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agosto 17, 2007
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Cinco anos deixando a bola em condições de até perna de pau marcar. Vai ter comemoração por aqui, sim, e da pesada -- mas não agora, que o bicho tá pegando.
Escrito por Rafael | 08:41 AM | Comentários (4)
agosto 13, 2007
Um green card para John Lennon
25 anos depois da morte, John Lennon continua sendo assunto: dessa vez, foi o documentário U.S. vs John Lennon, explorando o lado politizado do músico. O grande barato é que Lennon não se fez de vítima em momento algum, mesmo quando, hoje os agentes aposentados admitem, foi alvo de um plano para ser expulso dos E.U.A. -- um plano bem mal articulado, diga-se de passagem, ao impôr obstáculos para a cessão do visto de permanência baseados num processo que ele sofrera anos antes, em Londres, quando encontraram maconha em seu apartamento. Segundo Lennon, no começo da década de 1960 havia um agente na polícia londrina cuja tarefa era dar flagrantes em músicos, se necessário plantando provas para tal -- não haveria maconha em sua casa quando o agente esteve lá. "Não na época", acrescenta o beatle. Depois do bed in em Amsterdam, Lennon e Yoko se mudam para Nova Iorque e a primeira providência é virarem amigos de infância de Abbie Hofman e Jerry Rubin, os maiores agitadores de massa da época. O terceiro elemento do trio era o Pantera Negra Bobby Seale, que presta depoimento, assim como Angela Davis, G. Gordon Liddy, George McGovern e várias outras figuras do período. O melhor comentário é o de Tariq Ali, que gargalha diante da hipótese que o maior complexo militar do mundo estaria sacudindo diante dos protestos de um músico, para logo em seguida afirmar que os fatos davam toda a impressão de que era isso mesmo o que estava acontecendo. Nunca é demais lembrar uma das providências do governo Nixon na guerra contra as drogas foi encontrar um símbolo limpo em quem a juventude se mirasse para fugir das drogas -- e convidar Elvis Presley para ser esse símbolo. Não, o melhor é maneira galhofeira como Lennon se recusava a posar de vítima e respondia aos jornalistas. Por que o senhor acha que estão querendo lhe expulsar dessa país? Por causa da minha cara. Eles não gostam dela. Puro humor à Spike Miligan. Depois de cinco anos de volteios burocráticos, com Nixon já caído e a guerra do Vietnã praticamente encerrada, enfim dão-lhe o green card . Questionado se aquele tempo todo de espera tinha valido a pena, sai-se com uma frase matadora: time wounds every heal.
Escrito por Rafael | 07:21 AM | Comentários (2)
agosto 08, 2007
Humor britânico
Não conseguia achar graça nas tiras do Zé do Boné (Andy Capp) até ter morado na Austrália.
Só depois de obrigado a conviver com o inabalável, e põe inabalável nisso, hábito britânico de frequentar pub semanalmente é que comecei a entender qual era a graça daquelas tiras em que pouco acontecia: um papo com o barman, uma partida de futebol, uma diálogo áspero com a esposa. Um inglês morando há mais de 15 anos em Singapura me confessou que essa é a triste vida de muitos ingleses habitantes de cidades menores, economicamente esvaziadas. A questão é que mesmo numa cidade dinâmica você vai encontrar muita gente com hábitos tão repetitivos e chatos, como frequentar o mesmo pub uma vez por semana, nem mais, nem menos, portanto capazes de se identificar imediatamente com o Zé do Boné. Assim como nas tiras o Recruta Zero, onde o General Dureza parou de dar em cima da Dona Tetê e foi obrigado a passar por um curso de reeducação no ambiente de trabalho, o Zé do Boné também sofreu muito com o politicamente correto, que interrompeu as surras periódicas que dava em sua mulher e retirou-lhe a bituca de cigarro que vivia dependurada em seu bico. Humor inglês tem dessas coisas: vai se transformando com o tempo, lentamente, adotando pequenas modificações para permanecer o mesmo; será de se preocupar o dia em que o Zé do Boné parar de beber, mas aí a tira -- e a Inglaterra -- terá acabado junto.
Porque uma de suas características é essa repetição chata, que pode ter 500 anos de tradição por trás mas nem assim vai ser menos chata.
Isso vem de encontro a outra coisa que eu também só compreendi depois de morar na Austrália. Toda vez que eu lia um guia Lonely Planet, invariavelmente encontrava em alguma parte da cidade ou do país as palavras divertido, alegre, descontraído, animado na descrição. E quando ia visitar, me deparava com algo meio morto, devagar, organizado demais para reivindicar o título de descontraído. A fonte do erro: eu estava usando os meus conceitos, enquanto o guia usava os conceitos dele, que apesar de redatores de diversas nacionalidades, ainda segue o padrão britânico de qualidade original. Era sempre a idéia britânica de diversão, descontração, animação -- que é defintivamente diferente da idéia sulamericana.
Provavelmente por isso que eu não achava graça no Zé do Boné, assim como não acho graça em mais da metade dos comediantes australianos nem nos do festival de Edimburgo. Quando visitei Sydney, uma das atrações vindouras da ópera era exatamente o destaque do festival do ano anterior, com um número entitulado "I am afraid that I started to hate almost everything in the world" ou coisa assim, que em tradução literal seria "Eu temo ter começado a odiar quase tudo no mundo", um título inacreditavelmente rude para um espetáculo de humor. Exceto fazendo circuito de cidades do interior, cômicos não costumam fazer sucesso no Brasil. Na década de 1970 Chico Anysio e Jô Soares lotaram teatros com nada mais que um banquinho e um microfone, e seus espetáculos eram considerados ousados pela frequência de palavrões e piadas que não poderiam passar na censurada televisão. Os primeiros números da revista Pif-Paf, de 1964, elegiam Sergio Porto como instaurador da grossura dentro do humor nacional. Sergio, Chico e Jô eram cândidos se comparados com a truculência do humor médio britânico. Um dos quadros mais famoso do Monthy Python, o do cara que tenta vender um papagaio morto, apóia-se em muito da violência de John Cleese para encontrar sua graça (grande parte dos quadros de John Cleese e do seriado Fawlty Towers, escrito e atuado por ele, se apoiava nisso). Spike Milligan fechou uma das apresentações comemorativas para o público do programa de rádio The Goons expulsando o público.
Polzonoff comenta que brasileiro é muito mau humorado, porque não acha graça em certas piadas. Tem razão; está explicado o porquê.
Escrito por Rafael | 06:16 AM | Comentários (4)
agosto 06, 2007
Desespero total
Eu não queria volta nesse assunto, mas as últimas semanas foram tal avalanche de pessimismo que resolvi fazer um pior de. Primeiro foi o costumeiramente lapidar Pellizzari:
Brasil é cachorro raivoso, só matando. O negócio tá horrendo.
Depois, a notícia de uma amiga avisando que iria sair do país no final do ano. Lisandro tentando se explicar, piorou ainda mais:
Todas essas desgraças, rodando num círculo vicioso, não são desvios mas, sim, o reflexo do que é a população. Se lembra da máxima: cada povo tem o governo que merece? Pois, é. Nunca me pareceu mais real.Por isso, Rafa, temo que, quando você voltar, não haverá país nenhum, se é que havia quando você partiu. Desculpe o pessimismo, mas não vejo saída clara. Se você tiver alguma sugestão, gostaria muito de ouví-la.
Minha sugestão é uma só e muito simples: mudar. Tentar algo que nunca antes foi tentado no Brasil. O que eu quero é evitar a inércia de comportamento que acaba com qualquer opção, como o Zé Rodrix explicou:
Vamos nos acostumando a tudo, como a rã colocada na panela de água fria, que morre sem reagir porque é gradativamente que vai sendo fervida, pouco a pouco, grau a grau. De cada vez que alguem diz "ah, o Brasil é assim mesmo, não tem jeito, o jogo é esse aí" , institucionaliza o equivoco, o erro, o preconceito, a forma distorcida de viver, perpetuando o processo que deteriora a sociedade brasileira hora a hgora, minuto a minuto, segundo a segundo. O mundo vai mudando para pior e, como a mudança é gradativa, ninguem reclama, acostumando-se à fervura pouco a pouco.
É simples: o jogo não é esse; tem jeito. Para entender isso basta a incrível síntese do Ram:
Nada funciona aqui, exceto o que já aí está, e que também não funciona.
E aí, vamos fazer funcionar?
Escrito por Rafael | 06:44 AM | Comentários (4)
Ainda ACM + porque eu gosto
ACM NO OUTRO MUNDO
Miguezim de Princesa
(Codinome de um delegado da Polícia Civil do Distrito Federal)
I
Numa sessão em Angola,
O meu amigo Raimundo
Recebeu alma penada
Que num contar bem profundo
Narrou a fundo a chegada
De ACM no outro mundo.
II
Todo vestido de branco,
Pois já tinha trocado o terno,
ACM se postou
Na entrada do inferno
Para onde foi direto
A mando do Pai Eterno.
III
Carregando água de cheiro,
Viu-se um cordão de baianas
Esperando o grande líder
Numa comitiva bacana
Com mais de 100 deputados
E um cão comendo bananas.
IV
Apareceu Lúcifer:
Com um chicote na mão
E a cara muito amarrada,
Foi logo dizendo, então,
Que entre o babalaô,
Hoje tem reunião.
V
Duma grande mesa de ferro
Já foram se aproximando.
Na cabeceira da mesa,
ACM foi sentando;
Lúcifer deu um pinote
E começou protestando:
VI
- Aqui, quem manda sou eu,
Eu sou o rei da folia!
Pra comer acarajé
Tem de pedir à minha tia.
Já falei pra Juraci
Que aqui não é a Bahia!
VII
ACM não falou
Durante a reunião,
Fingiu concordar com tudo
Que viu na resolução,
Disse: “Tou com Lúcifer,
Vou apertar sua mão”.
VIII
Junto com seis senadores
Começou a passear,
A cumprimentar o povo
Que encontrou no lugar,
Nas esquinas do Inferno
Desandou a discursar.
IX
Lúcifer tava dormindo,
Acordou de supetão,
Pela brecha da janela
Viu muita aglomeração
E ao redor de ACM
Toda espécie de cão.
X
“O Inferno está sem graça”;
“Queremos animação”;
“Lúcifer é um moleza,
Não rouba nem tem ação”
- assim pediam nas faixas
Do diabo a deposição.
XI
Lúcifer inda propôs
Dois turnos de eleição,
ACM fincou pé
Que não aceitava, não,
Pois a vontade do povo
Pedia deposição.
XII
Lúcifer sai correndo,
Pulou um grande portão,
Encontrou do outro lado
Seu amigo Lampião.
Disse: “O homem tá com a gota,
Quer fazer revolução!”
XIII
- A hora é de resistir –
Exclamou Chico Pinguelo.
- Vamos botar pra feder –
Animou-se João Tranguelo.
- ACM hoje vai ver
Como se come farelo!
XIV
Aí, começou uma guerra
(Cacete de cão com cão):
A turma de ACM
Deitou abaixo o portão,
Tinha até uma quitandeira
Com uma vassoura na mão.
XV
No exército de ACM
Se viam até generais;
Lúcifer tinha cangaceiros
Que não acabavam mais
Pra defender o portão,
Reduto de Satanás.
XVI
O grande Lucas da Feira
Se agarrou com Pinochet,
Arrancou o seu bigode
Com uma agulha de crochê,
Deu uma facada em Videla,
Botou Médici pra correr.
XVII
O Cão-Coxo de um pinote
Uma tora de pau pegou,
Zuniu a tora no vento
Chega a direção mudou,
Meteu em Garrastazu,
A tora pegou no sul
Que o norte sentiu a dor.
XVIII
ACM quase morre
Na volta de Cão-Ligeiro,
Escapou manco de uma perna
Por dentro do marmeleiro,
Escoltado por uma diaba
Com um pau de bater tempero.
XIX
Corisco acertou um tiro
No general Golbery;
Castelo Branco, com medo,
Começou fazer xixi;
Lampião disse só falta
Do nosso lado Waldir.
XX
Apareceu Costa e Silva,
Sem saber por quem lutava;
Ernesto Geisel num canto
Com Figueiredo falava,
Enquanto o Cabeça Branca
Na capoeira escapava.
XXI
Se mandou em retirada,
Pegou o caminho do Céu,
Deu um esbregue em São Pedro,
Uma bicuda em São Miguel
E ainda pirraçou
O arcanjo Gabriel.
XXII
Na porta do paraíso
Quando ACM chegou,
Ofegante e agitado,
A santidade esnobou
E disse para São Pedro:
- Não falo com assessor
XXIII
Mandaram chamar Jesus
(Quem chamou foi São Tomé),
ACM se exaltou,
Fez o maior rapapé:
- Eu só falo é com o pai dele,
Daqui não arredo pé!
XXIV
Jesus Cristo então pediu
O parecer de Maria.
Ela pensou direitinho
Enquanto o Inferno ardia:
- Se o Inferno não agüenta,
Se aqui ele não entra,
Só voltando pra Bahia.
Fonte: Persegonha
Faixa bônus:
Essa se passou durante o Pan. E eis que no meio do jogo um sujeito com a camisa 7 da Seleção com o nome do Robinho. Ele se recusava a sentar. Aí, a torcida começou a cantar:
Senta, Robinho!!!
Senta, Robinho!!!
Algum engraçadinho deve ter falado alguma outra coisa que a mulher do sujeito não gostou muito. No que ela, uma mulher adiposamente avantajada, começaa reclamar. Ao ver a Dona Redonda irascível, a torcida não perdoou de novo:
ÃO, ÃO, ÃO,
É LIPOASPIRAÇÃO!!!
ÃO, ÃO, ÃO,
É LIPOASPIRAÇÃO!!!
(Eu sinto muita falta dessas coisas na Austrália.)
Escrito por Rafael | 06:39 AM | Comentários (0)