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setembro 29, 2008

Design para as massas

Semana passada dei um pulo na IKEA, que estreou loja nova fevereiro passado. Em parte, porque eu queria conferir o espaco novo; em parte, para uma ou duas comprinhas; em parte, para provar as tais almondegas da lanchonete de la, que os noruegueses tinham recomendado. Na semana em que eu cheguei na Australia, estava fechando uma exposicao chamada Dullsville, no instituto de Artes Contemporaneas, tematizado sobre a chatice da cidade de Perth. Nunca vou esquecer que listavam como um dos programas turisticos da cidade visitar a IKEA, e olha que ainda era a loja antiga, menor.

Tem uma ou duas coisas curiosas em visitar uma IKEA na Australia. Esbarrei em europeus, indianos, chineses, japoneses, arabes, australianos e asiaticos dentro da loja, mas creio que tambem seja assim na Europa. E engracado ver o interesse dos australianos nos apartamentos de 55 metros quadrados (onde vive uma familia de 3) e de 22 metros quadrados (onde vive uma surfista e ha espaco "suficiente para mim e minha prancha"), num pais onde falta de espaco nao e exatamente o problema. Outra: o relativo desconforto que os australianos sentem ao ficar soterrados por aquela pilha de design para todos os lados; talvez haja um parentesco qualquer entre a sobriedade do design sueco, que despe das formas "tudo que nao e essencial" sem, entretanto, descuidar da estetica -- leve sua namorada para circular no showroom e conte quantas vezes ela vai dizer ai que lindo -- e a informalidade e anti-sofisticacao australiana. Fato e que os locais curtem, a ponto da loja ter rendido uma bela reportagem no caderno de final de semana com o sugestivo titulo de Republica Popular da IKEA.

A certeza de ter algo sofisticado em casa, mesmo que produzido em massa. A diferenciacao que a classe media adora. A ponto de faze-la esquecer que ela e uma dessas bestas-feras, a chamada grande corporacao, com direito aos inumeros artigos made in China. Mas e tudo tao lindo.

E as almondegas sao boas.

Escrito por Rafael | 10:34 PM | Comentários (0)

Blue eyes subiu

Paul Newman subiu. Daquele eu gostava, ah se ao menos metade dos galas atuais fossem que nem ele. Ganhou baita destaque na tv daqui. Vai ficar na memoria como o trapaceiro do Golpe de Mestre, ou melhor ainda, como o Cool Hand Luke. Aquela cena dos ovos merecia um Oscar -- que saiu pro coadjuvante. Cliche: estava acima dessas coisas; mas estava mesmo, tanto que topou reencenar A Cor do Dinheiro, agora no papel do velho pilantra. Da geracao dele, um dos poucos que manteve dignidade nas telas ate o fim, escolhendo bem, o que nao pode ser dito de Liz Taylor ou Marlon Brando, por exemplo. Vai fazer falta.

Escrito por Rafael | 10:26 PM | Comentários (0)

setembro 23, 2008

Elephant and Wheelbarrow

Reporter da The Economist empreende uma odisseia pelos pubs e explica porque essa instituicao britanica se mantem tao forte.

Quando cheguei na Australia, fui logo procurar entender o que fazia daqueles lugares barulhentos, esfumacados (o fumo ainda nao tinha sido banido), fedorentos e com comida ruim tao populares. A resposta e uma so: o profundo amor que anglo-saxoes devotam a bebida. Tanto e que, segundo a reportagem, a migracao para o vinho esta reduzindo o numero de pubs.

Evidentemente, isso e uma estatistica inglesa. Os australianos ainda vao comer muito feijao para chegar la.

(uma dica da Dicta & Contradicta)

Escrito por Rafael | 03:02 AM | Comentários (0)

setembro 18, 2008

Com mil betonerias entupidas!!!

Fale como um Pirata

Escrito por Rafael | 10:40 PM | Comentários (0)

Enquanto isso III

Tambem nesse meio tempo, consegui finalmente consumir um livro e um filme que ansiava ha tempos. O filme era Tropa de Elite; o livro, Jimmy Corrigan, the Smartest Kid on Earth (Chris Ware, Pantheon graphics), na verdade uma graphic novel, que eu chamei aqui de livro apenas por causa do formato e da grossura do volume. Sobre Tropa de Elite, me limito a dizer que quem enxergou ali uma mensagem fascista, errou. Provavelmente a tese veio do fato que o filme termina com uma cena em que a policia esta em vantagem, associando diretamente a ideia maniqueista que, no fim, a policia vence. So que a cena final tambem pode ser lida como a coroacao da critica ao processo de desumanizacao pelo qual o aspirante Matias passa ao longo do roteiro, e se o Capitao Nascimento e escolhido como narrador, isso se da mais por sua forca dramaturgica do que pela sua importancia na trama; longe da trama subscrever seus metodos. Jimmy Corrigan, the Smartest Kid on Earth e muito mais complicado de criticar por conta da opcao narrativa e tematica. Chris Ware parece ser aquele tipo de pessoa que podendo jogar xadrez, escolheu jogar damas; podendo vestir-se com o arco-iris, escolheu andar so de preto, branco e cinza: ha um minimalismo tremendamente estudado na estreiteza de suas escolhas esteticas, as quais ele prefere recombinar linearmente a introduzir opcoes outras. E provavelmente a historia em quadrinhos mais depressiva ja feita, onde arte e roteiro brigam entre si para ver quem aborrece o leitor mais rapido. Ha uma beleza rara atravessando tudo, uma beleza de miniaturista, uma beleza quase matematica, fractal, nas suas repeticoes e jogos de espelhos e uma pujanca extraordinaria na maneira como constroi cenas tristes. Atravessar as 380 paginas de Jimmy Corrigan e uma maratona de tedio, deslumbre, interesse, incomodo, comocao e indiferenca. Pense numa obra moderna qualquer onde solidao e alienacao sejam a tonica principal: a letra de Sounds of Silence, o Tommy da opera-rock; Jimmy Corrigan faz qualquer um deles parecer um filme com Gene Kelly.

Escrito por Rafael | 05:31 AM | Comentários (0)

setembro 17, 2008

Enquanto isso II

Entre outros lugares, nesse meio tempo passei mais uma vez por Darwin, capital do Northern Territory -- guarde o nome deste estado: os mastigadores de press releases vao te soterrar com ele assim que o novo filme de Baz Luhrman, Australia, estrear; trata-se de um epico passado na area sertaneja (outback) daquele estado, estrelado por Nicole Kidman e Hugh Jackman, dois dos maiores astros australianos em cartaz. A companhia aerea que me transportou e um dos patrocinadores do filme e, como tal, exibia compulsoriamente a seus passageiros mini-reportagens sobre o processo de filmagem. Mas como eu ia dizendo quando fui rudemente interrompido pela minha propria digressao, dessa vez os destaques da passagem foram um file de crocodilo enrolado em bacon grelhado e uma visita a um centro de pesquisa e fazenda de criacao de crocodilos -- ja deu para notar que crocodilo e uma das riquezas animais do Northern Territory? As outras seriam o bufalo e a ema, que tambem da otimas refeicoes, dizem. O que mais impressiona nas fazendas de crocodilos nem e o tamanho, nem a velocidade com que os monstrengos se movem, mas o barulho que as mandibulas fazem quando fecham: CLOP!. Fotos dessa rapida passagem, um filme em breve, alem de fotos da ilha de Bali, o ultimo reduto hindu da maior nacao muculmana do mundo, a Indonesia, podem ser encontradas nesse album do Flickr.

Em tempo: eu nao tenho nada a ver com isso.

Escrito por Rafael | 05:39 AM | Comentários (0)

Enquanto isso

Varias semanas ausente, ainda processando tudo o que vi; do que aconteceu, o mais complicado foi digerir as sucessivas mortes de Dercy Goncalves, Dorival Caymmi e Fausto Wolff: cada um, a sua maneira, parecia destinado a nunca morrer. A primeira, por mera longevidade parecia ter deixado a morte para tras; o segundo, de tao tranquilo -- quao bonito era seu apelido, Algodao! -- dava a impressao que iria ser esquecido pela Ceifadora por estar tirando um cochilo no canto, evidentemente numa rede; o terceiro, era daquela estirpe que dava a impressao de nao so ter derrotado a morte num jogo de cartas, como ainda roubou-lhe as fichas que sobravam e virou a mesa. Dercy e Dorival morreram em paz, reconciliados entre o que eram e o que o mundo fez deles. Fausto Wolff nao teve essa sorte; permaneceu em guerra consigo mesmo ate o fim, nao se poupando momentos de rancor que manchavam extraordinaria biografia. A certo tempo, foi dos mais importantes reporteres do Brasil, capaz de juntar a agressividade necessaria para cavar uma fonte com a sensibilidade e a cultura indispensaveis para redigir o texto. Largou tudo para se agarrar a uma ideia, uma causa, mesmo que nem ele mesmo soubesse direito o que era e preferiu culpar o mundo a si mesmo. Ninguem se chama Fausto a toa.

P.S. Minha historia predileta? Quando ele, por intimidade com o dono do restaurante chique, teve acesso ao banheiro feminino do estabelecimento num dia de folga e grafitou num dos reservados: "Fausto Wolff e bom de cama". Nem dez Nizan Guanaes dariam tanto resultado...

Escrito por Rafael | 05:36 AM | Comentários (0)