do museu da imagem móvel ou mesmo dos simples degraus que levam ao plano alto. Mas que a Federation square é feia, é.


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E já que estou no assunto: o Luna Park de Melbourne é um daqueles parques de diversão à moda antiga norte-americana, com maçã caramelada, algodão doce e montanha-russa com estrutura original em madeira treliçada, tal como vários que se espalharam pelo sul da Califórnia e Flórida na primeira metade do séc XX. Muitos deles foram sucateados, alguns sobreviveram assim assim, e poucos foram reformados & conservados e continuaram prestigiosamente em atividade, como é o caso do Luna. Mas aquela entrada em forma de uma boca sorridente, além de terrivelmente sinistra -- só consigo pensar nas crianças chorando de medo ao vê-la -- está em TODAS as antologias de bizarrices arquitetônicas ou decorativas australianas.


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Se você não quiser alugar um helicóptero para um passeio aéreo, provavelmente a melhor vista que terá da baía de Sidney é do topo da ponte de Sidney. Como grande parte dessas contruções monumentais modernas, a ponte foi erguida durante a depressão, de sorte que hoje é mais que motivo de orgulho para seus habitantes: combateu o desemprego, bateu um recorde em tamanho, adornou a paisagem e facilitou o transporte. Faltava o que? Explorá-la como ponto turístico de maneira industrial, digamos. Isso vem sendo feito há quase 3 anos por uma companhia que levou uns 2 milhões de pessoas a escalarem a ponte: pelo suporte direito, através da viga central e descendo pelo lado esquerdo. Tem tanta segurança e é feita com tanto vagar que perde-se pelo menos uma hora só no treinamento e preparação do equipamento, e olha que não se carrega nem pára-quedas. Caso ainda assim você fique com medo de subir, no saguão de entrada existe uma galeria de celebridades para te estimular. Evidentemente, as estrelas do cinema australianas estão lá: Nicole Kidman, Cate Blanchet. Opa, quer dizer que sir Michael Caine fez essa escalada? Se o Will Smith fez eu também posso fazer. Num canto tem a foto de uma velhinha que fez a escalada com 100 anos, uma maneira sutil de dizer que condições de saúde não são desculpa para a tua preguiça. Fecha-se a questão quando se vê que a Anna Nicole Smith também subiu na ponte.


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O único museu de arte que vale a pena ser visitado na Austrália fica em Melbourne -- a não ser que você tenha um interesse muuuuuito grande em arte australiana; aí é o de Sidney que você tem que visitar. Além dos Rembrandts e Tiepolos que justificam a esticada, uma bela ala asiática cria um contraponto interessante ao ponto de vista hegemônico europeu com o qual se sai de qualquer museu na Europa, por maior que seja a coleção nipo-chinesa-indiana. A Austrália foi erguida por imigrantes e no final do séc XIX os chineses estavam entre os mais representativos; nas ruas de Melbourne é comum ver pares interraciais, inter-étnicos, andando e conversando juntos. Natural que um museu público reflita essa diversidade. Até porque nenhum tipo de fusão cultural oriente-ocidente foi conseguido até agora.


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Quando volta de Nova Iorque, o brasileiro sempre comenta espantado como os chineses apenas vivem e falam com outros chineses, reproduzindo seu estilo de vida em Chinatown. Se prestasse um pouco de atenção, veria que os brasileiros em Sidney sempre se acomodam perto da praia, principalmente Manly (a meia hora de barca do centro da cidade) e Bondi, em cujo pavilhão central oferecem aulas de capoeira. Mas como se sabe, os chineses é que não se adaptam às outras culturas...


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Não me chamem mais para nenhum parque nacional que eu não aguento mais ver bichinho depois de visitar os zoológicos de Melbourne e Sidney. Apesar de maiores, nenhum dos dois tem uma área em que se pode caminhar livremente por entre os animais típicos do país como o de Perth. Melbourne tem a melhor relação custo-benefício: uma excelente variedade de animais e uma área passível de ser coberta à pé. E a experiência de entrar na estufa vedada onde as borboletas voam ao redor de você só pode ser descrita como mágica. Taronga zoo, em Sidney, fica num aclive: pega-se um teleférico até o topo e planeja-se a visita enquanto se desce, ou isso ou vais gastar perna para ver aquele urso que ficou lá atrás. Em compensação, o anfiteatro onde exibem as águias e falcões treinados, com a baía ao fundo, deve ser a vista de zoológico mais bonita do mundo. Claro que nada disso resolve uma irritação básica com a arquitetura dos zoológicos modernos: o fato deles terem sido transformados em pequenos habitats para cada espécie melhorou muito a qualidade de vida delas -- sempre tem uma jaula das antigas, preservada para mostrar como se maltratavam os animais antigamente, quando o foco dos zoológicos era exibição e não preservação; Sidney chega a mostrar o local onde as crianças subiam para passear de elefante. Mas piorou a dos visitantes: qual o motivo de ir num zoológico se você tem que se esticar todo para mal ver o puma andino que se esconde atrás das pedras porque é tímido? O leão costuma ser decepção perene, sempre deitado, de lado, em eterna siesta. Ao menos os gorilas, orangotangos e micos contribuem sempre com algazarra, e com sorte você conseguirá ver um babuíno ou um gibão catando e comendo os piolhos do pelo de outro. E o koala, tão fofinho, é o próprio Dorival Caymmi do mundo animal.

Escrito por Rafael | 11:35 PM | Comentários (2)

maio 28, 2007

É dura a vida de brasileiro exilado

Sexta fomos almoçar na barraquinha brasileira do mercado de Subiaco. A maranhense que é uma das sócias não demorou muito em vir na nossa mesa mostrar um recorte de jornal, orgulhosa. A brasileira que dias antes adentrara a casa do Big Brother australiano era sua filha! Uma morena de 24 anos, em foto grande, ao lado da tasmaniana que, como ela, ganhara a chance de entrar no jogo. Contou-nos que a filha era formada em jornalismo e enxergar aquela chance de se promover profissionalmente, já tendo se inscrito duas vezes nos anos anteriores sem sucesso. Estava ao mesmo tempo um pouco decepcionada por ver a filha no programa e contente porque a popularidade estava em alta e ela tinha se entrosado bem -- mudara-se para a Austrália aos 12 anos, não tinha sotaque, apesar da televisão ainda apresentá-la como Brazilian born.

Se despediu dizendo que estava pensando em botar um aviso na biboca pedindo para votarem em favor da filha dela pela internet.


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Sábado de tarde. SBS: o canal multicultural daqui, que apresenta filmes europeus, asiáticos e latino-americanos, anuncia um documentário sobre Caetano Veloso. Não demora muito, tá lá o baiano castigando aquele inglês que ele aprendeu durante o exílio londrino. Demora menos e logo aparece Gilberto Gil, anunciado como ministro da cultura, falando exatamente naquele ritmo pausado dele, só que em inglês. Quem apareceu falando com mais desenvoltura foi Nelson Motta, mas isso não foi tudo. Ilustraram um discurso papo-cabeça do Caetano sobre a miscigenação cultural e a riqueza das tradições africanas na Bahia com que? Com um trio elétrico no circuito Barra-Ondina tocando axé. Quando você acha que já viu de tudo nessa vida, entram cenas -- provavelmente recortadas de algum show -- de Caetano e Gil cantando sucessos, Alegria alegria, Domingo no Parque, com legendas em inglês. O ápice ficou quando da aparição do grupo Afroreggae, apadrinhado por Caetano, levando Eu tô bolado, que foi traduzido por I'm mad.

No começo da década de 1990 uma turma de amigos se reunia para jogar Call of Chtulhu, um jogo do tipo RPG onde cada jogador cria um personagem para si. Os atributos de cada personagem eram sorteados no dado: força, destreza, inteligência e, particularmente, sanidade; os jogos se passavam no universo ficcional da literatura de H.P. Lovecraft, profusamente habitada por seres sobrenaturais. Encontrar com eles não era uma experiência trivial e a cada contato, os personagens perdiam pontos de sanidade, não raro terminando um jogo loucos.

Sempre que eu vejo uma tentativa de traduzir ou explicar em inglês a baianidade de um Caetano, eu lembro do Call of Chtulhu por conta dos meus pontos de sanidade perdidos...

Atualização: ontem de noite fui ver Vinícius, documentário que eu já tinha assistido em 2005, rara chance de apreciar alguma coisa da cultura brasileira que não seja macumba pra turista, exibido dentro da mostra do cinema ESPANHOL. Brasil, América Latina, Espanha: tudo a mesma coisa. Já me confundiram com italiano e francês; o Brasil não existe: um profissional brasileiro que tenha atravessado dois oceanos para trabalhar fora? Abstração, loucura. Camila Morgado e Ricardo Blat interpretando poemas, depoimentos de Gil e Caetano com legendas em inglês. Minha sanidade se esvai, lentamente.

Escrito por Rafael | 02:34 AM | Comentários (2)

Got my HAIR

Com somente 40 anos de atraso, assisti uma montagem do musical Hair. O sentimento que me provocou foi o mesmo que costumo ter quando assisto qualquer um desses filmes, peças ou musicais que se tornaram objetos de culto, não clássicos, somente objetos de culto: os elementos que causaram assombro estão ali, mas raramente a história ou o conjunto atraem. Hair ainda se sustenta essencialmente por conta das canções; a arte de compor canções para musicais da Broadway entrou em decadência do mesmo modo que a arte de compôr marchinhas para o carnaval. Os personagens são mais esquematizados do que desenhados, o roteiro é mais uma colagem do que uma narrativa, as situações são mais na linha de provocar a platéia do que construir uma dramaturgia. Mas quem se importa? A platéia do teatro se divertia como eu vi se divertir em qualquer espetáculo vagamente humorístico por aqui e nem o que era para ser chocante incomoda mais.

Um aviso na entrada lembrava que "o espetáculo contém nudez, palavreado de baixo calão, simulação de consumo de drogas e temas adultos". A pretensa seriedade dos temas foi motivo de chacota pelo menos duas vezes: antes do início, quando o auto-falante alertou: "desliguem os telefones celulares, o uso de máquinas fotográficas é proibido -- e, por favor, lembrem-se de passar o bagulho para a esquerda", e a notória cena de nus (quando o elenco quase inteiro aparece pelado no palco, à contra-luz, muito artisticamente, como diria uma capa da Playboy), em seguida à qual um tira adentra o recinto e declarando voz de prisão para toda a platéia: o que um dia foi visto como crítica ao autoritarismo, hoje leva às gargalhadas. Mesmo o que seja talvez a cena mais chamativa, na qual os atores simulam várias posições de cópula (vestidos), só arrancou risadas da platéia. Certamente que muitos dos temas abordados foram absorvidos pelo público médio de musicais nessas quatro décadas e a manchete do jornal do dia, Amamentação pública será legalizada em clubes fechados, não deixava mentir. Mas quando o bebê de colo duas filas atrás não pára de chorar, você se pergunta para o que serviu aquela liberação toda. E a personagem grávida tomando drogas incomoda particularmente.

Um dos grandes baratos em assistir essas montagem fora do tempo e do espaço é ver o que sobrevive nas adaptações: convidaram uma das cantoras reveladas num desses concursos de televisão que quase estragou uma das músicas com suas vocalizações, mas quando se ateve à interpretação original, fez bonito. Além de hoje em dia ter inglês suficientemente bom para entender trocadilhos difíceis como "as Mary Magdalene said, Jesus, I'm getting stoned". E foi bastante engraçado ver o grito de protesto que alguém da platéia soltou logo depois do personagem Claude Bukowski se apresentar como sendo de Manchester, England:
-- Eeeeeeeeeeiiii!!!

Escrito por Rafael | 12:32 AM | Comentários (1)

maio 25, 2007

Mil

in Brazil, where the original malandros of samba songs were celebrated for their ability to triumph through deceit and cunning, Romario remains a hero — or, at worst, a lovable rogue. He is the bad-boy-made-good, and in Brazil, particularly in Rio de Janeiro, everyone loves someone who can put one over on authority.

Não vou deixar de registrar a passagem do auto-proclamado milésimo gol do Romário com essa reportagem da Time. Onde está a melhor definição para o inglês do que seria um malandro.

Escrito por Rafael | 05:15 AM | Comentários (1)

maio 24, 2007

Anti-intelectualismo

De vez em quando eu comento aqui o anti-intelectualismo que é característica dos australianos, mas fico me perguntando se serei perfeitamente entendido no Brasil. É realmente complicado explicar o que é sair de um país onde cultura popular e oficial se atritam diariamente para um país onde literalmente fogem de cultura. Parando por aqui com uma carta enviada para o Xpress, um jornalzinho gratuito que sai semanalmente com a programação de lazer da cidade. Não vou nem traduzir:






Escrito por Rafael | 02:51 AM | Comentários (3)

maio 23, 2007

100 anos de Tintin

100 anos de George Rémi, Hergé, criador do Tintin. Talvez a melhor história em quadrinhos de aventura já escrita (no meu critério, perde para Corto Maltese). Um monumento na Bélgica: ao desembarcar no aeroporto de Bruxelas, uma pequena estátua do personagem saúda os visitantes. Um personagem que sempre apareceu mais do que o autor.

Escrito por Rafael | 12:09 AM | Comentários (0)

maio 21, 2007

Blogues expressos

Gostei bastante, apesar das atualizações irregulares, dos blogues que o Daniel Galera, a Cecilia Giannetti e o João Paulo Cuenca mantiveram para o projeto Amores Expressos. O grande mérito dos três é exatamente o calcanhar de Aquiles de 99% dos brasileiros que vão para o exterior, a turismo ou não: fizeram o dever de casa, leram & estudaram sobre o país que estariam visitando. O que deve ter ajudado muito em dirimir preconceitos e impressões rápidas. Lamentei apenas o inevitável peso das referências que cada um carregou: Galera sempre contrapondo Porto Alegre a Buenos Aires, Cecília lembrando da Ilha do Governador em Berlim e JP achando que Japão e a Belford Roxo são a mesma coisa. E há o inevitável choque cultural: Galera horrorizado com um portenho que lhe cumprimenta com um beijo no rosto, Cecília tentando conceber como tem gente que vai à praia (artificial) com sol de 12 graus e JP surpreendendo-se com festinhas em boates cujos figurinos e loucuritas fazem o bas fond carioca parecer um jardim da infância. Mas os comentários são em maioria pertinentes e os autores deram-se ao trabalho de correr os riscos de suas curiosidades, mesmo que para isso tenham aberto mão de roteiros mais tradicionais: nem um jardim público em Tóquio? Nem um show de tango em Buenos Aires? Nem um pulinho no Pergamon, na Ilha dos Museus de Berlim? Espero que tenham voltado bastante inspirados para o livro que os espera.

Destaco, particularmente, esse trecho da Cecília Giannetti, que caracteriza perfeitamente os exilados:

Há duas maneiras de se viver no estrangeiro. Uma delas é deixando de ser estrangeiro. Guardar as raízes numa caixa dentro do closet, para serem retiradas novamente apenas como fotografias quando surgir a pergunta "De onde você é?" -constantemente ouvida e repassada entre pessoas de tantos lugares distantes, em cidades de imigrantes como Nova York, Londres ou Berlim. (...) Assim protegida, sua história pertence mais ao presente que ao passado. Não é muito acessada, enquanto o estrangeiro se mistura à cor e hábitos locais. (...)

Outra maneira de se viver em uma terra que não é a sua é entrando na caixa da identidade nacional alheia. Protegido por suas paredes, usa-se a caixa como bote salva-vidas, flutuando cautelosamente pela cultura e pelo dia-a-dia do novo país. Nesse caso, o estrangeiro raramente cruza as fronteiras da Chinatown de NY, onde vive e trabalha entre a sua própria gente, trocando meia dúzia de expressões em inglês por dia (...)

Ou seja, a dicotomia entre a síndrome nunca vencida da saudade do feijão e a temida aculturação (o que a esquerda hoje chama de globalização e antes era americanização). Mas isso só vale para classe média; elite é elite em qualquer lugar e a ralé, no final das contas, é quem resiste.

Escrito por Rafael | 11:58 PM | Comentários (1)

Golfe

Outro dia me chamaram para jogar golfe. Como quase todos os esportes populares na Inglaterra -- golfe, cricket, tênis -- golfe tem fama, no Brasil, de ser chique. Eu disse quase porque ao menos o futebol seja visto com popular, embora um dito clássico diferencie que rubgy é um esporte de lordes, jogado por bárbaros, enquanto futebol é um esporte de bárbaros, jogado por lordes. Besteira, aproveitar esse monte de gramado disponível fazendo esportes é a conclusão lógica -- ou deixaram os gramados aí exatamente para isso. Nunca tinha nem pego num taco de golfe, apesar de já ter visto algumas partidas na televisão. Sabia que aquele taco mais bojudo era para dar a paulada inicial, e que aquele em formato de tê era para empurrada final da bolinha no buraco. Não tinha a menor idéia de como usar os outros tacos, embora imaginasse que eles servissem para algumas situações intermediárias. O bacana, num circuito de 9 buracos, foi ver a escalada na curva de aprendizagem. Vai-se pegando as manhas, como descobrir que deixar aquele pininho em cima do qual a bola fica menos enterrado ajuda sobremaneira a tacada, reduzindo a chance de arrancar grama. E na primeira vez que se consegue fazer a bolinha voar, dá até vontade de chorar de emoção. Melhor marca obtida: um buraco em 4 tacadas. Para fins de comparação: num golpe de sorte espetacular, um profissional pode acertar o buraco com uma tacada só; um profissional de gabarito está preparado para encestar em duas emum campeonato, embora aconteça dele precisar de três, o que no somatório final pode colocá-lo atrás no placar. Ou seja, ainda preciso comer muita grama. Ou tentar ler de novo The Bogey Man, que eu achei chato da primeira vez, exceto o capítulo sobre os caddies.

Escrito por Rafael | 11:46 PM | Comentários (1)

maio 17, 2007

Mil e Uma Noites de Paulo Caruso

Certas coisas parece que acontecem só para queimar a minha língua. Eu saudei a edição nacional dos álbuns do Corto Maltese ano passado, mesmo que tenha descoberto que só lançaram histórias que eu já tinha, porque a ausência fora tão longa que merecia a festa. Outro dia, estava reclamando da ausência de coleções de tiras nacionais, quando soube dessa excelente notícia: republicaram As Mil e Uma Noites, de Paulo Caruso, seríssima candidata a melhor tira de jornal brasileira.


as mil e uma noites

Contexto: no começo da década de 1980 o Jornal do Brasil convidou dez artistas brasileiros para produzirem uma tira diária, lado a lado das distribuídas pelas agências norte-americanas. A maior parte dos artistas não teve fôlego para manter o ritmo e morreu na praia. Eram tempos de abertura política e cultural, Paulo Caruso havia se recém separado e usou as tiras como uma terapia, refletindo sua reentrada no mundo dos solteiros. Papos cabeça, surrealismo, metalinguagem, experimentalismo, beira de praia, mesa de botequim: As Mil e Uma Noites é como Fellini em Ipanema, Winsor McKay na Vila Madalena. Além de tudo, excelente chance de comprovar que Paulo desenha muito, muito mais do que seu irmão chargista Chico.

Escrito por Rafael | 01:10 AM | Comentários (0)

maio 16, 2007

Melbourne, Sidney

Contrariando todas as expectativas, gostei mais de Melbourne.


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Por que? Talvez apenas porque tenha visitado antes. Em uma palavra, porque tem mais personalidade -- não que Sidney não a tenha, mas a sua é péssima, a começar por difundir mundo a fora a idéia de balneário relaxed e laidback (essas são as duas palavras que você mais vai ouvir para definirem a Austrália) pruma cidade entupida de gente e crescendo, apressada, confusa e neurótica, mais São Paulo do que Florianópolis. Melbourne não tem
praias mundialmente famosas, não tem sol -- desconfie de qualquer cidade onde as pessoas saem de bermuda e camiseta à temperatura de 20 graus --, não tem nem uma ponte nem uma ópera particularmente bonitas. Mas tem uma infinidade de bares, cafés e restaurantes aconchegantes e charmosos, alguns minúsculos, onde a escala humana pode se refazer da agressão dos arranha-céus e curtir paladares que só a tradição consegue cultuar.


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Em Perth, onde eu moro, tudo é mais barato, mais amplo, mais espaçoso -- e por isso mesmo mais impessoal. Você nunca pega fila para entrar num restaurante, mas não existe aquele bistrozinho meio em conta que serve um filé inesquecível, onde você conhece o garçom e não se aborrece em esperar meia hora na porta. Não tem arquitetura, não tem história, não tem tradição. Mas tem um monte de espaço vazio nos parques, praias, restaurantes. E as meninas são mais bonitas.


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Enquanto Sidney evoluiu de depositório de condenados, Melbourne rapidamente foi elevada a província com a descoberta do ouro, que arrastou hordas de chineses para lá. Aliás é curiosa a simetria de sua história com San Francisco, onde o outro foi descoberto na mesma época, onde o crescimento populacional foi desenfreado e a cidade foi ocupada por tendas, onde a imigração chinesa desceu em peso. Até a reorganização que as cidades passaram no começo do século XIX é similar, mas por motivos diferentes: Melbourne, por causa da depressão que se seguiu à euforia do ouro, da Marvellous Melbourne; San Francisco, por causa do terremoto de 1906. Os bondes também são um ponto em comum entre as duas cidades, ainda que Melbourne tenha mais jeito de Bruxelas do que San Francisco por causa deles.


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Também descobri a identidade secreta de Bruce Wayne: fundador de Melbourne. Que durante curto período, vejam essa, chegou a ser conhecida como Batmania.

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Acho que Melbourne me atraiu, no fundo, por ter tudo que não existe em Perth: um centro da cidade que mereça esse nome, vida noturna e cultural idem, grandes mercados ao ar livre, burburinho, bondes, prédios interessantes, diversidade -- Perth tem gente dos quatro cantos, mas quando comparada a Melbourne, parece uniforme. Muita gente daqui já me disse que, se não fosse o clima, iria morar lá. Justiça seja feita, eu deveria continuar com a comparação dizendo que Melbourne também não tem as praias de Cottesloe, Scarborough ou Swanbourne nem sol 8 meses por ano, mas não se engane: as maiores marcas de surfwear australianas (Rip Curl, Billabong, Quicksilver...) foram todas originadas em Melbourne, apesar da fama de Bondi e Manly, que ficam em Sidney. Ah sim, Ned Kelly também é da região de Melbourne. Ned Kelly é o Lampião australiano, simplificando.


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Provavelmente por causa das nuvens e do fim de tarde, Bondi não impressionou nem metade do que prometia. É um dos grandes mitos australianos -- o que não é mito é o passeio pelas rochas que existem do lado direito da praia, onde construíram uma passarela de concreto pelo meio das pedras esculpidas pelo mar, um caminho que leva até as praias de Tamarama e Bronte, bem menores e mais protegidas. Dali o oceano se descortina em toda sua grandeza, mais ou menos como se vê a partir do Forte de Copacabana; mas a caminhada em si é mais bonita do que o Arpoador, embora Ipanema e Copacabana sejam mais bonitas que Bondi, Peter Carey que vá lá conferir.


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Manly não, Manly é tudo que promete, é uma das praias metropolitanas mais bonitas do mundo -- claro, se você considerar que Manly é parte da metrópole e não, como chamam por lá, um subúrbio. Quando começaram a ocupar Manly, cujo nome deriva de um comentário segundo o qual os nativos locais seriam muito másculos, os ingleses compararam-na a uma Brighton do sul. Brighton, que era a melhor idéia que os ingleses tinham de um balenário. O que prova que não é só por ir de calça jeans pra areia, inglês não entende nada de praia, mesmo.


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Já que eu me meti, mais uma comparação: a baía de Sidney é mais recortada e imprevisível que a da Guanabara, com sua estranha simetria entre os lados do Rio e Niterói. Além disso, é indescritivelmente limpa -- para quem acomoda umas 15 barcas cruzando seu leito dia e noite, fora cruzeiros, catamarãs e aerobarcos -- e teve extrema felicidade na intervenção humana; mesmo os arranha-céus se restringem ao Cais Circular, cedendo espaço para o inacabável verde dos gramados do Jardim Botânico. A baía de Guanabara é mais ampla em seu recorte e a ponte Rio-Niterói não valoriza paisagem nenhuma, mas com um conjunto de morros como aquele a lhe rodear, nem precisava. A baía de Sidney é mais bonita inclusive pela maneira como foi ocupada, a baía de Guanabara tem o conjunto mais bonito.


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Metade do interesse em visitar Sidney está na baía, e não é pouco. Descontando a chegada de barco, a melhor maneira vê-la pela primeira vez é aproveitando o declive da Macquarie Street, que desemboca do lado direito do Cais Circular, e vai descortinando aos poucos a vista geral: seu campo de visão vai sendo invadido simultaneamente pela ponte, do lado esquerdo, e pela ópera, do lado direito. Parece uma coreografia.


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Aliás a ópera não é uma ópera, ou melhor, não é uma ópera: é um conjunto de salas de entretenimento, englobando uma sinfônica, uns quantos teatros e um palco que se revesa entre óperas e shows de música (Marisa Monte deve tocar lá nesse mês), além de um restaurante. Não espere encontrar no interior, entretanto, nada que relacione essas salas ao arrojado desenho externo: como todo bom arquiteto, Utzon se limitou a libertar sua criatividade e traçar umas quantas formas abstratas no papel -- e depois os engenheiros civis que se danassem, arrumando um jeito de pôr aquilo tudo de pé. Utzon também não previu como ocupar os interiores, ajudando a multiplicar mais um pouco o custo inicial previsto na licitação, já que tiveram que contratar outros arquitetos para projetar os teatros, ópera, sinfônica. Ao cabo de uns 10 anos de muito neurônio e dólar queimado, Sidney tinha sua espetacular ópera, a disputar com a ponte o posto de construção mais bonita da baía (e vencer), estrategicamente colocada: Benelong Point está para a ópera assim como a praia de Icaraí está para o MAC, em Niterói. Em tempo, a construção foi toda bancada por dinheiro arrecadado na loteria, completamente sem tocar nos impostos, que hoje em dia subvencionam a orquestra australiana. Esteticamente, é indescritível: mistura formas orgânicas e geométricas, influências ocidentais e orientais, ogivas, conchas, minaretes, igrejas góticas, o escambau a quatro.


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Em Melbourne, nos restaurantes descolados, as garçonetes parecem baterista da banda da Cássia Eller.


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Em Melbourne tem um museu que conta a história da colonização da cidade do ponto de vista dos imigrantes chineses, em geral pobres camponeses em busca de ouro -- na língua chinesa, eles chamavam Melbourne de grande montanha de ouro. É interessante porque é a história contada de outro ponto de vista, por exemplo, começa com o interior de um barco que transportava mão de obra para a Austrália. Mesmo que fossem maioria entre os não-ingleses, sofreram muita discriminação, não tinham prioridade na escolha dos veios e viviam numa sociedade à parte, apesar de muitos terem sido condenados às barras pela mesma lei. Habilidosos, acabaram se estabelecendo por conta de sua força de trabalho, sua culinária, sua medicina milagrosa; um mandarim chegou até a ocupar alto posto num dos principais bancos, levando-o a imprimir dólares com ideogramas. Em determinado período, as autoridades forçaram os marcineiros a identificar sua origem nos gabinetes produziam. Num tempo anterior ao computador e à máquina de escrever, o gabinete era o móvel mais importante num escritório e os chineses, seus artesãos mais habilidosos e o tiro saiu pela cultara: o selo chinês servia de propaganda para os bons produtos... A grande atração desse museu é o dragão que todo ano novo ganha as ruas de Chinatown. Deve ter uns 60m de comprimento.


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Credo, e como gostam de grama. Os Jardins botânicos, na verdade parques abertos ao público, são imensos, cheios de caminhos serpenteando por entre as alamedas, gente fazendo piquenique, lendo, tomando sol, jogando bola -- australianos fazem nos parques o que brasileiros fazem na praia; na praia, australianos fazem o que brasileiros fazem na sauna: ficam um pouquinho até ficarem vermelhos e vão embora correndo. Mas a grama: é para ser usada, pisada e aproveitada; é curioso como aquele cuidado todo tem por fim o usufruto, e não somente a contemplação, como nos jardins geométricos franceses. E dá-lhe cricket, golfe, futebol, rugby, frisbee. Só não se vê uma pipa no ar.


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Aproveitei que as duas cidades eram bons centros gastronômicos para experimentar, mas prometi a mim mesmo nunca mais visitar algum bairro que o Lonely Planet recomende por ser cravejado de designer boutiques, cheio de personalidade e similares -- mostre-me a parte turística, a histórica, a pitoresca, a podre-de-rica, a de compras e fim de papo. Fitzroy fica somente a duas paradas de bonde do centro de Melbourne, mas nem por isso comprei aquele papo de gente cosmopolita, descolada ou seja lá o que for. É simplesmente um povo ali pro deslumbrado que optou (opção tipicamente primeiro mundista) por uma certa independência do sistema econômico, em geral menor do que aparenta. Mas não me arrependo da pizza do restaurante vegetariano, apesar do destaque da refeição ter sido o suco, uma misturada de frutas tropicais quase como fazem nas lanchonetes brasileiras; só me irrita o hábito de guia de indicar restaurantes vegetarianos e experimentais tanto quanto lugares pretensamente descolados. Melhor seguir os tradicionais, como o excelente moussaka do Stalactites, o melhor de uma quadra de restaurantes gregos que fica aberto 24h e tem na decoração impensáveis estalactites falsas.


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No quesito Homer Simpson, o troféu máximo foi para o schnitzel do Lowenbrau, que além de ser uma cerveja alemã é o nome de uma cervejaria-restaurante-bar em The Rocks, área do primeiro assentamento europeu em Sidney e hoje, local francamente turístico. O filé de porco empanado tinha simplesmente a superfície do prato inteiro, um prato grande, tipo o de restaurante a quilo, e vinha cobrindo os acompanhamentos. Desceu bem enxaguado por uma garrafa de Schneiderweiss original, cerveja de trigo, no que desde então elenquei como uma das refeições mais lautas da minha vida. A escalada da ponte de Sidney que a precedeu foi perfeita para deixar o apetite no ponto certo. O segundo lugar ficou com uma perna de carneiro assada no molho de cerveja de tirar lágrimas que eu tracei no Lounge, em Melbourne.


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Aliás foi lá de onde eu vi sair um cliente puxando uma malinha de rodas e carregando um saco de dormir. Por mais que o Lounge fosse suficiente informal (casual, como dizem nessas bandas), por mais perto da estação de trens, a cena me causou comoção. Ninguém barra australianos na capacidade de viajar.


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Sidney vende a idéia de cidade de praia com todos os atributos típicos: informalidade, gente queimada, mulher bonita, ritmo relaxado. Nem tudo é verdade. Aliás, quem passar no centro da cidade, ali por onde corre o monotrilho, vai achar que a cidade é tudo, menos relaxada: o empurra-empurra de gente apressada & engravatada neurótica atrás de bonde, ônibus ou metrô não tem nada a ver com os folhetos turísticos -- foi nas quadras fechadas para pedestres do centro que aquele vídeo dos "abraços grátis" foi gravado. Mais: a área dos restaurantes, bares e cafés, Darlinghurst, tem um quê bem maior de Vila Madalena ou Cidade Baixa (para agradar os gaúchos) do que de Ipanema -- para ter um cheiro disso, é preciso ir a Bondi, mas nem assim. É meio complicado explicar o que é a tão falada cultura de praia australiana, vou me limitar a dizer que existem enormes áreas com grama perto da areia (escolhidas por muita gente para o banho de sol) e que raramente se vê alguém sujo de areia andando na rua. A preocupação com limpeza, segurança e não aporrinhar o vizinho é tão grande que acaba determinando o lazer. Temos muito a ensinar a eles em termos de cultura de praia. Em troca, eles poderiam nos contar como é que se consegue manter uma baía inteira limpa mesmo com portos funcionando e barcas e mais barcas cruzando pra lá e pra cá o tempo todo. O último trecho recortei do diário do Ricardo Freire, que fez a mais honesta descrição de Sidney que eu já li.


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Nem por isso, entretanto, Sidney é uma cidade sisuda. Com todos os cafés, todas as garçonetes com pinta de baterista da Cássia Eller, todas as bandas tocando no Esplanade Hotel, Melbourne não tem um speaker's corner, essa magnífica invenção inglesa que acontece todo domingo de tarde, em frente à galeria de arte. Aliás Melbourne pode não ter um speaker's corner, mas tem a única galeria de arte que vale a pena ser visitada na Austrália, com seus Rembrandt, Tiepolo, aquele povo que você precisa ir pra Europa ver. A de Sidney só apresenta arte australiana, aborígene inclusive. Em compensação, você tem a chance de esbarrar num cara trepado em cima de um caixote onde se lê "o iconoclasta" discursando sobre o aquecimento global, confesso que não entendi bem se a favor ou contra. A menos de 5 metros dele, outro sujeitinho lia, em voz alta, algo impresso, ao qual não dei muita atenção porque me concentrei no terceiro, que se deu o trabalho de pôr terno e gravata e levar uma escadinha desmontável a servir de palanque. Desses três, dois estavam discursando quando eu entrei na galeria e assim permaneceram quando saí, DUAS HORAS DEPOIS, sem demonstrar grandes sinais de rouquidão. A platéia não era muito maior e o mais genial era que de vez em quando um deles se pronunciava gritando alguma coisa contra. No final da tarde, talvez para atrair novos ouvintes, o da escadinha defendia a tese polêmica de que os australianos não são melhores que os outros, comparando os diminutos artigos de um jornal local com as extensos garatujas de um panfleto em árabe. Você não é tão inteligente quanto acha, disse, apontando para um passante. Diante da cara de espanto: sim, você acabou de vir da galeria de arte, você deve ser inteligente! Diversão de primeira.


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Fiz questão de não incluir no roteiro nenhuma das atrações próximas, tipo Phillip Island (onde o grande barato é assistir a procissão dos pinguins para o mar; já chega os golfinhos com os quais esbarrei em Monkey Mia) ou Blue Mountains. Primeiro, porque natureza eu tenho bastante à disposição ao redor de Perth, deixa eu visitar as cidades; segundo, porque já sou vacinado contra o exagero dos folhetos turísticos australianos, que transforma qualquer coisa, inclusive o maior monolito do mundo, Uluru, numa atração imperdível.

Escrito por Rafael | 03:14 AM | Comentários (1)

maio 15, 2007

You are sooo nerd

Não é que o último filme do Homem-Aranha me deu vontade de comentar? Enquanto Tobey Maguire continuar competindo com Fred Savage pela expressão mais perplexa do cinema (Woody Allen é hors concours), não perde aquele emprego. Andam falando que a melhor coisa do filme é o Homem-Aranha folgazão e tirando onda por causa do uniforme alienígena, mas para mim foi aquele micro-segundo no qual ele passa correndo com uma bandeira dos Estados Unidos ao fundo -- Sam Raimi não tem vergonha de ser barato, de incluir esses elementos apelativos pelo filme: no primeiro, eram as moças gritando qual extras de filme B; nesse, ele abre logo com uma propaganda no Times Square -- e a sede do Clarim Diário é o prédio Flatiron. Percebe-se que há uma química perfeita entre realismo e fantasia pela quantidade infinita de trancos e trombadas que o super-herói leva sem se machucar, as bombas que têm maior ou menor efeito explosivo em função das vítimas sobre as quais são lançadas, o tempo que ora voa, ora se arrasta segundo a conveniência da trama, enfim, toda a física das histórias em quadrinhos está ali, para delírio da galera. Peraí, mas o que eu estou dizendo? Não é nada disso: a melhor coisa do filme é a Gwen Stacy.

Escrito por Rafael | 11:34 PM | Comentários (1)

maio 11, 2007

Spike Milligan

A peça que assisti na ópera de Sidney chamava-se Ying Tong - a walk with The Goons. The Goons foi provavelmente o programa humorístico mais popular da Inglaterra na era do rádio, redigido por Spike Milligan e interpretado por ele, Harry Secombe e Peter Sellers, ainda no limiar de sua carreira cinematográfica. A peça é centrada no período em que Spike teve um colapso nervoso por conta do trabalho e foi internado num sanatório. Delírios, memórias perdidas, crises de identidade e um bloqueio criativo assaltam sua sanidade. Um dos grandes baratos da peça é o paralelo entre a confusão mental pela qual Spike passava e a anarquia característica dos programas dos Goons. Por exemplo, em uma das cenas, Milligan é visitado em seu leito por dois duendes, uma referência à sua origem de mãe irlandesa e pai inglês. As cenas mais improváveis, entretanto, aconteceram de fato: Peter Sellers aparecendo nu numa madrugada, à procura de um bom alfaiate; Milligan fora de si, ameaçando Sellers de morte com um descascador de legumes. A tensão que havia nos bastidores gerava situações tão imprevisíveis quanto os diálogos surreais. Apesar da chuveirada de gargalhadas que cai sobre o palco -- ouvindo-se gravações antigas é possível ver que, por conta das interpretações, o público ria antes mesmo do fim da piada. E ria de qualquer piada. Adicione-se a isso a simpatia da cidade por Milligan, cujos pais foram morar em Sidney depois de se aposentarem, virando um segundo lar -- o drama de Spike Milligan tem cores fortes: o medo do bloqueio criativo nunca ser superado, o rancor de Sellers que, alistado, nunca pegar numa arma, e de Secombe, que apesar de ter vivido o horror das trincheiras ao seu lado, manteve o equilíbrio psicológico. O programa acabou na década de 1960, exatamente antes do papel triplo de Peter Sellers em Dr. Strangelove, que o tornaria o ator humorístico mais famoso do mundo. Uma rapidíssima amostra do que era The Goons pode ser vista no filme Vida e Morte de Peter Sellers, baseado na biografia de mesmo nome. A fonte de Milligan, entretanto, não secou ali: continuou redigindo e atuando pelas décadas que se seguiram. Se levarmos em conta que o texto de Spike Milligan em The Goons influenciou a dupla Peter Cook e Dudley Moore (tida como a melhor dupla humorística britânica, antes de Moore ir para Hollywood), os filmes dos Beatles e os textos de John Lennon e todo o grupo Monthy Python, não é difícil afirmar que spike Milligan simplesmente criou o melhor humor britânico contemporâneo. Incompreensível somente que tenha aceitado se submeter, bem no finalzinho da vida, ao pior insulto que um humorista de carteirinha poderia receber: a condecoração de Sir pela rainha, sua fã.

Escrito por Rafael | 06:34 AM | Comentários (2)

maio 09, 2007

O bingo da culpa

O melhor comentário que eu li sobre o massacre de Virginia foi o bingo da culpa -- essa compilação de artigos acusando o culpado pelos assassinatos. O autor decidiu parar a lista com 60 itens mas os bodes expiatórios não paravam de aparecer. Apenas para exemplificar o clássico erro de pôr o foco no problema e não na solução, algumas traduções:

. É culpa dos viodgames violentos
. É culpas dos outros estudantes estarem desarmados
. É culpa do secularismo
. É culpa das autoridades
. É culpa dos conservadores
. É culpa dos hippies
. É culpa dos chineses
. É culpa do controle mental induzido à base de trauma do complexo militar industrial
. É culpa do autismo
. É culpa do Charlton Heston
. É culpa da arquitetura das escolas
. É culpa de quem votou no Ralph Nader
. É culpa dos companheiros de quarto serem politicamente corretos demais
. É culpa das mulheres brancas
. É culpa das armas de mentira usadas nas peças da escola

Escrito por Rafael | 11:21 PM | Comentários (0)

maio 03, 2007

Melbourne e Sidney: voltei

Não, Peter Carey, Bondi não é a praia urbana mais bonita do mundo. Mas a baía de Sidney é provavelmente a mais bonita do mundo, sim.

Escrito por Rafael | 10:28 AM | Comentários (0)