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setembro 27, 2007
Enquanto isso
Esse mundo e grande, estranho e cheio de possibilidades.
Millor Fernandes costuma contar jocosamente, em entrevistas, uma historia real: ele e vice-campeao mundial de pesca de atum. Foi a maneira que ele encontrou de ilustrar sua visao de mundo, aleatoria e surreal.
A partir desse mes eu tambem vou poder contar por ai que sou campeao mundial. Participei da equipe que bateu o recorde de maior hot tapping do mundo.
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Nesse imbroglio, meu amigo irlandes que fala portugues vibrou quando soube que a Irlanda tinha sido considerado o quarto melhor pais do mundo para se morar, naquela pesquisa em que o Brasil ficava atras da Costa Rica. Mais ou menos na mesma epoca ele passava por um periodo de auto-flagelamento, que consistia em ler, todo dia, a mesma materia redigida de maneira diferente, explicando porque a Irlanda nao consegue vencer no rugby (o campeonato mundial esta acontecendo neste momento, na Franca). Perguntei a ele de que adiantava o pais ser um dos melhores do mundo se seu time nao conseguia ganhar a copa mundial de rugby. Ele riu, riu, riu e depois me mostrou o dedo medio. Grosso.
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Essa copa do mundo de rugby deu o que falar: os maoris neozelandeses vieram me contar morrendo de rir que a Argentina tinha derrotado a Franca (bem pouco popular por aqui). Pouco depois, foi a vez da Africa do Sul bater a Inglaterra por 36 a 0. Um escoces nao escondeu a alegria: vai ter festa em Glasgow, folia em Edimburgo, fogos de artificio em Aberdeen. Australianos e neozelandeses estao confiantes da vitoria, mas a Africa do Sul tem fortes chances de vencer. Ate estenderam uma bandeira dos all blacks (apelido do time neozelandes; o dos argentinos e pumas) la atras.
Escrito por Rafael | 05:26 PM | Comentários (0)
setembro 05, 2007
Isso sim que é lista, Edu!
Já faz algum tempo que estou para escrever isso: me deu vontade de chorar quando vi a lista de livros que o Edu Carvalho ia ler. Aquilo não é lista, é tortura. Na mesma época eu tinha recebido meu pacote do Bud Plant e do Minotaur. Saca só o que é lista de leitura de espera, Eduardo:
Hirschfeld's New York -- coletânea definitiva do macróbio desenhista com suas obras sobre a cidade que elegeu para lar e musa, abrangendo mais de 60(!) anos de carreira. Espantoso não é lembrar que Hirschfeld desenhou quase até os 100 anos de idade, é descobrir que ele fez um desenho com a mesma idéia que celebrizou Saul Steinberg, com a ilha de Manhattan no centro do mundo e o mapa ficando confuso à medida em que se afasta... vinte anos antes de Steinberg.
Superman Chronicles volume 1 -- as 15 primeiras histórias do homem de aço, encadernadas tal como foram concebidas originalmente por seus criadores. Por que ler? Leia Men of Tomorrow para saber.
The Grasshoper and the Ant -- entre as muitas recriações da fábula da cigarra e da formiga, o tempo quase soterrou uma pérola de Harvey Kurtzman para a revista Esquire, uma curta vesão em quadrinhos de 1960. A cigarra fala com gírias beatnik, outros insetos como o mosquito, a borboleta e a lagarta aparecem como antagonistas, desdobrando a simbologia de Esopo. Kurtzman criou a revista Mad e trabalhou para a Playboy, era ao mesmo tempo cigarra e formiga, revolucionário e homem do sistema; ninguém melhor do que ele para contar essa história.
Peanuts: A Golden Celebration -- álbum publicado em comemoração aos 50 anos de existência da tira, quando Charles Schulz estava para se aposentar. Um abrangente apanhado, com comentários do próprio Schulz, além de cartas de leitores, merchandising, cartuns pré-Peanuts, uma preciosidade.
The R.Crumb Handbook -- um livro que consegue ser uma apresentação de Robert Crumb, obra e pessoa, mais eloquente que o documentário de 1995. Acompanha um CD com músicas executadas por diversas formações de bandas com o autor tocando banjo. Não preciso de mais nada de R.Crumb.
Walt Disney Treasures: Disney Comics -- coletânea comemorativa de 75 anos de quadrinhos Disney, cobrindo personagens, estilos e países: tem Mickey feito na Finlândia, Donald feito na Itália e, claro, Zé Carioca feito no Brasil, roteiro de Renato Canini. Um único volume contendo Floyd Gottfredson, Paul Murry, Walt Kelly (que depois criaria Pogo), Carl Barks, Al Taliaferro e Don Rosa: não vou ser chato a ponto de dizer que senti falta do Ub Iwerks.
Best of The Spirit -- Muito caça-níquel foi lançado desde a morte de Will Eisner, e o que é mais surpreendente, a maioria de boa qualidade. Essa edição a preço módico seleciona algumas das melhores histórias feitas para The Spirit, planejada para capturar aquele leitor que nunca imaginou a existência de quadrinhos para adultos (Neil Gaiman, que faz a introdução, é citado como autor de livros).
Passionella and Other Stories -- quarto e definitivo volume da séria da Fantagraphics que compila os trabalhos de Jules Feiffer. Só que esse foge do formato álbum, parece mais com um livro infantil, só que trazendo histórias como Passionella, George's Moon, Harold Swerg e The Lonely Machine, em suma, um tesouro já que faz bem uns 30 anos da última vez que essas histórias foram republicadas. Traz também um par de textos humorísticos.
Harry the Rat with Women -- Peça de teatro escrita por Feiffer e reeditada pela Fantagraphics dentro do mesmo projeto. Depois dessa, Feiffer escreveria Small Killings e os roteiros de Carnal Knowledge e I wanna go home.
Atualização: Alexandre, isso é contigo também ;)
Escrito por Rafael | 05:45 AM | Comentários (2)
setembro 03, 2007
Sumiço parte I
Parte do tempo em que estive sumido foi dispendida em Singapura, onde pude ampliar minha percepção daquele país. Ia revisar o texto de um email mas o Ram mandou para o ar antes e eu achei suficientemente bom para publicar direto:
Singapura continua sendo uma mistura de deslumbre e asco para mim, a incrível quantidade de opções de eletrônicos (visitamos a Sim Lim square, 5 andares de lojas só de produtos eletrônicos, tudo que é tipo de celular, câmera, periférico e tocador de MP3 que se imagine), comida (jantamos num restaurante chamado No Signboard Seafood, no meio do Gaylin district, que é sem tirar nem pôr a versão de Singapura para o Sentaí, mais conhecido como Rei da Lagosta, na central do Brasil), etnias e culturas se espremendo numa cidade organizada, limpa e atulhada demais para ser uma boa opção de vida. Pra não falar no tempo, já que dessa vez o clima tinha passado da fase chove todo dia para a fase chove o dia todo…Assim como São Paulo, Singapura não pode parar — e nem a poluição, nem o trânsito pesado das horas de rush, nem os pedágios são capazes de reduzir o ritmo de uma cidade que não parece dormir: as lojas fecham diariamente 9 da noite e um dia por mês ficam abertas até meia-noite, isso porque abrem de domingo a domingo! Aqui não chegou ainda esse esboço de consciência ecológica que faz os atendentes de Perth ou Berkeley perguntarem sevocê quer uma sacola plástica quando vêem que já tem uma ou o item é pequeno: o nome do jogo é eficiência e ninguém poupa facilitar a vida do freguês. Não espanta que os excessos sejam vistos normalmente como progresso e naturalmente como parte do bem estar. Outro dia vi no 60 minutes uma família na Tasmânia incentivando a derrubada de árvores já que o turismo ecológico não estaria dando conta da atividade econômica e meu amigo de Saint Etiénne me mostrou uma canção que começava com “ecute moi, ecologistes…” e daí em diante ia elogiando o perfume do gás carbônico e a beleza dos rios poluídos: não era troça, era a constatação de que aqueles dejetos eram prova de vitalidade econômica e progresso para a cidade. Os cidadão de Singapura também dão boas vindas ao tráfico pesado e aglomeração pelo mesmo motivo.
Singapura é tão pequena que não tem aeroporto doméstico. Nos hotéis de Las Vegas um canal interno ensina os hóspedes os diversos jogos de cartas; nos de Singapura um canal mostra e dá o endereço das principais lojas e shoppings da cidade, além de atrações turísticas como o safari noturno no zoológico e o museu onde ficava o principal campo de concentração japonês.
No vôo de volta vim assistindo um filme de Bollywood sensacional, chamado Dhoom 2, meio na linha Thomas Crown: um ladrão charmoso executa roubos espetaculares e é perseguido pela polícia, composta de um tira bonitão e um paspalho que faz o papel cômico. (...) as atrizes estão entre as mulheres mais bonitas que eu já vi. O mais genial é que apesar dacandidata a ladra mencionar que gostaria de partir para uma carreira de crimes em Amsterdam-Australia-America (Australia?), o primeiro lugar para onde eles viajam começa com B, exatamente: Brasil, a gloriosa cidade do Rio de Janeiro, sim, um autêntico bollywood passado no Rio. Sensacional ver a versão dos indianos para o Rio folclórico, o Rio de foto do Mario Testino.
Sobre quem eu vi um documentário, antes do referido filme, no mesmo avião. O resto do meu sumiço foi passado na região conhecida como Pilbara, noroeste da Austrália, onde voltei vários meses depois de ter passado por lá. Mesmo no litoral, é seca como um cactus e coberta da poeira vermelha do minério de ferro. Ainda assim, a Austrália consegue vendê-la como uma atração turística por conta dos escritos aborígenes nas cavernas próximas e da beleza dos cânions nos parques naturais, ali e em Kimberley, um pouquinho para o interior, ainda noroeste australiano.
Escrito por Rafael | 07:53 AM | Comentários (2)
setembro 02, 2007
História, tradição, mapas e bandidos
É tempo de Austrália cultuar a história: como se não bastassem as múmias do Louvre, que visitam Perth depois de mais de 20 anos de ausência, o museu marítimo abriga temporariamente uma exposição cartográfica que conta como se deu o mapeamento do litoral e o museu da Western Australia sedia Tesouros Nacionais, uma coleção de relíquias e símbolos dos pouco mais de 200 anos da, como dizem os manuais do politicamente correto, presença do homem branco na Austrália.
A meia hora que se leva para percorrer a exposição cartográfica contrasta com o par de séculos que os navegadores holandeses, franceses e ingleses levaram para completar o que os mapas portugueses haviam começado, o contorno definitivo do litoral australiano. É ali que se confere a importância de Matthew Flinders, perdoando-se o excesso de logradouros e estátuas em sua homenagem na cidade de Melbourne, e se descobre que Dampier, hoje nome de uma importante cidade na costa noroeste, deu uma paradinha no Brasil antes de desembarcar pertinho de onde hoje eu moro. Se o visitante fica desconfiado da ausência de nomes portugueses entre os exploradores, basta lembrar que o trabalho pesado se deu nos séculos XVII e XVIII, portanto bem depois do auge quinhentista -- e que Ferdinand Magellan nada mais é do a versão inglesa do nome Fernando de Magalhães.
Tesouros Nacionais é mais interessantes sobretudo porque ajuda a entender a mentalidade australiana através do que, na falta de algo que justifique o termo Tradição -- algo que remeta a séculos de História --, é valorizado por aqui. A imagem escolhida para ilustrar o cartaz foi o capacete de Ned Kelly, o Lampião, o Jesse James australiano. Assim como o Brasil, a Austrália tem uma longa tradição de cultuar bandidos: toda livraria tem uma seção policial atulhada de volumes sobre assassinos seriais, máfia, gangues de motociclistas e bandidos notórios (além de vastos volumes em ficção sobre os mesmos temas); as prisões de Fremantle e Melbourne foram convertidas em museus e regularmente são palcos de aulas de História para crianças. Talvez a diferença para com o Brasil seja que, além de cultuar, na Austrália os bandidos são presos e enforcados -- nem que para isso tenham que levar 30 furinhos de bala no corpo, todos eles disparados nas pernas e braços, já que o capacete era parte de uma armadura que protegia o corpo de Ned Kelly. Rola uma lenda no museu da imigração chinesa de Melbourne que Kelly pegou a manha para fazer sua armadura ficando de truta com os imigrantes chineses, que lhe passaram os segredos das armaduras dos guerreiros; o fato é que a polícia levou-o ao hospital da prisão, onde ficou somente o tempo necessário para se reestabelecer das feridas, ser julgado e se arrepender amargamente antes de ser enforcado ali mesmo, na viga diante da qual hoje criancinhas de 8 anos hoje ouvem maravilhadas sua história, realimentando a confusão entre criminoso e herói.
Kelly foi escolhido para o cartaz por ser um dos personagens mais populares; há alguns anos um filme foi feito com tudo que é ator australiano em vias de ficar muito famoso: Heath Ledger, Naomi Watts, Cate Blanchett, George Rush. Entretanto, nem se pode dizer que ele é o vilão mais sinistro do país, nem seu capacete, a relíquia mais impressionante. O primeiro prêmio tem que ir para Frederick Deeming, um assassino serial da virada do século tão sanguinolento que chegaram a considerá-lo suspeito de ser Jack o Estripador. Graças à crença na frenologia no final do século XIX, ciência que tentava explicar a má índole dos criminosos pelo formato do crânio, pode-se ver sua horripilante máscara mortuária. Já o prêmio da segunda vai para o diário de ninguém menos que o próprio Capitão Cook em pessoa, aberto numa página em que ele descreve um encontro em que os aborígenes portavam armas parecidas com cimitarras, na verdade o que hoje é um dos símbolos do país, bumerangues. O estilo literário das instruções inglesas dessa época merece estudo por si só e as etiquetas do museu se valem delas para dar colorido á mostra. As cartas oficiais citam que as terras australianas foram anexadas com consentimento dos aborígenes, as etiquetas notam que não se explica como esse consentimento foi conseguido. Os próprios comentários dos ingleses são estranhos; num dos primeiros assentamentos na costa leste, margem norte da baía de Sydney, um exploador observou que que os aborígenes eram másculos (manly), e o nome batizou uma praia muito famosa hoje em dia.
Na seção das grandes invenções tem-se outra boa amostra da mentalidade australiana. Além da viação aérea QANTAS - acrônimo para Queensland and Northern Territory Airlines Service -- está lá o indefectível Holden, apesar da fábrica de carros pertencer à General Motors há mais de 60 anos, ainda é australiano com muito orgulho, com muito amor. Mas você só entende exatamente que país é esse quando encontra entre os destaques o inventor de um varal rotativo cuja patente foi sucesso de venda em todo o país -- um varal circular que mais parece um guarda-chuva gigante estragado. Tem país que se orgulha de seus bandidos, tem país que se orgulha de seus carros, tem país que se orgulha das suas cervejas e tem país que se orgulha dos seus varais.
Escrito por Rafael | 11:33 PM | Comentários (3)