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novembro 26, 2007
Melhores gibis
Uma das coisas legais em morar na Austrália foi que enfim tive a chance de colocar em dia pendências de coisas que eu queria ler há anos e ou ainda encontrava dificuldade de encontrar, a maioria esmagadora, quadrinhos da decada de 1980, ou tempo livre suficiente para ler. Ao contrário dos filmes que ficaram famosos naqueles tempos, mais eu travo contato, mais me convenço que eram obras realmente boas: Why I Hate Saturn, Eightball, Flaming Carrot Comics, Omaha etc.
Trouxe para cá Hard Boiled, do Frank Miller e Geoff Darrow, os dois volumes de Church & State (Cerebus), mais dois albuns da serie Love & Rockets (volumes 7, The Death of Speedy Ortiz e 8, Blood of Palomar, ambos excelentes) e os dois capitulos iniciais do Incal, de Moebius e Jodorowsky. Encontrei Signal to Noise, do Dave McKean e Neil Gaiman (cujo primeiro capítulo eu tinha lido numa The Face encontrada num sebo eras atrás) e a raríssima Stray Toasters, roteirizada e ilustrada pelo Bill Sienkiewicz no auge de seu delírio visual -- Bill depois seguraria a onda para ilustrar a biografia de Jimi Hendrix. Ou seja, a lista diminuiu, mas ainda faltam Brought to Light, cujos originais estiveram expostos no MNBA em 1993, a nunca acabada Big Numbers e, felizmente, pelo menos mais uns 10 álbuns da série Love & Rockets, cujos 25 anos têm sido comemorados agora com novas compilações das mesmas histórias.
Escrito por Rafael | 01:53 AM | Comentários (3)
novembro 23, 2007
Howard and Rudd
Amanha os cidadaos australianos terao a chance de cometer um grande erro de escolher um primeiro ministro do partido trabalhista reeleger o atual primeiro-ministro, o segundo mais longevo da historia australiana, John Howard -- alinhado com George Bush, apoiador da guerra no Iraque desde o primeiro momento, nao-signatario do Tratado de Kyoto, membro do partido conservador e, junto com Peter Costello, atual secretario do tesouro e seu indicado sucessor, principal responsavel pela absurda prosperidade da economia do pais, que nao passou por uma depressao que fosse nos ultimos 10 anos. O mesmo nao pode ser dito de EUA, Singapura, Brasil e muitos tigres asiaticos.
A opcao a Howard e Kevin Rudd, lider do partido trabalhista e na frente das pesquisas de opiniao desde o primeiro momento. O que leva a populacao a votar em Rudd? Um enfado geral com Howard que so ocorre em paises onde o voto e compulsorio; a Australia e um dos poucos paises de longa tradicao democratica onde votar nao e opcional. O desgaste da sua imagem devido as sucessivas elevacoes da taxa de juros, a despeito de suas promessas, e o encarecimento do custo de vida que disso decorre; devido a suas posicoes terem tornado a Australia alvo de odio terrorista islamico (como os incidentes em Bali e Cronulla comprovam); devido a sua intransigencia para com ecologistas ou aborigenes (apesar de ter prometido o reconhecimento na Constituicao caso fosse reeleito). Talvez em algum momento Howard tenha perdido a mao, quando diminuiu impostos e retirou beneficios, nao se preocupando em expandir a quantidade de escolas ou hospitais, ou simplesmente optou por completar a mao de obra especializada abrindo facilidades para imigrantes, ao inves de investir mais da escolaridade -- mas quem vai atras de um diploma, quando se pode comprar casas, passar ferias na Tailandia e trocar de carro todo ano trabalhando como soldador, jardineiro, enfermeiro?
Em muitos casos, a eleicao se assemelha as duas ultimas eleicoes ocorridas no Brasil, apesar dos eleitores aqui votarem em Membros do Parlamento, os quais, tal como nos EUA, escolhem o primeiro ministro quando em maioria. A primeira semelhanca se da na copia descarada que o partido de oposicao faz das propostas de governo do partido liberal; chega a ser vergonhoso: mais escolas? Mais escolas tambem; mais hospitais? Mais hospitais, tambem. A segunda semelhanca e a acusacao feita pelo partido de oposicao que a economia anda positiva somente em decorrencia do bom cenario internacional, pouco devendo a atuacao do atual governo. A terceira semelhanca e a maneira como o partido de oposicao explora a indisposicao do eleitorado como motivo de mudanca. A quarta e definitiva semelhanca e a completa indisposicao dos eleitores para com qualquer tipo de politico, nao importa exatamente a faccao, ainda mais por nos forcarem a votar num dia de sol tao bonito, a gente deveria estar na praia etc.
Talvez as diferencas sejam mais interessantes, e a que mais me chamou a atencao foi o pequeno papel desempenhado pelo carisma: assistir a uma eleicao entre Howard e Rudd e como assistir uma eleicao entre Alkmin e Serra, chato de doer. Nao existe nem de perto o wit, a criatividade, a imensa comunicacao com o povao de um Carlos Lacerda, um Janio, um Collor, um Lula. Talvez, no final das contas, a anunciada troca seja apenas mais um exemplo da tipica rotacao entre direita e esquerda que acontece de maneira mais ou menos periodica em paises de primeiro mundo, com a direita em geral capitalizando o crescimento economico e a esquerda capitalizando a melhoria dos indices sociais (embora isso nao seja propriedade de nenhum dos dois) ou seja, ficcao cientifica em termos de Brasil. De qualquer maneira, por mais que Peter Garret esbreveje e Rudd prometa assinar Kyoto, pouca coisa parece mudar vindo um novo governo. Para quem nao sabe, Garret e o carecao do Midnight Oil, hoje Membro do Parlamento e ministro do meio ambiente se Rudd vencer. Ou seja, e como se o Gilberto Gil deles se tornasse nao ministro da cultura, mas do meio ambiente.
Atualizacao: compare o que escrevi acima com o comentario da Miriam Leitao e ganhe uma aula gratis sobre as simplificacoes tendenciosas que assolam a midia brasileira.
Escrito por Rafael | 01:15 AM | Comentários (2)
novembro 22, 2007
Voltando ao cinema
Eu gostava bastante de ir ao cinema na década de 1990. Toda hora aparecia algo novo e promissor. Quentin Tarantino, Mira Sorvino, Atom Egoyam, Takeshi Kitano, Tom DiCillo, Todd Solondz, Spike Jonze, Alicia Silverstone, Steve Buscemi, Phillip Seymour Hoffman, além da chance de acompanhar em tempo real o decolar da carreira dos irmãos Coen, David Lynch, Jim Jarmusch, Spike Lee, David Cronenberg e por aí a fora. Ate a industria do Oscar levou uma sacudida, quando filmes como Braveheart e Shakespeare in Love levaram as estatuetas.
Lembrei disso quando fui ver, recentemente, Eastern Promises, o último do Cronenberg -- que não filma mais moscas, mas sempre dá um jeito de mostrar tripas e sangue --, agora numa linha menos delirante que a de Videodrome ou Crash, mas igualmente bom, e na mesma semana, Delirious, o último do Tom DiCillo, muito mal resolvido -- a crítica correta ao circo de celebridades não justifica nem serve de desculpa para o solo de Steve Buscemi que nunca se realiza. Mas valeu a pena ir, só para ver de novo mais uma boa lembranca dos anos 90: a Gina Gershon. Onde aqueles labios andavam se escondendo?
Escrito por Rafael | 04:07 AM | Comentários (1)
novembro 16, 2007
Vestindo-se (mal) na Austrália
Uma coisa que chama a atenção de cara quando se muda de país é a maneira como os locais se vestem. Por isso fiquei bastante satisfeito em ter encontrado essa versão do The Sartoralist para as ruas australianas -- Renato Parada aprovaria. É o melhor jeito de explicar como os australianos se vestem (mal), estilo que chamo de cacofonia visual. Em Perth, a cidade onde eu moro, a temperatura média é mais alta do que Melbourne ou Sydney e a ocupação de imigrantes é mais recente, o que significa que vai se encontrar mais gente assim, assim ou assim do que assim ou assim.
As fotos de Melbourne foram tiradas em Colin street, Flinders street, Bourke street, Swanson street, enfim, no próprio coração do centro da cidade, portanto representam perfeitamente o que o australiano veste para trabalhar, fazer compras, se distrair. Alguns comentários: notem o tamanho gigantesco dos óculos escuros das mulheres e o cabelo arrepiadinho dos homens -- Victoria e David Beckham são influências fortes. Os homens usam calças jeans apertadas nas pernas daquele jeito mesmo. É comum em Melbourne esse "empilhamento" de peças de roupa por conta da imprevisibilidade do tempo. Não perguntem por que as mulheres aparecem andando ou paradas com os pés apontados para dentro. E por mais que o mundo continue identificando o australiano com a imagem do surfista loiro, a diversidade étnica já é o verdadeiro retrato desse país, com relevante quantidade de chineses, indianos, árabes e muita gente morena, como as fotos provam.

Ah sim, os biquínis das brasileiras são menores que os biquínis das australianas, mas as mini-saias das australianas são muito menores do que as mini-saias das brasileiras.

Escrito por Rafael | 12:31 AM | Comentários (2)
novembro 14, 2007
Torpedo dá um teco no Batman

Em tempo: existe pelo menos uma história do Batman desenhada pelo Jordi Bernet, na coletânea Batman Preto e Branco.
Escrito por Rafael | 04:36 AM | Comentários (2)
Estórias Gerais
Escrito por Rafael | 04:34 AM | Comentários (0)
novembro 12, 2007
Pegando mulher
-- Onde está o papel higiênico ambientalmente correto?
-- Acabou.
-- Então vou ter que levar o comum.
-- E os ovos?
-- Vou comprar os de granja. As galinhas não sofrem por estar presas!
-- Mas você é a própria Lisa dos Simpsons.
Depois eu não sei porque não arrumo namorada australiana.
-- Meu lugar preferido no mundo é a Grécia: Mikonos.
-- E o que você achou da Espanha?
-- Sangria, não é lá que se toma sangria?
-- É.
-- É por isso. Eu não me lembro direito da Espanha.
Eu adoro as neozelandesas.
Escrito por Rafael | 10:27 PM | Comentários (1)
A canção do enforcado
Norman Mailer morreu. Há mais de 20 anos perdera a linha e não produzia um livro digno de nota, pelo menos digno da relação custo-benefício de se encarar o catatau de páginas; esgotou sua concisão em A Luta. Gosto de Armies of the Night, Advertisements for Myself e Canibais e Cristãos; não li sua melhor ficção, Os Nus e os Mortos e A Canção do Carrasco. Mas achava reconfortante a idéia daquele velhinho metido a brigão ainda estar alive, embora bem pouco kicking: um exemplo de produtividade, além da permanente possibilidade de dar seu depoimento de luxo num documentário como Quando Éramos Reis. Será uma injustiça que fique mais marcado pela vida do que pelos, a se frisar, poucos, bons livros, como é o caso do descedente literário Hunter Thompson, mesmo tendo em vista o denso povoamento de sua biografia com causos notáveis, do apunhalamento da esposa à candidatura à prefeitura de Nova Iorque em chapa com outro jornalista, Jimmy Breslin. Mailer era interessante, tinha talento e boas idéias, o que foi suficiente para fazê-lo relevante nos EUA do século XX, mas não conseguiu escapar do fosso da superficialidade, não redigiu o Grande Romance Americano e apesar da fama de bom de briga e valentão, teve que aturar de bico calado quando o tampinha Truman Capote afirmou, numa rodinha com John Updike, que dos 3 só ele tinha escrito uma obra-prima.

Finalmente saberemos quão séria era aquela piada do filme de Woody Allen: Norman Mailer, quando morrer, vai ser enterrado em dois caixões. Um só para seu ego.
Escrito por Rafael | 10:23 PM | Comentários (2)
novembro 09, 2007
Estrelas da WA 2 - John Butler Trio
A melhor descoberta musical que fiz em Western Australia chama-se John Butler Trio: três virtuoses que se alternam em dezenas de instrumentos de corda -- cítara, guitarra, violão, contrabaixo acústico, baixo, se bober até um berimbau eles arranham -- para criar um som que mistura influência africana, blues, funk, rock, country, com um sotaque próprio, quem sabe o sotaque do outback, o sertão australiano. Orgulho e glória da costa oeste, mesmo tendo nascido na Califórnia, muita gente afirma sem estar bêbada que lembra quando John Butler tocava violão e vendia seus demos em frente ao mercado de Fremantle, ainda desconhecido mas já com aquela cabeleira rastafari e o jeitão mezzo mendigo daquele subúrbio. A fama se espalhou mas o cabelo continua o mesmo, e se John Butler cai no lugar comum de fazer canções contra Bush e a guerra, é de se notar que ele não dá uma de Al Gore ao usar um SUV para se locomover entre as paletras: a embalagem de todos seus CDs lançados na Austrália foram feitas de papel reciclado e descartável. Seu discurso pode soar datado, hippie, messiânico, ecochato, pacifista, maluco, todos os mais gastos clichês-odara, porém ninguém pde dizer que ele não faz o que fala, hoje já contando com uma inteira organização para isso. E o mais importante: nada disso parece afetar sua capacidade de fazer músicas de embalo danado de bom. Ouçam zebra ou funk tonight e me digam se não.
(Essa é a segunda parte de uma série sobre talentos da Western Australia iniciada aqui)
Escrito por Rafael | 02:16 AM | Comentários (0)
novembro 07, 2007
Só para tradutores
O pessoal ficou todo ouriçado quando o sulafricano prometeu levar para a festa a French with a Brazilian. Mas logo depois ele esclareceu, era apenas a French guy with a Brazilian friend. Aos tradutores de plantão: por que o pessoal ficou ouriçado?
Resposta: porque pensaram que a French with a Brazilian era a French girl with a Brazilian wax (uma francesa com uma depilação pubiana à moda brasileira) e não a French guy with a Brazilian friend (um francês e um amigo brasileiro)...
Escrito por Rafael | 10:28 PM | Comentários (1)
Alan Moore é um velhinho tarado
Alan Moore conseguiu de novo. Poderia ter feito o que Neil Gaiman fez com Sandman: um conto fadas para adultos, "um quadrinho para intelectuais" (apud Norman Mailer), enfim, uma história onde não esconderia seu lado sombrio -- Gaiman só mostrou as garras mesmo lá pela sexta edição, Sound and Fury, um verdadeiro banho de sangue tendo em vista que envolvia tão poucos personagens, e só disse ao que vinha na inesquecível convenção de assassinos seriais. Mas mesmo assim, fez uma história que marcava pela fantasia, pela poesia, pela qualidade narrativa -- sem deixar que seus momentos adultos comprometessem o alcance de um público maior. Talvez não estivesse entre seus planos a absurda popularidade da qual gozou, mas é de se apostar que, depois que percebeu a onda crescendo, não hesitou em surfá-la.
Alan Moore tinha todas as condições de fazer o mesmo com Promethea, um personagem até com maior potencial para popularidade, pois feminino, e ainda contava com quinze anos de fama nas costas (Gaiman era quase desconhecido quando começou Sandman), mas abdicou de criar mais um motivo para jornalistas e críticos de arte escreverem sobre a maturidade dos quadrinhos para concluir um projeto absolutamente pessoal, no qual se propõe a explicar passo a passo o que é magia. E se o leitor pode se iludir, até o final da sétima edição, que está diante de um rito de passagem, uma lenda de iniciação, a nona não deixa dúvidas, ao centrar toda a ação num ritual de sexo tântrico entre uma semi-deusa e um mago idoso, em situação de ultraje visual só comparável à do filme português As Bodas de Deus. Some-se a essa a cena de Watchmen em que as acrobacias de Ozymandias entram em paralelo (e contraste) ao desempenho de Night Owl com Silk Spectre e aquela história do Monstro do Pântano com o fruto alucinógeno e chega-se à conclusão que Alan Moore criou as cenas de sexo mais inesperadas e intensas dos quadrinhos.
Isso para não mencionar Lost Girls, evidentemente.
Escrito por Rafael | 10:22 PM | Comentários (0)
novembro 05, 2007
Crônica
Segunda-feira de sol, deixando no funcionário aquela vontade de afrouxar a gravata e aproveitar mais um dia de sol nesse verão antecipado que já chegou aos 30 graus. Volto à camisa de mangas curtas. É interessante como essa marcação se torna significativa da passagem do tempo; no Rio, quase não havia alteração e o sentimento do tempo passar acabava se dando mais pelas marcas no calendário do que qualquer outra coisa. Na sexta-feira, o inesperadamente acalorado fim de tarde convidava à preguiça, em flagrante falta de sintonia com o frenesi reinante. Desviei o caminho para conferir se um bar da vizinhança realmente enchia; enchia, mas com gente de cabelso grisalhos. Tirei a camisa de dentro da calça e finalmente despi-me dela, amarrando-a na cintura, expondo a camiseta de algodão que estava por baixo. Fui para casa andando. Quantas vezes eu fiz isso no Rio? Quantas vezes a chegada do verão se deu de maneira tão relaxada, tranquila, natural?
Escrito por Rafael | 01:43 AM | Comentários (2)
novembro 02, 2007
Orgulho nacional
Desde que foi miss mundo, Jennifer Hawkins virou motivo de orgulho nacional australiano. É garota propaganda da principal loja de departamentos do país, para a qual desfila nos lançamentos de coleções. Outro dia aconteceu o seguinte.
Escrito por Rafael | 05:34 AM | Comentários (2)