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maio 27, 2008
Will Elder
Essa me pegou de surpresa: morreu Will Elder. O nome provavelmente nao evoca muitas referencias, mas Elder foi um dos mais importantes desenhistas de humor norte-americanos do pos-guerra. Talvez voce nao tenha lido o que ele desenhou, mas muito provavelmente tera lido ou visto o que alguem influenciado por ele fez.
Will Elder desenhou historias diversas para a EC Comics antes de ter exercido papel fundamental na criacao da revista Mad, muito de cujo clima anarquico era dado pelo universo de molecagens que ele enfiava nos detalhes e fundos, o que ele chamava de "gordura de galinha". Seu ultimo album lancado em 2006 tem exatamente esse nome, Chicken fat. Elder foi o ilustrador perfeito para as ideias de Harvey Kurtzman, tendo mantido uma associacao de decadas com ele -- nas historias de guerra para a EC Comics, na Mad, dando uma face para Goodman Beaver -- um personagem que so poderia ter surgido quando surgiu, protagonista de uma satira historica, na qual os personagens de Archie visitam a mansao Playboy --, desenhando Little Annie Fanny. Mimetizava qualquer estilo com qualidade e conseguia sobressair em times que contavam com desenhistas soberbos como Jack Davis ou Wally Wood. Sua tecnica de aquarela para Little Annie Fanny era extraordinaria e conseguir publicar um quadrinho, no comeco da decada de 1960, com aquela qualidade tecnica foi um marco.
Alem disso, trabalhou para a televisao, filme, ilustracao de revistas, publicidade; e um dos ultimos sobreviventes da turma da EC que se vai. Al Jafee, por outro lado, ainda esta firme e forte.

Escrito por Rafael | 12:32 AM | Comentários (0)
maio 26, 2008
Segunda chance
Meu texto sobre a biografia do Rubem Braga foi republicado no Digestivo Cultural, revisado e dessa vez com acentos e cedilhas.
Escrito por Rafael | 06:25 AM | Comentários (0)
maio 16, 2008
Aspas pro Arnaldo
Acho que a informalidade carioca faz mais vítimas do que a tal frieza paulista. Já vi muita gente ser magoada pela famosa mania de marcar encontros que nunca vão se concretizar, ou de marcar e simplesmente não comparecer do carioca, que, vítima de um bolo, finge cariocamente não se importar. É preciso muito cinismo para sustentar a couraça da espontaneidade por aqui. Enquanto a pontualidade paulista até para enventos sociais mostra respeito por regras básicas de convivência humana, mesmo que pareça de fora uma obsessão doentia em organizar a diversão.
Melhor resposta dessa entrevista do Arnaldo Branco. Grifo meu.
Escrito por Rafael | 04:18 AM | Comentários (1)
maio 15, 2008
Como era gostoso o meu Wunderblog
Um belo dia voce esta varejando seus blogues favoritos e descobre que os Wunderblogs acabaram. Finito. Curto e grosso assim. O pior é que vai passar em brancas nuvens.
Nao para mim, Lisandro. Nao poderia.
Conheci os Wunderblogs desde sempre, desde antes deles se reunirem no portal mostarda; desde antes ate deles terem blogues. Ja escreviam bem naquela epoca. Dificil dizer exatamente onde aquele grupo se formou; talvez em algum instante da diaspora dos colunistas iniciais do Digestivo Cultural, ou do encontro deles com leitores e debatedores, ou ainda de uma lista de discussao, cujo moderador era o Polzonoff, que existiu na segunda metade de 2002, mas nao da para tracar no detalhe, ate porque o unico local onde todos se encontraram era mesmo o portal: pessoalmente, muitos acabaram nunca se encontrando e, em determinada epoca, lembro que eu conhecia mais gente ali do que eles mesmo.
Chegaram a me convidar uma epoca. Foi ate meio vergonhoso, porque o convite foi feito ao Bruno e a mim ao mesmo tempo, e o Bruno aceitou de cara enquanto eu devo ter passado a impressao de estar fazendo doce. Nao vi motivos, ha epoca, para me mudar. Ainda nao vejo. Estava bem e, relativamente, recente instalado no Mondo Exotica, entao em pleno crescimento e com um potencial de articulacao que nunca se realizou. A piadinha que eu fiz na epoca, citando Groucho Marx, era mais uma boutade do que uma esnobada, sem sentido de ofensa. Eu simplesmente nao acreditava que precisava fazer parte do portal para ser parte da turma. Estava
certo. Quem tem qualquer duvida, leia o capitulo do Felipe Ortiz no livro, ou veja a entrevista do Dante Gabriel Rosseto para a Folha de SP. Era piada interna, sim, ou nao seria o Dante respondendo. Mas algum reporter do futuro ha de fundir a cuca para entender. Link quebrado e pior do que colecao de jornal incompleta.
Foi bom demais ver tudo aquilo crescer e, sem querer brincar de Ivan Lessa, celembra, cenumlembra?, eu lembrei de um 'cado de coisa. De quando o Alexandre Soares Silva me disse para eu prestar atencao nos blogues do Mozart e do Dante, melhores do que a maioria do que se escrevia na imprensa brasileira da epoca (mais ou menos uns cinco anos depois disso, para quem gosta de citar nomes, Diogo Mainardi citaria o Mozart como exemblo de bom blogue). Do blogue secreto dos Wunderblogs, o primeiro blogue sem links da internet, cujo titulo foi inspirado numa conversa comigo. Lembrei de quando um dos Wunderblogs, oculto o nome por respeito a sua reputacao, um dos mais direitistas-liberais do grupo, depois de uma taca de prosseco, vendo o por de sol atras do morro Dois Irmaos, propos, aos gritos, que se criasse um imposto nacional para preservar a paisagem carioca, e que se criasse um orgao publico de preservacao da paisagem, do qual todos os cariocas seriam funcionarios... de quando o Alex Castro apareceu um dia e ofereceu carona para ir em algum lugar no carro dele, e todo mundo gentilmente recusou, pois ele tinha escrito recentemente a Prisao Heterossexualismo, sabe como e, por via das duvidas. De quando o Lisandro, bebado, comentou alguma coisa com o Alexandre da qual ele se arrependeu no dia seguinte (embora eu duvide que ele se lembre perfeitamente do que tinha dito), e dias depois recebeu um email do Alexandre respondendo o comentario -- Alexandre: nao precisava ter se preocupado! De quando o Mozart, depois de derrubar algumas em Icarai -- ele me explicara que a pronuncia correta do bairro oceanico niteroiense era Caritas e nao Xaritas --, soprou a fumaca de seu cigarro calmamente e perguntou, com voz grave: voce sabe porque a gente esta aqui, nao sabe? O criptismo dos textos do Dante, que deixava ate mensagem de duas linhas incompreensivel ("Uia. Saldozo."). A palavra aqui e saudade.
E se nao teve mais, foi essencialmente porque eu morava no Rio e a maioria deles, em Sao Paulo. O que motivou alguns formidaveis finais de semana, la e ca. Os Wunderblogs foram muito atacados em certa epoca por blogues identificados com posicoes de esquerda, que os pintavam como hidrofobicos & rancorosos; nada mais distante do ambiente cordial que sempre pairava sobre o grupo. Pouca gente sabe que amizades, namoros e ate casamentos ocorreram naquele grupo, ao longo de sua existencia, como e natural que ocorram em qualquer grupo. No peito dos Wunderblogs tambem bate um coracao.
De certa maneira, foi por isso que eu nunca fui formalmente um Wunderblog: porque eu sempre procurava trazer gente interessante para o grupo, misturando as galeras, mais preocupado com manter o papo em alta do que com a coesao. Alias uma ou outra mistura foram realmente inesperadas, gerando o melhor comentario que eu li sobre os Wunderblogs: "emitiram diversas opinioes sobre assuntos que desconheco". Nao que, eventualmente, agregados nao acabassem fazendo parte do grupo; Fabio Danesi Rossi e Radamanto estavam entre os que mais trouxeram gente para la. Dizia-se que existiam ate mesmo lobbies para fazer ou impedir os convites, o fato e que meu historico de ejecao do Digestivo Cultural e Paralelos ja me deixara escaldado, condicao que ainda perdura. Inagaki sabe do que eu estou falando.
Os Wunderblogs nao acabaram porque "um por um foi (fazendo dancinha de desprezo) ooooh, amadurecendo, conseguindo empregos, criando responsabilidades (estou dizendo essas palavras rebolando loucamente), e deixando os blogs morrerem aos pouquinhos, ou em alguns casos abruptamente", como disse o Alexandre. Nada disso impediria-os de continuar escrevendo, a nao ser que eles realmente precisassem comprometer seus trabalhos para escrever, o que nao acredito que fosse o caso. Sem querer, o Bruno acertou ao dizer que "que havia de honesto nos Wunderblogs era não se preocupar se o portal era ou não importante; se exercia maior ou menor influência. Nos bastávamos e isso era estimulante"; quem sabe essa autofagia, que era sua fonte de forca e assunto, tambem tenha sido a causa mortis: inanicao.
E por menos que tivessem se importado com a influencia que exerceram, nao acho exagero sublinhar sua importancia, pela maneira como atraiu as atencoes (geraram como subproduto a primeira coletanea de blogues publicada em livro) e motivou opinioes. Tenho para mim que aquela declaracao do Chico Buarque sobre a
existencia um "direitismo de salao" foi feita pensando exatamente neles. Isso, evidentemente, se Chico Buarque usar computador.
Que e um gancho muito bom para algum inimigo dizer, os Wunderblogs passaram, Chico Buarque ficou.
Escrito por Rafael | 05:03 AM | Comentários (1)
maio 11, 2008
Um luxo de bar
Nos primeiros vintes segundos depois de minha entrada no bar, vi-a lamber com os olhos dois homens no canto do balcao, pedir uma agua mineral e simular fellatio no gargalo da garrafinha. Quase paguei e fui embora sem me preocupar em beber; dificilmente veria algo melhor no resto da noite.
Escrito por Rafael | 09:12 AM | Comentários (0)
maio 09, 2008
Caniff e os quadrinhos como forma de arte
No livro Shop Talk, Will Eisner entrevista autores de diferentes geracoes sobre seus processos criativos e a maneira como enxergavam a linguagem das historias em quadrinhos. E notavel a reverencia que Eisner dedica a Milton Caniff, uma geracao mais velho e, em diversos sentidos, modelo profissional e artistico. Eisner sempre duelou com a ideia de quadrinhos serem arte e talvez tenha se decepcionado com a resposta de Caniff, segundo o qual quadrinhos nao eram arte nem ele se considerava um artista, "eu sou um entertainer".
Milton Caniff diria ainda que sua tarefa era vender jornais, sublinhando o lado mais pragmatico da forma de expressao em que despontara. Mas e falso acreditar que Caniff nao enxergava valor ou tinha orgulho de seu oficio: foi capa da mais importante revista semanal norte-americana de seu tempo, teve uma de suas paginas citadas em discurso no Congresso, elencou escritores e personalidades entre seus leitores. Mais notorio do que isso, entretanto, foi seu depoimento diante do senador Kefauver, na comissao de inquerito aberta para investigar os danos potenciais das historias em quadrinhos as criancas.
Caniff depos na condicao de vice-presidente da Associacao Nacional de Cartunistas, ora liderada por Walt Kelly. A acusacao principal era a de que as revistas em quadrinhos, particularmente de terror, podiam causar danos intelectuais e psicologicos as criancas. O editor das mais vendidas revistas de terror e principal acusado da comissao nao contribuiu muito ao afirmar que as revistas seguiam um padrao estetico ditado por ele, e que dentro desse padrao uma capa de terror mostrando uma cabeca decepada poderia ser de bom gosto. Kelly e Caniff juraram a verdade e nao se fizeram de rogados em fazer a caveira das revistas em quadrinhos: na escala de respeitabilidade, os chargistas politicos vinham na frente dos cartunistas e autores de tiras de jornal, que por sua vez vinham na frente de desenhistas de revistas em quadrinhos, prontamente espinafradas por Kelly e Caniff como de "baixa qualidade artistica". A comissao acabou por criar um codigo de etica que teve impacto sensivel na industria das revistas em quadrinhos, nos dez anos seguintes.
Quase 60 anos depois daquele depoimento, a escala de respeitabilidade praticamente nao mudou; e muito mais facil encontrar o Chico Caruso ou o Angeli na capa do caderno de cultura do jornal, ou numa revista semanal, do que o Laerte ou o Fernando Gonsalez, e por sua vez e mais facil encontra-los do que o Marcelo Campos ou Fabio Moon e Gabriel Ba. E qualquer escritor vagabundo bate todos esses nomes. Mas foi o esmero e a excelencia das tiras de Caniff que, ao demostrarem as possibilidades de uma forma de expressao marginal, abriram as portas para que, no futuro, houvesse interesse e mercado para conteudos outros, adultos & especificos, para as historias em quadrinhos.
Escrito por Rafael | 12:26 AM | Comentários (0)
maio 06, 2008
Milton Caniff, 100 anos

Alex Raymond drew models, Caniff drew women, Crane drew gals and Will Eisner drew dames-- Jules Feiffer. Frank Miller, obviously, draws whores. A moca acima era somente um modelo, nao leiam demais a foto.
O assunto nao e Miller, mas o centenario do nascimento de Milton Caniff, o Rembrandt dos quadrinhos, indesculpavelmente ignorado ano passado neste blogue. Explica-se: nunca tinha lido direito o autor, projeto para esse ano. Ja esta aguardando a suave biografia escrita por R.C. Harvey, em mais de novecentas paginas de estorias, originais e fotos.
Vamos comecar com uma exposicao virtual, onde o leitor pode passear no meio dos desenhos.
Na decada de 1940, menos de meia duzia de autores detinham os direitos autorais sobre suas criacoes ficticias. Will Eisner so assinou contrato para criar The Spirit depois de incluir essa clausula. Bob Kane valeu-se de um ardil para conseguir um pagamento perene pelos direitos do Batman. Roy Crane e Milton Caniff mudaram de empresario para terem direito sobre seus (novos) personagens.
Roy Crane conduziu as tiras de jornal do humor sequencial para a aventura, antes ate do Fantasma de Lee Falk, com o Capitao Cesar. Milton Caniff foi o primeiro a levar seus personagens para a II guerra, num esforco patriotico que valeu leitura de uma de suas paginas no Congresso dos EUA. Anos depois, foi capa da Time. Fez sucesso e ficou popular com duas tiras de aventura sobre a guerra, e quando mandou Steve Canyon para o Vietnam, sexagenario, teve que aturar o coro dos protestos e a perda de leitores.
Hoje o Vietnam e uma republica socialista empobrecida onde a industria do turismo cresce diariamente e ninguem questiona a reputacao de Milton Caniff como grande mestre da narrativa em quadrinhos.
Escrito por Rafael | 05:30 AM | Comentários (0)
maio 01, 2008
Aspas para ele
Percebo hoje em dia que a qualidade de vida tem muito mais a ver com a atitude que temos perante nossas
ambicoes materiais e a prioridade que damos a elas em comparacao a todo resto...
Porque o Ram tem a capacidade de ser lapidar falando naturalmente.
Escrito por Rafael | 10:58 PM | Comentários (1)