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outubro 30, 2007

Boemia, mas com cartão de ponto

Ironia, ironia mesmo, vai ser ver uma ópera como La Boheme ser aplaudida de pé num país de base cultural protestante onde a ética do trabalho ainda é norma e preguiçoso ainda é o adjetivo padrão de quem não cumpre seu trabalho.

Atualização: foi mais pra Rent do que pra Puccini, e a aparição de dançarino de break no final do segundo ato, logo após a retumbante apresentação de Musetta foi um pouco chocante. Talvez sejam os b-boys os descendentes legítimos dos boêmios que inspiraram a ópera, e talvez Baz Lurhman estivesse certo quando afirmou, ao ambientar uma montagem em 1957 ao invés do século XIX, que os períodos históricos parisienses se pareciam. Mas se eu quisesse adaptação aos tempos modernos, teria ido direto assistir a montagem de Rent, não La Boheme, confere?

Escrito por Rafael | 05:14 AM | Comentários (0)

outubro 28, 2007

Revisando logotipos

Mario AV ficcionaliza o processo de criação do novo logotipo da Varig. Nunca trabalhou em agências de publicidade, mas conhece o meio suficientemente de perto. Talvez a pressa, talvez a certeza de que seu cliente é um idiota, talvez a mentalidade de satisfazer o cliente a qualquer custo apesar disso, que permeia o mundo empresarial, expliquem o absurdo. Nem toda remodelação de logotipo é assim; cito de cara a do Citibank, que rejuvenesceu a marca significativamente e o mais recente ainda redesenho do logotipo da Qantas -- Queensland and Northern Territory Airlines -- que, suavizando as curvas e ajustando as proporções, dinamizou extraordinariamente o canguru alado da companhia aérea australiana.


evolução do logotipo da qantas

Escrito por Rafael | 10:45 PM | Comentários (1)

Horário de verão

Tem umas coisas que definitivamente me fazem pensar que eu estou num fundo de quintal. Hoje de manhã, primeiro dia útil no horário de verão australiano, me perguntaram se eu tinha dormido direito. É o segundo ano seguido em que o estado de Western Australia adota o horário, debaixo de grande polêmica, porque o pessoal é tão, mas tão apegado aos hábitos horários que simplesmente funde a cuca com a hora extra de calor e sol. Reclamam que as crianças não querem ir pra cama à nove. Que fica muito escuro para fazer exercício às seis da manhã. As lojas continuam seguindo o ritual de fechar às 5 e meia, portanto ninguém aproveita a luz extra. Todo mundo janta cedo, então é de pouco uso que o crepúsculo se dê depois das sete.

Não que no Rio fosse muito melhor em termos de adaptação; todo ano, no trem, ouviam-se reclamações de que ninguém tinha dormido direito por causa da mudança. Ao menos, quando o sol se estendia noite adentro, todo mundo sabia o que fazer: ir pra a praia até mais tarde, aproveitar a vida ao ar livre, em suma, adaptar o ritmo diário às horas extras de calor e sol. Vamos ver o quanto os australianos do oeste conseguem sair de suas precisas e bem programadas rotinas. O mais provável é que criem uma rotina B para horário de verão.

Escrito por Rafael | 09:06 PM | Comentários (1)

outubro 25, 2007

Vácuo moral F.C.

Eu sabia que meu hábito de correr os olhos pelas enormes seções de relatos de viagem nas livrarias australianas acabaria me trazendo problemas. Porque australiano viaja: você vai encontrar os mesmos livros que encontraria numa boa livraria do Brasil, escritos por gente que passou um ano na França, na Itália, dando uma volta ao mundo ou pela América Latina -- e, além desses, vai encontrar livros sobre gente que refez a rota da seda, traçou todo o sudeste asiático, trabalhou nos EUA, viveu no Oriente Médio. É um fogo no rabo só. Claro que, com tudo isso, não tardaria a encontrar um viajante que tenha se proposto a escrever sobre o Brasil, mesmo estando longe dos destinos preferidos (no caderno de turismo do jornal só dá Ásia e Europa, e quando pinta América do Sul é para falar de Bolívia ou Peru).

Um dia, tava lá: Chasing Bohemia. Enquanto folheva, mal lembrava eu que já tinha lido um artigo da autora, Carmen Michael, sobre o Rio de Janeiro, na revista de bordo de uma companhia aérea, um artigo que me chamou a atenção por destacar um comentário correto que eu nunca tinha visto em lugar nenhum, sobre a baixa taxa de multiculturalismo da cidade. E logo no primeiro parágrafo. A despeito de alguns erros factuais e vários de grafia, a reportagem era boa dentro da inevitável pílula dourada que é a redação de viagem para revistas de bordo.

O livro vai merecer dissecação detalhada. Logo no segundo parágrafo a autora cita uma conversa com uma inglesa no aeroporto de Heathrow, em Londres, na qual ela afirma que o Rio iria devorá-la viva, não sendo uma cidade para turistas. A tal inglesa tinha desistido e voltado depois de um relacionamento de 5 anos com um local ao longo dos quais ele concebeu dois filhos com outra mulher, sob desculpa que "é que essas coisas acontecem". O comentário final da inglesa é lapidar: apenas as pessoas nascidas naquele antro de iniquidade conseguem sobreviver ao seu vácuo moral.

Escrito por Rafael | 04:49 AM | Comentários (1)

outubro 24, 2007

"This type of behavior"

Um amigo meu acabou de mandar:

CANBERRA (Reuters) - An Australian barmaid has been fined for crushing beer cans between her bare breasts while an off-duty colleague has been fined for hanging spoons from her friend's nipples, police said Wednesday.

Police in Western Australia said the 31-year old barmaid pleaded guilty in the local magistrate's court to twice exposing her breasts to patrons at the Premier Hotel in Pinjarra, south of the state capital, Perth.

The woman "is alleged to have also crushed beer cans between her breasts during one of the offences," in breach of hotel licensing laws, police from the Peel district of Western Australia said in a statement.

The barmaid and the hotel manager were both fined A$1,000 ($900), while an off-duty barmaid was fined A$500 for helping to hang spoons from the woman's nipples, police said.

"It sends a clear message to all licensees in Peel that we will not tolerate this type of behavior in our licensed premises," local police superintendent David Parkinson said.

Escrito por Rafael | 09:48 PM | Comentários (1)

outubro 19, 2007

Cinco Refeições memoráveis

1. Restaurante da Mira, Recife/PE -- lá se vão mais de dez anos e ainda está difícil superar aquela experiência pantagruélica. Meu companheiro de mesa voltou lá, esse ano, e ao que parece, nada mudou. O cardápio oral continua reunindo a fina flor da culinária de sustança nordestina: ossobuco, galinha cabidela, sarapatel, rabada. Os trabalhos foram abertos com caldinho de sururu sorvido em xícaras de café e acompanhado por doses pediátricas de uma cachaça local. Fazia calor, calor de verão pernambucano, e lembro com clareza da maneira quase trivial como ele propôs: eu acho que a gente deveria começar com o sarapatel e depois passar para a galinha cabidela, no que foi imediatamente aceito. Fora acompanhamentos, farinha e arroz com feijão, respectivamente. De alguma maneira, sobrou espaço para a sobremesa, doce de caju. A sede decorrente da cachaça, do calor e do doce me fez beber 4 copos d'água em sequência ao levantar da mesa.

2. No signboard Seafood, Singapura -- eu já sabia há longa data da reputação gastronômica da cidade, mas tinha experimentado pouco do tempero local, mas na última passada por lá calhou de ir acompanhado de um malaio que morara um ano e falava as 3 línguas locais. Outro departamento. Ele nos levou num daqueles bairros sinistros e mal iluminados onde nem tendo cara de ocidental dá para ter medo de andar, onde sentamos num típico restaurante de frutos do mar, onde peixes e crustáceos passeam nos aquários, atestando o frescor. Ao invés de cada um escolher um prato, acabamos mandando avançar e compartilhamos o seguinte: siri ao molho de pimenta, siri com curry, camarão ao molho de pimenta preta e lagosta ao molho de manteiga, além de arroz primavera para acompanhar. De todos os pratos, apenas o último é preparado do mesmo jeito no Brasil. Siris vieram cozidos no vapor, mas em tamanho bem maior do que eu me lembro de ter visto em qualquer praia e bem mais picantes do que a nossa suave combinação de suco de limão e sal, sem contudo destruir o sabor da carne. Mesmo assim o francês que completava a mesa e parecia ser o mais empolgado reclamou do ardor. Besteira; a lagosta estava no ponto, os camarões vieram perfeitos e eu fiquei muito tentado a repetir os siris no futuro. Chegou perto, mas não desbancou o primeiro lugar.

3. Chapéu de couro, Bonsucesso, Rio/RJ -- esse restaurante de comida nordestina fora descoberto algum tempo atrás por um amigo, que prontificou-se a organizar um almoço de final de ano por lá. Nem para o mais arisco nativo da zona sul é complicado chegar. Os pratos recebem nomes próprios, como Maria Bonita, Lampião ou Luiz Gonzaga e têm as dimensões colossais de quem passou fome na infância. Mas me adianto. Era uma mesa grande e, que eu me lembre, a maioria aderiu à tripa frita e queijo de coalho assado como antepastos, evidentemente acompanhados por cachaça. Em vista do vasto contingente de estômagos, pudemos compartilhar novamente os pratos. O mais fácil de descrever foi um escondidinho de carne seca com abóbora. É mais fácil listar o que não tinha do que o que tinha no tal Maria Bonita, porque eu me lembro de ter encontrado porções de arroz, feijão de corda, carne seca, carne de sol, farofa, um legume esverdeado e um talho que queijo coalho na mesma travessa. Fechei a tampa com um sorvete de graviola.

4. Schneiderweiss Brauhaus, Munique, Alemanha -- De fato não foi minha primeira refeição alemã, visto que eu tinha jantado na véspera, mas para todos os efeitos foi a primeira típica, a mais marcante porque a que abriu as porteiras e me fez perder o medo de comer qualquer das inúmeras iguarias á base de carne de porco. Por dica do meu companheiro de mesa, escolhemos essa cervejaria, escapando de outras igualmente boas porém mais cheias ou badaladas, como Paulaner ou a campeã, Hofbrauhaus. Escolha matadora. Estava cheio e pelejamos para arrumar lugar. Bati o olho numa garçonete chinesa uniformizada com os trajes da Bavária e nem titubeei: vamos chamar aquela ali que entende inglês. Não deu outra. Em alguns segundos estávamos completamente mesmerizados pelas descrições num cardápio em inglês. Duas coisas eram claras nesse ponto; iríamos comer algo com porco, iríamos beber o chopp de trigo. A vastidão dos pratos sendo servidos ao nosso redor atiçavam o apetite e quando chegou a primeira tulipa de meio litro, vimos que a coisa ali não era para brincadeira. Foi o começo do fim, foi a certeza que estávamos na temperatura adequada para aquela comida gordurosa, que nada iri nos deter. Não sobrou ossinho para contar a história.

5. (Não lembro o nome do restaurante), Siena, Itália -- comparada com as outras, essa foi até educada em termos de quantidade. Tinha chegado um pouco tarde na cidade e com bem pouco disposição para visitar outros pontos além do prédio da prefeitura, da magnífica praça central edo inacabado Duomo; resolvi aproveitar a ida para um almoço mais lento e caprichado que a média daquela viagem. Dica do Lonely Planet, esclhi a dedo, não podia ser roubada. Foi na mosca: guisado de carne de caça, à moda del re. Veio suculento, num prato fundo de cujo molho não sobrou uma gota, enxutas no pão, bem da maneira italiana, e acompanhadas de um vinho tinto. A escolha da sobremesa não poderia ser melhor: bolo de chocolate com calda de pêra. Toda vez que eu lembro daquele bolo, peço desculpas à minha mãe, minhas avós e tias para reconhecer que, apesar de todas as tentativas delas, foi o melhor bolo de chocolate que eu já comi na vida.

Escrito por Rafael | 03:22 AM | Comentários (4)

outubro 17, 2007

Garibaldi

Anna mandou e como tudo que a Anna manda, eu faço correndo, vamos à minha resposta:

Oh, it was a glorious day -- that August afternoon in 1860 when our hero visited our village on his way to unifying the nation.

O livro é Unto the Sons, portanto deu Gay Talese na cabeça, de novo. Esse livro tem umas 600 páginas na edição de bolso que eu comprei e andou rondando minha cabeceira nos últimos 3 meses, quando iniciei a leitura, sem muita determinação para terminar. O herói em questão é Garibaldi e a unificação, da nação italiana; trata-se do trecho em que o professor do pai de Talese traça a história para seus alunos.

Continuem a corrente Lucia Malla (que já respondeu), Mozart, Ruy, Pellizzari (isso é mais para avisar que ele está escrevendo um livro novo e ainda sabe blogar) e Patricia. Ufa, como lê esse povo de blogue.

Escrito por Rafael | 09:54 PM | Comentários (1)

outubro 15, 2007

Gaúcho é melhor em tudo

Quando me bate angústia, eu a mastigo com gosto. É crocante. Mas não é freqüente. Já tentei muito ser angustiado e infeliz, mas não consigo.

Minhas crises existenciais cabem nos dedos de uma mão. O resto é frescura, é aquela coisa de acordar meio de mal com a vida, tomar um trago e acordar bem no dia seguinte.

--Daniel Galera

Escrito por Rafael | 12:44 AM | Comentários (0)

Peanuts e Schulz

Vem aí uma imperdível biografia do Charles Schulz, o criador do Peanuts (odiava ser chamado de "pai do Snoopy"). O autor, David Michaelis, teve acesso a depoimentos da família e sustenta a tese que Schulz era depressivo, refutada por filhos e esposas, que já começaram a espernear. Li um trecho, publicado na Vanity Fair de outubro -- aquela com a Nicole Kidman tirando a roupa na capa. É um trecho inspirado, no qual o autor explica como Schulz segurou as rédeas do que já era um sucesso comercial e de público e conseguiu continuar fazendo uma tira cheia de significado para a geração seguinte. É inconteste que Peanuts é a melhor tira do pós-guerra. Schulz fez um trabalho de enorme potencial de comunicação, com traço limpo, design perfeito -- evoluiu ao longo dos anos em direção ao abstrato; metade das piadas de Snoopy não faria sentido se sua casinha fosse desenhada de outra perspectiva -- diálogos sintéticos e uma capacidade sobre-humana para a ressonância, entronizando várias expressões no dicionário, como cobertor de segurança ou happiness is a warm puppy. Tudo isso coberto por um manto de ternura e fracasso, alegria e frustração em profundidade inesperada para uma sequência de 4 quadrinhos. E fez tudo, lápis, arte-final, letras, roteiro, até o fim, sozinho, até que o derrame o impedisse de continuar. Em 1999 foi lançada uma compilação, Peanuts a Golden Celebration, em nome do cinquentenário da tira, comentada pelo próprio Charles Schulz e cheia de material adicional: cartas de leitores, originais, cartuns antigos, fotos. Impossível escapar da sensação que se está diante de uma obra prima ao fim da leitura, e de que Schulz estava num patamar de compreensão superior ao de seus pares. (Mort Walker, criador do Recruta Zero e amigo de longa data, confessa que não entendeu nada na primeira vez que viu Snoopy encarnando um ás da primeira guerra. Vinte anos depois, ninguém estranharia que Calvin se tornasse o astronauta Spiff) Que a biografia ajude a entender melhor esse gênio.

Atualização: os ecos já começaram a soar, de Bill Watterson a John Updike

Escrito por Rafael | 12:35 AM | Comentários (0)

O tradicional esporte bretão

Bom, a copa do mundo de rugby avançou com duas surpresas: a França derrotar a Nova Zelândia e a Inglaterra derrotar a Austrália (esse eu vi, do lado dum canadense e do meu amigo irlandês que fala português e torceu desesperadamente pela Austrália). Pode ser a proximidade, mas eu tinha para mim que os nativos desses dois países cujos times voltaram mais cedo para casa eram os mais confiantes que os veriam na final. Decepção total. Fico pensando naquele maori que já tinha comprado a passagem e não sabia nem pedir vinho tinto em francês.

Os all blacks foram recebidos com festa no aeroporto de Auckland, "nós sabemos que vocês são os campeões do mundo". Nem sinal de ressentimento por parte dos torcedores, que levaram seus filhos ao aeroporto para pegar autógrafos. Jogadores se mostraram compungidos na entrevista coletiva. Primeiro mundo é realmente um troço muito esquisito.

Como de costume (esse comentário veio literalmente de um amigo francês), a França derrotou o time mais difícil para perder para o mais fácil, e logo qual!, a Inglaterra. Que foi para a final contra a África do Sul, até agora o único dos favoritos a não ter decepcionado, após encerrar a excelente campanha da Argentina, invicta até agora. Os argentinos têm um dos melhore jogadores de rugby do mundo, um dos melhores jogadores de basquete do mundo (Manu Ginobili), alguns dos melhores jogadores de futebol do mundo (Messi, Riquelme), alguns dos melhores escritores e ainda têm 3 prêmios nobel da paz. Não precisavam ter roubado aquela copa do mundo.

Prognóstico? É África do Sul na cabeça. Com torcida engrossada por neozelandeses, australianos, franceses e argentinos feridos. No último confronto, bateram a Inglaterra por 36 a zero. E isso aconteceu há coisa de um mês.

Escrito por Rafael | 12:32 AM | Comentários (0)

Agora não tem mais desculpa

Edições novas no Brasil de Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas e Medo e Delírio em Las Vegas.

Aliás, só para não perder o embalo, também vem aí mais uma biografia do Hunter Thompson, na verdade um relato oral de quem viveu ou conviveu com ele, nos moldes da escrita por E. Jean Carrol; o que talvez faça a diferença é que quem colheu e compilou os relatos foi Jann Weener, editor da Rolling Stone, porque teve acesso a muita gente próxima de Hunter. E em geral, histórias sobre Hunter são melhores do que histórias escritas por Hunter, exceto quando ele é o personagem principal. O que ocorre na maioria das vezes...

Escrito por Rafael | 12:29 AM | Comentários (1)