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julho 25, 2008

Tognolli novo na rua

Durante um ano fui leitor da Caros Amigos. Depois, perdi completamente a paciencia. O que eu mais gostava era a possibilidade de textos longos, os cartuns do Jaguar e as entrevistas. Do que ficou depois que me desfiz, o mais relevante foi tomar conhecimento da existencia de um reporter paulistano chamado Claudio Tognolli, cujo curriculo a epoca da reportagem juntava a denuncia da mafia do dende, uma infiltracao nas torcidas organizadas e uma tese de mestrado que pegava ideias do Timothy Leary. Foi o suficiente para me atrair.

Mais de dez anos depois, esbarrei inumeras vezes no mundo virtual com Claudio Julio Tognolli: no Orkut, na sua pagina de arquivos (atualmente fora do ar), chegando a ter trocado algumas mensagens com ele por conta de um comentario numa coluna do Digestivo Cultural. Quando seu livro novo saiu, A Falacia Genetica, ofereci-me inocentemente para resenhar. Completamente impossivel. Tognolli junta a vasta base cultural humanistica ("resumi a enciclopedia Britanica, por conta do Paulo Francis") com informacoes quentissimas das chamadas ciencias duras, da biologia, da estatistica. Seus textos sao pronfundamente interdisciplinares e objetivos e quantidade de ideias que popula cada pagina e imensa.

Agora descubro que ha um livro novo dele, disponibilizado de graca pela editora do Bispo (dica inestimavel da Janaina Leite), Midia, Mafia e Rock 'n' Roll, no qual ele recorda varias situacoes pelas quais passou no oficio do jornalismo para exemplificar suas ideias e teorias a respeito de como essa profissao deve ser execida e qual seu papel. Imperdivel.

Escrito por Rafael | 12:26 AM | Comentários (0)

julho 23, 2008

Toma essa, LEM!

Vontade de ir ao Melbourne Writer's Festival so para ver de perto a Tara Moss. Nuca falei da Tara Moss aqui, uma baita injustica, visto que se perde no tempo quando eu notei pela primeira vez as fotos daquela loira na capa de uns romances policiais.

Aqui vai um adendo: todas as livrarias australianas tem uma significativa secao so de crime, dividida ao meio entre os livros de nao-ficcao (em geral reportagens longas sobre assassinos seriais, gangues de motociclistas, criminosos notorios ou mafia) e ficcao. Na ultima estao sempre alguns dos titulos mais vendidos no pais, mas nao se confunda: Aghata Christie, Chandler ou Maigret voce encontra na secao dos autores por ordem alfabetica. Crime fiction e para a turma do Stephen King, escritores que prendem a atencao do leitor e escrevem a metro. Rubem Fonseca seria desprezado aqui.

De modo que eu simplesmente achava apenas mais um artificio de mercado, como qualquer outro, estampar as fotos daquela atraente loira na capa de alguns titulos. O que me estranhava e que sempre aparecia a mesma loira, e nao uma daquelas modelos genericas -- e parecia haver alguma identidade visual ali. Fui descobrir que se chamava Tara Moss, ex-modelo que se convertera em autora de novelas policiais de sucesso.

No Brasil, onde ainda se discute merito literario das investidas de um Tony Belotto, ela seria uma piada pronta. Eu me pergunto quem levaria a serio.

Nao que no mundo anglo-saxao de onde ela vem -- nasceu no Canada e hoje tem dupla cidadania, tabem australiana --, onde a igualdade entre os generos e um dado, seja muito melhor. Vejam o paternalismo como ela e tratada pelo World Literature Today:

"Tara Moss is much more than a pretty face. She's an international best–selling author, ambassador, television host, and reptile–wrangler...she may well become one of the world's best–sellers."

Embora nada supere o que a Vanity Fair publicou:

"No–one really believed she could have written four hugely successful detective novels, and each unaided. Is it possible that such a stunner can actually write? Absolutely..."

O fato da propria editora usar essas linhas como apresentacao da autora mostra que nao houve vergonha em assumir esse gancho bonita-e-escritora do ponto de vista publicitario. Me pergunto se tentaram algo similar com aquela escritora gaucha de nome impronunciavel cujo livro virou mini-serie, porque com a Bruna Lombardi tentaram, assim como tentam com a Maite Proenca, agora.

O que deve ser prontamente ignorado em funcao dos meritos dela, ou delas, como escritoras. A porca torce o rabo quando voce descobre, logo na biografia oficial, que ela ganhou o Scarlet Stiletto Young Writers Award, que soa assim como se o Luis Eduardo Matta ganhasse o Vulcabras 457 dos Escritores Policiais. Ou quando ve os escritores recomendados.

Eu nunca li livro nenhum e ainda nao consegui superar esse elo muito forte entre a exploracao da imagem dela na propria publicidade, e me pergunto quantos leitores nao foram atraidos para a literatura dela por causa de suas fotos, e se isso se constitui num problema. nao deveria, no fundo. Assim como nao deveria chamar a atencao o termo reptile wrangler depois que voce ve isso.

Mas que e estranho imaginar o Alexandre Soares Silva na capa da Health and Fitness ou o LEM pelado se enroscando numa cobra, ah e.

isso tudo e ainda escreve!
e ainda escreve.

Escrito por Rafael | 11:31 PM | Comentários (0)

julho 22, 2008

Banco de luxo

Sempre lembrando que toda vez que as coisas estiverem meio devagar por aqui, pode-se dar um pulo no Lisandro, alegria garantida seja falando da segunda guerra mundial:

A segunda Guerra Mundial sempre teve um lugar especial na minha história. Ao invés de saber da nossa participação na tomada de Monte Castelo e afins por dois ou três parágrafos num livro de história contemporânea, eu convivi com a história viva: sou filho de ex-combatente. [...] Tudo pra ele era motivo pra piada. O companheiro de combate que perdeu as pernas dormia na associação dos veteranos da FEB, ele tirava as suas pernas mecânicas e as escondia.

Seja educando o sobrinho:

Pra quem não conhece, a Forever Living parece ser mais um desses esquemas de pirâmide que rolam por aí, mas com o diferencial de ser o líder mundial no plantio, processamento e distribuição de produtos de Aloe Vera, assim como líder mundial de produtos de colméia para nutrição. [...] Acho esse esquema tão perverso que quando passo na frente da sua sede com o sobrinho da minha mulher, eu sempre comento: - E aí? Já viu a casa dos vampiros? Minha mulher em geral me dá um safanão e me pede pra parar de inventar histórias pro garoto.

Escrito por Rafael | 09:58 PM | Comentários (0)

Nem a pau

Camisa rubro negra nao amarela

Prevalece o bom senso.

Escrito por Rafael | 02:27 AM | Comentários (0)

julho 18, 2008

1968, 1958

Ano terminado em 8 e espeto, porque tem toda uma industria para comemorar a efemeride de 1968, cuja caracteristica principal e essa mesma, fazer crer que 1968 foi o maior dos acontecimentos historico; escrever a propria lenda. No Brasil, em 2008 ainda comemoram-se efemerides de Guimaraes Rosa, da imigracao japonesa, da familia Real Portuguesa e da Bossa Nova. Ou seja, tema nao falta para blogueiro sem assunto. Claro que eu nao vou comentar todos, ate porque nunca li Guimaraes Rosa (ate agora, A Pedra do Reino me bastou em termos de regionalismo). Mas vou comentar sobre a Bossa Nova -- e, cuica, falara sobre 1968.

A impressao, do ponto de vista de dentro Brasil, e que a Bossa Nova e a grande representacao cultural brasileira no exterior, a mais forte. Talvez por conta de Frank Sinatra ter gravado com Tom Jobim, talvez por causa do disco do Stan Getz com Joao Gilberto, talvez por causa da carreira internacional do Sergio Mendes, quem sabe porque Mas Que Nada tocava infinitas vezes na Copa do Mundo da Alemanha, 2006. No duro, tudo cao. Se voce para uma pessoa aleatoria pertencente culturalmente ao mundo ocidental e pergunta para ela qual a primeira coisa que lhe vem a cabeca em termos de Brasil, a resposta vai ser Copacabana, vai ser samba (mesmo que nao tenha a menor ideia do que e samba, confundindo com maxixe ou merengue. Mas isso nao importa, vai chamar de samba). Isso acontece porque foi a imagem escolhida e difundida pelo cinema de Hollywood na epoca da II guerra, e ate hoje e a imagem mais forte do Brasil projetada no exterior. Carmem Miranda e maior do que Tom Jobim. Frank Sinatra nao e pareo para Hollywood. Pouca gente efetivamente sabe o que e bossa nova (desconfio sinceramente que tem mais gente sabendo que o Brasil produz drum and bass do que bossa nova); algumas identificam The Girl from Ipanema, varias conhecem Mas Que Nada: Copacabana e mais famosa do que Ipanema, Sergio Mendes, maior do que Joao Gilberto.

Entao porque tanto aue com a Bossa Nova? Simples. Porque as pessoas que querem te convencer que 1968 foi um marco historico sem par sao as mesmas que querem te convencer que a Bossa Nova foi o grande marco musical do seculo XX -- e os argumentos sao exatamente os mencionados acima: ter sido gravada por Sinatra no auge do sucesso, ter influenciado o jazz de Stan Getz etc. Assim como insistir na ideia de que o maio de 1968 foi um marco transformador ajuda a permanencia de seu mito, insistir na superioridade estetica da Bossa Nova e uma forma de desqualificar outras expressoes ate mais populares do que ela. Mas isso nao passa de um pequeno jogo de poder, onde se reedita a Historia da forma mais comoda.

Se voce tem duvida, faca o experimento: pare uma pessoa qualquer numa cidade qualquer dos EUA, ou mesmo no interior da Europa, ou vamos diversificar, um malaio em Kuala Lumpur e pergunte para ele. Vai dar Ronaldinho e Carmem Miranda na cabeca. Mas como os perpetuadores de mito te fazem acreditar, essas pessoas, mesmo sendo maioria, nao conta -- so conta quem mora em NY e gosta das mesmas coisas que eles...

Escrito por Rafael | 05:59 AM | Comentários (0)

julho 17, 2008

Red and black

Sabado que vem vai vou ver um amistoso de rugby entre duas das maiores selecoes do mundo, Africa do Sul e Australia, no oval (assim se chamam os estadios em que se disputa futebol australiano) de Subiaco. A Africa do Sul e a atual campea mundial, apesar do esporte ser pouco popular entre os locais: e esporte "de branco", assim como o futebol e esporte "de negro". Com estarei no meio da torcida australiana, vou aproveitar o espirito de porco e torcer para a Africa do Sul; se eu me empolgar, rola ate de puxar o coro dessa musiquinha que eu bolei:

You've got tradition, guts, love and passion to my South Africa I will always love you wherever you are I will be there Oh South Africa How I like you I will sing to all the world How happy South African I am Sing with me South Africa Above all South Africa

Escrito por Rafael | 07:04 AM | Comentários (0)

julho 13, 2008

Pequenos prazeres

Agradavel surpresa: estava eu surfando pela internet e, quando notei, estavam entrevistando simplesmente Jimmy Breslin, do alto dos seus mais de 80 anos, na tv, por conta de seu ultimo livro. Breslin e dos mais importantes colunistas de jornal americanos do seculo XX e foi vice na chapa daquela pataquada que tentou eleger Norman Mailer prefeito de Nova Iorque. Bacana saber que ele ainda estava vivo, e botando pra quebrar.

Escrito por Rafael | 08:59 AM | Comentários (0)

julho 11, 2008

Milagre acontece

Conheci uma francesa que nem e viuva de 68, defensora das causas sociais, atraida pelo exotique e eleitora da esquerda, nem exatamente o mesmo, so que eleitora da direita, meio decepcionada em ver o pais se enchendo de arabes e africanos, sobretudo na selecao de futebol e meio envergonhada do racismo do qual nao consegue se livrar. Raro exemplar.

Escrito por Rafael | 05:09 AM | Comentários (0)

julho 02, 2008

Mongol!

Gengis Khan

Mongol e o filme que Alexander deveria ter sido e nao foi. Ao inves de Alexandre o Grande, Ghengis Khan. Esse sim, unificador de um imperio que ocupou dois tercos do mundo.

Nascido Temudgin em um dos inumeros clans que viviam como nomades no territorio da Mongolia, o filme, russo, narra com economia de cenas -- sempre optando mais pelo intimista do que pelo grandioso -- os eventos que levaram a transformacao de um orfao (seu pai, entao "Khan:, chefe do clan, morre acidentalmente envenenado) num lider implacavel, ainda que reconhecido pela justeza: e seguido por dois guerreiros desertores de outro clan ja na sua primeira tentativa de se tornar um Khan. Crianca, ve as posses de sua familia serem pilhadas apos a morte do pai; adulto, distribui igualmente os despojos de guerra, inclusive entre as familias de guerreiros mortos na guerra -- enquanto os outros Khans assumiam posse de rigorosamente tudo.

O filme nao se abstem de seu lado sensacionalista ao trazer cenas de batalha espetaculares e muito duelo de espada espirrando sangue feito por computador na tela, assim como nao deixaram de fora os relacionamentos homossexuais de Alexandre, apesar da principal cena de sexo naquele filme ser com a Rosario Dawson. Nesses termos, enquanto Alexandre foi criado (e educado por Aristoteles) desde pequeno para ser o que foi, em muitos sentidos pode-se dizer que Ghengis Khan fez-se por si mesmo, encontrando a liberdade apos ser feito escravo e encontrando a sabedoria nas oracoes para um deus com pele de lobo. Gengis Khan alinha-se com o arquetipo do homem que superou adversidades para se tornar um lider guerreiro, saindo dos grilhoes, como Espartaco, e jurando vinganca contra cada inimigo, mas apenas contra cada inimigo que o humilhara, como o chines que o expos para execracao publica numa cela como o mongol que queria destruir o imperio Tangut, entao controlando a Mongolia.

Mongol tem outros elementos comuns a conhecidas historias do Ocidente: um cerco militar como os 300 de Esparta nas Termopilas, batalhas epicas como as de Roma contra Cartago. O que faz de sua historia diferente e o elemento que transforma Temudgin de um chefe comum no comandante de dois tercos do mundo: a percepcao de que as crencas que mantinham a identidade de seu povo coesa -- dai o titulo do filme -- nao eram suficientes para unificar os clans, possibilitando o surgimento de uma organizacao social mais complexa. Ao criar um sistema de leis e ao usar a forca para impor essas leis, Temudgin empurra os mongois para formar uma nacao, cruzando a ponte entre da organizacao biologica para a social (que Robert Pirsig menciona em Layla, Uma Investigacao sobre a Moral) e estabelecendo a base para o maior imperio do mundo.

Marco Polo, de Veneza, foi para la e conferiu.

Em outro nivel, o filme pode ser entendido somente como mais um dos indicios da invasao cultural chinesa nos meios de entretenimento de massa. Depois da surpresa inicial de Ang Lee ou Jackie Chan, nao e mais raro encontrar filmes hollywoodianos se baseando em historias chinesas, haja vista o desenho animado Kung Fu Panda. As Olimpiadas vem ai e o mundo que se prepare para sua cota de China.

Escrito por Rafael | 02:10 AM | Comentários (0)