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março 25, 2008
Rubem Braga e eu
Nos anos em que acompanhei, trepado no cangote, a coluna semanal de Millor Fernandes para o jornal O Dia, so o vi abrir a pagina para reverenciar morto uma vez: em 1995, nos cinco anos de falecimento de Rubem Braga. Conheci Rubem Braga a vida inteira. Li Rubem Braga a vida inteira. Nao tem ninguem que eu tenha admirado mais do que Rubem Braga, dizia Millor.
Rubem Braga nao foi so capaz de arrancar uma declaracao dessas do Millor. A narrativa de sua vida, convertida na biografia de Marco Antonio Carvalho, Um Cigano Fazendeiro do Ar, arrancou do exigente Daniel Piza a entrada na lista dos melhores livros do ano.
Ha pelo menos 5 anos eu ouvia falar nesse livro -- quem me contou foi o Bruno Garschagen, logo depois de se mudar para o Rio; o Bruno era amigo do autor e esta incluido na lista de agradecimentos. A propria historia da feitura daria outro livro, no qual o autor se endivida duas vezes, cruza o pais de cima a baixo atras de entrevistas, se enturma com os amigos sobreviventes de Rubem e descobre algumas historias imperdiveis.
Lembro especificamente do Bruno me contando, as gargalhadas, do convite feito a Sergio Buarque de Hollanda para ir a Cachoeiro do Itapemirim iniciar um jornal. Sergio ja era um intelectual de renome, sem ter escritos
Raizes do Brasil, e ficara conhecido como Doutro Progresso. Mas ao chegar em Cachoeiro, caira de amores pela cachaca local e o jornal, nada de sair. Bruno tambem viera de Cachoeiro, sem que tivesse nascido por la, o que
talvez corrobore aquela historia que a Lucia me contou, segundo a qual Cachoeiro do Itapemirim e a capital secreta do mundo. Quando voce descobre que, alem de Rubem Braga, Roberto Carlos e Carlos Imperial vieram de la, uma teoria da conspiracao imediatamente se forma.
Mais de uma vez tentei arrancar alguma historia do Bruno, durante aquele periodo em que o livro estava pronto mas ainda sem editora, so que ele se negava a contar, no maximo, dizendo que "o Rubem nao era facil". Castigo:
Bruno foi morar em Lisboa, perdeu o lancamento no Brasil -- e eu acabei lendo o livro antes dele. Quando a gente se esbarra na internet num desses programas de conversa em tempo real, o assunto e invariavelmente a biografia.
Li resenhas que se queixavam do livro dedicar muito espaco a infancia de Rubem e a Cachoeiro, como se o escritor nao tivesse feito de la um dos principais assuntos de suas cronicas, e infinito de sua nostalgia. A mim,
chamou atencao a extensa parte que cobre a decada de 1930, periodo de formacao pessoal e descoberta, quando Rubem publica seu primeiro livro, O Conde e o Passarinho. E um grotesco painel politico que misturava
integralistas, fascistas, comunistas e tipos insolitos como Alceu de Amoroso Lima, Jackson de Figueredo, Cardeal Leme (hoje, nome de predio da PUC-Rio), Carlos Lacerda (entao comunista), Luis Carlos Prestes, Getulio
Vargas, Lourival Fontes (chefe do servico de censura), Jorge Amado e, correndo por fora, o cangaceiro Lampiao. Exatamente o painel no qual Rubem Braga encontrou seu lugar, xingando integralistas e brigando com
comunistas, num sectarismo que afastava ate amigos de longa data, como Moacir Werneck de Castro. Precisamente o mundo que meus avos encontraram, no Rio de Janeiro; lendo a biografia de Carmen Miranda, escrita por Ruy Castro dois anos antes, mas se tem ideia do que acontecia. Nao e preciso entender de politica para acompanhar o surgimento dos artistas do radio e do samba, mas sem essa compreensao nao se entende o porque das acusacoes de americanizacao que Carmen sofreu. Ruy nao ataca o problema pela raiz. Marco Antonio, sim.
E nesse momentos que o livro cresce, e junto com ele a figura de Rubem Braga, ja no capitulo de abertura, que narra sua participacao como reporter de guerra, surpreendente pelo jogo de cintura e iniciativa que demonstra,
sobretudo para alguem cujos movimentos morosos valeram o apelido de urso.
Estao la suas poucas frases celebres ("Ela melhorou de marido mas piorou muito de estilo", sobre o segundo casamento de sua ex-esposa com o tambem escritor Antonio Olinto). No periodo como correspondente de guerra, na Italia, ao constatar a diferenca de fuso, disse: "o Brasil e muito atrasado mesmo, enquanto na Italia e de tarde, no Brasil ainda e de manha". Pensei muito nessa frase ao me mudar para a Australia, 12 horas a frente...
Sem se ater a detalhes bastante banais nas biografias que andam se popularizando no Brasil, do tipo listar onde foi a primeira vez do biografado e com quem, Marco Antonio preocupa-se em revelar os motivos que levaram Rubem a se tornar embaixador no Marrocos (indicacao de Janio, por quem nutrira confianca) e no Chile (um favor de Cafe Filho, amigo de tempos mais duros) ou a se mandar para Porto Alegre: um caso que terminara em gravidez com Bluma Wainer. Alias e estranho o padrao que Rubem desenvolve ao longo da leitura, sempre se envolvendo, ou tentando se envolver, com mulheres casadas: Bluma, esposa de Samuel Wainer; Tonia Carrero, esposa de Carlos Thire; Ligia, esposa de Fernando Sabino e Danuza Leao so nao entrou nessa lista por conta da abissal diferenca de idade. E por mais extraordinario que seja o capitulo que esclarece o caso com Tonia Carrero,
ja que por decadas o que se dizia e que havia somente uma amizade entre eles e nunca consumada paixao platonica, melhor e que comeca com uma carta a um amigo comum, com todo o jeitao do estilo de Rubem, e no final a assinatura revela: Newton Braga, o irmao. Fora Newton quem primeiro se mudara para Belo Horizonte, estabelecera uma base de amigos e arrumara o primeiro emprego como jornalista de Rubem. O emprego no qual ele praticamente recriaria o genero da cronica e os amigos que seriam seus amigos, decadas depois. Newton era o verdadeiro Rubem, segundo Carlos Lacerda.
Tem mais. Quem comprou o livro atras de folclore envolvendo literatos nao saira decepcionado; eu gosto especialmente do periodo em que Rubem Braga convive com Graciliano Ramos numa pensao no Catete. Rubem recem-casado, duro e liso; Graciliano ainda careca do termo despendido como prisioneiro na Ilha Grande. Juntavam-se no quarto para beber cachaca e papear; naquele ambiente zoeirento, Vidas Secas foi escrito. Rubem ficou conhecido toda a vida por seu jeito arredio, caladao, mau humorado; Graciliano foi notorio
por sua secura, rispidez, mau humor. Certa feita Joel Silveira levou-lhe um conto para avaliacao. Graciliano leu de cima a baixo e, sem emitir uma unica palavra, rasgou o papel em pedacinhos. Ou seja, deram-se, Rubem e Graca, incrivelmente bem. Mesmo que de vez em quando Graciliano pesasse a mao:
...certa vez, gravida, Zora escorregou e caiu sentada em um dos degraus da escada. Nao chegou a sequer ser um tombo, mas ainda assim Graciliano avisou a Rubem: Minha primeira mulher levou um tombo desses. O beb nao nasceu nem no nono, nem no decimo, nem no decimo primeiro mes. Saiu um bolo cheio de vermes. Ta bom, Graca, nao conta isso pra Zora, pediu Rubem. Graca contou.
No pos-guerra, finda a ditadura de Vargas, os tempos eram de tal otimismo que escritores e artistas ate se permitiam disputar uma pelada nas areias da praia. Fernando Sabino ja contara essa historia, mas nunca como aqui:
Nos fins de semana, Rubem se reune com os amigos, todos intelectuais e boemios, em peladas onde sobra entusiasmo e faltam tecnica e folego. Num desses jogos, Di Cavalcanti foi o goleiro do time, baixinho e gordote, e nao aceitava gols do adversario: afirmava que as bolas passavam por cima de uma inexistente trave. Vinicius, conhecido na roda como Menisco de Morais, alegava uma seria contusao aos dois minutos da porfia e saia celere em direcao as senhoras que assistiam ao jogo. E Schmidt, gordo, suarento, ao dar o pontape inicial em um dos prelios, caiu na areia -- levando a interrupcao da partida para que os adversarios pudessem recuperar o folego de tanto rir. Braga, zagueiro energico, deu uma traulitda no unico bom jogador ali atuando, um medico, o que deixou a todos encabulados.
Melhor, so mesmo essa eleicao de diretoria da Associacao Brasileira de Escritores:
As discussoes se tornaram tao violentas que, ao final, Drummond e o romancista paraense Dalcidio Jurandir se engalfinharam ("um puxa de ca, outro de la -- uma cena engracadissima, dada a escassa musculatura de ambos", contaria Moacir Werneck de Castro, mais tarde, ele proprio um cavalheiro) em torno da posse do livro de atas.Mario Pedrosa atacava violentamente os fascistas, os comunistas, os liberais, a todos, enquanto Jose Lins do Rego berrava: "Abaixo os comunistas! Abaixo os comunistas!", ate ver a cara zangada de Graciliano Ramos sentado pouco atras: "Nao e com voce, nao! Nao e com voce, nao!". Logo depois, Rubem agarraria o disputado livro de atas: "Nao sou contra voces porque sao comunistas: e porque sao burros! Burrissimos!"
(...)
Graca levantou-se e se dirigiu a porta do salao. Esperou que a atencao se voltasse para ele e entao berrou: "Vao todos para a puta que os pariu!"
Marco Antonio Carvalho investiu dez anos de sua vida nessa biografia, a ponto de, como ele cita nos agradecimentos, comecar a tomar como pessoal qualquer mencao a Rubem Braga que encontrava na imprensa. Curiosamente, nao era um apaixonado por cronicas e tinha em comum com Rubem Braga pouco mais do que ter nascido na mesma cidade. Deixou que o projeto do livro tomasse conta de sua vida, encarando-o com a disposicao de quem resolve um trabalho de Hercules.
Nao viu o livro ficar pronto; sucumbiu a um ataque cardiaco meses antes do lancamento.
Escrito por Rafael | 09:54 AM | Comentários (1)
março 19, 2008
Kevin Rudd com a macaca
Kevin Rudd, recem-eleito primeiro ministro australiano, anda cumprindo uma a uma suas promessas de campanha: primeiro, pediu desculpas aos aborigenes; agora, conseguiu o primeiro passo para destruir a corrente legislacao trabalhista australiana, as famosas Work Choices de seu antecessor, o liberal John Howard. Rudd disse em plenario, apos a votacao, que se sentia satisfeito em iniciar o enterro daquelas leis.
Em linhas bem gerais, trata-se de um importante passo na direcao contraria a tendencia mundial das flexibilizacoes, ou como preferia Mario Sergio Conti, da precarizacao das relacoes de trabalho. Gracas as work choices Howard fez o numero de empregos e o salario subirem espetacularmente na Australia nos ultimos dez anos. Rudd vale-se desse panorama para tentar solidificar as melhorias. Durante toda a campanha eleitoral, foi acusado de aparelhar o estado com ex-membros de sindicatos. De fato, 70% de seus ministros sao ex-sindicalistas.
O que mais me espanta em tudo isso e a agilidade com que o governo se move. E claro que o partido trabalhista australiano nao bobearia depois de passar 11 anos longe do poder. Mas soa a delirio que, em menos de 3 meses, o governo ja tenha posto em pratica parte significativa do que prometeu. No Brasil, sempre pedem para estender o mandato para ter tempo de levar adiante os projetos...
Escrito por Rafael | 08:51 PM | Comentários (0)
março 18, 2008
Conversas perdidas
-- ...last name Pride, as in Pride and Prejudice.
-- You must be very glad to Jane Austen.
-- It is either this or as in gay pride.
Escrito por Rafael | 01:44 AM | Comentários (0)
março 10, 2008
Estragando
Eu gostei do Comediante e do Rorschach, muito, o Night Owl e Silk Spectre estao decentes e o Ozymandias esta um pouco escuro demais (todos estao, a rigor).
Escrito por Rafael | 09:35 AM | Comentários (1)
março 09, 2008
Cottesloe Beach Hotel
Cottesloe num dia tipico de sol (nem precisa ser verao).
I love the place. Me too, mate.
Cottesloe e a praia cartao-postal de Perth, seguidamente votada como a preferida entre moradores. Tem uma curvinha esquerda onde as ondas nao quebram e fia perfeito para as criancas (como Itacoatiara, em Niteroi). Tem as miticas demarcacoes em amarelo e vermelho da area monitorada por salva-vidas voluntarios, essa instituicao australiana. Tem rede de volei, gramado para quem nao quer sujar os pes de areia, vestiario (nunca vi um australiano sujo de areia andando na cidade), esculturas e instalacoes no verao e parquinho para criancas. E onde a juventude dourada, e no caso, platinada e branca tambem, se reune. Na falta de algo mais sofisticado, e a Ipanema daqui.
Cottesloe Beach Hotel foi provavelmente o primeiro lugar de Perth sobre o qual alguem me falou alguma coisa. Trata-se de um hotel, ou seja, um estabelecimento qualquer que sirva comida, bebida e hospedagem, nao necessariamente no mesmo pacote, que sedia as domingueiras: reunioes onde o povo vai para beber, ouvir musica aos berros, conversar aos gritos, flertar e exibir as novidades da moda praia, tudo encimado por oculos escuros gigantescos. Quando eu digo que vi mais loiras em 2 anos de Australia do que no resto da minha vida e por causa de lugares assim.
So fui la uma vez, para falar a verdade. Em Cottesloe, prefiro o OBH. Mas se o dia esta ensolarado e quente, que se danem os hoteis, eu quero e ficar mais tempo na areia e dentro da agua.
Escrito por Rafael | 10:07 AM | Comentários (0)