« dezembro 2008 | Principal | fevereiro 2009 »

janeiro 22, 2009

Glória e decadência

Engatando na reta final de Meanwhile, nota-se a terrível ironia da carreira de Milton Caniff: o ponto mais alto de sua carreira corresponde exatamente ao início de seu declínio. Em 1946, Caniff deixaria a agência para a qual fazia Terry e os Piratas pela proposta de criar uma tira nova, ainda de aventura, sobre a qual manteria direitos autorais e poder de veto, Steve Canyon. Nem fora pioneiro nisso; Roy Crane tinha passado pelo mesmo com Capitão César e Buzz Sawyer e Will Eisner garantira os direitos de The Spirit, anos antes. Mas Caniff estava na crista da onda, era o quadrinhista mais popular do país, porta-voz não oficial da Aeronáutica (na qual seu personagem alistara-se) e tinha trânsito franco entre o povo de Hollywood. Por que, então, entraria em declínio?

Dois golpes alterariam de vez a posição dos quadrinhos perante a opinião pública: a chegada da televisão e a campanha moralista contra os gibis de terror e crime empreendida pelo psiquiatra Frederic Wertham. O segundo respingaria em toda a indústria de quadrinhos, não somente nos gibis, provando que, se a defesa adotada perante o comitê de investigação do Senado parecia estratégica ao tentar separar tiras de revistas, na prática todo mundo acabou tendo que se dobrar às decisões dos senadores. O primeiro foi responsável por alterar todo o equilíbrio dinâmico dos meios de comunicação, ao diminuir o número de jornais locais e prover alternativas de entretenimento ao que era oferecido nos jornais. Se repórteres ganharam imediatamente mais uma opção de emprego, tiras de aventura se viram em perigo ao perderem leitores, espaço físico (comprometendo a qualidade da arte e dos diálogos, já que há um limite na redução das letras e desenhos) e prestígio. E Milton Caniff era autor de uma tira de aventura.

Como se isso tudo fosse pouco, Caniff ainda teve que se ver às voltas com um problema até então impensável:a queda de popularidade de uma tira sobre um herói das forças armadas em tempo de guerra do Vietnã, quando a imagem das forças militares foi seriamente comprometida. Isso depois de décadas levantando o estandarte do patriotismo e colhendo os louros respectivos, de citação no Senado a distinções especiais da Aeronáutica. Jornais cancelavam Steve Canyon aos montes, com medo que a presença de uma tira ostensivamente militar espantasse seus leitores. Sem demonstrar decadência de talento nem perda de qualidade, aos 60 anos Caniff teve que se ver com um problema de popularidade inesperado. Deve ter sido duro.

Escrito por Rafael | 01:20 PM | Comentários (0)

Lula e a percepção das HQs

Outro dia, a título de exemplificar a diminuta pujança intelectual do presidente Lula, o Pedro Sette citou um trecho de uma entrevista antiga na qual o então sindicalista conta que não tinha paciência para livros, mas gostava de gibis. Pujança intelectual à parte, gentilmente escrevi-lhe (ao Pedro, não ao Lula) para mostrar que as histórias em quadrinhos ainda são vistas genericamente como produto cultural sem valor, e como esse tipo de comentário genérico propaga essa idéia.

Tanto quanto em qualquer outra arte de larga produtividade, há poucos pontos de excelência e muita bucha de canhão. Entretanto, nenhum dos motivos normalmente atribuídos pela ausência de respeito tem efeito. A arte é muito moderna, não teve tempo para estabelecer um cânon? O cinema também não. Produz-se mais porcaria do que grandes obras? A literatura também. No fundo, o que houve foi uma extraordinária campanha moralista na esteira da guerra fria, que teve como principal vítima colateral as histórias em quadrinhos, bodes expiatórios da delinquência juvenil: na música popular, no cinema e na literatura, o modernismo foi assimilado & incorporado. Some-se a isso a falta de escrúpulos em brigas de inimigos de imprensa: Orlando Dantas colocando seu jornal para atacar a "corrupção da juventude" promovida por seu rival Roberto Marinho, Carlos Lacerda detonando geral, e em duas gerações a opinião pública terá rotulado como irrelevante o que, décadas antes, consumia avidamente.

Escrito por Rafael | 12:54 PM | Comentários (0)

janeiro 19, 2009

Momento misoginia

Homens mais ricos dão mais prazer às mulheres, afirma pesquisa.

Escrito por Rafael | 07:32 PM | Comentários (0)

Estudo de caso: Milton Caniff

Quando começou a desenhar Terry e os Piratas, Milton Caniff usava um estilo convencional de desenho, no qual a linha traçava o contorno das figuras e o preto era tão somente uma cor -- exatamente como a camisa do Popeye era preta, ou o Krazy Kat era um gato preto:


terry1.jpg


terry2.jpg

Felizmente Caniff tinha por companheiro de estúdio Noel Sickles, que, na mesma época, já experimentava com o uso de sombras para simplificar o desenho (ao ocultar detalhes desnescessários) e ressaltar uma eventual colorização. Milton Caniff sacou as possibilidades daquela técnica, do ponto de vista artístico e imaginou como poderia ser usado para agilizar o trabalho de desenhar, e começou a adotá-lo para ressaltar volumes, criar climas emocionais com a iluminação:

Terry3.png


Terry4.png

Até que chegou a uma síntese pessoal & própria, que se transformou em seu estilo, cheio de pinceladas fortes, contornando problemas de desenho com sombras, flertando com silhuetas:

terry5.jpg

Chegando a resultados brilhantes, que lhe valeram a alcunha de Rembrandt dos quadrinhos:

Terry6.jpg

Escrito por Rafael | 06:46 PM | Comentários (0)

janeiro 14, 2009

Premium

É sempre recompensador quando a gente descobre uma ressonância inesperada. A última foi uma nota do Cardoso, aquele, elegendo este à distinção de Blog Premium, grifos meus:

Apesar do que o seu nome sugere, Na Cara do Gol não é um blog sobre futebol - aliás, na maior parte do tempo não passa nem perto disso.

Abastecido por Rafael Lima desde o longíquo agosto de 2002 (o que o torna um dos mais antigos blogs do país), Na Cara do Gol nada mais é do que uma lista interminável de links, acontecimentos, imagens, artigos, resenhas, crônicas e comentários produzidos enquanto o seu autor está conectado. Em outras palavras, a definição EXATA do que é um weblog.

Sem frescuras, afetações ou MIRABOLÂNCIAS mil, o conteúdo de Na Cara do Gol se caracteriza pela inconsistência nos temas e pela variedade descontrolada de assuntos (muito embora uma certa fixação pela Heidi Klum e pela imprensa brasileira das décadas de 60-70 possa ser percebida por um leitor mais atento).

Só para implicar um pouco, conto uma história de futebol. Estava eu passeando pela praia de Chaweng, na noite em que desembarquei em Ko Samui, quando fui parado por um dos garçons de um dos muitos bares à beira da praia -- à beira não, dentro da praia -- para dar um confere no escudo que adornava minha camisa, não outra que não o sagrado manto rubro-negro. Dizia o asiático, espontaneamente:

-- Ei, eu conheço essa camiseta! Flamengo, não é? Você é do Brasil?

Conversando com ele, descobri que tratava-se de um tailandês legítimo, o que somente comprova a tese da religião universal. David sabe.

Escrito por Rafael | 01:22 PM | Comentários (0)

janeiro 13, 2009

A inveja de seus pares

Desenhar uma moça bonita é uma das tarefas mais difícieis de um desenhista. Uma moça bonita num desenho de humor é um estereótipo da beleza feminina, simbolizando em um único desenho toda a sedução do sexo. Mais do que uma mera abstração, a garota bonita do desenho de humor tem que ser o epítome da fulcritude feminina, um sonho executado em pena e tinta, um epigrama gráfico. Uma linha fora de lugar e o sonho se estilhaça, o encanto quebra. Uma linha mal colocada distorce a proporção, desacraliza o ideal na imagem e diminui o atração e o encanto do desenho. Em contraste, desenhar um homem bonito não apresenta tal desafio de exatidão: uma linha desviada no semblante de mesmo o mais belo macho pode adicionar caráter, melhorando o retrato. O desenhista que dominou o traçado de mulheres encantadoras é a inveja de seus pares.

R.C.Harvey em Meanwhile, página 77.

Escrito por Rafael | 04:20 PM | Comentários (0)

janeiro 10, 2009

Enquanto isso

Até agora não senti desânimo na leitura, leitura não, travessia das mil páginas de Meanwhile, a mastodôntica biografia de Milton Caniff recém-publicada. Biografia autorizada com escritor pré-nomeado, o que por si só diz um monte, mas isso está claro desde a primeira linha da apresentação, onde se estabelece que aquele livro é um trabalho de admiração. Mesmo assim R.C.Harvey marca vários gols, por exemplo ao estabelecer que o estilo chiaroscuro que notabilizou Caniff fora, na verdade, copiado de Noel Sickles, que o desenvolvera na prancheta ao lado, para a tira Scorchy Smith -- Harvey reconhece até que Sickles era melhor desenhista do que Caniff -- ou quando gasta uma capítulo inteiro para explicar que todo o conceito e o nome da tira Terry e os Piratas foram criados por Joseph Patterson, editor do jornal, encomendada a Milton Caniff.

Nem por isso deixa de ser envolvente saber que, nos primeiros tempos como cartunista, dormia na sala do apartamento dele em Nova Iorque um ex-colega de colégio, James Reston. O nome não lhe soa estranho? Sim, é o mesmo James Reston de The Kingdom and the Power, principal articulista político do The New York Times, em iniciozinho de carreira. Caniff produzindo ilustrações para uma agência e enturmando-se com outro cartunista, Alfred Caplin, um tipo misantrópico de uma perna só que não muito tempo depois ficaria extraordinariamente famoso ao criar uma tira com caipiras e ao adotar o pseudônimo Al Capp. Caniff se tornando um frequentador do restaurant The Palm, cujas paredes foram tomadas de assalto pelos ilustradores que lá frequentavam e adornadas com desenhos de seus personagens principais; paredes onde o brinde entre Pat Ryan (de Terry e os Piratas) e o Príncipe Valente testemunha a mútua admiração entre Milton Caniff e Hal Foster. Tudo isso bem antes do Super-Homem, de Will Eisner, de Peanuts, do Capitão América.

E ainda nem cheguei na metade.

Escrito por Rafael | 10:26 AM | Comentários (0)

janeiro 07, 2009

Embasbacante

Se você tem alguma dúvida que o Rio de Janeiro do começo do século XX era a cidade mais bonita do mundo, dê um pulo no Paço Imperial e confira as plantas dos projetos paisagísticos de Roberto Burle Marx para o Parque do Flamengo, o claçadão de Copacabana e os jardins do prédio do Ministério da Educação e Saúde (entre outras) para se convencer do contrário.

A exposição é a terceira e a última de uma série focada no modernismo brasileiro, que começou com Lúcio Costa em 2002, seguiu com Oscar Niemeyer em 2005 e agora se encerra. A mostra de Lúcio Costa me deixou tão impressionado que fiz dela assunto de uma coluna. Esqueça as tapeçarias, azulejos e quadros do primeiro andar: vá, sem pudores, direto para a seção de paisagismo, no segundo andar do Paço. Burle Marx fez o projeto de paisagismo da extensão da Avenida Atlântica, do Parque do Flamengo, do Parque do Ibirapuera, da Pampulha e, cuíca, dos jardins das Petronas Twins Towers, em Kuala Lumpur. Ha! Essa eu vou contar pros meus amigos malaios.

Acho que foi o Bernardão quem escreveu sobre a utopia que seria o aterro do Flamengo funcionando exatamente como no projeto de Burle Marx, com um aeroporto, dois restaurantes, uma marina e várias áreas de lazer voltadas para a enseada de Botafogo. Foi.

Escrito por Rafael | 06:38 PM | Comentários (0)

Porque não me ufano

A melhor resposta dada por Larry Rother na entrevista para a Playboy saiu de uma das muitas vãs tentativas de encurralá-lo no clichê do gringo em turismo, a saber, quando lhe questionaram sobre a preferência por mulatas. Larry não só recusou o lugar comum como ainda deu um drible no entrevistador, cito de memória (li no barbeiro):

Muito mais forte do que o gosto de gringos por mulatas é a obsessão dos brasileiros por loiras. Nunca entendi o porquê de tanta fama em torno da Feiticeira. Fora do Brasil, mulheres como a Xuxa ou Adriane Galisteu nunca fariam o mesmo sucesso. Prefiro morenas, como a Ivete Sangalo.

Touché! Uma estatística das capas de revista do mês iria comprovar. Uma questão a ser considerada, num país que arrota uma suposta democracia racial.

Tem mais. Nicolas Sarkozy e Carla Bruni estiveram por aqui na época do Natal, participando de eventos e curtindo o (pouco) sol. Enquanto se entretia em reuniões com o efelentífimo, levaram a ex-modelo para visitar obras de caridade, favelas, enfim, esse tipo de programa típico de primeira-dama em país de terceiro mundo. Num deles, foi ciceroneada por uma atriz local; no dia seguinte, previsíveis fotos adornavam as primeiras páginas de toooodos os jornais da cidade.

Em qualquer lugar do mundo, qual seria a legenda? Alguma variação de "Carla Bruni visita obras sociais e encanta a todos com sua beleza e simpatia". Qual foi a legenda do Globo?

Camila Pitanga ofusca a beleza de Carla Bruni em visita a obras sociais....

Um país com sérios problemas de auto-estima. Haja Copa do Mundo...

Escrito por Rafael | 06:19 PM | Comentários (0)