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junho 29, 2007

Nossas riquezas

Artur Xexéo fez essa pesquisa há alguns anos no JotaBê e agora é a vez do Daniel Piza perguntar: qual é o pior verso do cancioneiro nacional? Piza sugeriu uma lista inicial cheia de páreos duros, tão divertida quanto cretina. Só lamento não ter incluído nenhum verso de Chico Buarque. Vamos a ela:

1) "Tudo que Deus criou pensando em você/ Fez a Via Láctea, fez os dinossauros." (Djavan, "Eu te devoro")

2) "Eta, eta, eta/ É a lua, é o sol/ É a luz de Tieta" (Caetano Veloso, "Tieta")

3) "Olha, olha, olha a água mineral/ Água mineral, água mineral" (Carlinhos Brown, "Água Mineral")

4) "Beija eu, beija eu/ Beija eu, me beija" (Marisa Monte, "Beija eu")

5) "Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos que eu darei na sua boca" (Vinicius de Moraes, "Chega de Saudade")

6) "Aquele fio de cabelo comprido/ Já esteve grudado em nosso suor" (César Menotti e Fabiano, "Fio de cabelo", cantada por Chitãozinho e Xororó)

7) "Que só eu que podia/ Dentro da tua orelha fria/ Dizer segredos de liquidificador." (Cazuza, "Codinome Beija-Flor")

8) "Seu guarda, seja meu amigo/ Me bata, me prenda, faça tudo comigo/ Mas não me deixe/ Ficar sem ela." (Fátima Leão e Elias Muniz, "Dormi na praça", cantada por Bruno e Marrone)

9) "Meus vinte anos de 'boy, that's over, baby', Freud explica/ Não vou me sujar fumando apenas um cigarro/ Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom/ Quanto ao pano dos confetes já passou meu carnaval/ E isso explica por que o sexo é assunto popular." (Zé Ramalho, "Chão de giz")

10) "E aos trancos e barrancos, lá vou eu/ E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu/ E deixa a vida me levar (vida leva eu)/ Deixa a vida me levar (vida leva eu)/ Deixa a vida me levar (vida leva eu)." (Zeca Pagodinho, "Deixa a vida me levar")

11) "Ô, esse coqueiro que dá coco." (Ary Barroso, "Aquarela do Brasil")

Claro que cada um fica convidado a incluir sua pedra de toque particular. Mas quem vier sugerir alguma frase de Jorge Ben por aqui leva uma bifa. Com observou uma amiga minha, a impressão que se tem ao escutar Os Alquimistas estão chegando é que ele não conhecia o significado de nenhuma palavra, mas foi juntando os substantivos, adjetivos e verbos da maneira certinha...

Escrito por Rafael | 03:49 AM | Comentários (2)

junho 27, 2007

Melhor cronista = quadrinhista

Vai lá ler: Eternity, uma crônica em quadrinhos sobre a passagem do milênio por Eddie Campbell. Tem (tinha, a história é de 2001) alguém fazendo alguma coisa assim com texto hoje em dia? Duvido.

Outra coisa é que morar na Austrália esclarece muitas das referências perdidas anteriormente. Nessa história é a palavra título, que era rabiscada nas ruas de Sydney e foi transformada em slogan do milênio na ponte da cidade. Outro exemplo: Peter Carey passa um livro inteiro apelidando um amigo meio grosso de Kelvinator. O tradutor brasileiro só pegou o trocadilho com exterminator. Não sabia que é uma marca de ar condicionados aqui. Dos graus Kelvin, de lord Kelvin.

Escrito por Rafael | 01:55 AM | Comentários (1)

junho 25, 2007

Aceitação

É impressão minha ou os melhores quadrinhos sendo publicados nos últimos tempos, todos, têm por tema a aceitação; aceitação de si mesmo, aceitação da própria personalidade, aceitação da sua identidade?


american born chinese

American Born Chinese é a história de um filho de imigrantes chineses nascido na Califórnia e seus problemas em se adaptar à nova escola da cidade para onde seus pais se mudam, onde a presença asiática é presumivelmente menor. Em paralelo, o autor narra a tradicional fábula chinesa do Macaco Rei, deidade da montanha dos macacos que é barrado numa festa para os deuses no céu porque, bem, porque é um macaco. Revoltado, resolve aprender e dominar as disciplinas do kung fu para provar aos outros deuses que era um igual a eles, ao mesmo tempo em que o chinês-americano se vira para se integrar com os demais alunos e mandar uma letra para cima da loirinha da sala. Tem ainda uma terceira história contada em ritmo de sitcom, a visita de Chin-Kee, um esterótipo de oriental que parece saído dos gibis da II guerra, a seu primo americano Danny. A solução encontrada para amarrar as trêns narrativas é magistral.

Persépolis

Persépolis é a história de como a revolução islâmica, comandada pelo aiatolá Khomeini, interferiu na vida de uma menina iraniana então entrada na adolescência. O primeiro capítulo dá conta de como o golpe se instaurou. O
segundo, como a vida das famílias foi paulatinamente sendo transformada pela radicalização xiita. Mas é no terceiro que está o grande golpe, quando a menina é enviada pelos pais para um exílio de estudos em Genebra, isolada da família, período que coincide exatamente com a ebulição dos hormônios e suas tentativas de socialização entre os jovens europeus. No afã de reunir-se com o grupo de amigos, Marjane adota um penteado e maquiagem punk (estávamos em 1986), começa a consumir as drogas recreativas deles e acaba descendo numa espiral de auto-destruição que só se encerra quando da visita iminente da mãe. É a senha para ela recolocar o véu que começara a usar forçada por causa da revolução e recupera sua identidade cultural perdida.

Black Hole

Black Hole é a história de como uma praga sexualmente transmissível que deforma fisicamente os contaminados se alastra entre uma comunidade de adolescentes norte-americanos na década de 1970. Black Hole já foi comparada á
uma metáfora sobre AIDS, a um estudo sobre a absorção da contra-cultura, a uma análise sobre a alienação entre as escolas, mas o grande tema que atravessa as páginas não é nada disso: é simplesmente o amadurecimento em sociedade, como cada adolescente reage ao rito de passagem para a idade adulta, as dores e consequências para quem atravessa e para quem não consegue.

Aceitação entre estrangeiros, aceitação na sociedade, aceitação da própria identidade e personalidade. Conformismo? O que teria aconteciado ao potencial confrontador da arte? Respostas à parte, é difícil imaginar onde esses temas estejam sendo ficcionalmente tratados de maneira igualmente complexa.

Persépolis foi publicada em 4 partes no Brasil pela Cia das Letras, que há rumores irá lançar American Born Chinese em 2008. Os mesmos rumores dizem que Black Hole será publicada pela Conrad.

Escrito por Rafael | 03:03 AM | Comentários (1)

junho 18, 2007

Corrida de saco II

Instantâneos da corrida de saco do II Arraiá de Perth, a festa junina local, baterias junior e sênior masculino. Jogo dos sete erros: comparar os esgares de determinação dos competidores e determinar quem tem a menor idade mental...


corrida de saco, bateria junior masculino


corrida de saco, bateria senior masculino

Diga-se a verdade, foi mais disputada do que ano passado...

Melhor momento: durante a quadrilha, o locutor avisa (tem um nome pro cara que comanda a quadrilha?):
-- Olha cobra! É mentira! Olha o John Howard!...

Segundo melhor momento: entreouvido na torcida, segundos antes da corrida de saco, bateria sênior feminina:
-- Quem derrubar minha sogra ganha 50 dólares!!!!

Escrito por Rafael | 11:52 PM | Comentários (0)

junho 12, 2007

Bruno nos livros

Bruno Garschagen manda avisar: criou um blog novo, homônimo. Ele mesmo explica:

A idéia aqui é meter o bedelho, olhos e dedos (ops!) tanto no noticiário sobre literatura quanto nos livros lançados, que, claro, vou selecionar para comentá-los.

Será, ou se pretenderá, ser um blog crítico, mas nada de crítica literária, resenha e demais vulgaridades. Vou chamar os comentários de pequenos ensaios. Fica bonito e evita que gente do sindicato venha me cobrar contribuição por exercer o ofício de crítico.


Escrito por Rafael | 11:54 PM | Comentários (0)

junho 11, 2007

Solidariedade

Em solidariedade ao Ram, republico aqui recente texto dele:

Vez por outra ouço críticas direcionadas a pessoas (inclusive a mim) que "falam mal do Brasil sem por ele nada fazer" (como se o Brasil fosse uma pessoa), ou pessoas que estão no "exterior" e querem "criticar o país". Talvez, se ao invés de defensivamente aceitar uma crítica a práticas correntes da sociedade, como sendo um insulto pessoal, pudessemos trocar idéias estaríamos todos em uma situação melhor.

A história tem dado repetidos exemplos de como pessoas que puderam experimentar em outras sociedades tiveram ótimas idéias e profundo impacto nas sociedades onde nasceram. Eu, particularmente, amo o Brasil, mas não considero nação alguma acima do indivíduo. Para mim, quanto mais uma sociedade respeitar a individualidade das pessoas, e menos impor leis para regular isso, melhor para todos. Melhor porque cada um pode fazer aquilo que quer, aquilo que está melhor preparado para fazer. Ao mesmo tempo, valorizar a individualidade das pessoas significa respeitá-las da maneira mais consciente possível.

Muitas pessoas imaginam que para fazer "bem" para alguma coisa você tem que estar em contato direto com ela. Mas será que isso é mesmo verdade? No Brasil cansamos de ter exemplos de cientistas que fizeram carreiras no exterior, mas que contribuiram mais pela ciência no Brasil do que muitos professores encastelados nas universidades locais. Um exemplo recente é o professor Miguel Nicolelis da Duke University, que inclusive é cotado para o prêmio Nobel. Após realizar seu doutorado no Brasil, ele seguiu para uma carreira acadêmica no exterior, onde teve o apoio financeiro e a independência para realizar diversos experimentos na sua área de pesquisa. Estas descobertas e sua influência permitiram que muitos brasileiros tivessem acesso a estágios no exterior e a laboratórios que permitiram desenvolver mais profundamente pesquisas conduzidas no próprio país. Prof. Nicolelis, um apaixonado pelo nosso país, mais estabelecido, resolveu batalhar para abrir um centro de neurociência no Brasil, que fosse referência mundial. Este projeto está em andamento em Natal (RN).

Obviamente, para sua empreitada, ele recaiu nas mesmas dificuldades que muitas vezes já foram comentadas por todos que tentam exercer atividades independentes no nosso país: excesso de intereferência da burocracia local, existência de grupos estabelecidos aos quais não interessam mudanças nas regras do jogo, etc. Só que ele conseguiu subverter as regras do jogo, pois trouxe consigo novas maneiras de pensar e novas formas de financiar sua empreitada. Acho muito difícil que sem sua influência internacional, e sua capacidade como pesquisador provada através de um grande número de artigos, ele pudesse ter o impacto que está tendo na sua área dentro do nosso país.

Esta é uma dura realidade para todos que lidam com tecnologia e com conhecimento no Brasil. Era a dura realidade indiana e sul-coreana também. Até que a massa de emigrantes se tornou financiada por capital em seus respectivos países, trazendo não só dinheiro, mas técnicas, tecnologia e conhecimento. E em ambos países, pelo que meus colegas de lá comentam, a resistência foi enorme. As pessoas locais se sentem ameaçadas pelas mudanças e críticas e novas idéias. Mas, no fim, o conhecimento e a independência sempre prevalecem.

Da mesma forma, como eu condeno quem menospreza uma pessoa por sua origem, ou pelo local onde fez sua graduação, procurando sempre enaltecer os pontos fortes dos diplomas brasileiros em todas entrevistas e processos de contratação em que participo, eu também critico tudo que acho que está errado na nossa sociedade. É bom criticar, porque às vezes você encontra outras pessoas parecidas com você, e somente assim mudanças podem ser feitas. Ninguém muda nada sozinho, ou constrói um projeto sem ter apoio. E nada vai mudar se as pessoas se acomodarem.

Uma das minhas primeiras experiências no exterior, tendo saído do Brasil foi ter que ouvir "não" ou "esta idéia é ruim" para minhas idéias. E foi o melhor que poderia ter me acontecido, porque passo a passo fui melhorando a minha abordagem, e meus métodos de criar e fazer engenharia. Então, aprendi: ouvir "não" faz bem, torna o "sim" mais valioso.

Infelizmente, a nossa sociedade precisa melhorar muito, porque estamos estagnados numa época em que que o mundo inteiro está dando saltos grandes. Para isso, viajar um pouco faz bem. Ir a Bangalore, a Mountain View, a Seul, a Shangai abre nossos olhos para possibilidades, e também para o tempo perdido. A melhor política na vida é ser honesto consigo mesmo. Isso vale tanto para o nível pessoal, como para o conjunto da sociedade.

Eu, pessoalmente, adoro estar no Brasil, e quero poder voltar tão logo eu possa. Ao mesmo tempo, vou retornar nos meus termos, e não naqueles impostos por pessoas que foram incapazes de construir uma sociedade melhor nas coisas que me interessam. Muitos outros brasileiros aqui, que são permanentemente criticados por acadêmicos e isolacionistas de plantão, têm colaborado muito diretamente para a melhora do país, oferecendo palestras gratuitas nas universidades, montando colaborações em projetos diversos, lutando pela admissão de mais brasileiros em programas acadêmicos internacionais e em empresas aqui, e organizando investimentos.

Tudo é feito em silêncio, porque a primeira coisa que você aprende para fazer um projeto ou uma idéia que dê certo é que o importante é fazer, e não trompetear resultados. Vocês não imaginam os ataques entricheirados que acontecem a todas estas pessoas (inclusive dificultando ou impedindo o progresso de projetos e até de trazer investimentos de fora)... Desafiam qualquer lógica razoável. Se ao invés de temermos a competição ou sucesso alheio, procurarmos aprender com tudo e todos, como é minha política pessoal, acho que seremos todos melhores.

Escrito por Rafael | 12:22 AM | Comentários (4)

junho 08, 2007

Fracassos empresariais

Na semana em que o Polzonoff se preparava para voltar para o Brasil, o NoMínimo anunciou que ia fechar as portas e o Lisandro soprou as velinhas de um ano do fim do sebo do qual era sócio, Le Bon Sebon. Eu já estava morando fora, mas estive presente na inauguração da loja e a concentração para um dos meus bota-foras foi lá; sou amigo dos 5 sócios. Nunca é divertido ler sobre fracassos empresariais, mas pode ser bastante elucidativo -- alô alô Edu Carvalho, você que gosta de ler livros gringos sobre administração, se liga nesses cases tipicamente brazucas.

Nem o Lisandro nem os editores do NoMínimo saíram batendo a porta, mas tem uma nítida diferença de postura nos textos de despedida de cada um deles -- talvez porque ele tenha tido um ano para matutar sobre o assunto, mais provavelmente porque os editores não aprenderam a lição do NoPonto. Na despedida anunciada, escreveram assim:

Nosso patrocinador, a Brasil Telecom, que nos mantém desde o início sob a lógica empresarial de nos comercializar e, sobretudo, municiar com notícia e opinião seus três portais – IG, iBest e BrTurbo -, alega motivos de economia, cortes de despesas, não lhe interessa – o que é pleno direito dela – sequer cogitar participação menos onerosa com novos possíveis sócios na operação. (...)

Desde fins de abril, quando o site recebeu aviso prévio para rescisão do tal contrato de patrocínio, seus editores têm cumprindo à risca todos os rituais cabíveis nessas batalhas em busca de parcerias honrosas para o nosso negócio. Encaramos a Ponte Aérea naqueles dias, batemos às portas de executivos, agências de publicidade, portais, entidades empresariais... Encontramos muita boa vontade, elogios mil, disposição para ajudar a manter
o NoMínimo vivo, aqui e ali até alguma indignação demasiada com a situação, mas dinheiro que é bom, até agora neca.

Chama a atenção como a idéia do patrocinador aparece quase como sinônimo de solução para os problemas financeiros do saite; em momento nenhum levantam-se opções para uma engenharia financeira que saneasse o portal -- anúncios de publicidade, micropagamentos, fechar parcialmente o conteúdo: ou a cornucópia do patrocinador, ou nada; o calcanhar de Aquiles bem exposto à flecha do mercado.

Esses dias chegou na minha caixa postal um interessante comentário lembrando que o YouTube e o Google foram criados por programadores de dados, não por cineastas ou bibliotecários. Os editores e redatores do NoMínimo acreditaram que bastava prover conteúdo de qualidade para serem remunerados. Estavam errados.

Quando se explora a internet no que ela é superior aos outros meios -- interatividade, facilidade de acesso, multimídia, doses cavalares de informação -- o resultado é um sucesso que praticamente independe do conteúdo; não importa se as notícias são relevantes, importa se o mecanismo de busca ordena-as corretamente pela popularidade; não importa se os vídeos são bons, importa se você encontra aquela cena de novela antiga no YouTube. E se pode colocar a sua cena preferida no banco de dados deles. O NoMínimo ainda se comportava demais como uma revista ou jornal, onde cada redator é soberano de seu espaço e pouco ou raramente se digna a interagir com os leitores, segregados em seção à parte. Quando evoluíram do formato de colunas para entradas de blog, se atrapalharam ainda mais, porque abriram mão da perfeição do texto jornalístico extenso sem ganhar em agilidade ou informalidade. Não pintando nenhum patrocinador, a saída dos profissionais será voltar à mídia impressa, de onde, aliás, nunca estiveram muito longe em termos editoriais.

No final rola até uma mal-criação, na linha as-uvas-estão-verdes:

Não à toa, dispomos de uma carteira qualificada de leitores, audiência escolarizada, interativa, bem distribuída no território nacional, com poder de consumo acima da média, formadores de opinião por excelência

Dispõe mesmo? Seria tudo cegueira das agências de publicidade? Ou na verdade o segmento de leitores era ainda suficientemente pequeno e pouco representativo para ser ignorado sem detrimento de mercado? E cadê os dados que comprovam isso? Cadê as estatísticas sobre o público leitor do NoMínimo? A impressão que eu tenho é que basta ter acesso à internet e ler notícias no ar para se transformar em formador de opinião...

Agora vejamos como o Lisandro analisa o fechamento da livraria. Primeiro ele lista os motivos que fizeram os sócios acreditar no sucesso do empreendimento:

Tínhamos a sorte de estar ao lado de alguns dos teatros mais prestigiados do Rio e na galeria que abriga os bares mais freqüentados do Leblon.

Aparecemos três ou quatro vezes na coluna Gente Boa do Joaquim Ferreira dos Santos com nossas brincadeiras, sem contar com outros colunistas que se encantaram com o nosso jeito gaiato de ser.

Quando a vaca foi pro brejo, houve os esperados atritos entre os sócios. Faz parte do processo de aceitação do leite derramado a caça de um bode expiatório:

Botei a culpa do nosso fechamento em um monte de coisas: no fim do ESPAÇO LEBLON DE CINEMA, na baixa qualidade de algumas peças, na pouca divulgação que o nosso dinheiro nos permitiu fazer, na situação econômica do país, e até no mau olhado de alguns desafetos.

Se um ano não foi tempo suficiente para pagar as dívidas, foi para esfriar a cabeça e entender o que aconteceu. As respostas são tão simples que vê-las é mais um exercício de percepção do que de técnica gerencial:

Sei agora que o nosso planejamento (isso, esse sebinho teve business plan) pecou em diversas premissas. A primeira foi que por estarmos no Leblon, bairro rico e de tradição cultural, iríamos vender bem. Ledo engano. De 70 a 80% das ligações e pessoas que recebíamos queriam vender e trocar livros. Comprar? Foram poucos, mas bons, e a eles agradeço.

A segunda foi que o teatro atrairia público para nós. Besteira. O teatro não é mais um evento cultural, mas, sim, social.

E por fim, só para não ficarmos remoendo os meus enganos por tempo demais, os bares. Achávamos que o clima boêmio da galeria teria tudo a ver com cultura. Que nada! Quem vem a bar, fique bem entendido, quer beber.

Resumindo: premissas erradas. O que matou o Le Bon Sebon, basicamente, foi a constatação de que, num bairro rico, o interesse por cultura se dá essencialmente como uma questão de status, de poder; ninguém está muito interessado no saber. Foi entender que existia um abismo por parte dos clientes entre a idéia de obter conhecimento e a idéia de pagar por ele: assim como os frequentadores do Leblon não estavam interessados em consumir cultura de formas que não expressassem riqueza -- comprar livro usado certamente não é uma -- os leitores de NoMínimo acreditam piamente que o conteúdo deve ser gratuito e aberto. Que venha o maná cultural do céu.

Numa sociedade que acredita no mercado como forma de distribuir riqueza, estão ambos, essencialmente, errados. Talvez a melhor parte do que o Lisandro escreveu está nas soluções possíveis que, hoje, ele enxerga para salvar o sebo:

O que você poderia ter feito para nos ajudar? Doar livros legais, o que diminuiria os nossos custos. Comprar mais, afinal, por pior que isso seja, era a falta de dinheiro que nos afligia. Trazer amigos para conhecer a loja era uma boa; bons e novos clientes poderiam ter levantado o nosso ânimo e as nossas finanças. Quem sabe divulgar a loja; quanto mais pessoas soubessem de nós maiores as nossas possibilidades de sobrevivência.

E a generalização que faz para Fazer do Mundo Um Lugar Melhor:

Se você gosta de um determinado lugar ou loja, freqüente-o com regularidade. Se sentir que os negócios não vão bem, fale com os donos ou gerentes. Pergunte o que pode fazer para ajudar e leve seus amigos para conhecer o lugar.

É difícil? Paca. Mas é melhor do que negar-se a mudar de comportamento e ficar se queixando das injustiças do mercado, da mesquinharia dos patrocinadores, das agruras do capitalismo ou qualquer um dos vilões de plantão. Quando não se quer resolver um problema, mil justificativas aparecem.

Escrito por Rafael | 12:41 AM | Comentários (3)

junho 07, 2007

O irmão do presidente e a academia

Guilherme de Figueiredo é um dos meu escritores prediletos. Quando descobri Bacchus, do Eddie Campbell, suas peças de teatro foram a primeira coisa que me veio à cabeça; se você achou original a idéia de Neil Gaiman em colocar deuses da mitologia antiga armando presepadas, saiba que pelo menos 45 anos antes, e no Brasil, com indefectível sotaque carioca, Guilherme de Figueiredo já o fazia, no teatro, com Um deus dormiu lá em casa.

Teve uma biografia tão interessante quando a obra literária: dizia ser o único brasileiro que teve um pai prisioneiro político -- líder da revolução constitucionalista de 1932, encarcerado por Getúlio Vargas -- e um irmão presidente -- o último da linhagem dos generais, que deu nome a um dos melhores blogs que já se escreveu nessa terra, Saudades do Presidente Figueiredo. Guilherme fez colégio militar e, se não seguiu a carreira da família, também não perdeu a dureza dos militares jamais. É curioso que isso não tenha embotado seu gosto pela gastronomia, música, pelas artes: traduziu Tartufo de Moliére, pesquisou para um compêndio sobre pratos típicos brasileiros.

Reli esses dias o que talvez seja seu livro mais interessante, As Excelências, no qual conta como foi derrotado para uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Quando de sua candidatura, no começo dos anos 1960, Guilherme tinha pelo menos dois fortes cabos eleitorais lá dentro: Aurélio Buarque de Hollanda e Jorge Amado. E um fortíssimo oponente: Deolindo Couto. Quem?

Deolindo Couto era médico e amigo dos vários então acadêmicos; concorria pela quarta vez. À base de muita política, conseguira a promessa de inúmeros votos, apesar de não ter obra literária. Cada capítulo de As Excelências narra o encontro com um dos imortais, a protocolar visita de pedido de voto que era norma na instituição antes do email e do telefone, na qual o candidato se apresentava formalmente e presenteava um pacote de suas obras, com dedicatória. Guilherme cumpre o requisito, mesmo sabendo que a maioria de seus anfitriões já tinha declarado voto em Deolindo, e aos poucos vai compreendendo o mecanismo de uma eleição.

Muitos acadêmicos justificam o voto situando Deolindo na cetagoria dos expoentes, gente notória que Joaquim Nabuco teria convencido Machado de Assis a incluir na academia para agregar celebridade e vulto à casa: numa dessas vagas, teria entrado originalmente o aviador Santos Dummont. Só que Deolindo não era o Pitanguy de seu tempo. Não desenvolvera nenhuma técnica excepcional nem era reconhecido mundialmente: sua grande força fora a insistência em cooptar votos e consciências através de favores prestados ao imortal ou sua família. É aqui que o livro de Guilherme cresce, na sua intransigência em esfregar na cara de cada eleitor o papelão que fez ao preterir um escritor em nome de um médico. Sua capacidade em recortar somente a parte fundamental dos diálogos é a do grande dramaturgo, que caracteriza um personagem com duas falas -- e mesmo que hoje em dia os nomes Viriato Correa, Rodrigo Otávio Filho ou Afrânio Coutinho lembrem mais ruas do Leblon do que grandes escritores, tem-se a noção exata de quem é cada um deles através da descrição do ambiente e do diálogo que se seguiu.

Nesses momentos, é notável como Guilherme Figueiredo fica parecido com seu irmão presidente, no humor duro das respostas curtas que desfere ante as mesuras dos imortais. Raimundo Magalhães Junior, visivelmente constrangido pelo tratamento grátis que Deolindo prestara à sua esposa, confessa:
-- Na próxima vaga, votarei em você.
-- Não. Votará no seu quitandeiro. Depois, no vendeiro. Depois, no alfaiate. Quando você estiver quite, então será minha vez.

Parece ou não parece o finado general afirmando que, ganhasse salário mínimo, daria um tiro no côco?

E é assim com quase todos, ou pelo menos, todos os eleitores supostos de Deolindo. Em momento algum, entretanto, o amargor toma conta do relato e se sobrepõe à trajetória de Guilherme Figueiredo, que constrói um livro ao mesmo tempo ágil e tocante. Sua história, entretanto, não é nova.

Pleitos assim colocaram Monteiro Lobato fora e Getúlio Vargas dentro da academia. Juscelino Kubitschek ia entrar mas o então presidente, Austregésilo de Athayde, fez o jogo da ditadura e manobrou para que ele ficasse apenas um par de votos atrás da consagração. A inclusão dos chamados expoentes sempre foi motivo de polêmica, particularmente quando o adversário era escritor conhecido ou intelectual respeitado, raça cada vez mais rara. O último expoente eleito foi o cineasta Nelson Pereira dos Santos; note-se que não se deve colocar Paulo Coelho nessa categoria, apesar de José Sarney ter entrado claramente mais por motivos políticos do que por sua extensa obra literária.

Os mesmos critérios, aliás, que fizeram o ex-vice presidente da república Marco Maciel derrotar o jornalista Fernando Morais. Pode parecer incompreensível que Manoel Bandeira tenha votado em Deolindo Couto contra Guilherme de Figueiredo, mas quando se vê Nélida Piñon declarando apoio a Maciel desde a primeira hora, entende-se como a casa funciona, quem pretendo colocar para dentro. Fernando Morais acabou vítima do próprio veneno ao ser protocolarmente político sobre o resultado, mesmo sob a frustração de ter tido metade dos votos que esperava, porque sabe o quanto pode precisar daqueles apoios no futuro. Guilherme não sofria desse mal e deu nome a cada vaca sagrada. É exatamente nesse ponto que está a qualidade do livro, na sua sinceridade rascante, na fidelidade canina a um tipo de comportamento. A todos os acadêmicos que lhe recomendam aceitar a derrota para candidatar-se de novo e não se preocupar com a vaidade, responde o mesmo: não se candidatará novamente, porque entende que um escritor só deve fazê-lo se sua obra tiver melhorado entre as candidaturas (uma estocada clara em Deolindo, que só crescia a monta de favores entre uma e outra eleição) e a vaidade era de seu pai, não dele, já idoso, teria a satisfação de ver um filho imortal. Mais uma vez, a firmeza de um general.

Escrito por Rafael | 05:30 AM | Comentários (1)

junho 04, 2007

Cada macaco no seu galho

Peter Carey em 30 dias em Sidney, da coleção um escritor, uma cidade, em tradução de Bernardo Carvalho:

Não espero ser capaz de transmitir a nenhum leitor a minha própria idéia da beleza da baía de Sydney, escreveu Anthony Trollope. Nada vi parecido entre todas as angras e enseadas, nada que se compare. A baía de Dublin, a baía de Spezia, New York e a enseada de Cork são todas belas e pitorescas. A baía de Bantry, com seus braços de mar correndo até Glengarrif, é adorável. Mas nada se iguala a Sydney em forma, cor ou variedade. Não conheço Nápoles, nem o Rio de Janeiro, nem Lisboa, mas pelas descrições e imagens sou levado a crer que nenhuma delas pode possuir tamanho encanto como o das águas contidas pelas Sydney Heads.

(...)

Dez minutos depois de ter sido resgatado, estava andando pelas areias firmes de Bondi Beach. Qual praia metropolitana em todo mundo pode se igualar a esta? O Rio? Nunca estive lá. Veneza? Santa Monica? Não me faça rir.

Ruy Castro, no livro Carnaval no Fogo, parte da mesma coleção, onde um escritor é convidado a escrever sobre uma determinada cidade:

Um anúncio sobre o Rio publicado há tempos dizia: "Venha morar na cidade onde você gostaria de passar as férias." Na foto, em página dupla nos jornais e revistas, uma visão acachapante das praias ao nascer do sol. Mas tente explicar nas poucas linhas de um anúncio a relação do carioca com a praia. Não é como a dos americanos na costa da Califórnia, nem como a dos franceses na Côte d'Azur -- lugares que, para ser desfrutados, exigem um longo planejamento, seis meses de economias e um carro levando mulher, filhos, cachorro e uma enorme quantidade de bagagem, tudo isso para duas semanas de férias. Nesses lugares, as pessoas vão para a praia, como se estivessem indo para um hotel nas montanhas ou para outro país. No Rio, vai-se à praia, como se vai ao cinema, às compras ou ao banco -- porque ela está ali 24 horas por dia, o ano inteiro, e com uma cidade inteira ao redor, com todos os serviços disponíveis.

Aqui, a praia não se resume a uma tolaha para ficar esticado ao sol. É toda uma cultura. Vai-se à praia ler jornal, encontrar os amigos, jogar futevôlei, conhecer gente, saber das últimas e, às vezes, até para falar de negócios. É um espaço tão natural quanto a praça, o restaurante ou o escritório.

(...)

E que bom que, desde cedo, os portugueses tivessem a consciência de que as praias deviam ser públicas -- não divididas em curraizinhos particulares, como em quase toda a Europa.

Parece que um estava escrevendo para o outro ler...

Escrito por Rafael | 04:08 AM | Comentários (1)

junho 01, 2007

Restaurante da Mira, Recife, PE

Há mais de 10 anos fiz uma das refeições mais memoráveis de minha vida em Recife, no Restaurante da Mira. Ir no carro alugado da Boa Viagem até a Casa Amarela, em busca do estabelecimento, corresponde a ir de Copacabana à Ilha do Governador. Mais estranho foi termos errado só uma entrada. O restaurante não tinha cardápio impresso; quem fazia as ordens da casa era o Edmílson, misto de garçom, mestre de cerimônias e figuraça. Como o restaurante ocupava os cômodos de uma casa convertida, o Edmílson foi nos apresentando cada cômodo num linguajar que lembrava o do partideiro-alto portelense Manacéia: banheiro era parque aquático e as plantas eram exposição botânica; nunca esqueci dos acompanhamentos: ACM, mandioca fluente e fruta cítrica -- respectivamente pimenta, farinha e limão. Tinha um quarto escurecido e com ventilador para quem tivesse exagerado, a UTI. Na saída, ainda ganhei um boné do estabelecimento. Se você for lá, vai ver que as paredes são decoradas com fotos dos clientes, como Chico Science e Marco Maciel. Meu companheiro de mesa há dez anos voltou lá há pouco e me escreveu o sucedido:

Estive semana passada em Recife e tive a oportunidade de voltar ao Restaurante da Mira, lembra-se? O ambiente continua o mesmo, e os pratos leves como antes: dobradinha, buchada, língua, galinha cabidela, cabrito, sarapatel e mocotó. Isso sem contar com a recepção à base de frasqueira de café cheia de sururu e doses "pediátricas" de cachaça.

O lendário Edmilson "cardápio oral" continua em plena forma. Além da UTI, aquele quartinho com beliches para quem comer/beber até ficar derrubado, o cara agora inventou o "blecaute conjugal": um quarto discreto onde os clientes podem almoçar com suas amantes fora da vista dos outros fregueses. Um figuraça, esse cara. Você acredita que ele lembrou vagamente da gente, devido à nossa foto na "galeria" do restaurante?

E agora ainda tem novidade na Mira: sobremesas. Foi-me oferecida, segundo a descrição do Edmilson, uma "simbiose glicosada não-ortodoxa na horizontal". Na verdade um queijo coalho com doce de banana e mel. Coisa leve e digestiva, após uma refeição ligeira.

Ah sim, a frasqueira: a primeira coisa que o cliente recebe ao sentar na mesa é uma garrafa térmica do tipo que os ambulantes usam para vender café aos copinhos. Só que o líquido negro em seu interior é caldo de sururu.

Escrito por Rafael | 04:27 AM | Comentários (3)